Peniche é uma terra porreira. Fuma-se na maioria dos sítios, o mar é a perder de vista, o peixe serve-se fresco. Peniche só tem um problema: o Forte.O Forte é como quase todos os Fortes. Aproado num promontório, expõe-se à força dos elementos em cenário qual Boca do Inferno qual quê e exsuda aquela patine histórica que celebra as potencialidades turísticas na razão directa da antiguidade.
Há muitos anos que não o visitava. Como já aqui escrevi, em criança fazia-o senão quinzenalmente pelo menos uma vez por mês. Partíamos, eu e a minha mãe, de manhã cedo de camioneta, dormíamos numa pensão de que me restam as imagens imprecisas de um quarto sombrio e de uma mulher de luto que falava connosco em surdina, e regressávamos no dia seguinte. No entretanto, visitávamos o meu pai, preso em Peniche. Eu odiava o passeio porque, invariavelmente, vomitava na camioneta.
Voltei lá este fim-de-semana. Já sabia do projecto da Câmara para o converter em Pousada, enaltecida a atractividade da fortaleza por via dos tipos que lá viveram embalados pelas ondas.
Logo à entrada, passado o fosso e a loja de souvenirs de mau agouro, uma placa com três indicações: a última assinala uma ESCOLA DE DANÇA!!! Estava fechada.
À direita, no pátio de um dos edifícios da antiga prisão, que acolhe agora um pífio CENTRO DE ARTES!!! (deserto), exibe-se uma embarcação de pesca com os seguintes dizeres (cito de memória mas juro que é pura verdade): “Aqui neste local ficava o recreio dos presos que eram vigiados pelo guarda desta guarita, servindo hoje este pátio para albergar outro grande resistente… e segue-se informação sobre o barco”!!!!
No pátio de um dos outros edifícios-prisão, tropeçaria mais tarde numa cisterna descrita assim (sempre de memória): “Esta cisterna é muito boa, tem imensa água, os presos recolhiam-na de corda e balde e em Mil Novecentos e tal (não fixei) enquanto na vila a água era escassa e barrenta aqui nunca faltou e sempre de óptima qualidade”!!!
Nesse momento imaginei a inveja que se deve ter gerado na vila, os habitantes em procissão até ao Forte pedindo para serem encarcerados...
Na zona das solitárias, no topo da edificação, um placard informa que dali fugiu Dias Lourenço atirando-se sozinho ao mar. Como o placard é discretíssimo e a maioria das pessoas no local parece ter vindo para apreciar a vista (de facto, magnífica), não estranhei que um casal de jovens se desse a arroubos carnais no interior de uma das celas apesar da falta de conforto e do excesso de humidade.
No lado oposto, a um canto, ocupando uma das Alas destinadas aos presos, lá fica aquilo a que chamam Museu. Fui espreitar.
A funcionária que vende bilhetes a dois euros e meio explicava então a um grupo de visitantes que a cisterna era muito fresquinha e agradável no Verão mas que agora era melhor não descerem porque… Deixei de a ouvir e teletransportei-me por instantes para Birkenau onde alguém me aconselhava no meio do abrasador descampado que fosse descansar à sombra dos restos do forno crematório.
De volta a Peniche, encontro-me já dentro do “Museu”. Se a memória não me falha, são três andares. Até chegar ao último, passei por uma exposição de malacologia (como estamos sempre a aprender aprendi que é assim que se chama ao estudo das conchas…), arqueologia marítima (num recanto esconso cheguei a assustar-me com uma figura em tamanho natural vestindo um escafandro retirado directamente das “Vinte Mil Léguas Submarinas”, incluindo o pó), rendas de bilros, cama e restante mobiliário doado pelo arquitecto Paulino Montez (não, não se trata de um preso político mas de um ilustre da terra…), mais umas quantas aguarelas domingueiras assinadas pela respectiva esposa, o tal pátio/recreio com a cisterna e assim que me recorde de repente mais nada.
Poupo-vos ao cheiro a mofo e a merda. Este exala sobretudo no terceiro andar onde, finalmente, se percebe que pisamos uma antiga prisão política.
Um corredor com umas cinco ou seis celas aloja uma exposição a que simpaticamente chamarei pindérica, com destaque para uma porta fechada que nos convidam a espreitar e onde se exibe, diz-nos o papel lá colado, uma montagem cénica de uma cena de tortura. Adversa ao masoquismo, hesitei. Do outro lado, um teatrinho minúsculo com umas figurinhas pequeninas tipo presépio que não retive; por todo o lado, o nome de Álvaro Cunhal (com uma sala dedicada aos seus desenhos na prisão) e transcrições das Edições Avante ou similar. Esta parte também me lembrou a minha primeira ida a Auschwitz com a guia a sublinhar de cinco em cinco minutos os mártires cristãos do Campo…
Saí em estado de choque. Pedi o livro de visitas (que a custo consigo obter porque a funcionária hesita em passar-me para a mão o caderno de capa dura a que chama pomposamente Livro de Honra) e deixei escrito o que pensava.
Mais ou menos: pátria "cabra" e "badalhoca"que trata assim a memória. "Esgoto atlântico" que mereceu o Salazar, merece Sócrates, merece Passos e o mais que venha a seguir.
Que uma vaga a arrase ou, pelo menos, que alguém chegue ali a Peniche e escaqueire a porra das conchas, a cama do arquitecto mais o rendilhado dos bilros.
Basicamente disse-lhes isto: vão-se foder e pardon my french. Acrescentei: dejecto por dejecto, mais valia construírem a Pousada e depois assinei com o meu nome em nome do meu pai e de outros tantos, incluindo, apesar de tudo, o Cunhal e o guarda José Alves.