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07/08/10

A propósito do beirão honesto eis porque prefiro os escritores aos políticos ou seja a coisa está sempre nos pormenores

Escrevo isto depois de ver na SIC uma longa entrevista com o procurador-geral da República, Fernando Pinto Monteiro. De várias coisas que retive do que fui ouvindo, deixo aqui duas…
Primeira, a questão de a justiça ser igual para todos, ou seja, os criminosos, independentemente de serem ricos ou pobres, influentes ou não, mais ou menos conhecidos, devem ter um tratamento igual; sabe-se que as coisas não funcionam exactamente assim por cá, mas saúda-se as boas intenções do procurador.
Segunda coisa, o telemóvel. Não a questão das escutas, mas uma confissão que me pareceu absolutamente despropositada (deu-me a ideia de que feita sem perceber o quanto significavam as suas palavras entremeadas com um sorriso disfarçado de quem acha que foi mais esperto do que os outros).
Na parte em que foi entrevistado na aldeia natal (Porto de Ovelha), Pinto Monteiro disse que era por causa dele que lá havia rede de telemóvel. Uma gentileza que a TMN teve para com ele, conforme explicou (a entrevistadora, Conceição Lino, achou graça).
Deve-lhe dar muito jeito, ao procurador, pois vai a Porto de Ovelha todos aos anos, cinco ou seis dias no Verão e ainda na altura do Natal, havendo também anos em que vai na Páscoa. Imagine-se se a Procuradoria-Geral da nossa República ficasse em Porto de Ovelha, imagine-se aquilo que não haveriam de instalar na aldeia…
Eu também gostava que a TMN — o meu operador — tivesse a mesma atenção comigo, e nem é na zona para onde vou uns quantos dias por ano. Não, é mesmo onde moro, o ano todo.
Se pudessem trazer até aqui a rede, apesar de eu não ser procurador-geral de nada, eu agradecia. Já que para os crimes somos todos iguais (custa-me a acreditar, mas enfim…), para a rede de telemóvel não faria sentido que também o fôssemos?
António Manuel Venda, aqui

07/06/10

A book a day keeps the doctor away: "O Sorriso Enigmático do Javali", António Manuel Venda

Vagar é a palavra. É ela que nos ocorre ao percorrermos estas doze histórias de António Manuel Venda. Doze como os meses do ano, doze como as horas diurnas e doze como as horas nocturnas. E podia até ser um livro de horas, “O Sorriso Enigmático do Javali”. Cada história uma iluminura, cada ilustração um desenho naturalista, em todas se insinuando — apenas se insinuando — elementos encantatórios. Nada de cobras aladas, águias guerreiras ou gatos embruxados. Ao mistério basta-lhe o mundo natural, ele próprio e por si próprio um enigma a requerer atenção.
Epifania que se desenrola sem alarde sob o olhar pasmado e interrogativo do pequeno Tukie, a criança que une as narrativas, símbolo de uma inocência que se deixa fascinar — e consigo nos fascina — pelas mutações inesperadas que tomam conta do seu universo: javalis que riem, águias que podiam ser bombas, gatos que ressuscitam, lebres que enganam tolos, texugos que parecem cães…
“O Sorriso Enigmático do Javali” é um livro que nos recorda a frase de Sagan, “somos filhos das estrelas”, reconciliando-nos com uma natureza cada vez mais distante, mas que pulsa ainda na “Herdade do Convento” onde Tukie tem a felicidade de poder viver com o pai, a mãe e uma irmã bebé.
Narrativa em redondo, na qual cada episódio se fecha num anticlímax que dá lugar a outro, o mais recente livro de António Manuel Venda soube furtar-se com inteligência às fantasias de efeito fácil e às pedagogias de fácil efeito (um reparo: seriam dispensáveis as incursões políticas cujas mensagens, na minha opinião, apenas poluem o texto). O livro vai-se desenrolando como se nada acontecesse — a acção é sem efeitos especiais, com excepção, talvez, do deputado a quem faltava um bocado de cabeça — e, ainda assim, permite-nos descobrir um mundo febril e imprevisível que se agita sob a aparente calma. A escrita de António Manuel Venda acompanha-o sem alarde, usando-a o escritor com recato e parcimónia, sem nunca se pôr em bicos de pés, o que com certeza afugentaria os elementos que compõem o livro, a exigirem silêncio e discrição.
O Sorriso Enigmático do Javali, António Manuel Venda, Quetzal, 2010