31/05/13
23/05/13
08/04/12
Do Camões ao valter passando pelo Herberto [descubra as diferenças]
08/09/11
A Parábola da Agulha (que para o eduquês já demos)
Longe de mim ter teorias sobre educação. Há poucas coisas, aliás, sobre as quais tenha teorias, apesar de Platão ser o meu pensador preferido pelo menos desde 1978, salvo erro, ano em que conclui que a sua Teoria das Ideias se podia resumir na boa a uma parábola contada algures por Herberto Helder.
Cito: “Levanto-me então da plateia e, por entre as metralhadoras esculpidas, conto de novo a parábola da agulha, que me obceca. Desentranhei-a de um velho manual. Trata-se de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa. Acorre então o jovem que pretende ajudá-la, e pergunta: Que procura? — Uma agulha. Caiu-me na cozinha. Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda. — Porque na cozinha está escuro — responde a mulher.”
Como presumo até os estudantes liceais de Filosofia saberão (supondo que ainda existam), na Caverna Platónica também fazia escuro p’ra caraças. Vai daí, o filósofo, que, como a mulher da parábola, nada tinha de parvo, foi à procura das Ideias noutro sítio.
Voltando à educação e ignorando os temas sindicais recorrentes – assunto sobre o qual “só sei que nada sei” –, o que eu gostaria mesmo era que alguém reflectisse a sério sobre isto: “Na geração que cresceu habituada às multitarefas, na era digital, os limites superiores da atenção no cérebro humano encontram-se em rápida expansão, algo que provavelmente levará à alteração de certos aspectos da consciência num futuro não muito distante, se tal não tiver já acontecido. Expandir a atenção traz vantagens óbvias, e as capacidades associativas geradas pelas multitarefas trazem vantagens espantosas; em contrapartida, poderá haver um custo em termos de aprendizagem, consolidação de memória e emoção. Não temos ainda ideia de qual poderá ser esse custo”, António Damásio, O Livro da Consciência.
Atendendo à dificuldade que há já em sentá-los (a que acresce a insistência na discussão estéril do “eduquês”), temo que o custo seja grande. E qualquer dia nem a agulha do Platão, perdão, do Herberto Helder, nos ajudará a encontrar o Norte.
14/11/09
Aos amigos
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder
01/02/09
A book a day keeps the doctor away
«O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que não sabia bem ao certo se acabava de deixar o Exército ou um asilo psiquiátrico», explica J. M. G. Le Clézio no intróito a este romance antigo, o primeiro, que lhe valeria o Prémio Renaudot de 1963, anterior, portanto, aos Índios, ao México e aos desertos. Recentemente reeditado, reli-o também agora, para confirmar o que sabia: é um belíssimo romance. E se me pedissem que o abreviasse em três penadas – o que, de facto, me pediram – acrescentaria à descrição do próprio: O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que se pôs um dia a perseguir um cão. Era esta a imagem que tinha; é a imagem que perdura.Cão e homem invertem às tantas os papéis, e nesse quadro bizarro avesso à normalidade está tudo o que de mais radical trespassa a obra deste francês maurício: uma visão do real que enfrenta corajosamente os paradoxos e que escapa a todo e qualquer maniqueísmo – o humano, não como categoria transcendente à matéria, mas o humano inscrito absolutamente na matéria. Aquilo que Paul Valéry terá deixado antever quando escreveu, «Le plus profond c’est la peau».
Assim, a denúncia do materialismo, da solidão das cidades, do excesso de ruído, do consumismo sem freio, a que muitos insistem em reduzir a obra de Le Clézio, é um tiro aquém e pueril, pois que foi também ele quem disse nesse ensaio extraordinário, L’Extase materielle: «O corpo é vida, o espírito é morte. A matéria é ser, o intelecto nada».
Trata-se, pois – como se intui, desde logo, nesta narrativa de estreia –, de nos religar à matéria, telúrica, primeva (Herberto Helder traduziu-o, não certamente por acaso…), como bem se expressa neste diálogo que transcrevo:
«"Adão, fazes-me medo assim nessa posição, não te mexes, não respiras, dir-se-ia um cadáver…”
«“Idiota!”, respondeu Adão, “interromper a minha contemplação! Agora acabou-se, seria preciso recomeçar tudo desde o princípio.”
«“Recomeçar o quê?”
“Nada, nada… Não te posso explicar. Tinha já chegado ao vegetal… Aos musgos, aos líquenes… Estava pertíssimo das bactérias e dos fósseis. Não te posso explicar.”».
E seria com certeza interessante, à luz disto, comparar o jovem Adão em fuga com o desassossegado Holden Caulfield, desse outro inclassificável que dá pelo nome de Salinger.
O Processo de Adão Pollo, J.M.G.Le Clézio, Europa-América, 2008
24/11/08
Aniversário de Herberto Helder (foi ontem)
se do fundo da garganta aos dentes a areia do teu nome,05/10/08
Herberto, o desejado

Engoli
água. Profundamente: - a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
- O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentados na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.
Herberto Helder, A faca não corta o fogo, Assírio & Alvim, 2008
[roubado cerimoniosamente ao Miguel]
22/09/08
Excerto de «Iniji», poema que nunca foi um inédito de Herberto Helder
[…]Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpo
um corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo
Fluidos, fluidos
tudo o que passa
passa sem parar
passa
Ariadne mais fina que o seu fio
não consegue reencontrar-se
[…]
Este coração já se não entende com os corações este coração
não reconhece ninguém na turba dos corações
Corações cheios de gritos, de ruídos,
de bandeiras
este coração não é desenvolto com estes corações
este coração esconde-se destes corações
este coração não se compraz com estes corações
Oh cortinas, cortinas e ninguém vê Iniji
Stella, Stella constelada
Já te não levantas para mim, Aurora
Tão pesados
tão pesados
tão taciturnos seus monumentos
tão impérios, tão quadriláteros
tão esmagadores bárbaros, tão vociferantes,
e nós tão nenúfar
tão espiga ao vento
tão longe do cortejo
tão mal na cerimónia
tão pouco da nossa idade e tanto a passear
tão farinha
tão peneirada
e sempre na peneira
asas de morcego
batendo sempre contra a cara
[…]
Henri Michaux, Iniji, versão de Herberto Helder in As Magias, Assírio & Alvim, 1988
Retrato de Herberto Helder por José Rodrigues
26/11/07
Enquanto Pulido Valente desanca em Sousa Tavares...
A Gradiva acaba de publicar o livro do cientista Filipe Duarte Santos Que Futuro? Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento e Ambiente. Não li, logo, não tenho opinião (e se há livros que não precisam de ser lidos para opinarmos sobre eles, outros há que obrigam mesmo à leitura). 14/10/07
Do Fraco Consolo da Poesia
Não há quarto segredo, Bento XVI não virá a Fátima e Pedro Santana Lopes não falou.23/08/07
PENSAMENTO RECONFORTANTE ANTES DE IR PARA A CAMA
09/08/07
TrES-4
Deram-lhe o nome obtuso de TrES-4 e é, até agora, o maior planeta conhecido do Universo: 20 vezes a superfície da Terra, está a uma distância de 1 400 anos-luz. «Provavelmente não possuí superfície firme e afundar-nos-íamos nele», referiu um dos cientistas ligado à descoberta. E, vá-se lá saber porquê, perante tão extraordinária coisa veio-me à cabeça Herberto Helder: EM REDE
- 2 dedos de conversa
- A balada do café triste
- A causa foi modificada
- A cidade das mulheres
- A curva da estrada
- A dança da solidão
- A rendição da luz
- A revolta
- A terceira via
- A única real tradição viva
- Abrasivo
- Agricabaz
- Agua lisa
- Albergue espanhol
- Ali_se
- Amor e outros desastres
- Anabela Magalhães
- Anjo inútil
- Antologia do esquecimento
- Arrastão
- As escolhas do beijokense
- As folhas ardem
- Aspirina B
- ayapaexpress
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