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21/01/12
29/01/10
A perfect day for bananafish
Morreu J.D.Salinger (1-1-1919/28-1-2009), o escritor que de si próprio disse: "I am a kind of paranoid in reverse. I suspect people of plotting to make me happy."A propósito: "A Perfect Day for Bananafish", originalmente publicado em 1948 e incluído no seu livro Nine Stories (com tradução em português), é um dos contos mais perfeitos do mundo.
01/02/09
A book a day keeps the doctor away
«O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que não sabia bem ao certo se acabava de deixar o Exército ou um asilo psiquiátrico», explica J. M. G. Le Clézio no intróito a este romance antigo, o primeiro, que lhe valeria o Prémio Renaudot de 1963, anterior, portanto, aos Índios, ao México e aos desertos. Recentemente reeditado, reli-o também agora, para confirmar o que sabia: é um belíssimo romance. E se me pedissem que o abreviasse em três penadas – o que, de facto, me pediram – acrescentaria à descrição do próprio: O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que se pôs um dia a perseguir um cão. Era esta a imagem que tinha; é a imagem que perdura.Cão e homem invertem às tantas os papéis, e nesse quadro bizarro avesso à normalidade está tudo o que de mais radical trespassa a obra deste francês maurício: uma visão do real que enfrenta corajosamente os paradoxos e que escapa a todo e qualquer maniqueísmo – o humano, não como categoria transcendente à matéria, mas o humano inscrito absolutamente na matéria. Aquilo que Paul Valéry terá deixado antever quando escreveu, «Le plus profond c’est la peau».
Assim, a denúncia do materialismo, da solidão das cidades, do excesso de ruído, do consumismo sem freio, a que muitos insistem em reduzir a obra de Le Clézio, é um tiro aquém e pueril, pois que foi também ele quem disse nesse ensaio extraordinário, L’Extase materielle: «O corpo é vida, o espírito é morte. A matéria é ser, o intelecto nada».
Trata-se, pois – como se intui, desde logo, nesta narrativa de estreia –, de nos religar à matéria, telúrica, primeva (Herberto Helder traduziu-o, não certamente por acaso…), como bem se expressa neste diálogo que transcrevo:
«"Adão, fazes-me medo assim nessa posição, não te mexes, não respiras, dir-se-ia um cadáver…”
«“Idiota!”, respondeu Adão, “interromper a minha contemplação! Agora acabou-se, seria preciso recomeçar tudo desde o princípio.”
«“Recomeçar o quê?”
“Nada, nada… Não te posso explicar. Tinha já chegado ao vegetal… Aos musgos, aos líquenes… Estava pertíssimo das bactérias e dos fósseis. Não te posso explicar.”».
E seria com certeza interessante, à luz disto, comparar o jovem Adão em fuga com o desassossegado Holden Caulfield, desse outro inclassificável que dá pelo nome de Salinger.
O Processo de Adão Pollo, J.M.G.Le Clézio, Europa-América, 2008
26/09/07
LIVROS QUE NOS RECONCILIAM COM O MUNDO - excerto
J.D. Salinger, (começo de) Carpinteiros, Levantei Alto o Pau de Fileira e Seymour: Uma Introdução, Difel, 2006Certa noite, há uns vinte anos, durante uma epidemia de papeira na nossa enorme família, a minha irmã mais nova, Fanny, foi levada, com berço e tudo, para o quarto ostensivamente livre de germes que eu partilhava com o meu irmão mais velho, Seymour. Eu tinha quinze anos, Seymour dezassete. Aí por volta das duas da manhã, fui acordado pelo choro da nova colega de quarto. Deixei-me ficar numa posição imóvel e neutra durante uns minutos, a ouvir o chinfrim, até que ouvi, ou senti, Seymour a mexer-se na cama ao lado da minha. Naquele tempo, tínhamos sempre uma lanterna na mesa-de-cabeceira entre as camas, para emergências que, tanto quanto me lembro, nunca ocorreram. Seymour acendeu-a e levantou-se. «A mãe disse que o biberão estava em cima do fogão», disse eu. «Já lho dei há bocado», disse Seymour. «Não é fome.» Dirigiu-se no escuro para a estante e passou a luz da lanterna pelas prateleiras de um lado para o outro. Sentei-me na cama. «Que estás a fazer?», disse eu. «Acho que lhe vou ler qualquer coisa», disse Seymour, pegando num livro. «Ela tem dez meses, caraças», disse eu. «Eu sei», disse Seymour. «Eles têm ouvidos. Podem ouvir.»
A história que Seymour leu a Fanny nessa noite, à luz da lanterna de bolso, era uma das suas favoritas, um conto taoísta. Ainda hoje, a Fanny jura que se lembra de Seymour lha ter lido:
O Duque Mu de Chin disse a Po Lo: «Estás agora com uma idade avançada. Há algum membro da tua família que eu possa mandar escolher cavalos em vez de ti?» Po Lo respondeu: «Um bom cavalo pode ser escolhido pela sua constituição e aparência geral. Mas o cavalo excepcional - que não levanta poeira e não deixa marcas - tem alguma coisa de evanescente e elusivo como o ar impalpável. Os talentos dos meus filhos estão muito abaixo disso; são capazes de reconhecer um bom cavalo quando o vêem, mas não um cavalo excepcional. Mas tenho um amigo, um certo Chiu-fang Kao, feirante de carvão e hortaliça, que, no que toca a cavalos, não me fica de modo nenhum atrás. Peço-te que o vás ver.»
O Duque Mu assim fez, e de seguida mandou Chiu-fang Kao em busca de um corcel. Daí a três meses, voltou com a notícia de que encontrara um. «Está agora em Shach'iu», acrescentou. «Como é o cavalo?», perguntou o Duque. «Ah, é uma égua de pêlo castanho-escuro», foi a resposta. Porém, quando alguém foi buscar o cavalo, viu-se que se tratava de um garanhão preto como o carvão! Muito desagradado, o Duque mandou chamar Lo Po. «Aquele teu amigo», disse ele, «que encarreguei de encontrar um cavalo, saiu-se com uma bela trapalhada. Vê lá que nem sequer sabe distinguir a cor ou o sexo do animal! Que raio sabe ele de cavalos?» Lo Po soltou um suspiro de satisfação. «Chegou realmente a tal ponto?», exclamou. «Ah, então vale dez mil como eu, todos juntos. Não há comparação entre nós. O que Kao tem em vista é o mecanismo espiritual. Ao assegurar-se do essencial, esquece os pormenores comuns; atento às qualidades interiores, não presta atenção às exteriores. Vê o que quer ver, e não o que não quer ver. Atenta nas coisas que quer observar, e descuida as que não exigem atenção. Um bom juiz de cavalos como Kao tem em si capacidades para julgar algo melhor do que cavalos.»
Quando o cavalo chegou, verificou-se que era realmente um animal excepcional.
Reproduzi aqui o conto não só porque invariavelmente sou capaz de tudo e mais alguma coisa para recomendar uma boa chupeta em prosa a pais ou irmãos mais velhos de bebés de dez meses, mas também por uma razão muito diferente. (...)
A história que Seymour leu a Fanny nessa noite, à luz da lanterna de bolso, era uma das suas favoritas, um conto taoísta. Ainda hoje, a Fanny jura que se lembra de Seymour lha ter lido:
O Duque Mu de Chin disse a Po Lo: «Estás agora com uma idade avançada. Há algum membro da tua família que eu possa mandar escolher cavalos em vez de ti?» Po Lo respondeu: «Um bom cavalo pode ser escolhido pela sua constituição e aparência geral. Mas o cavalo excepcional - que não levanta poeira e não deixa marcas - tem alguma coisa de evanescente e elusivo como o ar impalpável. Os talentos dos meus filhos estão muito abaixo disso; são capazes de reconhecer um bom cavalo quando o vêem, mas não um cavalo excepcional. Mas tenho um amigo, um certo Chiu-fang Kao, feirante de carvão e hortaliça, que, no que toca a cavalos, não me fica de modo nenhum atrás. Peço-te que o vás ver.»
O Duque Mu assim fez, e de seguida mandou Chiu-fang Kao em busca de um corcel. Daí a três meses, voltou com a notícia de que encontrara um. «Está agora em Shach'iu», acrescentou. «Como é o cavalo?», perguntou o Duque. «Ah, é uma égua de pêlo castanho-escuro», foi a resposta. Porém, quando alguém foi buscar o cavalo, viu-se que se tratava de um garanhão preto como o carvão! Muito desagradado, o Duque mandou chamar Lo Po. «Aquele teu amigo», disse ele, «que encarreguei de encontrar um cavalo, saiu-se com uma bela trapalhada. Vê lá que nem sequer sabe distinguir a cor ou o sexo do animal! Que raio sabe ele de cavalos?» Lo Po soltou um suspiro de satisfação. «Chegou realmente a tal ponto?», exclamou. «Ah, então vale dez mil como eu, todos juntos. Não há comparação entre nós. O que Kao tem em vista é o mecanismo espiritual. Ao assegurar-se do essencial, esquece os pormenores comuns; atento às qualidades interiores, não presta atenção às exteriores. Vê o que quer ver, e não o que não quer ver. Atenta nas coisas que quer observar, e descuida as que não exigem atenção. Um bom juiz de cavalos como Kao tem em si capacidades para julgar algo melhor do que cavalos.»
Quando o cavalo chegou, verificou-se que era realmente um animal excepcional.
Reproduzi aqui o conto não só porque invariavelmente sou capaz de tudo e mais alguma coisa para recomendar uma boa chupeta em prosa a pais ou irmãos mais velhos de bebés de dez meses, mas também por uma razão muito diferente. (...)
30/07/07
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