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11/01/09

Redacção distribuída pela DREN onde se prova que Margarida Moreira escreve mal comàmerda e agora que me processe

O que se segue foi catrapiscado aqui e gamado integralmente daqui.
Trata-se de um documento oficial da Direcção Regional de Educação do Norte assinado por Margarida Moreira.
Quem é Margarida Moreira? Perguntais bem. Poucos saberiam sequer da sua existência, até há uns tempos ter saído descabelada em defesa do bom nome do primeiro-ministro, instaurando um processo disciplinar a um professor que terá dito em privado aquilo que muita gente no Metro diz em público. O quê? Não sabemos. O processo foi arquivado e Moreira reconduzida no cargo (a ordem dos factores é ao contrário). Fez-se ouvir de novo, mais recentemente, quando, a propósito das criancinhas a quem Sócrates foi oferecer o Magalhães e depois ficaram sem ele, explicou que o dá e tira tratara-se de uma opção pedagógica.
Pedagogias à parte, a carta assinada por esta senhora está cheia de erros. Patenteia (uma forma verbal que agradaria certamente a Margarida Moreira...), à falta de ideias, aquela vacuidade empolada de quem pensa que usar bem a língua é encher as frases de escolhos. E, citando-a, sem mais qualquer delonga, vamos à redacção.
A vermelho as asneiras, a itálico os comentários.

Ex.mo(a) Senhor(a)


Director(a) / Presidente do Conselho Executivo


Como é do conhecimento de todos, têm vindo a ser entregues nas escolas do Norte, [olá!!! que raio de vírgula é esta?] cerca de 4 000 Magalhães/dia por parte de empresas distribuidoras e da própria Direcção Regional de Educação do Norte [suponho que o simples "por" tenha parecido demasiado vulgar à escrevente]
A distribuição continua ao mesmo ritmo e por isso gostaria de recordar as indicações que anteriormente já enunciei: [agora perdi-me: se tudo continua igual, qual é o "por isso"? Ou quereria a senhora dizer que "como o ritmo da distribuição não vai abrandar..."]
1. Embora os computadores entregues não correspondam à totalidade da encomenda, tal só significa que haverá novas distribuições; [tal a obscuridade da construção frásica que arrisco que se pretenderia chamar a atenção para o seguinte: embora (conjunção, sinónimo de "apesar de") blá-blá-blá..., as encomendas não se irão embora (advérbio, sinónimo de "dar de frosques")]
2. Os computadores recebidos devem ser enviados pela escola para casa, no próprio dia de entrega, sem mais qualquer delonga; [aqui a senhora delonga-se um bocado sem necessidade, visto que já tinha dito que a entrega devia ser imedita]
3. Em Janeiro, deverá ser marcado um dia em que as crianças devem trazer os Magalhães, para iniciar o trabalho casa-escola. [neste ponto terei de assumir a minha ignorância: no meu tempo só havia trabalhos de casa (e sem hífen)]
4. O pagamento dos Magalhães, nos casos em que a isso os pais sejam obrigados, estão a receber informação por sms devendo, em todas, constar a entidade 11023; [tanta oração subordinada é o que dá. Põe-se "o pagamento dos Magalhães" a receber sms, esquecida uma regra básica: keep it simple, stupid!]
5. Caso o número de computadores de entrega, [mais um exemplo de pomposidade desastrosa: onde está "de" devia estar "da"; provavelmente a escrevente julga que isto é como nos nomes de família em que é mais fino ser "de qualquer coisa" do que "da qualquer coisa"...] não corresponda com o número [ah, as preposições! "corresponder a" e não "corresponder com"] presente na guia de remessa, deve o facto ser mencionado directamente nesta, referindo o número total recebido.Tal facto não impede que, de imediato, se recebam os computadores apresentados; [uma mensagem cifrada não diria com mais clareza; mas onde se lê se recebam os computadores deverá ler-se se receba os computadores: a concordância do verbo é com o sujeito e não com o complemento (neste caso, o sujeito é indefinido: "alguém" - receba] *
6. O Ministério da Educação tem perfeita consciência das dificuldades que este tipo de acção de massas acarreta às escolas [ocorreu-me agora, considerando a terminologia: também terá a escrevente um perigoso passado esquerdista?] e, embora esta situação lhe escape [também a mim me escapa isto: não é o Ministério quem comanda a "acção de massas"? E já agora: falta uma vírgula após "escape"] entende que o mais importante é a recepção dos Magalhães, como mais valia almejada pelos nossos alunos [aqui tenho de ir por etapas: 1. mais-valia tem hífen; 2. almejada - ALMEJADA? e repito, ALMEJADA?!!!; 3. e nossos porquê? A Moreira dá aulas? Ou trata-se de um "nossos" majestático, próprio da real iliteracia da dita cuja?], e por isso agradece toda a colaboração e compreensão dos orgãos [órgãos com acento, s.f.f]** de gestão, dos professores e dos serviços administrativos e auxiliares.
7. Quando um encarregado de educação recebe sms e é do escalão A, deve ser reportado [pergunto-me: que mal lhe terão feito os encarregados de educação do escalão A...?] e naturalmente o computador entregue ao aluno; [dado o advérbio de modo não estar entre vírgulas, leia-se, com naturalidade, talvez assobiando para o ar...]
8. Outras situações anómalas devem ser sempre imediatamente reportadas [outra vez?!!! E não há quem a deporte...] para o nosso mail dsgm@dren.min-edu.pt;
8. Recorda-se ainda que as escolas que ainda não procederam à encomenda do Magalhães [o que é com certeza sinal de muito mau procedimento!; e que tal: fizeram a encomenda - demasiado bolónio, não?] o devem fazer com celeridade. [e porque não sem mais qualquer delonga?].
Com os melhores cumprimentos,
A Directora Regional de Educação do Norte
Margarida Moreira
*Obrigada João e ver comentário de Ana Soares na caixa de comentários deste post
** Obrigada Graça

19/11/08

Automedicação

Portugal ultrapassa – na velocidade dos disparates – o gigantesco acelerador de partículas sediado na Confederação Helvética. Se Eça e Ramalho fossem vivos, a biblioteca de Pacheco Pereira (mesmo somada à do Graça Moura) seria insuficiente para conter os números d' As Farpas.
Ainda não refeitos do encarniçamento da ministra da educação e ultrapassada a distracção de Constâncio, levamos com o dá e tira do «Magalhães» às crianças, ouvimos Ferreira Leite tentar ter piada em público e acabamos a confirmar que o iluminado Teixeira dos Santos é o pior ministro das finanças da UE.
Meus amigos, eu ando doente e confesso-vos que isto não ajuda nada! Vale-me a leitura, em jeito de anti-histamínico.

«I.
Myra atravessou os carris desconjuntados em direcção ao mar.
Cresciam ervas e tojo e havia chorões apodrecidos nas juntas e as traves e ferros estavam negros das marés vivas sujas de crude. Corria contra o vento, procurando saltar as arestas de cascalho e os cacos de vidro, pulando alto a entreter o frio e o seu desgosto.
O céu estava baixo e muito escuro. Havia estrias roxas e vermelhas na distância mais clareada do horizonte e pareciam, céu e mar, uma única onda a levantar-se para cobrir a terra. Myra tirou os sapatos e as meias rotas e ficou parada a ver aquele assombro. Se corresse por ali adentro ninguém daria com ela nunca mais, nem no país dali, nem em nenhum outro.
Assoou-se à bainha da saia e limpou o resto da cara à manga do casaco esburacado que a mãe lhe fazia usar em casa e que dizia que viera de lá. Myra lembrou-se da neve em cima dos telhados de ouro e loiça. E os blinis que não tinham nome nesta terra. Ao princípio nada tinha nome. E a avó, com ela pela mão à porta das igrejas, o cheiro de mil velas, a estender-lhe a mão, a esconder-lhe a mão. Tanto medo. […]»
Maria Velho da Costa, Myra, 2008, Assírio & Alvim (o começo...)

08/11/08

Da série já comecámos a votar nas plantas: «Magalhães» ou do que acontece à política quando entregue a vendedores de banha da cobra

Fico indignado com a estória do «Magalhães» ser «totalmente concebido e produzido em Portugal», como dizia o nosso Primeiro Ministro (PM) na recente Cimeira Ibero-Americana. Sinceramente não percebo esta atitude. Não faz nenhum sentido. Não promove Portugal, não ajuda na atitude que temos de adoptar para melhorar a competitividade e a produtividade e não resolve nada relativo à nossa imagem externa.
O «Magalhães» é um CLASSMATE da Intel. Basta ver o site, na secção de vídeos, para ver a versão da Tailândia, Nigéria e Brasil.
Talvez o «Magalhães» seja um bom negócio,
algo que até justificasse o envolvimento do governo para trazer a produção para Portugal. Porque não? Talvez isso seja interessante, não sei se é. Poderia envolver a indústria de moldes e dos plásticos, anunciando uma parceria com a Intel para co-produzir um computador para o mercado estudantil. E até poderia envolver a indústria nacional do software, para produzir conteúdos em português, etc. E aí o PM dizia que, no quadro da política governativa para a educação, queriam introduzir um PC portátil no 1º ciclo e decidiram fazer uma parceria com a Intel, que envolvia a indústria nacional na produção da caixa e assim conseguiria um produto que interessava ao país e até poderia ser exportado. Ok! Discordo da estória do portátil no 1º ciclo (ver «Livros e Magalhães»). Mas é o governo que tem de governar, foi eleito para isso. É uma opção que terão de justificar, mas é legítimo que a tomem.
Mas para quê inventar e esconder a verdade? De que vale? Para que serve? Ou melhor, a quem serve?
O «Magalhães» é uma cópia. O vídeo seguinte mostra a evolução do ClassMate, onde se pode ver a versão que agora o nosso PM diz ser «totalmente concebida em Portugal», e que decidiram chamar «Magalhães»:



Também se faz o crash-test neste vídeo. Mas no «Magalhães», segundo o nosso PM, o crash-test foi feito pelo «Presidente Chavez».

Para completar vejam esta apresentação PowerPoint feita pelo responsável do Plano Tecnológico numa conferência organizada pela União Europeia: «Portugal as a living LAB», diz ele..., onde o «Magalhães» já não é totalmente concebido em Portugal, mas antes «Made in Portugal based on the Intel ClassMate platform». Ok, está mais próximo da verdade, mas também era o que faltava dizer aquilo do «totalmente concebido em Portugal» numa conferência europeia (o que diz tudo sobre o respeito que o PM demonstrou pelos nossos parceiros ibero-americanos). Mas isso não é um laboratório, senhor coordenador. É uma fábrica onde se monta uma coisa que já existia: não está errado, mas é o que é. Portanto, queria dizer: Portugal as a living factory (chinese like?)...
Irritam-me estas coisas. Portugal tem coisas muito interessantes, que resultam de projectos em consórcio entre instituições de I&D e empresas, ou de I&D feito em empresas, ou de spin-offs universitárias, etc. Coisas relevantes, que mostram a nossa capacidade de inovar e ter sucesso. É nisso que tem de ser colocado o nosso esforço de promoção, para que mais empresas apostem em I&D, para que apareçam mais empresas resultantes de I&D feito em Universidades e centros de investigação, para que o país surja de uma vez por todas como um país que é capaz de se reinventar e ter sucesso com base justamente na capacidade dos seus cidadãos. Em colaboração (em rede) com o mundo, porque nada se faz isolado.
Como exemplo de algo verdadeiramente concebido em Portugal, com inteligência portuguesa, que dá cartas no competitivo mundo das comunicações para PME, vejam a EdgeBox da Critical-Links:



A Critical Links é uma spin-off da Critical Software, uma empresa portuguesa, nascida em Coimbra, e hoje um player mundial em várias áreas onde o conhecimento e a capacidade de inovação são a mais preciosa vantagem competitiva no mercado global.
Um produto que «está à frente», como diz João Carreira (CEO da Critical-Links e um dos co-fundadores da Critical-Software), e que a própria Intel (que concebeu o Classmate, denominado «Magalhães» em Portugal) classificou como «história de sucesso».
A EdgeBox é só um exemplo. Podia falar de centenas de empresas e produtos, esses sim «concebidos em Portugal» para o mundo.
Portugal tem de apostar na indústria baseada no conhecimento, na capacidade de adicionar valor aos produtos que aqui fazemos, na capacidade de criar novos produtos, na capacidade de gerir melhor, organizar melhor... São esses bons exemplos que devemos promover. Para que se multipliquem. Os trabalhadores portugueses quando colocados em ambientes mais organizados, produzem mais e são elogiados. É necessário que o façam também em Portugal. Só assim seremos competitivos e seremos capazes da revolução tranquila que constitui a aposta na inteligência.
É nisso que temos de colocar o nosso foco. Eu diria que o nosso futuro depende disso.
Post de J. Norberto Pires, professor de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra e CEO da Coimbra Inovação, gamado daqui (os sublinhados são meus).

03/11/08

A propósito da excelência dos nossos políticos: em Portugal já começámos a votar nas plantas

1. O líder do PS e primeiro-ministro José Sócrates durante uma sessão de demonstração da Bimby ― perdão, Magalhães ― em San Salvador: «Os meus assessores usam diariamente o Magalhães e não precisam de mais nada».
2. A líder do PSD e, presume-se, candidata a primeiro-ministro Manuela Ferreira Leite sobre as obras públicas e o combate ao desemprego: «(...) de Cabo Verde [e] da Ucrânia, isso ajudam. Ao desemprego de Portugal, duvido»
3. O humorista Lewis Black sobre as qualidades evolutivas dos políticos: «In my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants»
Ou seja, sou mesmo eu.

26/09/08

Voltando à vaca fria: porque não tenho nada contra computadores mas tenho tudo contra a estupidez e a propaganda

Como ainda não está tudo parvo, há quem se informe. Fui parar a esta notícia via João Lisboa do blogue Provas de Contacto, que pode ser lida na íntegra aqui. Inclui a conclusão de um relatório do ano passado que concluiu isto:
LAST MONTH (Abril de 2007), THE UNITED STATES DEPARTMENT OF EDUCATION RELEASED A STUDY SHOWING NO DIFFERENCE IN ACADEMIC ACHIEVEMENT BETWEEN STUDENTS WHO USED EDUCATIONAL SOFTWARE PROGRAMS FOR MATH AND READING AND THOSE WHO DID NOT

Com o «projecto Magalhães», a INTEL, perdão, Portugal passou do «orgulhosamente sós» ao «orgulhosamente sós no comando da linha da frente».
E, vá-se lá saber porquê, esta histeria salvífica faz-me lembrar aquela coisa da «gramática com árvores» (como os alunos sabiamente apelidavam a gramática generativa), cuja mais-valia em relação aos tradicionais sujeito, predicado e complemento directo, e outra nomenclatura passadista, foi pôr as crianças a engasgarem-se com palavrões como «sintagma preposicional», e a deixarem de saber escrever frases com princípio, meio e fim.

25/09/08

Porque há coisas que me irritam: o tal de Magalhães que não tem culpa nenhuma

Num país sério – mas também dou de barato que tal coisa não exista – o «Magalhães» seria motivo de debate nacional.
Um debate que não se ficaria pela pacóvia questão de saber se o «Magalhães» é ou não é português [o que é certo é que o outro, o original, fez a célebre viagem de circum-navegação ao serviço do rei de Espanha sabendo de antemão que o mundo era redondo e não nasceu em Sabrosa (segundo investigação levada a cabo e publicada em livro pelo francês Michel Chandeigne)…].
Eu, pessoalmente, gostaria de saber outras coisas. Por exemplo:

1. Porque é que a parceria do governo é feita com a INTEL, multinacional que chegou a ser acusada por Nicholas Negroponte, o criador da iniciativa One Laptop Per Child (OLPC), de concorrência desleal? (Houve em tempos uma parceria entre Negroponte e a INTEL, mas a coisa não durou muito…)



2. Como é que os computadores portáteis vão ser usados nas salas de aulas pelos alunos mais novos e de que modo irão favorecer a sua aprendizagem?
Não me entendam mal. Nada tenho contra o uso da tecnologia. Mas quando estudos em neurologia, como os levados a cabo, por exemplo, pelo Professor Alexandre Castro Caldas, vêm em defesa da memorização da tabuada considerando-a indispensável ao desenvolvimento cognitivo, a pergunta anterior parece-me, no mínimo, legítima.
Estas e outras coisas é que eu gostava de ver discutidas. Para a propaganda tecnocrática, socrática ou outra qualquer, já dei.
Sócrates a vender «Magalhães»: há demonstradores da Bimby menos chatos