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12/06/22

A «Grande Onda de Kanagawa» de Hokusai ou de como existem mesmo coincidências (e das boas!)

Acho que foi Montesquieu quem disse que os Homens se parecem mais com a sua época do que com os seus progenitores, embora também possa estar a inventar...

Vem isto a propósito de a minha última crónica publicada no Público/ Ípsilon («Como Aprender a Deixar de se Preocupar e Amar a Bomba») começar com uma referência à «Grande Onda de Kanagawa» de Hokusai e ter hoje deparado com um texto do historiador António Araújo no Expresso, «Uma Grande Onda» que, embora bastante diferente do meu, chega basicamente à mesma conclusão: «A sua “A Grande Onda de Kanagawa” evoca o desastre iminente, uma catástrofe prestes a acontecer, sendo, pois, metáfora perfeita deste tempo de guerra num planeta ardente.»

Eu sei que a vaidade é o pecado capital, mas senti-me bastante reconfortada. 

06/06/22

E AGORA PARA ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE OU TALVEZ NÃO: «A nostalgia, ao contrário da memória, não tem a ver com o passado, mas com o presente (e com a incerteza do futuro)»

António Araújo a começar pelo País de Gales, a passar pelos alfarrabistas e as memórias de Tróia e a acabar na ausência de futuro em/para Portugal. 

Há dias, o Jorge Nunes, da Livraria Nunes, ao n.º 5-A da Rua de São Domingos de Benfica (sim, visitem-na, sff), trouxe no catálogo um livrinho deslumbrante, que me despertou de imediato o fervor comprador. Desde logo por ser obra de simplicidade enternecedora, sem pretensões nem jactâncias de espécie alguma. Chama-se Quando a Tróia era do Povo e foi feita pelo "colectivo do 9.º ano da Escola Secundária D. João II - Setúbal". (...)

Aquilo que aconteceu ao povo de Setúbal, expulso da Tróia em nome da "modernidade", é o que hoje sucede aos nossos jovens, privados da terra que é sua, em brutal e desigual competição num mercado imobiliário levado ao rubro por ricos reformados brasileiros ou expats franceses com tratamento fiscal privilegiado, pelos milionários dos vistos gold ou por fundos financeiros obscuros, sem nome e sem rosto. Nos centros de Lisboa e Porto as casas escasseiam, alcançam preços astronómicos, fruto da especulação imobiliária e, como se não bastasse, da enorme pressão do turismo, um sector em que apostamos cegamente (no segmento de massas e pé descalço), à falta de indústria e serviços de qualidade, esses, sim, capazes de qualificar a mão-de-obra e de gerar verdadeira e perene riqueza.
Nos 50 anos do 25 de Abril, chegámos, assim, a um incrível paradoxo: vivemos hoje muito melhor do que no passado, com mais liberdade e justiça, com abundância de tudo, mas os jovens têm agora menos razões de esperança no futuro do que há cinco décadas. Quanto ao presente, muito de tudo; quanto ao futuro, nada de nada - e a certeza triste, inexorável, de que os nossos filhos terão, inquestionavelmente, uma existência mais difícil do que a nossa.
De resto, o país no seu todo está hoje a ser vendido aos bocados, e a um ritmo de que nem sequer nos apercebemos: empresas e negócios, as melhores casas e propriedades, as melhores terras, tudo à venda. Com a banca na mão dos espanhóis, a energia dos chineses, a indústria de pantanas, que resta de ti, Portugal?
O que hoje se passa é o resultado de uma tempestade perfeita, que os cidadãos não alcançam, que os governos não travam. De um lado, uma colossal dívida privada, das famílias e das empresas (um problema de que pouco se fala, concentrados que estamos na dívida pública); do outro, incentivos fabulosos (vistos gold, benefícios fiscais, off-shores) para que os estrangeiros nos comprem ao melhor preço, pedaço a pedaço, e que assim hipotequem o futuro dos nossos jovens. Quem vende está endividado, quem compra é fiscalmente privilegiado - haverá melhor receita para o desastre? O resultado é o que estamos vivendo, muito de tudo, nada de nada. E, de cima a baixo, um país convertido numa enorme Tróia, que foi do povo, mas já não é.»

06/02/22

A PROPÓSITO DE VERMEER, LEITURAS QUE VALEM MUITO A PENA

 «A "poesia do recolhimento" de Johannes Vermeer, como alguém lhe chamou, foi destruída pela diluição das fronteiras entre público e privado, pela apetência das celebridades em partilharem connosco os momentos íntimos dos seus quotidianos, como se nos interessasse conhecer o underwear de Ronaldo ou o petit-déjeuner de Georgina. Na peugada dos famosos e das "figuras públicas", os comuns mortais figuram-se também eles como celebridades, fazendo-se fotografar em selfies de despudorado onanismo, retratando os pratos que comem nas mesas dos restaurantes, compondo autobiografias risonhas em "histórias" do Instagram.»

O RESTO AQUI