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01/02/09

A book a day keeps the doctor away

«O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que não sabia bem ao certo se acabava de deixar o Exército ou um asilo psiquiátrico», explica J. M. G. Le Clézio no intróito a este romance antigo, o primeiro, que lhe valeria o Prémio Renaudot de 1963, anterior, portanto, aos Índios, ao México e aos desertos. Recentemente reeditado, reli-o também agora, para confirmar o que sabia: é um belíssimo romance. E se me pedissem que o abreviasse em três penadas – o que, de facto, me pediram – acrescentaria à descrição do próprio: O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que se pôs um dia a perseguir um cão. Era esta a imagem que tinha; é a imagem que perdura.
Cão e homem invertem às tantas os papéis, e nesse quadro bizarro avesso à normalidade está tudo o que de mais radical trespassa a obra deste francês maurício: uma visão do real que enfrenta corajosamente os paradoxos e que escapa a todo e qualquer maniqueísmo – o humano, não como categoria transcendente à matéria, mas o humano inscrito absolutamente na matéria. Aquilo que Paul Valéry terá deixado antever quando escreveu, «Le plus profond c’est la peau».
Assim, a denúncia do materialismo, da solidão das cidades, do excesso de ruído, do consumismo sem freio, a que muitos insistem em reduzir a obra de Le Clézio, é um tiro aquém e pueril, pois que foi também ele quem disse nesse ensaio extraordinário, L’Extase materielle: «O corpo é vida, o espírito é morte. A matéria é ser, o intelecto nada».
Trata-se, pois – como se intui, desde logo, nesta narrativa de estreia –, de nos religar à matéria, telúrica, primeva (Herberto Helder traduziu-o, não certamente por acaso…), como bem se expressa neste diálogo que transcrevo:
«"Adão, fazes-me medo assim nessa posição, não te mexes, não respiras, dir-se-ia um cadáver…”
«“Idiota!”, respondeu Adão, “interromper a minha contemplação! Agora acabou-se, seria preciso recomeçar tudo desde o princípio.”
«“Recomeçar o quê?”
“Nada, nada… Não te posso explicar. Tinha já chegado ao vegetal… Aos musgos, aos líquenes… Estava pertíssimo das bactérias e dos fósseis. Não te posso explicar.”».
E seria com certeza interessante, à luz disto, comparar o jovem Adão em fuga com o desassossegado Holden Caulfield, desse outro inclassificável que dá pelo nome de Salinger.
O Processo de Adão Pollo, J.M.G.Le Clézio, Europa-América, 2008

24/06/07

Investigão pós-pós-moderna

A Web é uma caixa de supresas. Nela descobri que a célebre frase de Paul Valéry (no boneco) ‑ «Ce qu'il y a de plus profond dans l'homme c'est la peau» ‑ foi há pouco reinterpretada por um antropólogo mexicano, de nome Mauricio Genet Guzmán Chávez, numa tese de doutoramento em sociologia política intitulada: O mais profundo é a pele: sociedade cosmética na era da biodiversidade. O site brasileiro onde recolhi a interessante informação acrescentava uma explicação do próprio Mauricio: «O corpo adquire lugar central no processo identitário. Tatuagens e piercings dizem muito sobre as pessoas. A organização dos grupos na sociedade cosmética é baseada na aparência, na roupa, em elementos externos».
Pois, também os títulos das teses dirão muito sobre as pessoas. No caso, este serviu para confirmar a minha desconfiança antiga acerca de sociólogos.