Parafraseando
o humorista norte-americano Lewis Black: in my lifetime,
we’ve gone from Isabel do Carmo, membro das Brigadas Revolucionárias, to Isabel do Carmo, médica endocrinologista.
E we’ve gone from Isabel do Carmo,
médica endocrinologista,to Isabel Jonet, nutricionista ao
serviço da governação.
Declaração de interesses: nunca recusei contribuir para
o Banco Alimentar.
Dito isto, permito-me citar duas pessoas. Uma é o bispo brasileiro Hélder Câmara:
“Quando alimentei os pobres chamaram-me santo, mas quando perguntei por que há
gente pobre chamaram-me comunista.”; a outra é Eduardo Galeano, escritor
uruguaio que teve a sua boa quota de exílios: “Eu não acredito em caridade. Eu
acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima para baixo.
Solidariedade é horizontal”.
Tudo isto devia ser inútil, 51 anos depois de
Buñuel ter realizado “Viridiana”, mas, e para retomar Lewis Black, considerada a
progressão de políticos… qualquer dia estamos a votar nas plantas…
Isabel Jonet
não faz política profissional, é tão-só uma profissional. Uma profissional da
caridade com opiniões fortes.
Opina, por exemplo, sobre os gregos: “adoram discutir, dificilmente conseguem
chegar a uma solução. Gostam tanto de debater e discutir que para eles a tomada
de decisões é mais difícil que para outros povos, como os alemães, que são mais
práticos e cumprem as decisões, mesmo que sejam incorrectas. Os gregos não, põem
tudo em causa… E é muito difícil governar assim”.
Podemos deduzir, então, sem risco de deturpar as suas
palavras, que Isabel Jonet se veria grega se tivesse de governar a Grécia, ao
invés da Alemanha onde a coisa seria fácil com um único senão: não foram os
alemães que inventaram a democracia.
Depois das aves raras do governo do defunto engenheiro terem dado luz verde para a destruição de parte da Linha do Tua— linha que em qualquer país civilizado do mundo seria considerada património — é a vez de a nova maioria aprovar o abate de milhares de árvores.
Estamos mesmo entregues às plantas*!
*(relembrando sempre Lewis Black: In my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants»)
Ela é portuguesa e vive fora; ele é de fora e vive em Portugal. Em comum, uma certeza: os portugueses andam particularmente deprimidos. Mais do que é costume? Mais do que é costume.
“Depressão” recorda-me sempre Tiziano Terzani e o seu maravilhoso Disse-me um Adivinho: “Não é de admirar que a depressão seja hoje um mal tão comum. É quase reconfortante. É sinal que no íntimo das pessoas ainda resta o desejo de serem mais humanas”.
Os meus amigos conheciam o livro mas comentaram que não se devia exagerar. A crise era internacional e, fosse como fosse, a Europa mantinha-se o melhor sítio para se viver. Eu disse que talvez, mas.
Que seria bom não esquecer que ainda há 66 anos a Europa provocara uma razia no mundo e que os seus líderes actuais me faziam perigosamente pensar na piada de Lewis Black: “In my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants” (e já passaram quase 12 anos…), e também na frase de Groucho Marx em Duck Soup: “Ele pode parecer um idiota e falar como um idiota mas não se deixe enganar, ele é realmente um idiota”.
Após a fase das piadas voltámos a falar a sério — da recente obsessão pelas fronteiras, dos imigrantes magrebinos afogados no Mediterrâneo, da e.coli dos pepinos que era coisa dos PIGS espanhóis, da implosão dos Impérios, da dívida americana, da extrema-direita francesa, da desorientação generalizada da esquerda, dos chineses… O costume.
E depois aconteceu o massacre na Noruega.
Um homem louro, um homem nórdico, alto, de olhos azuis, praticamente um património, um baluarte da Europa civilizada, praticamente uma Claudia Schiffer de calças, como diria Caco Antibes, matou quase uma centena de pessoas. Antes de passar à acção terá tido tempo para escrever “2083, A European Declaration of Independence”, um longo manifesto em defesa de uma nova Cruzada contra os perigos do Islão e do marxismo. Não, “as humanidades não humanizam”. Mesmo. Como dizia o raio do Steiner e eu não me canso de repetir.
Há um género de automobilistas que é assim: vai uma pessoa na estrada a ouvir e a assobiar Can’t Take My Eyes Off You completamente na boa quando aparece um tipo noutro carro e, por aselhice, desrespeito, incúria ou simples killer instinct, provoca um acidente. Os dois carros acabam por parar em modo enviesado e após aqueles intermináveis segundos em que se vê a vida andar para trás ou, pelo menos, a não andar para a frente, o condutor que ia numa boa a ouvir e a assobiar Can’t Take My Eyes Off You leva demoradamente a mão à maçaneta da porta e lança, algo hesitante, uma perna para o exterior. É então que à surpresa do choque se acrescenta a surpresa de ver o outro automobilista (repita-se: o que provocou o acidente) já cá fora, bem firme nos membros, vociferante e esbracejando como um pássaro à bolina: Sua besta! Então não me viu? Aprendeu a conduzir em carrinhos de choque ou quê? Por pouco, ia-nos matando aos dois! Olha-me para isto! Olha-me para isto! E etc. Perante o segundo ataque, desta vez tão-só verbal, o condutor inocente tende a sentir-se baralhado. Será que a culpa fora dele? Será que se entusiasmara demasiado naquela parte do I love you, baby/ And if it's quite alright/ I need you, baby e fizera asneira? Há quem chame educadamente xico-espertice a esta estratégia de avançar de goela e peito abertos para a vítima invertendo os papéis: o facto é que resulta. Nos dias que correm, em que o pragmatismo é tudo e o que conta são os “resultados por objectivos”, creio tratar-se, aliás, de uma estratégia em ascensão. O modelo é largamente utilizado pelos políticos, e não apenas portugueses (Sarkozy e Berlusconi também seriam bons exemplos). Por cá, Sócrates e seus acólitos têm contribuído com fibra para a sua implementação no continente (a Madeira daria pano para outro post). Neste particular, o género terá sido iniciado por Jorge Coelho com a memorável frase Quem se mete com o PS leva, continuado por Augusto Santos Silva, o que gosta de malhar, pelo par de cornos de Pinho, sem esquecer, naturalmente, Ricardo Rodrigues que, ultrapassando a alta velocidade a fase verbal-metafórica, passou à “acção directa” e gamou dois gravadores. No meio desta lista (necessariamente incompleta), também é de registar o próprio primeiro-ministro, mão na anca, e o seu Era o que mais faltava!, a que teremos de somar o finíssimo Manso é a tua tia, pá. Não me interpretem mal. Não me move qualquer puritanismo linguístico. O que me faz espécie é a boçalidade. Ou seja, a falta de ironia, de wit. Em resumo, a falta de ideias que não sejam apenas caceteiras. Comparado com estes boys, o Almirante Pinheiro de Azevedo era um génio. Digno continuador de António Silva, a sua entrevista enquanto primeiro-ministro do VI Governo Provisório, governo que entretanto entrara em greve, é inesquecível: Pinheiro de Azevedo:Estou farto de brincadeiras, ok? De brincadeiras, hem!? Jornalista:Está...? Pinheiro de Azevedo:Estou. Fui sequestrado. Já duas vezes. Já chega. Não gosto de ser sequestrado. É uma coisa que me chateia, pá.
Como assinala Eric Hobsbawm em livro recentemente traduzido pela Relógio D’Água, Escritos sobre a História (e que aproveito para recomendar), após uma tendência secular decrescente ao longo de 150 anos, a barbárie tendeu a aumentar durante a maior parte do século XX, não havendo qualquer indício que nos sugira que o seu avanço tenha terminado, o que é uma forma erudita de dizer aquilo que foi igulamente notado pelo humorista Lewis Black (e que não me canso de citar): In my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants. Não querendo, porém, parecer demasiado pessimista, concluo com o amanhã sabe-se lá. Ou como terá dito Twain: Prediction is very difficult, especially about the future. E muito obrigada pelo convite. ADENDA: Os recentes desenvolvimentos do inesgotável, e parece que interminável, caso fripór, talvez pudessem servir para um post que, nos antípodas deste, se debruçasse sobre estratégias comunicacionais (aposto que adoras esta palavra, Pedro) não musculadas mas cândidas. E, a propósito de cândidas, alguém sabe da Cândida?
Aqui umas postas abaixo referi-me à atitude do Primeiro-Ministro sempre que confrontado com os vários escândalos que vêm rodeando a sua vida política. Exemplificando, remeti para artigo do jornal Expresso cujo título era “Sócrates diz-se alvo de mais um ataque pessoal”.
A recorrente estratégia de vitimização de José Sócrates conduziu-me a uma das regras básicas de propaganda: repetir muitas vezes a mesma coisa e, já agora, de preferência uma coisa simples. A prova da eficácia desta regra é que ainda hoje me lembro do OMO lava mais branco.
Vai daí citei Goebbels, um incontestável mestre na matéria. Um parênteses: o autor da frase transcrita (em inglês) não é, contudo, Goebbels mas sim o próprio Hitler.
E dado que um comentador do referido post, A. Teixeira, me fez notar, com razão, que naquela altura os políticos ainda não falavam todos em inglês (técnico ou não técnico) aqui deixo a citação no original, retirada do “Mein Kampf” (Primeira Parte, Capítulo VI): Aber alle Genialität der Aufmachung der Propaganda wird zu keinem Erfolge führen, wenn nicht ein fundamentaler Grundsatz immer gleich scharf berücksichtigt wird. Sie hat sich auf wenig zu beschränken und dieses ewig zu wiederholen. Die Beharrlichkeit ist hier wie bei so vielem auf der Welt die erste und wichtigste Voraussetzung zum Erfolg.
Confusão esclarecida, adiante.
Tomás Vasques resolveu linkar simpaticamente o meu post. Agradeço-lhe desde já o aumento significativo de visitas a este modesto tasco, mas houve uma confusão.
Diz Tomás: A Ana Cristina Leonardocompara José Sócrates a Goebbels, a propósito de uma recente declaração do primeiro-ministro. É uma comparação de efeito fácil. Tão fácil que me permite repetir: nada de novo no reino da propaganda. Portanto.
Ora eu não comparei Sócrates a Goebbels (dado o meu engano teria mesmo comparado Sócrates a Hitler). O que eu comparei foram estratégias propagandísticas. Naturalmente, não é a mesma coisa. E não os comparei, por duas razões. Primeiro e acima mesmo de tudo por evidente respeito pelas vítimas do nazismo. Segundo, porque como uma vez escreveu António Barreto também eu não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. Dito isto, um comentário final e dirigido pessoalmente ao Tomás. Ali no canto direito do blogue tenho uma frase que não é minha mas que se quiser citar, essa sim, resume mesmo ― mas mesmo mesmo ― o que eu penso de Sócrates (e de muitos outros). É do humorista judeu norte-americano Lewis Black e não me canso de repeti-la. Diz assim: In my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants.
Confesso: o credo realisticó-pragmático provoca-me apoplexia. Explicando-me melhor. Apesar de provavelmente deus nem sequer existir, entre o bispo George Berkeley e o agnóstico (?) José Sócrates não hesito: janto com o primeiro. Com ou sem temas fracturantes servidos à sobremesa. E digo mais. Entre a ditadura desta corja medíocre e os marcianos de Brown o meu par é o Luke Deveraux. Tornando a coisa absolutamente clara: I do have certain feelings. My feeling is that whoever is in charge, I want him out (Lewis Black). E chamem-me irrealista à vontade.
... in my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants, Lewis Black
Vou ser absolutamente pueril. E, sim, gosto de advérbios de modo. Ao invés, aborrece-me Sócrates, o primeiro-ministro. Tudo nele me aborrece. O curso, o inglês, as casas (ah, como me aborrecem as casas!), os livros que finge ter lido, os esgares, o perfil e os lugares-comuns, até os fatos me entediam de tão óbvios. E por falar em fatos abrevio: repugna-me a enfatuada ignorância. Citando de novo esse génio do humor que dá pelo nome de Lewis Black, José Sócrates é a prova de que o americano estava universalmente certo quando disse: In my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants. Da política tive eu, em pequenina, sem naturalmente o saber que não venho para aqui armar-me em génio, uma visão pré-maquiavélica. Resume-a muito bem J.M.Coetzee em Diário de um Mau Ano: A posição pré-maquiavélica era a da supremacia da lei moral. Se acontecesse a lei moral ser por vezes infringida, era uma infelicidade, mas no fim de contas os governantes eram apenas humanos. A nova posição, a maquiavélica, é que a infracção à lei moral se justifica quando necessária. De Maquiavel, que era esperto, fomos andando até chegarmos às plantas que, como é fácil entender mesmo sem ter lido Kant, escapam à lei moral. Um pragmatismo alucinado invadiu a política. A presente crise internacional, nascida disso mesmo, não teve como resultado nenhuma discussão séria. Comemos mais do mesmo. Não que eu me encontre ainda na fase anal pré-maquiavélica ou tenha qualquer ilusão sobre o «homem novo» (neste capítulo estou com o Viridiana do Buñuel). Apesar disso, as Luzes continuam a pestanejar a espaços no trapézio do meu cérebro, como diria Machado (e, já agora, diga-se que o título deste post também é do brasileiro). Tudo isto me foi gerundicamente ocorrendo (eu avisei que gosto de advérbios de modo), após ler estas declarações de José Sócrates a respeito do próximo ano, chamado pelo próprio (ou pelos assesores de agit-prop) o «cabo das tormentas»: É preciso agir sem ortodoxia e sem ideias feitas (...) É preciso estar com a mente aberta para responder aos problemas e não para responder às necessidades da nossa ideologia. Precisamos de ter mente aberta e não ficarmos reféns da ideologia ou das respostas clássicas, porque problemas novos exigem respostas novas.
Ou seja, e sem lembrar agora a frase de Richard Dawkins: There's this thing called being so open-minded your brains drop out. Ou lembrando-a. Pronto. Esqueçamo-nos por uns segundos que o iluminado engenheiro se refere à actual crise. Façamos de conta que fala durante os heróicos tempos do boom financeiro que acabou como se sabe. Sublinhem-se as diferenças. Zero! Ideias novas? Zero. O mesmo ódio ao pensamento (entendido pejorativamente como "respostas clássicas"), a mesma crença no fim das ideologias (depois ― ou antes? ― foi ― ou fora? ― o fim da História), o mesmo credo pragmático. O paleio é decalcadinho... como decalcadinho de outras matrizes se mostra o paleio de Alegre. É o cabo das tormentas: estamos entregues às plantas.
1. O líder do PS e primeiro-ministro José Sócrates durante uma sessão de demonstração da Bimby ― perdão, Magalhães ― em San Salvador: «Os meus assessores usam diariamente o Magalhães e não precisam de mais nada». 2. A líder do PSD e, presume-se, candidata a primeiro-ministro Manuela Ferreira Leite sobre as obras públicas e o combate ao desemprego: «(...) de Cabo Verde [e] da Ucrânia, isso ajudam. Ao desemprego de Portugal, duvido» 3. O humorista Lewis Black sobre as qualidades evolutivas dos políticos: «In my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants» Ou seja, sou mesmo eu.