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08/04/12

Do Camões ao valter passando pelo Herberto [descubra as diferenças]

Os escrevedores que me perdoem mas talento é fundamental.
É preciso que haja um barco bêbedo, um erro de gramática, uma mulher de quem se possa dizer: Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis (ou então que a mão confesse com lucidez etílica: no se puede vivir sin amor). É preciso que o sentimento não se dirija ao coração mole das pessoas sensíveis que não são capazes/ de matar galinhas...
É preciso lembrar Wilde: “A sentimentalist is simply one who desires to have the luxury of an emotion without paying for it”.
É preciso que o artificio não mate o pacto narrativo e que o lirismo não desculpe os “cagalhões líricos que por aí andam, passeiam e triunfam”.
Talento é fundamental (não confundir a sordidez de Celine com a vulgaridade de Houellebecq).
Mundo é fundamental (não confundir ter mundo com descargas confessionais).
Imaginação, precisa-se. Distanciamento, exige-se. Oficina, idem mas sem oferta de garantia (“o estilo é uma dificuldade de expressão”). Quanto ao que faz a coisa literária, permanece um “je ne sais quoi” cuja receita é tão ou mais secreta do que a dos pasteis de Belém.
O maior mistério, contudo, é escrever-se “valter hugo mãe” no Google e em poucos segundos surgirem 468 mil referências e fazer o mesmo para Herberto Helder e não se ir além das 77 700.
Lê-se a poética do primeiro (“… algo em ti me puxa/ sempre ao sentimento, mesmo antes de/ te conhecer, lembras-te, uma propensão para/ te tratar bem, cuidar, vulnerabilizar os meus/ modos…”), depois o segundo (“Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela/ encantarei a noite…”) e só Camões nos impede de cortar os pulsos: UM MILHÃO E VINTE MIL entradas.

08/09/11

A Parábola da Agulha (que para o eduquês já demos)

Longe de mim ter teorias sobre educação. Há poucas coisas, aliás, sobre as quais tenha teorias, apesar de Platão ser o meu pensador preferido pelo menos desde 1978, salvo erro, ano em que conclui que a sua Teoria das Ideias se podia resumir na boa a uma parábola contada algures por Herberto Helder.

Cito: “Levanto-me então da plateia e, por entre as metralhadoras esculpidas, conto de novo a parábola da agulha, que me obceca. Desentranhei-a de um velho manual. Trata-se de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa. Acorre então o jovem que pretende ajudá-la, e pergunta: Que procura? — Uma agulha. Caiu-me na cozinha. Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda. — Porque na cozinha está escuro — responde a mulher.”

Como presumo até os estudantes liceais de Filosofia saberão (supondo que ainda existam), na Caverna Platónica também fazia escuro p’ra caraças. Vai daí, o filósofo, que, como a mulher da parábola, nada tinha de parvo, foi à procura das Ideias noutro sítio.

Voltando à educação e ignorando os temas sindicais recorrentes – assunto sobre o qual “só sei que nada sei” –, o que eu gostaria mesmo era que alguém reflectisse a sério sobre isto: “Na geração que cresceu habituada às multitarefas, na era digital, os limites superiores da atenção no cérebro humano encontram-se em rápida expansão, algo que provavelmente levará à alteração de certos aspectos da consciência num futuro não muito distante, se tal não tiver já acontecido. Expandir a atenção traz vantagens óbvias, e as capacidades associativas geradas pelas multitarefas trazem vantagens espantosas; em contrapartida, poderá haver um custo em termos de aprendizagem, consolidação de memória e emoção. Não temos ainda ideia de qual poderá ser esse custo”, António Damásio, O Livro da Consciência.

Atendendo à dificuldade que há já em sentá-los (a que acresce a insistência na discussão estéril do “eduquês”), temo que o custo seja grande. E qualquer dia nem a agulha do Platão, perdão, do Herberto Helder, nos ajudará a encontrar o Norte.

14/11/09

Aos amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder

01/02/09

A book a day keeps the doctor away

«O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que não sabia bem ao certo se acabava de deixar o Exército ou um asilo psiquiátrico», explica J. M. G. Le Clézio no intróito a este romance antigo, o primeiro, que lhe valeria o Prémio Renaudot de 1963, anterior, portanto, aos Índios, ao México e aos desertos. Recentemente reeditado, reli-o também agora, para confirmar o que sabia: é um belíssimo romance. E se me pedissem que o abreviasse em três penadas – o que, de facto, me pediram – acrescentaria à descrição do próprio: O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que se pôs um dia a perseguir um cão. Era esta a imagem que tinha; é a imagem que perdura.
Cão e homem invertem às tantas os papéis, e nesse quadro bizarro avesso à normalidade está tudo o que de mais radical trespassa a obra deste francês maurício: uma visão do real que enfrenta corajosamente os paradoxos e que escapa a todo e qualquer maniqueísmo – o humano, não como categoria transcendente à matéria, mas o humano inscrito absolutamente na matéria. Aquilo que Paul Valéry terá deixado antever quando escreveu, «Le plus profond c’est la peau».
Assim, a denúncia do materialismo, da solidão das cidades, do excesso de ruído, do consumismo sem freio, a que muitos insistem em reduzir a obra de Le Clézio, é um tiro aquém e pueril, pois que foi também ele quem disse nesse ensaio extraordinário, L’Extase materielle: «O corpo é vida, o espírito é morte. A matéria é ser, o intelecto nada».
Trata-se, pois – como se intui, desde logo, nesta narrativa de estreia –, de nos religar à matéria, telúrica, primeva (Herberto Helder traduziu-o, não certamente por acaso…), como bem se expressa neste diálogo que transcrevo:
«"Adão, fazes-me medo assim nessa posição, não te mexes, não respiras, dir-se-ia um cadáver…”
«“Idiota!”, respondeu Adão, “interromper a minha contemplação! Agora acabou-se, seria preciso recomeçar tudo desde o princípio.”
«“Recomeçar o quê?”
“Nada, nada… Não te posso explicar. Tinha já chegado ao vegetal… Aos musgos, aos líquenes… Estava pertíssimo das bactérias e dos fósseis. Não te posso explicar.”».
E seria com certeza interessante, à luz disto, comparar o jovem Adão em fuga com o desassossegado Holden Caulfield, desse outro inclassificável que dá pelo nome de Salinger.
O Processo de Adão Pollo, J.M.G.Le Clézio, Europa-América, 2008

24/11/08

Aniversário de Herberto Helder (foi ontem)

se do fundo da garganta aos dentes a areia do teu nome,
se riscasse com a abrasadura, se
em cima e em baixo mexido às escuras,
o forno com a mão a ver se ela podia
que uma púrpura em flor fosse até ao coração,
unhas e tudo,
que estremecesse, não por dito mas sabido
contra ti, e por artes
antigas trazer o ar, fazer uma
iluminação:
mudar o mundo para que o nome coubesse,
vivaz, tocado, fértil,
houvesse um dom inseparável, música, verbo:
se eu pudesse, se a terra
se atrasasse,
se pudesse em amarga língua portuguesa com o teu nome em qualquer
parte,
para eu mesmo riscar contra ti,
raiar contra ti,
sob
serapilheiras de sangue

05/10/08

Herberto, o desejado


Engoli
água. Profundamente: - a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
- O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a cara
se a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentados na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.

Herberto Helder, A faca não corta o fogo, Assírio & Alvim, 2008
[roubado cerimoniosamente ao Miguel]

22/09/08

Excerto de «Iniji», poema que nunca foi um inédito de Herberto Helder

[…]
Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpo
um corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo

Fluidos, fluidos
tudo o que passa
passa sem parar
passa

Ariadne mais fina que o seu fio
não consegue reencontrar-se
[…]

Este coração já se não entende com os corações este coração
não reconhece ninguém na turba dos corações
Corações cheios de gritos, de ruídos,
de bandeiras

este coração não é desenvolto com estes corações
este coração esconde-se destes corações
este coração não se compraz com estes corações

Oh cortinas, cortinas e ninguém vê Iniji

Stella, Stella constelada
Já te não levantas para mim, Aurora

Tão pesados
tão pesados
tão taciturnos seus monumentos
tão impérios, tão quadriláteros
tão esmagadores bárbaros, tão vociferantes,
e nós tão nenúfar
tão espiga ao vento
tão longe do cortejo
tão mal na cerimónia
tão pouco da nossa idade e tanto a passear

tão farinha
tão peneirada
e sempre na peneira

asas de morcego
batendo sempre contra a cara
[…]
Henri Michaux, Iniji, versão de Herberto Helder in As Magias, Assírio & Alvim, 1988
Retrato de Herberto Helder por José Rodrigues

26/11/07

Enquanto Pulido Valente desanca em Sousa Tavares...

A Gradiva acaba de publicar o livro do cientista Filipe Duarte Santos Que Futuro? Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento e Ambiente. Não li, logo, não tenho opinião (e se há livros que não precisam de ser lidos para opinarmos sobre eles, outros há que obrigam mesmo à leitura).
Das citações acerca deste retive o seguinte:
«A ciência pode prever o futuro a um prazo de 500 milhões de anos, altura em que a Terra será submetida ao brilho mais intenso do Sol, ficando com atmosfera semelhante à de Vénus. A ciência é capaz de fazer o retrato da história do próprio Universo, a ponto de saber como ele começou. E, no entanto, em relação aos próximos 50 ou 100 anos, é difícil fazer previsões, dadas as incertezas que envolvem o futuro próximo da humanidade.»
Não será reconfortante como ideia mas Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick também não o era e voltei há dias a ir buscá-lo à estante. Anda a fazer companhia à Poesia Toda de Herberto Helder. Confesso que quando era pequena o meu sonho era estudar as estrelas quando fosse grande. Coisa que nunca me ocorreu foi querer ser latifundiária alentejana. Talvez por ter nascido à borda d'água. Mas claro que este post foi só um pretexto para recordar Philip K. Dick e Herberto Helder. Há autores que ficam e outros que passam à história. E nem temos sequer de lê-los para saber isso.

14/10/07

Do Fraco Consolo da Poesia

Não há quarto segredo, Bento XVI não virá a Fátima e Pedro Santana Lopes não falou.
Na Cova de Iria, os peregrinos fartaram-se de esperar pela abertura do novo templo, e com muito menos paciência do que a demonstrada por Job manifestaram-se ruidosamente: «Isto foi construído com o nosso dinheiro!»
Dinheiro que ascendeu, não sabemos se ao céu mas seguramente a cerca de 80 milhões de euros (o dobro do previsto): «Foi tudo pago com (o) que os peregrinos ofereceram a Nossa Senhora», garantiu o reitor do Santuário Luciano Guerra.
Nas declarações de Monsenhor - o mesmo que com sábia clarividência explicou ao Jornal de Notícias, a propósito da violência doméstica e do divórcio: «Há o indivíduo que bate na mulher todas as semanas e há o indivíduo que dá um soco na mulher de três em três anos» - não houve qualquer referência à obra, perdão, ao banco de Jardim Gonçalves, contra o qual vocifera de novo Joe Berardo com visível satisfação, a propósito da dívida de 12, 5 milhões de euros que terá sido perdoada a um grupo de empresas de que o filho do banqueiro, Filipe Jardim Gonçalves, era sócio.
Pergunto eu: além da soma ser bastante inferior à oferecida a Nossa Senhora, que pai não perdoaria a um filho?

Por falar em filhos, continua a saga Maddie: prova do avanço galopante da ciência, veio a público que o espermatozóide de Gery não fecundou a criança desaparecida. Terá sido ela levada pelos extraterrestres em que acredita Paul Allen da Microsoft, pelo menos o suficiente para doar 20 milhões de euros a um projecto que já espalhou 42 antenas parabólicas nos Estados Unidos em busca de contacto?
Note-se: 20 milhões de euros continuam a ser, ainda assim, menos dos que os 80 milhões da nova catedral de Fátima embora mais do que a dívida que Jardim Gonçalves terá perdoado.
Perdão e caridade também para Carlos Cruz que regressou, entretanto, aos palcos do Casino Estoril como apresentador de um espectáculo de fados, enquanto continua - alegremente - a decorrer nos tribunais o caso Casa Pia que recua aos idos de 2002 e para o qual, segundo Catalina Pestana, citando alguns juristas, foi criado expressamente o artigo 30 do novo Código Penal que atenua as penas referentes aos crimes de abuso sexual:
«Antes, um crime de abuso sexual contava as vezes que uma vítima era abusada; o actual Código Penal diz que um crime continuado de abuso sexual conta como um único crime. Eu percebo por que é que foi preciso esticar no tempo este processo, com o tribunal a permitir a repetição de perguntas ad infinitum»
Ao contrário de Carlos Cruz - a respeito de quem se repete à exaustão que é inocente até se provar ser culpado - a ex-Provedora tem vindo a ser criticada com veemência, nomedamente pela Associação dos Trabalhadores da Casa Pia de Lisboa, que a acusa de ter instalado um clima de terror na instituição. É um ponto de vista. E para quem ande distraído, recorde-se como o «ponto de vista» se tornou no princípio gnoseológico do mundo moderno.
Entretanto, o beato Al Gore arrecadou o Nobel da Paz - para descanso das boas consciências.

Por falar em ecologia, e porque o planeta rebenta pelas costuras, visivelmente overbooking apesar da baixa de natalidade ocidental, talvez seja uma boa notícia que, segundo um estudo realizado pelo Serviço de Biomédica e Ética Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, cerca de 50% das pessoas idosas institucionalizadas admitem a legalização da eutanásia.
E quando o Estado já é encarado como legítimo legislador da morte, que mais nos sobra? É o hegelianismo no seu apogeu: «O racional é real e o real é racional». Estamos lixados.

Herberto Helder em Os Passos em Volta será fraco consolo. Ainda assim:
Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

23/08/07

PENSAMENTO RECONFORTANTE ANTES DE IR PARA A CAMA

«Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu/ eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia», Herberto Helder

09/08/07

TrES-4

Deram-lhe o nome obtuso de TrES-4 e é, até agora, o maior planeta conhecido do Universo: 20 vezes a superfície da Terra, está a uma distância de 1 400 anos-luz. «Provavelmente não possuí superfície firme e afundar-nos-íamos nele», referiu um dos cientistas ligado à descoberta. E, vá-se lá saber porquê, perante tão extraordinária coisa veio-me à cabeça Herberto Helder:
Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua
arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção
[extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,desencadeiam
abruptamente o ritmo.
— Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão
[fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da
[terra.