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07/10/10
08/12/07
Os Bestsellers São apenas isso: Bestsellers. Sobra a Questão Encombrante de Saber quanto Espaço Ocupam
Ser ou não ser literatura, eis a questão. O dilema impõe-se, tanto mais que as letras se subtraem ao rigor logarítmico de uma escala de Richter, por exemplo. Claro que seria sempre possível submetê-las a uma grelha cujas variações se situassem, como em Mercalli, entre os graus qualitativos «muito fraco» e «catastrófico». Ainda assim. Literariamente falando, a que corresponderia, digamos, o grau X, o «desatroso», aquele que exige que a maior parte dos edifícios e suas fundações sejam destruídos, assim como pontes e barragens, já para não falar de águas enlouquecidas, rasgões no solo e linhas de comboio entortadas? Somos obrigados a reconhecer que, pelo menos esta última condição, dificilmente se aplicará à literatura. Resumindo: por muito mau que um livro seja, ele não provoca terramotos (mesmo quando é Pulido Valente a criticá-lo).
O leitor pensará que estamos a ser irónicos (talvez, um bocadinho...), mas a verdade é que este é um problema tramado. Como definir esse indefinível «je ne sais quoi» que tanto explica a obra literária como a beleza do nariz de Cleópatra?
Fazemos aqui um desvio porque é impossível resistir a Pascal: «A causa [do amor] é um je ne sais quoi (Corneille) e os efeitos são espantosos. Esse je ne sais quoi, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro. Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado» (Pensamentos, frag. 162). Os romances, ao contrário do nariz de Cleópatra, não mudam a face da terra. Por muito boas que sejam as intenções dos autores. Sobre isto, André Gide proferiu a tal frase assassina: «É com bons sentimentos que se faz má literatura». Será injusta, mas só muito, muito raramente.
O jornalista da RTP José Rodrigues dos Santos publicou o seu quinto romance. A curiosidade levou-me e lê-lo. A curiosidade matou o gato. E é com pena que confesso: O Sétimo Selo foi uma desilusão.
Explico o «com pena». Precisamente por ser de opinião que nenhuma escala é aplicável, sem risco, à literatura, não sou dos que acham que só a intensidade de grau XII merece a pena. Entre Raúl Brandão e Lídia Jorge existe um mundo. Claro que o título era suspeito. Sobretudo após a vaga requentada de new age trazida por Dan Brown e que apenas serviu para dar razão a G. K. Chesterton: «Quando os homens já não acreditam em Deus, isso não se deve ao facto de não acreditarem em nada mas sim ao facto de acreditarem em tudo».
Esclareça-se. José Rodrigues dos Santos não joga propriamente nesse campeonato; os esoterismos não são sequer a sua «cup of tea». Indo directa ao assunto: de que trata, então, O Sétimo Selo? Bom, de dois assuntos estridentes: petróleo e aquecimento global.
Tomás de Noronha (historiador português, perito em criptanálise e línguas mortas) vê-se envolvido numa estranha aventura que começa quando um cientista é morto na Antárctida, logo após ter confirmado que a plataforma de gelo Larson-B se tornara mais esburacada do que um queijo suíco. Ao lado do corpo, uma mensagem que Noronha é chamado a decifrar pela Interpol: «666», o número da Besta.
Fazemos aqui um desvio porque é impossível resistir a Pascal: «A causa [do amor] é um je ne sais quoi (Corneille) e os efeitos são espantosos. Esse je ne sais quoi, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro. Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado» (Pensamentos, frag. 162). Os romances, ao contrário do nariz de Cleópatra, não mudam a face da terra. Por muito boas que sejam as intenções dos autores. Sobre isto, André Gide proferiu a tal frase assassina: «É com bons sentimentos que se faz má literatura». Será injusta, mas só muito, muito raramente.
O jornalista da RTP José Rodrigues dos Santos publicou o seu quinto romance. A curiosidade levou-me e lê-lo. A curiosidade matou o gato. E é com pena que confesso: O Sétimo Selo foi uma desilusão.
Explico o «com pena». Precisamente por ser de opinião que nenhuma escala é aplicável, sem risco, à literatura, não sou dos que acham que só a intensidade de grau XII merece a pena. Entre Raúl Brandão e Lídia Jorge existe um mundo. Claro que o título era suspeito. Sobretudo após a vaga requentada de new age trazida por Dan Brown e que apenas serviu para dar razão a G. K. Chesterton: «Quando os homens já não acreditam em Deus, isso não se deve ao facto de não acreditarem em nada mas sim ao facto de acreditarem em tudo».
Esclareça-se. José Rodrigues dos Santos não joga propriamente nesse campeonato; os esoterismos não são sequer a sua «cup of tea». Indo directa ao assunto: de que trata, então, O Sétimo Selo? Bom, de dois assuntos estridentes: petróleo e aquecimento global.
Tomás de Noronha (historiador português, perito em criptanálise e línguas mortas) vê-se envolvido numa estranha aventura que começa quando um cientista é morto na Antárctida, logo após ter confirmado que a plataforma de gelo Larson-B se tornara mais esburacada do que um queijo suíco. Ao lado do corpo, uma mensagem que Noronha é chamado a decifrar pela Interpol: «666», o número da Besta.
Depois disto, andamos com ele num corropio planetário, com início na pacata Coimbra, cidade onde a mãe do herói definha num lar, pretexto que serve para coser, sem felicidade, o tema da velhice no romance. Ao longo da investigação, o historiador, que fora colega de liceu de um dos suspeitos do crime, irá tomar contacto com a catástrofe (energética) iminente e os meios de a conjurar.
Naturalmente, a vertente pedagógica do livro atravessa-o do princípio ao fim (o autor agradece, aliás, a especialistas de várias áreas). Disso não viria mal ao mundo (apesar de, ao contrário do que se conclui, o conceito de aquecimento global por acção humana não merecer a unanimidade científica – e os que o negam não estão todos a soldo das petrolíferas!).
O mal está em que para romance falta-lhe o sal do «je ne sais quoi» (a pitada de «666» é demasiado insonsa). Para livro científico, faltam-lhe as credenciais. Salva-se o primeiro capítulo, cuja leitura nos recorda, a espaços, as saudosas aventuras de Blake e Mortimer assinadas por E. P. Jacobs. «Damned!». É muito pouco.
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