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04/07/08

E quanto a budismos mal-amanhados ficamos conversados

«(...) Como aquela mulher, amorzinho, que me escreveu uma carta há uns tempos, a dizer-me, imagina só, presta bem atenção:
"Tu não és o Jack Kerouac. O Jack Kerouac não existe. Ninguém escreveu os livros dele, sequer."
Apareceram de repente num computador, sem mais nem menos, eis o que ela provavelmente pensa, foram programados, meia dúzia de sociólogos loucos, com grandes óculos e cabeça em forma de ovo introduziram no computador uma amálgama de informações confusas e depois a máquina cuspiu o manuscrito completo, todo muito bem dactilografado a dois espaços, e então o tipógrafo contratado pelo editor limitou-se a compor o livro e o encadernador limitou-se a encaderná-lo e o editor distribui-o pelas livrarias, com a respectiva capa e a contracapa repleta de elogios rasgados, tudo isto para que o tal inexistente «Jack Kerouac» pudesse não somente receber um cheque de direitos de autor do Japão no valor de dois dólares, mas também a carta desta mulher.
Pois bem, David Hume foi um grande filósofo e Buda tinha razão, numa perspectiva de eternidade, mas isto já passa um bocadinho das marcas. É claro que o meu corpo não passa de um campo electromagnético e gravitacional, como aquela mesa acolá, e é claro que o espírito é efectivamente inexistente, no sentido que lhe davam os antigos mestres do Dharma, como Hui-Neng; mas, por outro lado, será possível que a ignorância de um idiota prive alguém de ser quem é?»
Jack Kerouac, Duluoz, o Vaidoso, Relógio D'Água, trad. Paulo Faria, 2008

18/08/07