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28/01/14
Hugo Soares, a criança velha
Não verga, diz ele. A frase, para começo de conversa, denuncia um total desconhecimento da sabedoria oriental. Não é com efeito necessário ter alcançado o nirvana para saber que tudo o que não verga parte. É essa a lição dos mestres, é essa a lição do bambu: durante uma borrasca, o bambu inclina-se à passagem do vento. E o que é que aconteceu a semana passada na Assembleia da República se não um vendaval? Choveram declarações de voto: sim era afinal não. “The key word here is blackwhite”, como diria Orwell. (E o que torna tudo isto um bocadinho mais desinteressante é Orwell já o ter dito antes: “Aplicada a um membro do Partido, significa uma leal disposição para dizer que o preto é branco quando a disciplina do Partido assim o exige...”). Nada de novo debaixo do sol, portanto, descontadas as famílias concretas, as crianças concretas, que a nova lei viria proteger. Ah, o superior interesse da criança!
Deduzo, pois, e creio que sensatamente à luz das preocupações expressas por Hugo Soares com os rebentos alheios, que é do superior interesse da criança ser retirada à família e enviada sei lá, não para a Sibéria que cá não temos disso, mas para uma instituição ou para junto de parentes distantes (mesmo sem os conhecer de lado nenhum), decerto a melhor forma de garantir a “preservação das suas ligações psicológicas profundas, nomeadamente no que concerne à continuidade das relações afectivas”, para citar algo que até um deputado obtuso conseguirá entender. Neste particular, creio, estamos conversados.
Ainda assim ele não verga. Ele, Hugo Soares, não verga. E, como um batoteiro de Casino, faz uma “aposta tardia”, enquanto o seu Partido, parceiro do jogo, distrai o croupier. Aposta no Referendo, o número vencedor da indecente roleta em que se converteu o superior interesse da criança. Estaremos perante o caso típico de alguém que nos tenta convencer que o Manuel Germano se confunde com o género humano. A demagogia é coisa antiga. Antiga e eficaz. Mas até a demagogia tem de aparentar certa decência. Deixar crianças concretas desamparadas não é decente. Assim se explicará o desconforto e a chuva de declarações de voto. O que me conduz à regra de ouro das “Leis Fundamentais da Estupidez Humana” enunciadas por Carlo Cipolla: “Uma pessoa estúpida é aquela que causa um dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo até vir a sofrer um prejuízo.”
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