31/12/12

Bom ano e quem puder que se pisgue já pela saída de emergência

29/12/12

Sobre livros e assuntos correlativos

António Lobo Antunes não ganhou o Nobel. A quem isso possa interessar: Philip Roth também não. 
Face a este não-acontecimento, o balanço de 2012 será morno. 
Dito isto, livros, como chapéus, há muitos. Mas um balanço, ou mesmo um singelo balancete (é o caso), implica conclusões; não basta a matéria de facto, é preciso arriscar um veredicto. 
Cá vai o meu, pessoal, embora, espero, transmissível: a língua portuguesa anda a empobrecer muito (e, neste caso, a culpa não é do AO).
Lê-se grande parte dos novos autores, e a nossa “cabeça estremece com todo o esquecimento” das palavras.
É verdade que não é Maria Velho da Costa quem quer, mas de quem na actualidade se poderá dizer: “o maestro sacode a batuta”?
E outra dúvida: o que os levará a abraçar, maioritariamente, um realismo serôdio, tecendo tramas estéreis que nada acrescentam à “biblioteca de Babel”?
Que a Sistema Solar e o Aníbal Fernandes nos sirvam de consolo!

28/12/12

Juro que não é má vontade, mas vejo-me obrigada a perguntar: este primeiro-ministro não sofrerá mesmo de uma deficiência qualquer?

É que já não lhe bastava sentar-se em mesas e deixar-nos na expectativa sobre aquilo a que os pratos se teriam habituado... Agora isto.

«Nós não somos duas pessoas, eu sou primeiro-ministro e também sou cidadão. E apesar de não utilizar o mesmo registo quando falo com a minha família ou com os meus amigos ou quando falo com os cidadãos, na minha qualidade de cidadão também, que muitas vezes uso quando falo como primeiro-ministro, isso não significa que diga coisas diferentes», afirmou Passos Coelho.
DAQUI

24/12/12

F for Fake

Que pena ter sido abandonada aquela ideia genial do Pinho, da Europe's West Coast. Dava-nos agora um jeitaço. 
Com propriedade, diríamos: "This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend".
propósito disto

Há impostores e impostores. Eu, por exemplo, prefiro este ao Relvas

Na Internet nada se perde

22/12/12

O Homem Pensa, Deus Ri

Gosto muito de Santo Agostinho. Apesar disso, só posso dar razão a Jim Hankinson quando este escreve em “O Especialista Instantâneo em Filosofia”, a propósito da chamada Idade das Trevas: “a pouca filosofia que existia na Europa sofreu uma viragem depressivamente teológica, centrando-se em disputas tais como se Deus era Uma Pessoa em Três ou Três Pessoas Numa, a natureza exacta da Substância do Espírito Santo e quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete (no caso improvável de desejarem realmente fazê-lo)”.
Séculos passados sobre a castração de Abelardo e a Querela dos Universais, deparamo-nos com a polémica sobre o burro e a vaca. Ao que parece, o Papa terá sido mal citado. Bento XVI, apesar de ter escrito que tais criaturas não constam no registo bíblico, nunca ordenou que fossem excomungadas do presépio.
Não deixa de ser curioso, contudo, o ruído à volta das declarações do chefe da Igreja católica. Jornais, televisões e redes sociais atiraram-se aos pobres animais como cães a osso, e os debates renhidos sobre a existência de Deus deram lugar a acesas discussões sobre a existência dos dois quadrúpedes.
Que nos seja permitido suspeitar que tal deriva teológica substancia um empobrecimento intelectual do mundo, a que acresce o facto de ninguém nos garantir que a veemência posta na defesa dos pobres bichos não possa igualar, em fanatismo, o vigor com que foi afirmado o Ser Supremo.
É dos livros que a fé move montanhas e tende a deixar um rasto de cadáveres. Chato mesmo, é que nada nos garante que sem fé a coisa tivesse corrido melhor, apesar de alguns estudos afiançarem que os países nórdicos (com maior % de ateus) são socialmente mais justos. E se a coisa for do clima?

20/12/12

Eu hoje acordei optimista

Num Inverno parisiense muito frio e já distante – em que as temperaturas chegaram aos -20 e eu me recusava a sair de casa mal o termómetro à janela descia abaixo dos -10 – dei por mim à porta do Centro Pompidou.
No hall decorria uma exposição-vídeo (?) dos novos projectos para o bairro empresarial de La Défense. A zona onde decorria a projecção (gratuita) encontrava-se naturalmente às escuras e eu sentei-me por ali a ver as imagens da Paris século XXI (por sinal, bem mais engraçadas em maquette do que ao vivo – com excepção, acho eu, da esquadria perfeita entre o Arco de Triunfo e o Grande Arco de la Défense). Adiante.
Não me lembro de quanto tempo durou a coisa mas, às tantas, as luzes acenderam-se, permitindo-me ver quem comigo partilhava o visionamento.
À minha volta, dormitando ao lado de garrafas de vinho meio cheias (ou meio vazias) um grupo alargado de clochards, como na altura ainda se dizia – os nouveaux pauvres inventados só mais tarde.
Saí do Pompidou (eles ficaram lá…) a achar que a sua presença naquela Meca da Cultura, borrifando-se precisamente na Cultura e abrigando-se tão-só da inclemência da Natureza, marcava a diferença civilizacional entre Paris e Lisboa.
“Em Portugal, pensei com os meus botões bem abotoados por causa do frio, nem nos jardins da Gulbenkian entravam quanto mais no Grande Auditório”.
Hoje li que um homem passou por miserável e romeno (uma desgraça nunca vem só...) numa dependência bancária e foi atendido na rua.
É verdade que das últimas vezes que fui à Gulbenkian continuei a cruzar-me, maioritariamente, com um público enfatuado e chato. Muito chato. Mas que o homem expulso do Banco tenha decidido apresentar queixa já é uma evolução.

Ricardo, sempre Ricardo...

O Monte Branco coberto de nevoeiro

Noutra versão igualmente obscura...


18/12/12

A book a day keeps the doctor away: "Os Superficiais"


O tema anda a ser falado por aí. António Damásio, por exemplo (que é citado por Nicholas Carr), referiu-se-lhe a “vol d’oiseau” em “O Livro da Consciência”: “(…) as capacidades geradas pelas multitarefas [da era digital] trazem vantagens espantosas; em contrapartida, poderá haver um custo em termos de aprendizagem associativas, consolidação de memória e emoção. Não temos ainda ideia de qual poderá ser esse custo.” 
Carr dedica ao assunto um livro inteiro, significativamente chamado: “Os Superficiais”. O resto do título define com igual clareza a sua área de estudo: “O que a Internet Está a Fazer aos Nossos Cérebros”. 
Défice de atenção e dificuldade de memorização são alguns dos pavores que assombram a educação, mesmo se, infelizmente, os responsáveis preferem distrair-se com polémicas oitocentistas. A tese de Carr é clara: as vantagens do uso da Internet não podem fazer esquecer os seus malefícios – que não são poucos: “A internet é uma tecnologia do esquecimento” (pág. 239). 
“Os Superficiais” é um passeio fascinante pelas alterações que as novas tecnologias estão a introduzir na nossa mente (e também no nosso comportamento emocional). A obra assenta em dois pilares fundamentais: na neuroplasticidade (o cérebro individual não é uma estrutura de betão e “educa-se” ao longo da vida com a experiência) e na famosa convicção de McLuhan: “O meio é a mensagem”. Entre as visões determinista e instrumentalista da tecnologia, Carr tenta uma 3ª via, mas, embora as suas conclusões não sejam apocalípticas, algum desconforto se instala no leitor quando o acaba de ler: estará a internet a embrutecer-me? 
Depois pensamos: se ele próprio conseguiu escrever 326 páginas sobre isso talvez ainda haja esperança!

Os Superficiais - O que a internet está a fazer aos nossos cérebros,  Nicholas Carr, Gradiva, 2012, trad. de Luiza Alves da Costa, 326 páginas

16/12/12

O mundo não é perfeito


Parafraseando o humorista norte-americano Lewis Black: in my lifetime, we’ve gone from Isabel do Carmo, membro das Brigadas Revolucionárias, to Isabel do Carmo, médica endocrinologista. E we’ve gone from Isabel do Carmo, médica endocrinologista, to Isabel Jonet, nutricionista ao serviço da governação. 
Declaração de interesses: nunca recusei contribuir para o Banco Alimentar. 
Dito isto, permito-me citar duas pessoas. Uma é o bispo brasileiro Hélder Câmara: “Quando alimentei os pobres chamaram-me santo, mas quando perguntei por que há gente pobre chamaram-me comunista.”; a outra é Eduardo Galeano, escritor uruguaio que teve a sua boa quota de exílios: “Eu não acredito em caridade. Eu acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal”. 
Tudo isto devia ser inútil, 51 anos depois de Buñuel ter realizado “Viridiana”, mas, e para retomar Lewis Black, considerada a progressão de políticos… qualquer dia estamos a votar nas plantas… 
Isabel Jonet não faz política profissional, é tão-só uma profissional. Uma profissional da caridade com opiniões fortes. 
Opina, por exemplo, sobre os gregos: “adoram discutir, dificilmente conseguem chegar a uma solução. Gostam tanto de debater e discutir que para eles a tomada de decisões é mais difícil que para outros povos, como os alemães, que são mais práticos e cumprem as decisões, mesmo que sejam incorrectas. Os gregos não, põem tudo em causa… E é muito difícil governar assim”. 
Podemos deduzir, então, sem risco de deturpar as suas palavras, que Isabel Jonet se veria grega se tivesse de governar a Grécia, ao invés da Alemanha onde a coisa seria fácil com um único senão: não foram os alemães que inventaram a democracia. 

12/12/12

Olha... olha...

A gripe A foi "uma mentira, um embuste criado pela Organização Mundial de Saúde, completamente dominado pelas farmacêuticas."

... e voltar a passear por aqui também é muito bom

Fotografia de Steve Schapiro roubada ao iz not me iz you

Uma das coisas boas em reabrir a Pastelaria é ter voltado a ler o Luís Januário

«... um aspecto incontornável de um sistema prisional cruel é a existência de funcionários cruéis: directores de prisão, a hierarquia, os guardas, o secretariado, enfermeiros e médicos, assistentes sociais. Uma rede de torcionários, mandantes e cúmplices. Saber que esta gente pode morar na casa em frente, comprar pão na mesma padaria, estar sentada na cadeira do lado de uma sala de cinema é, pelo menos, perturbador e deveria ser matéria de reflexão.»

Texto integral, aqui

O Acordo Ortográfico: quer que lhe faça um boneco?


«É indiscutível que a supressão deste tipo de consoantes vem facilitar a aprendizagem da grafia das palavras em que elas ocorriam. De facto, como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c? Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua;» 

Nota Explicativa do Acordo Ortográfico [4.2. c)

09/12/12

Amanhã, segunda-feira, reabrem os mercados

Fluxo de consciência

Não é a primeira vez que me acontece. Olhar para o ecrã do computador e, em vez de desatar a preenchê-lo com frases indignadas polvilhadas de ironia (culta, de preferência), perderem-se os olhos na barra de ferramentas que encima a página em branco: Base, Inserir, Esquema de página, Referências, Mailings, Rever, Ver, Pesquisar… 
Juro que não vou copiar todos os incríveis instrumentos de trabalho que o word me proporciona, apesar de uma vez ter lido e gostado de uma novela do Camilo Castelo Branco (não me lembro qual) em que este atestava várias páginas com uma extensa lista de nomes de remédios e mezinhas. O efeito era supermoderno, se não mesmo pós-moderno, embora possamos desconfiar que a inserção de tal lista tenha resultado mais de um bloqueio momentâneo – ou mesmo de uma necessidade pecuniária (pagamento à letra) – do que de uma decisão consciente de furar os cânones vigentes. A necessidade faz o ladrão, if you know what I mean…
Não deixa de ser curioso, todavia, que, com tanta coisa a acontecer, me tenha dado hoje para a falta de assunto. Se eu fosse a Vita Sackville-West, a ausência de inspiração (poética) seria facilmente substituída por algumas frases dedicadas à jardinagem e ficava o caso resolvido, embora a época se apresente mais apropriada à feitura de compotas. Quem diz compotas, diz tricot, mas pelo meio deu-se a libertação da mulher e essas tarefas foram perdendo mais-valia.
Quando eu andava no Ciclo Preparatório, que já não existe, fazíamos botinhas e casaquinhos em lã para os pobrezinhos; agora que a vida está muito mais facilitada, basta-nos entregar um pacote de arroz ou massa aos voluntários do Banco Alimentar… Inegável, porém, é que a caridade perdeu algum encanto pelo caminho. Enfim, será o preço do progresso!

Declaro solenemente que a Pastelaria reabriu as suas portas. É bar aberto.

29/10/12

Para o Manuel António Pina

Devíamos cultivar a delicadeza como quem cultiva gladíolos. Dar prioridade aos velhos, afagar o cabelo das crianças e sorrir sempre aos que se levantam cedo. Devíamos tratar dos bichos com cuidado idêntico ao que pomos na preparação do chá – e devíamos preparar o chá com a lentidão das gueixas.
Amantes corteses, caso se mostrasse absolutamente necessário, cortaríamos os
 pulsos com asseio.
Devíamos reaprender a sophia grega, subir sem fôlego ao Tibete e sentir de novo os pulmões explodir. Devíamos ser heróis, santos e Homens Azuis. Pornográficos e exemplares, como Uriel da Costa: estendido no chão à entrada do Templo, para só depois se suicidar com parcimónia.
Devíamos conhecer de cor uns quantos versos. Comunicar por gestos como os surdos-mudos e os observadores de baleias. Esperar Godot sabendo que não vem: "Que fez algum poeta por este senhor?" Fecundar a matéria viva como Joseph Wayne fecundou a árvore. Espantarmo-nos com a música e dançar dionisicamente. Recusar dicotomias e os ângulos rectos: todo o espaço é curvo. Negar deus caso até exista e acolhê-lo às vezes “à noite, no escuro”.
Devíamos ser telúricos nos anos bissextos e prudentes nos dias feriados (assim como assim, são cada vez menos); silenciosos como um eremita, orgiásticos como Teresa D’Ávila e conhecer de cor uns quantos versos: “A poesia vai acabar, os poetas/ vão ser colocados em lugares mais úteis./ Por exemplo, observadores de pássaros/ (enquanto os pássaros não acabarem.)”
Só depois, então, cumpridos todos os requisitos, “pôr um cinturão de bombas” e abraçar o corpo como uma herança indígena. Sobretudo, conhecer de cor uns quantos versos: “Ainda não é o princípio nem o fim do mundo, calma é apenas um pouco tarde”.

19/10/12

Manuel António Pina

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem).
Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei:
"Que fez algum poeta por este senhor?"
E a pergunta afligiu-me tanto
por dentro e por fora da cabeça que
tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

08/10/12

“Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses”


A ironia será uma inclinação do espírito, antes de ser instrumento literário ou rasgo de retórica. Proudhon, anarquista que ousou escrever que a propriedade é um roubo ainda os famigerados hedge funds não tinham sido inventados, chamou-lhe garante de liberdade. 
Palavra antiga, virá de Sócrates, embora não seja certo que o filósofo estivesse a ser irónico quando, bebida já a cicuta, tem como derradeiras palavras “eu devo um galo a Asclépio”, sendo Asclépio o deus grego da saúde. Mas se na sua forma socrática a ironia parecia buscar a verdade, no nosso tempo ter-se-á deixado disso. 
Vivemos no caos e não será o busão de Higgs a livrar-nos do embaraço, tanto mais que o nobel Leon Lederman lhe chamou originalmente, “the goddamn particle” a partícula maldita, e não “a partícula de Deus” como ficou conhecida. Suprema ironia! 
Dito isto, o caos – e não é preciso ser tão metódico com Kant para o reconhecer – é duro de aguentar. Nem todos teremos suficiente sageza para levar a ironia, literalmente, até ao fim, à imagem do “pai da filosofia” ou, bem mais perto de nós, de Jack Daniel, criador do whiskey homónimo que já na recta final ainda conseguiu pedir, e sem perder as maneiras, “one last drink, please”. 
Acresce ainda que, enquanto na Antiguidade socrática havia dúvidas, na Modernidade socrática jorraram dívidas. 
Sem razões para descrer da recente exegese camoniana-tomista do Primeiro-Ministro, a qual tudo complica – há "uma corrente que nos arrasta para trás (…) mais poderosa do que os ventos que nos impelem para a frente" –, restar-nos-á o consolo da filosofia de que falava Boécio. 
Isso, ou irmo-nos inclinando até cair, porque afinal, parafraseando o poeta, gracejar sempre também cansa. 

09/09/12

“Que vergonha, rapazes!”

Éramos três e iniciávamos o on the road cantando alegremente ‘The rain in Spain stays mainly in the plain’. Naquele tempo, “Madrid me mata” não era uma figura de estilo. Madrid matava-nos mesmo, tão certo como ser a “língua (…) o petróleo da nossa relação”, para citar, não Oscar Mariné ou sequer a lírica de Camões, tão-só o poetar timorense do ministro Miguel Relvas.
Já por tierras de España, “al declinar la tarde, sobre el remoto alcor”, trocámos a elegância fonética pelas canções de Sabina e foi um fartote.
“Madrid es un disparate”, havia de dizer-me a meio de um cocido o velho poeta Antonio Ferres, o que, traduzido, quer dizer mais coisa menos coisa que a capital espanhola é um excesso, para o que muito contribuirá, aliás, a 'graciosa irrespetuosidad que es característica del madrileno', socorrendo-me aqui de uma frase de Ortega y Gasset que nunca ouvi citada por Sócrates.
Ao abandonar, então, a nossa zona de conforto, “Nápoles por suíços habitada”, deixávamos para trás a “videirunha à portuguesa”, seguindo movidos pela poesia de O’Neill e o desejo firme de contrariar o Roque. Em Madrid, a fiesta misturava-se – arbitrariamente – com a siesta. Sucumbimos.
Claro que a “alma dos povos” é conceito pré-científico, e limitado o empirismo impressionista. Ainda assim, décadas passadas sobre a nossa incursão madrilena, Juan José Millás publica no El Pais um texto sobre a crise com o sugestivo título “O cano de uma pistola pelo cu acima” (no original, Un cañón en el culo), enquanto em Portugal é notícia o queixume de um escritor “absolutamente decapitado pela minha [dele] editora”.
Será a culpa das varizes de que falava o Roque ou existirá mesmo uma máquina de fazer espanhóis?

03/09/12

"Ça, c’est du meuble ! "

"Le cinéma c'est un art, la télé c'est un meuble". A frase é de Godard, ilustre cineasta que, como qualquer francófono que se preze, gosta de dizer coisas.
António Borges, pelos vistos, também gosta. Foi assim que, chegado directamente de algures e com o Ministro nenhures,veio a público apresentar um modelo de privatização da radiotelevisão a que chamarei sui generis, entendendo sui generis como uma variante latina do nome próprio Al Capone.
Resumindo: propõe-se o Estado, despachada a arte, aviar o móvel, continuando nós a financiar os compradores da mobília e não se pense que a preços do Ikea: 140 milhões por ano e sem rebajas à vista!
Isto, como depressa se percebe, é o maior negócio da China, pelo menos desde que a Inglaterra obrigou o imperador Daoguang a assinar o Tratado de Nanquim em 1842.
A especificidade dos liberais nacionais, já notada em outros “negócios interessantes”, continua, pois, a surpreender-nos: passa-se a RTP1 aos privados (fechada a 2 e umas quantas rádios…), mantém-se a taxazinha inserida na conta da luz, e continua-se a garantir um cheque de seis zeros e mais uns trocos à empresa que ficar encarregue de cumprir o “serviço público” a que a Constituição obriga.
Golpe de mestre! Golpada de génio! Cavalgada heroica! Crazy horses! A adjetivação tanto faz, mas assinale-se que Twain se precipitou ao escrever: “Suppose you were an idiot and suppose you were a member of Congress. But I repeat myself!”; pelo menos em Portugal, não há idiotas, só adiantados mentais.
E porque o tema era televison, segui o conselho de Groucho; fui ler um book. Aliás, dois. "Da Treta”, Harry G. Frankfurt, e "Não me F**** o Juízo”, Colin McGinn.
Melhorei consideravelmente.

26/08/12

Assange e o Desejo

Quando esta crónica for publicada talvez eu já esteja a banhos e Assange no Equador. É difícil de prever. Londres insiste em mandá-lo para a Suécia. Quito ofereceu-lhe asilo, mas como chegar a Quito? San Francisco de Quito, de seu nome completo, fica no “meio do mundo”, está rodeada por vulcões e eleva-se a mais de 2800 metros de altitude. Tudo isso é o menos, claro. O problema, para já, é chegar ao aeroporto. Dentro da mala diplomática? Inside of a dog?
Eu nunca fui a Quito. Tenho pena. Também gostava muito de visitar as Galápagos, embora nas Galápagos não se possam dar voltas de tartaruga.
À Suécia já fui e não serei eu a dizer que fiquei apaixonada. A coisa mais engraçada que tenho a dizer sobre a Suécia é que ainda hoje sou capaz de distinguir o sueco das outras línguas nórdicas (apesar de não falar nenhuma…), devido ao consumo exacerbado de Bergman durante a adolescência. Quanto à vida sexual sueca, qualquer coisa me escapava então, e continua a escapar-me agora.
Confesso que o que mais me encanita, porém, é a posição missionária inglesa.
Depois de, em 2009, terem libertado e despachado para a agradecida Líbia, Al-Megrahi, o bombista de serviço a Lockerbie que em 1988 matou 259 pessoas a bordo de um avião, mais 11 em terra, e, em 2000, o Pinochet para o Chile – “may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch” –, porquê este circo em torno de um homem que apenas dormiu com duas voluntárias suecas, e uma de cada vez?
A coisa tresanda a arenque e a cilada e duvido que mais alguém as convide para a cama.
Pobre Mónica! (entenda-se aqui por Mónica a Harriet Andersson e não a mãe de Agostinho, outro que também era fresco).

24/08/12

Derrame sobre a RTP e que se lixe a etiqueta que eu não sou candidata ao corpo diplomático

Há duas coisas que me deixam doente: a estupidez é uma, que me tomem por estúpida é outra. A minha relativa saúde deve-se, obviamente, não à escassez no mercado dos itens referidos mas ao facto de passar largos períodos em hibernação. 
Acordada para a realidade, vejo-me submergida (como os submarinos do Por
tas) pelo caso RTP, que o Borges – o mesmo Borges que há uns tempos tinha como urgência baixar salários (os dos outros, suponho, mas posso estar enganada…) – veio anunciar ir ser vendida aos privados - a RTP 2 e várias rádios fechadas e o Estado a manter-se como parceiro, contribuindo através da taxa que todos os meses nos aparece na conta da Luz.
Ora bem. Como no tempo do parisiense José Sócrates (a propaganda, desde Joseph Goebbels que não progride grande coisa…), as tropas já foram instruídas para fazer a defesa da solução proposta.
O argumentário é simples: a Constituição exige serviço público, mas não diz como concretizá-lo nem se é à borla ou a pagantes; o negócio assegura o serviço público delegando-o num privado; ficamos todos a ganhar porque o Estado poupa imenso dinheiro, já que a participação se resumirá à taxa do audiovisual.
Para que conste, eu não tenho televisão. Acho a televisão generalista uma merda e chateia-me andar a pagar o Baião, a Furtado, aquela senhora inenarrável que dá pelo nome de Fátima Campos Ferreira (que, agora reparo, também dará aulas na Lusófona…) e etc., como me chatearia, note-se, pagar pelo Slavoj Žižek.
Mas, também para que conste, enquanto pagar ao Estado um serviço da treta me chateia, pagar directamente para os bolsos dos privados não me chateia apenas: transforma-me numa espécie de Dexter de saias.
O mais demagógico de tudo, porém, é quererem-nos convencer que, agora sim, é que vamos ter um serviço público… de qualidade.
Façam-me o favor de ir foder longe, e pardon my french.

20/08/12

Novena pelos submarinos



Tentamos contrariar C.P. Snow mas as duas culturas persistem. O mesmo não é ser engenheiro pelo Técnico e politólogo pela Lusófona. That’s a fact. E se resolver equações diferenciais não será a característica mais sexy que se pode encontrar num homem, convenhamos que ouvir palestrar sobre “Reformar o Estado: uma prioridade nacional” se mostra um perigoso convite à apneia do sono. 
Fora mais dado à ciência o país, e o Estado não teria apoiado uma empresa cujos painéis solares, garantia a dita, funcionavam com céu nublado, chuva e até “na noite muito escura”. Tal como também não alinharia num Programa Nacional de Barragens cuja única finalidade é rentabilizar o negócio das “ventoinhas” ciclópicas que enchem a paisagem – a custo zero para as empresas que nos venderão depois energia a preços Haute Couture. 
O exemplo mais recente da diferença entre as duas culturas chegou-me, porém, pela mão de Ferreira Fernandes, alguém que não sendo formado em Astrofísica fez a única leitura científica do badalado diálogo Mário Crespo/Zita Seabra sobre espionagem via ar condicionado e outros devaneios próprios de Henri de Lagardère. 
Enquanto a maioria dos comentadores se ficou pela gargalhada e pela jocosidade, e a PGR declarou, com a gravitas habitual, ir “exercer as suas competências, caso exista fundamento legal”, o jornalista escalpelizou os factos com a argúcia de um homem de ciência: “Aparelhos de escuta usam-se em floreiras, relógios, botões, lamparinas e o agente Olho Vivo até num sapato. Tudo objectos silenciosos. Em ar condicionado?” 
Na ausência de espírito positivo, rezar a novena “A Stº António Para Achar Coisas Perdidas” talvez seja uma solução no caso dos submarinos. Como diria Pascal, mal não faz.

13/08/12

“Fácil é tropeçar em uma pedra”


Há anos tropeçava-se muito em Portugal. Uma pessoa ia a passar no Chiado, via-se repentinamente desviada para a António Maria Cardoso e era tropeção na certa. As mulheres, em casa, também tropeçavam muito. Regressados os maridos da labuta, era um ver que te avias de tropeções. As crianças, os loucos, os pretos, as criadas… tudo gente que tropeçava p’ra caraças. 
Há tropeções famosos. Bastante conhecido foi o de D. Pedro II que, ao perder o equilíbrio no baile da Ilha Fiscal, comentaria com espírito: “A monarquia tropeça mas não cai”, e 11 dias depois chegava ao Brasil a República.
Aos tropeções nacionais chamava Salazar “meia dúzia de safanões [dados] a tempo”, evidenciando através do eufemismo que pouco saía de casa, razão por que nunca visitou, por exemplo, o Tarrafal. Entretanto, veio o 25 de Abril, os tropeções entraram em desuso. 
Ultimamente, porém, a vox populi (e não vamos culpar os taxistas...) começa a clamar pelo seu regresso, que antes seriam aqueles mal empregues mas agora bem merecidos, o que me recorda a resposta do espanhol Fernando Savater ao francês Jean Daniel no El País, a propósito das caricaturas do Profeta: “Jean Daniel informou-nos (…) que aceita a blasfémia sempre que acompanhada de bom gosto e dignidade artística: ele é daqueles que apenas apreciam stripteases quando são feitos ao som de Mozart.”
O último tropeção de que tive conhecimento envolveu um agente da autoridade em perseguição de um assaltante desarmado. A arma ter-se-á disparado devido ao desequilíbrio do polícia, indo alojar-se no pescoço do meliante que morreu no local. Como não tenho espaço para mais, limito-me a parafrasear o Almirante: os tropeções são uma coisa que me chateia, pá.




10/08/12

No gamanço (não dá para mais...)

"O povo votou no melhor primeiro-ministro de Portugal. Ganhou o Sócrates. Antes que as alminhas do costume rejubilem, recordemos que Oliveira Salazar é o melhor português de sempre."

Luís M Jorge a propósito disto

07/08/12

A book a day keeps the doctor away: Com os Loucos, Albert Londres,

“Se eu quisesse enlouquecia”, escreveu há muitos anos Herberto Helder. A frase abre um dos textos mais citados de “Os Passos em Volta”: Se eu quisesse enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio.... Trata-se, evidentemente, de uma liberdade poética: ninguém enlouquece por assim o decidir, e ninguém no seu juízo perfeito assim o decidiria. A loucura não tem graça nenhuma e, para o saber, não é preciso ter lido “A História da Loucura” de Foucault ou visto “Family Life” de Ken Loach. Dito isto, Albert Londres arranca-nos gargalhadas.
“Com os Loucos” é o quarto título da Sistema Solar, chancela lançada pela anterior equipa da Assírio & Alvim. Traduzido por Aníbal Fernandes, o livro tem todas as razões para ser apetecível: o editor, o tradutor… e o autor.
Albert Londres (1884-1932) foi um caso sério do jornalismo francês, cognome oficial, “príncipe dos repórteres”. Na apresentação de “Com os Loucos” assinada por Aníbal Fernandes, como sempre um valor acrescentado, reproduz-se este retrato: “Na sua carreira não isenta de quixotismo procurar-se-ia em vão uma reverência ao dinheiro, uma deferência para com os que governam ou financiam, a docilidade perante as ordens e as recomendações, a aceitação dos factos consumados e dos poderes estabelecidos, a fuga perante as responsabilidades.” 
Existe um reputadíssimo prémio de jornalismo que leva o seu nome desde 1933, ano seguinte à sua morte a bordo do Georges Philippar, navio que o trazia da China e que se incendiou em condições nunca totalmente esclarecidas. Teria sido Londres, que garantia transportar na bagagem os ingredientes de um grande escândalo, alvo de um atentado que o arrastaria para a morte, a ele e a quase 100 dos 700 e muitos passageiros do Georges Philippar? A pergunta nunca foi cabalmente respondida mas Londres não necessitaria disso para se transformar numa lenda. Ter-lhe-ia bastado a sua fibra de repórter.
“Com os Loucos” reúne uma série de textos publicados em 1925 no “Petit Parisien”, fruto da peregrinação de Londres por dezenas de asilos franceses, denúncia das condições desumanas e absurdas em que a ciência moderna da psiquiatria (?), apoiada na bengala estatal, lançou os loucos. No jornal foram 12, no livro somam 22. O primeiro texto conta como tudo começou: “Embora eu não seja louco, pelo menos à vista, quis olhar para a vida dos loucos. E os serviços públicos franceses não ficaram satisfeitos. Disseram-me: ‘A lei de 38, segredo profissional, o senhor não vai olhar para a vida dos loucos.” Fui ter com ministros, e os ministros não quiseram ajudar-me. Um, no entanto, teve esta ideia: ‘Alguma coisa farei por si se alguma coisa fizer por mim: submeter à censura os seus artigos.’ Pus-me longe dele, e ainda lá ando.” 
Humor negro. Escrita de cadência exacta. Remates imprevisíveis. Curiosidade à prova de temas difíceis e grandes distâncias. Empatia. Resultado, um ícone inimitável: “Notre métier n'est pas de faire plaisir, non plus de faire du tort, il est de porter la plume dans la plaie.
Lê-se “Com os Loucos” e vão caindo por terra todas as supostas leis (invioláveis e maçadoras) do jornalismo de reportagem. Londres parece errático. Londres troca o realismo pela notação impressionista. Londres toma partido. Londres prefere a verdade à objectividade. Londres não conta histórias (cliché que servirá à exaustão de alibi à mediocridade e à falta de assunto), Londres vê. E o talento que é preciso para ver! 
Com os Loucos, Albert Londres, Assírio & Alvim, 2012

05/08/12

A Biblioteca de Babel


Por circunstâncias várias que nada devem a Ortega y Gasset, filósofo preferido do ex-primeiro-ministro, descobri recentemente a Imelda que há em mim. Uma versão, quoi. Não falo de sapataria. Falo de livros. 
Que raio nos atrairá nos livros que nos leva a acumulá-los, a ser incapazes de lançar no lixo títulos mais do que obscuros (ocorre-me, de repente, “A Fenomenologia do Ser” de Sartre, obra lida e sublinhada pelo actual primeiro-ministro), ou a sujeitarmo-nos voluntariamente ao suplício de Sísifo, arrastando volumes e volumes em busca, não do tempo perdido, mas de uma Marmeleira mítica e suficientemente espaçosa? 
Nos últimos tempos ando a pensar imenso no Pacheco Pereira e, mais curioso ainda, a concordar com ele… 
Uma das explicações para este bizarro fenómeno esconder-se-á porventura na frase de Groucho Marx: “Outside of a dog, a book is man's best friend. Inside of a dog it's too dark to read”, mas duvido que o próprio a achasse assaz iluminadora. 
Borges imaginava o Paraíso como uma espécie de biblioteca, e eu tendo a concordar. Mas que fazer quando uma biblioteca se transforma num Inferno? Renunciar a “O Abraço”, pôr a andar o “Belo Adormecido”, desligar “a máquina de fazer espanhóis”? Não se trata disso. Como não se trata de colecionismo, truque infantil com que alguns pensam contrariar a morte. 
Milhares de tratados, ensaios, investigações e doutoramentos summa cum laude escritos sobre book dependency, e continuamos às escuras dentro do cão de Groucho. O cão ladra e os livros acumulam-se. Mordem-nos as canelas. Dão-nos cabo das costas. Quanto pesarão os sete volumes que Proust escreveu na cama, sem qualquer consideração pelas nossas articulações? Mas, por outro lado, como suportar o mundo sem o auxílio das madalenas do dito?  

24/07/12

Faites vos jeux, rien ne vas plus

Devo confessar que ser detida a milhares de quilómetros de casa é uma desagradável experiência. Foi o que me aconteceu há uns anos, quando visitei os EUA, destination Las Vegas. 
Após o que me pareceu um caloroso Good Morning!, estendi o passaporte para, segundos depois, me ver recambiada para uma sala inóspita onde aguardei três horas pela devolução do dito. 
Às minhas insistentes perguntas sobre qual era o problema, a resposta resumia-se a um lacónico you must wait, madame, sente-se e ponto final, proferido por um representante da Lei, dois metros e 150 quilos, tal e qual como nos filmes. É nestas situações que uma pessoa fica a perceber quem manda. 
Por fim, o funcionário chamou-me e devolveu-me o passaporte. E segurávamos ambos o precioso documento quando ele me pergunta o que é que eu ia fazer a Las Vegas.
Lembrei-me de “O Jogador” (a literatura acompanha-me sempre nos momentos críticos) e respondi-lhe gambling. Não era exactamente verdade, mas a piada saiu-me à mistura com um sorriso nervoso, tanto mais nervoso quanto li na cara do homem que a literatura russa não era a sua cup of tea.
Lá me safei às arrecuas e consegui apanhar a ligação para Las Vegas, delírio veneziano plantado no meio do deserto onde gambling e poesia se misturam: “Are you writing a poem?”, perguntam-me no Casino Royale, enquanto tomo nota de um informação qualquer.
Tudo isto me surgiu em catadupa ao ler que a Unibet lançou apostas online sobre a demissão de Relvas. O que, por sua vez, me lembrou um episódio contado por Mark Twain: um homem foi dar à viúva de Jo Toole a notícia da sua morte: “O Joe Toole vive aqui?” E quando a viúva respondeu que sim, ele disparou: “Quanto aposta que não?”

22/07/12

O Luís M. Jorge comoveu-me. E esta, hein?

«Fernando Pessa morreu aos cem anos e quatorze dias no Curry Cabral, após um longo internamento dramatizado pelos jornais. Quando entrou não era ainda centenário, injustiça cósmica que deu origem a manchetes encorajadoras: "Está quase, Fernando". "Aguenta, Pessa". Os artigos descreviam-no como "o jornalista mais velho do mundo", uma liberdade poética dirigida aos reformados, e desembocavam sempre na interjeição icónica, repetida à náusea, que ele próprio celebrizara: "E esta, hein?"

Enquanto somos novos julgamos que todos os velhos são iguais. Para quem via o jarreta a invectivar rotundas e sinais de trânsito era fácil esquecer que tinha saído da Emissora Nacional para correspondente de guerra e símbolo da liberdade contra a censura nas emissões da BBC. Diz-se na internet que o regime lhe vedou o acesso à rádio quando regressou em 47. Trabalhou em companhias de seguros e fez dobragens até ingressar na RTP, mas só fez parte dos quadros da televisão pública depois do 25 de Abril, aos 74 anos.

Esta semana a pátria comoveu-se com a morte de outro velho, um fascista e mitómano tido por grande divulgador da História de Portugal. Como diz Noah Cross no melhor filme de Polansky, "os políticos, os prédios feios e as putas tornam-se sempre respeitáveis se viverem muito tempo". Mas podemos e devemos escolher os nossos velhos.»
AQUI

16/07/12

Miguel Relvas: faites vos jeux, rien ne va plus!

A permanência/saída do ministro do governo já chegou à bolsa.
Ainda alguém enriquece à custa deste disparate.
Deus escreverá direito por linhas tortas. 

És a nossa cruz

Como escrever sobre isto. Como escrever para além disto. Como escrever brechtianamente sobre isto. O que é isto. Quem é isto. De onde é que isto apareceu. E não podemos mandá-lo embora?
 O grau zero. O grau abaixo de zero. Ainda assim. O Verão. As sardinhas. Os robalos. My name is Vara, Armando Vara. Uma mulher foi presa em Aveiro por ter roubado um atum. Oh abençoada luz. Luz. O Mexia. Ai, ai que o gato mia. Os casinhotos de Sócrates e as vivendas da Coelha. O asfalto do Coelho. Como é que nos livramos disto. O país da Europa com mais autoestradas per capita. O segundo do mundo com mais gente deprimida. Os cursos farinha amparo. Os doentes. Os deficientes. O ministro da motoreta. A ministra das gravatas. O Relvas das bravatas. O assassínio do Tua. Os abismos de Passos. As olheiras de Gaspar. Os silêncios de Gaspar. “Os calados são os piores”.
Um autocarro desviado do Marquês para o quartel da Trafaria: “Nem mais um soldado para as colónias!”, e gente a rir. Táxis. Piadas pueris. “Está livre? Então, viva a liberdade!” Mais piadas: “O senhor doutor dá licença? Ora essa, está licenciado!”. “Está a jantar sozinho? Não, estou num jantar de curso”.
O discurso. As decisões: não deviam ter gamado os subsídios mas o que está feito, está feito. Pim! O regresso a Américo de Deus Thomaz. Deus, porque nos abandonaste? O saldo dos aventais. Irra, que é demais!
Os delfins urbanos. As praxes. A ignorância. O medo: “uma cabeça cortada não dói, mas tem uma importância danada”. Quem se mete com o PS leva. 16,2% de desempregados previstos para 2013. ‘Ó patrão dá-me um cigarro’. As urgências de António Borges. Os sobreiros suicidas e, pelo meio deles, galante, António José, formoso e não seguro… (continua).

14/07/12

s/t

Tudo isto é triste, tudo isto existe, tudo isto é fado

Cavaco Silva, montanheiro de sequeiro sem um pingo de grandeza cujo projecto para o país se resumiu a asfaltá-lo, que levou aos píncaros tudo o que o novo-riquismo tem de pior, que se rodeou de gente que devia estar na cadeia e que cada vez que abre a boca me envergonha de ser portuguesa, vem dizer que os portugueses se tinham acostumado à "vida fácil".
"Vida fácil" que ele promoveu, que os patos bravos seus amigos promoveram, que os tipos das jogadas financeiras promoveram, e que o grande Sócrates continuou acrescentando-lhe a patine das fatiotas de bom corte. É preciso não ter vergonha na cara!

11/07/12

A Ópera dos Malandros


As senhoras não falam de dinheiro. Fica-lhes mal. A única excepção que conheço é Mae West que um dia explicou com singular clarividência: “A man has one hundred dollars and you leave him with two dollars; that’s subtraction”. 
Se olharmos, contudo, mais de perto, depressa concluiremos que falar de dinheiro fica mal a quase toda a gente. Os ricos não sentem necessidade de se referir ao assunto, e os pobres não têm, simplesmente, assunto. 
Apesar de ser indiscutível que ‘Money Makes The World Go Round’, a relação dos humanos com o “vil metal” (e só a expressão “vil metal” é todo um programa) mostra-se complexa e mesmo algo bizarra. Uns idolatram-no, outros desprezam-no; alguns levam-no a sério, outros rendem-se tão-só à sua inevitabilidade. Há quem encare o dinheiro como uma espécie de “bosão de Higgs”, e há quem, como São Tomás de Aquino, descubra na avareza a raiz de todos os males. 
Opiniões à parte, no nosso mundo, sem dinheiro não se fazem compram galinhas, sem galinhas não há ovos e sem ovos não se fazem omoletes.
Talvez, entre os enfermeiros a trabalhar para o Estado a 3, 96 à hora, haja alérgicos à proteína do ovo ou quem viva tão aterrorizado pelas salmonelas que não lhes toque sequer. Esses são os privilegiados! Os outros terão de contentar-se com valores abaixo do salário mínimo, sair da “zona de conforto” ou ficar-se pelos chocolates da “pequena suja” do Pessoa. 
Percebo, ainda assim, a indignação destes profissionais de saúde. Afinal, andaram a queimar pestanas num curso que não serve para nada. E com tantos cursos tão bons que por aí há. Alguns, passíveis até de ser concluídos num só ano e com emprego de ministro garantido. 
“Ó Portugal, se fosses só três sílabas”. 

03/06/12

O toque feminino

Aviso de antemão que este texto pode perturbar almas sensíveis, pelo que não é recomendável àquelas e àqueles que, na senda de Edite Estrela, acreditam tão piamente que “haverá mais paz no mundo com mais mulheres em altos cargos políticos” quanto as senhoras do MNF tinham uma crença inabalável no slogan “Angola é nossa!”

Começo por uma adivinha: o que têm em comum Margaret Thatcher, Angela Merkel e Christine Lagarde? Em 1º lugar, são mulheres; em 2º lugar têm poder; em 3º lugar são reaccionárias, se me é permitido ainda usar o termo.
Recorde-se que Thatcher, autora do "no such thing as society" é, das três, embora retirada, a única com pensamento político articulado. Merkel limita-se a empurrar(-nos) com a barriga e Lagarde administra dinheiro alheio enquanto nos ameaça com a antiquíssima tirada de Paul Féval, "Si tu ne viens pas à Lagardère, Lagardère ira à toi!"

Entrevejo já algumas das almas sensíveis – femininas, masculinas e/ou "transgéneras" – correndo a diagnosticar-me o mal da misoginia, versão jewish self-hatred adaptada “ao segundo sexo”.
Antes que me condenem a ler de fio-a-pavio o livro de Cavalcanti Filho onde a “putativa homossexualidade” de Pessoa terá sido finalmente revelada, invoco em minha defesa: onde está o feminine touch de Merkel quando o Ministério de Economia do seu governo chega a propor, como solução para a crise, a formação de “zonas económicas especiais”, variante update do modelo esclavagista em exercício na China? E que dizer das declarações de Lagarde (logo ela que, enquanto funcionária internacional do FMI, não paga impostos) sobre gregos e pretinhos esfomeados do Níger que lhe partem o coração.

Desculpem-me o francês: feminine touch, my ass.

30/05/12

Vamos ser rigorosos, isto é uma conversa de merda

«(...) Filipe Neto Brandão, do PS, questionou por que razão Relvas omitiu essa informação há duas semana, quando teve o cuidado, por exemplo, de referir um encontro casual numa festa no Algarve.
"Fala numa festa de aniversário e omite um encontro desta natureza?!", indagou o socialista.
"Eu não omiti. Eu não tive um encontro com Jorge Silva Carvalho, tive um encontro entre a administração da Finertec e a administração da Ongoing. Vamos ser rigorosos, eu não vim cá falar da minha vida empresarial", defendeu-se o ministro-adjunto.
 AQUI

Buques

28/05/12

Uma conspiração de estúpidos

Se José Luís Arnaut tem razão, e falta à Grécia aquela qualidade “natural” que podemos admirar no faisão e na perdiz da célebre natureza morta de Renoir, ou mesmo em qualquer nação gerada por Deus na véspera do shabat, o que dizer do “paraíso artificial” que é indiscutivelmente este coiso, perdão, este jardim à beira-mar plantado cantado por Tomás Ribeiro?
Porque se é vero que, desaparecidos os loiros e as acácias olorosas, a noite de estrelas rutilante apenas ilumina autoestradas, tendo as torrentes alterosas dado lugar a barragens de um glorioso amarelo, nem por isso as aves gorjeiam menos noite e dia. Aves raras.
Tivesse Baudelaire conhecido o Portugal de hoje, e ao ópio, ao vinho e ao haxixe decerto acrescentaria a classe dirigente lusa, a qual, sem recurso conhecido a psicotrópicos, bombardeia o país com doses maciças de gás hilariante.
É assim que temos um ex-espião que descobre a sua queda para o coiso consumindo “O Santo” na infância, a que acresce, já na idade adulta, o modo pouco smart como deixa que o DIAP lhe game o smartphone, facto que nos permite suspeitar que em algum momento da vida terá telefonado ao pai, bradando, à maneira de Loureiro, “pai, já sou espião!”
Segue-se um ministro que, intérprete de uma versão série B do “J. Edgar” de Eastwood, ameaça uma jornalista de publicar na Internet pormenores da sua vida privada, desconhecendo, porventura, que na era do facebook a vida privada já não é como soía.
Para apimentar o plot, veio o mesmo negar as acusações pedindo porém desculpa pelo coiso, o que nos leva aquela frase avisada de Groucho: “Ele pode parecer um idiota e agir até como um idiota, mas não se deixe enganar: ele é mesmo um idiota!"
E bote plurais nisso.

25/05/12

Uma boa piada é uma boa piada é uma boa piada [e para desenjoar das piadas do Relvas]


Angela Merkel decidiu descansar dois dias, com o marido, num hotel rural em França, próximo da fronteira alemã.
Foi aí que se registou o seguinte diálogo entre o guarda fronteiriço e a chanceler:
— Nacionalidade?
— Alemã.
— Ocupação?
— Não. Venho só passar o fim-de-semana.

[roubado ao Tomás Vasques no facebook]

20/05/12

Leave the kids alone

A semana passada fiquei a saber três coisas que gostaria de partilhar com o leitor, se este não levar a mal.
A primeira (a ordem é aleatória, são todas péssimas…) é que existe um pediatra indignado por ter falhado nas farmácias um dos medicamentos prescritos para crianças que sofrem do chamado Distúrbio de Deficit de Atenção.
A falta de tal medicamento, cuja substância activa é o metilfenidato, um psicoestimulante que actua sobre o sistema nervoso central, “pode levar crianças a chumbar”. Desta vez nem o eduquês nem o ministro eram chamados à colação. A matéria ficava ao nível da ‘Lucy in the sky with diamonds’, mas, dizem, sem riscos de maior. E para menores.
Nas palavras do pediatra indignado, “As crianças querem estudar e não conseguem. Sem estudo e concentração não conseguem boas notas. Estão a ser empurradas para o insucesso escolar e até para a reprovação".
Ainda mal refeita do choque (I beg your pardon, o que é mesmo que andam a dar aos putos para eles terem boas notas?!), fiquei a saber, também através dos jornais, que numa escola do 1º ciclo de Portimão os recreios passaram a ser patrulhados por alunos e professores no âmbito do projecto PSP (Patrulha de Segurança do Pontal).
As equipas, constituídas por dois alunos por turma, terão que registar os colegas indisciplinados, cujos nomes serão depois exibidos em lugar público e bem visível. Com o cérebro ainda a oscilar entre os “queixinhas” do meu tempo e a Revolução Cultural Chinesa com os seus rituais de humilhação públicos, levo com a terceira notícia. Um livro sobre a crise em duas versões, uma para “miúdos de esquerda” e outra para “miúdos de direita”!
Como diria o Eliot, foi mesmo “very much reality” numa semana.

17/05/12

O Pedro Bidarra vai a todas, ele é West Coast, ele é Allgarve, ele é células estaminais

Hoje foi um dia para esquecer e macacos me mordam se isto não anda tudo ligado.
Começou com o Arnaut a dizer que "a Grécia é um país inventado".
Acaba com o Pedro Bidarra, parece que grau 33 do marketing e publicidade, a mostrar uma campanha sobre células estaminais que está a indignar pais, futuros pais e gente ligada à ciência e à ética da ciência (não vou dizer "gente de bem" porque poderia parecer mal).
A coincidência, porque ele há mesmo coincidências do caraças, é que se trata do mesmo Bidarra que nos vendeu a West Coast, essa ideia brilhante em que se associou ao não menos brilhante ministro Manuel de Pinho.
Na altura, o guru publicitário garantia que a West Coast tinha «associações "aspiracionais" – Hollywood ou Silicon Valley, por exemplo – que sem nada termos que fazer contaminam o conceito positivamente, tornando-o mais glamouroso e mais cosmopolita. Depois há as pontes e colinas de Lisboa e S. Francisco, o Vale do Douro e o Napa Valley, a aridez da Baja Californiana e o nosso Alentejo, coincidências felizes que é só aproveitar.
Agora diz que a actual «campanha é forte e tem uma componente de serviço público, para educar as pessoas».
Ó Pedro Bidarra, cá para mim quem precisava de ser (re)educado eras tu. Em alternativa, podias ir tratar da imagem da Coreia do Norte que anda muito por baixo.

Frases que mereciam um pano encharcado na cara

"A GRÉCIA É UM PAÍS INVENTADO; ERA UMA PROVÍNCIA DO IMPÉRIO OTOMANO", José Luis Arnaut (ex-Ministro Adjunto de Durão Barroso e Ministro das Cidades e etc. do governo de Santana Lopes) ontem à noite na SICN

Frases com sentido

Não conhecia esta frase do Mia Couto, mas é absolutamente verdadeira: "A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos". Ora bem.

13/05/12

"Miúdos de Esquerda" e "Miúdos de Direita" é uma coisa obscena e uma ideia de merda com M grande

O autor do texto do livro "A Crise explicada às crianças (de direita e de esquerda)" disse que "queria experimentar esta coisa de escrever para os mais novos, tenho ideias para vários livros, mas esta foi a primeira a surgir, e calha bem com o tempo que estamos a viver".
Ele pode experimentar "as coisas" que quiser, mas só num país transformado numa latrina é que coisas destas são levadas a sério. Hoje estou Indignada e não é com os 15% de desemprego.
Mas, afinal, isto anda mesmo tudo ligado. Vómito.

12/05/12

Vou tentar fazer uma também em grego mas não prometo

Honi soit qui mal y pense (só para francófonos) 

Listen very carefully, I shall say this only once.
Papagaio de Flaubert. Bouvard e Pécuchet. Bouvard e Pécuchet, canal Saint Martin. Canal Saint Martin, Jean Gabin. Gabin, Yves Montand. Yves Saint Laurent.
Ostras. Magret de pato. Georges Perec. Pont-l’évêque.
Paul Verlaine. Maurice Blanchot. Jean Giraud. Henry de Montherlant. Arthur Rimbaud. Jean-Marie Gustave Le Clézio.
Croissant. Boris Vian. Roger Vailland. Guy de Maupassant.
Claude Simon. Jacques Vaché. Cassoulet. Georges Méliès.
Jean Renoir. Renoir. Jean-Luc Godard.
Jacques Prévert. Guillaume Apollinaire.
Place des Voges. Ile d’Aix. La Rochelle. Fernandel. Céline.
Je m'appelle Ferdinand.
Cognac. Honoré de Balzac. Julien Gracq. Crepes de chocolate.
Auvergne (bleu). Raymond Queneau.
Notre Dame de Paris.
Cyrano. Panache. Pastis. Chablis. René Goscinny. Madame Bovary.
Mademoiselle Chanel.
Une femme est une femme.
Proust. Madalenas. Petits fours. Framboesas. Caracoletas. Cuscuz.
Bordeaux grand cru. Bordéus. Bretanha. Bourvil.
Il pleut sur Nantes : Barbara.
Brassens : Quand on est con, on est con.
Albert Camus. Albert Cohen. Belmondo [até aos 35].
Roquefort. Allez, français, encore un petit effort!
Camembert moulé à la louche. Coluche.
François Truffaut. Alain Resnais. Claude Monet. André Dussolier.
Sena. Pontes do Sena. Sous le pont Mirabeau coule la Seine/ Et nos amours.
Sous le pavé, la plage.
Charles Baudelaire. Charles Trenet. Léo Ferré.
Charles de Montesquieu. Gérard Depardieu.
Michel de Montaigne. Michel Piccoli. Pierre Arditi. Jacques Tati. Claude Chabrol. Sabine Azéma. Serge Gainsbourg. Ratatouille.
Aunac. Armagnac.
Bayers. Angoulême.
Astérix. Obélix. Assurancetourix: Non, tu ne chanteras [plus]! Non, tu ne chanteras [plus]!

08/05/12

É preciso saber reconhecer um grande texto quando tropeçamos nele

O nosso mais sagaz comentador observou que a morte de Miguel Portas instaurou um período de tréguas na sociedade portuguesa ou, pelo menos, na que tem algum reflexo nos meios de comunicação. Apesar de fazer um esforço para me afastar do ruído comum, acho que percebo a anotação. Durante alguns dias ouviram-se algumas vozes raras e calaram-se outras. Além do mais, entrava-se no período que vai de 25 de Abril ao 1.º de Maio e que o ritual democrático ainda em vigor respeita como uma páscoa da esquerda. Interventores menos habituais ou o registo emocional que a perda de Miguel Portas teve o condão de libertar nos habituais representantes da esquerda mediática revelaram um aspecto interessante: como disse Marisa Matias, não podemos viver sem esperança. Não podemos viver sem pão, sem grupos sociais, sem esperança e sem pessoas de referência que exprimem o que há de melhor em nós, o que em nós ainda acredita. Muitos dos que escreveram ou falaram mal tinham conhecido o Miguel Portas. Tinham-se cruzado ou estado juntos numa iniciativa, lido uma entrevista ou um livro, assistido a um debate, ouvido um comentário.
Há um período na vida das crianças em que estas parecem ter um amigo imaginário. Brincam com ele, reservam-lhe um espaço no carro da família, dão-lhe um nome, adormecem com ele. Geralmente, não querem partilhá-lo com a família ou com os pares, e calam-se quando alguém tenta imiscuir-se no seu mundo reservado. Aos três anos, Simone tinha dois amigos. Um era Anonas, talvez um rapazinho. O outro era Febo. Como Simone tinha também uma irmã mais velha, as deslocações de carro tornaram-se penosas. Anonas e Febo não cabiam no banco de trás, tinham de usar cadeirinha e cinto. Os pais e a irmã eram pacientes. Perceberam que se tinham transformado numa família numerosa. Conseguiram uma carrinha familiar em segunda mão, uma cadeirinha e um banco elevatório emprestados. Havia sempre um momento de pânico ao entrar na carrinha. Faltava alguém? O cinto de Anonas estava demasiado apertado? Simone era discreta. Mas quando, numa ocasião, admoestou o pai por este fechar a porta sem cuidado e quase magoar Febo, este começou a preocupar-se. Um dia, os amigos partiram. Primeiro Febo, mas Febo nunca fora verdadeiramente importante. Depois Anonas, e Simone adoeceu de tristeza. O carro de sete lugares já não fazia sentido. Uma tarde de domingo, quando rolavam numa estrada na direcção do mar, Simone alegrou-se. Do lado de fora, correndo ao lado do carro, vinha Anonas. Devia correr bem perto da janela, porque Simone colou o nariz ao vidro e durante algum tempo disse frases incompreensíveis onde se distinguia bem o nome do amigo. Depois Simone deixou de falar de Anonas. Depois deixou de falar. E um dia estava curada, tinha crescido e estava disponível para os meninos e meninas reais da escolinha.
Tenho uma amiga que não me proibiu de contar a sua história. É uma mulher alegre e extrovertida, e na infância deve ter sido hiperactiva sem défice de atenção. É primatóloga e veste-se com um estilo indefinível que remete para os locais exóticos da sua investigação. Tem um namorado imaginário há dez anos. Com nome, Bill, e residência ao Príncipe Real. Profissão, gostos cinematográficos, família, embora distante. Os amigos não o conhecem, porque Bill não gosta deles, só de ouvi-la falar. Passam férias e fins-de-semana em destinos maravilhosos de onde ela envia SMS de contentamento infantil. “Estou a sobrevoar o delta do Mekong com o Bill.” “ Estou a conduzir um Ferrari com o Bill.” “ Fui raptada no mercado de Pu Teh. Pelo Bill.” Às vezes, raramente, ele parece cometer um erro de escolha. Mas, mesmo nessas ocasiões, percebemos que é guiado pela imaginação dela: sexo desenfreado em hotéis de sete estrelas, sexo demais, estrela a mais.
Há uns tempos, o Bill zangou-se. Desapareceu, depois de uma cena de ciúmes com um rival imaginário, um primata por quem ela tinha apenas uma paixão científica e com quem dormira por cansaço e amizade. Acabaram-se os fins-de-semana românticos e as inumeráveis citações: o Bill acha isto, o Bill gosta daquilo, o Bill disse não-sei-o-quê. Já não havia Bill. Podia escrever calmamente os seus trabalhos, fazer conferências ao sábado, acompanhar os alunos em ausências intermináveis, ter reuniões com os comités e as task forces. O Bill já não se queixava. O Bill já não dizia nada.
Não se pode viver sem esperança. A tristeza pela perda do Bill foi tão verdadeira e desoladora, tão deprimente e difícil de suportar como a de outro companheiro mais real. O fim do socialismo real custou tanto aos que nele tinham depositado a esperança de uma vida como o fim da utopia do socialismo aos que deixaram de acreditar. Como diz António Barahona, aliás Muhammad Ashraf, novo guru dos nossos jovens poetas: este Ocidente sem deus nem fé não é feliz.
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