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13/03/09

Em memória do João Mesquita que bem merece

Dois directores de jornais de referência, o José Manuel Fernandes e o Henrique Monteiro, Público e Expresso, respectivamente, acabam de fazer o elogio fúnebre do João Mesquita.
Zé Manel Fernandes começa o seu o texto assim:
Quanto a Henrique Monteiro abre assim:
Não vou perder tempo a sublinhar as preocupções de distanciamento ideológico presentes nos dois textos. Também não vou perder tempo com as evocações de amizade. Nem sequer com os encómios ao carácter. Vou só lembrar isto.
Zé Manel Fernandes e Henrique Monteiro são ambos directores de jornais. O jornalista João Mesquita estava desempregado desde 2003. E é tudo.

12/03/09

Minha Cabeça estremece com todo o esquecimento

Soube através de um post no 5 Dias que o João Mesquita tinha morrido. Não via o João Mesquita desde finais de Setembro, e antes disso estive muitos anos sem vê-lo. De vez em quando cruzava-me com alguém que tinha estado com ele, e eu invariavelmente rematava a conversa com um “gosto tanto do Mesquita!” Não me perguntem porquê.
Para mim, o João Mesquita faz parte de um tempo antigo, anterior ao 25 de Abril, em que éramos ambos estudantes e estudantes do MAEESL e eu por vezes dormia na sonora de Ciências. Já então gostava dele. Continuei assim anos fora e acho que na verdade consigo explicar porquê.
Dão-me sempre vontade de rir as classificações de A ou B, porque vindo daqui ou de acolá, politicamente falando. É verdade que a extrema-esquerda, opinião e experiência minhas, possuía um superavit sobre a oposição do costume, que lhe viria provavelmente da sua juventude e daquilo a que então se chamava “falta de consciência de classe”. Mas mesmo na extrema-esquerda nem todos andavam ao mesmo (como se comprova pelos cargos de poder ocupados hoje por tantos…).
João Mesquita sempre me pareceu daqueles a quem o poder não dá cócegas. Seria por isso que gostava dele, enquanto com outros partilhava apenas a barricada sem lhes dedicar grande afecto, um conceito que na altura, aliás, não era para ali chamado.
Vai parecer estúpido, e é estúpido com certeza, mas o que recordo mais do João é o seu tique de esfregar o nariz e o bigode passeando depois a mão pelo franja do cabelo muito escuro e muito liso, um gesto que vá-se lá saber sempre associei a origens proletárias, até que muito mais tarde soube que era filho de juiz.
Também me lembro da voz – “Camaradas!” – a perna apoiada numa cadeira e o corpo magro inclinado para a frente, discursando em reuniões de que ninguém já se lembrará bem dos temas, para aí entre a preparação de uma greve e as lições do Enver Hodja.
Eu gostava do Mesquita. Teso. Teimoso. Secretamente apaixonado pela namorada do chefe, franzino no meio dos tipos do Passos Manuel que jogavam basketball e faziam uns três dele.
Depois foi jornalista, chegou a presidente do Sindicato e outras coisas importantes. Acabou por se incompatibilizar com o poder, como lhe estaria nos genes. Morreu hoje. Tinha um nome até pomposo: João Bernardo Bigotte da Costa de Mesquita. Para mim será sempre o João Mesquita do Passos.