Eu não sou fã do João Bónifácio. Aliás, já aqui escrevi irritada contra um texto dele. Dito isto, acrescento que sou absolutamente fã desta máxima batida do Voltaire: «Não concordo com uma única palavra do que diz, mas defenderei até à morte o seu direito de dizê-la».Vem isto a propósito do imenso sururu que se criou por causa de um texto de JB publicado no Público sobre o Super Bock Super Rock.
O texto começa assim: Toda a gente que segue futebol com um mínimo de regularidade conhece a constante nudez quinzenal do Estádio do Restelo. O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego. Portanto a ideia de fazer um festival de música popular naquele mesmo estádio quase parece uma acção de beneficência.
Vai daí, os tipos do Belenenses abespinharam-se [ler aqui]. Posso perceber.
Deixo de perceber quando Nuno Pacheco, sub-director do Publico, vem pedir publicamente desculpas ao clube de Belém. Mas menos percebo ainda quando o Provedor do mesmo jornal vem dar razão aos indignados.
[...] Joaquim Vieira, esclarece que:
1) "não (lhe) parece curial que o jornal envie para criticar um espectáculo quem a priori assume a sua aversão aos artistas. Não é crível que um crítico com tal parti pris consiga manter o mesmo tipo de abordagem e distanciamento que terá perante intérpretes que aprecia ou lhe sejam indiferentes. Tal aitude prejudica a igualdade de tratamento que o 'Público' deverá dar a todos os intervenientes nos eventos que cobre, como jornal cujo estatuto editorial defende o recurso aos 'indispensáveis mecanismos de objectividade'.
Tradução: "não apreciar" um artista é igual a "ter-lhe aversão"; quando "não se aprecia um artista" (isto é, quando se lhe "tem aversão"), o "distanciamento", o "tipo de abordagem", a "igualdade de tratamento" e os "indispensáveis mecanismos (???) de objectividade" ficam comprometidos; mas, quando "se aprecia" (ou se lhe é... "indiferente"), a "objectividade" fica salvaguardada.
1) "não (lhe) parece curial que o jornal envie para criticar um espectáculo quem a priori assume a sua aversão aos artistas. Não é crível que um crítico com tal parti pris consiga manter o mesmo tipo de abordagem e distanciamento que terá perante intérpretes que aprecia ou lhe sejam indiferentes. Tal aitude prejudica a igualdade de tratamento que o 'Público' deverá dar a todos os intervenientes nos eventos que cobre, como jornal cujo estatuto editorial defende o recurso aos 'indispensáveis mecanismos de objectividade'.
Tradução: "não apreciar" um artista é igual a "ter-lhe aversão"; quando "não se aprecia um artista" (isto é, quando se lhe "tem aversão"), o "distanciamento", o "tipo de abordagem", a "igualdade de tratamento" e os "indispensáveis mecanismos (???) de objectividade" ficam comprometidos; mas, quando "se aprecia" (ou se lhe é... "indiferente"), a "objectividade" fica salvaguardada.
Daqui decorre que:
a) para o trabalho crítico de cobertura de um festival - com muitas bandas e músicos de variados estilos e géneros, todos susceptíveis de gerar graus diversos de "aversão", "apreciação" ou "indiferença" -, o "Público" deverá mobilizar um exército de críticos seleccionados banda a banda, de acordo com uma declaração de afinidades estéticas previamente preenchida e entregue ao editor;
b) para a crítica ao concerto/disco/DVD de uma única banda ou músico (presume-se que o mesmo se aplique ao cinema, teatro, dança, literatura, artes plásticas...), os críticos deverão ser, preferencialmente, recrutados nos seus clubes de fãs e, para que tudo corra bem, mediante a aprovação dos próprios artistas (e, já agora, dos respectivos agentes e promotores dos concertos/festivais);
c) o trabalho crítico passa, de aqui em diante, a ser encarado como um "exercício de objectividade".
2) "O 'Público' que ambiciona claramente ter uma função federadora em relação à população portuguesa, deveria cuidar de não alienar os diversos grupos sociais com considerações gratuitas ou de mau gosto, eventualmente ofensivas. A responsabilidade não é de J.B., mas de um editor que deveria ter feito a leitura prévia do texto e chamar-lhe a atenção para uma passagem mais desprimorosa para os adeptos de um clube. Na esmagadora maioria dos casos, o redactor cai em si, muda o que tiver de ser mudado e o texto cumpre na mesma a sua função".
Tradução: "função federadora" - vender mais do que os miseráveis números actuais que o Belmiro, não tarda nada, fecha a torneira; "não alienar os diversos grupos sociais" - na gebalhada da bola, não se toca nem com uma flor que os gajos passam-se! É piar fininho e deixar-se de fantasias (para a política, haverá normas a expor posteriormente); "a responsabilidade não é de J.B. mas... de um clube" - os jornalistas/críticos são uns tontos que não medem o perigoso alcance do que escrevem e tem de haver quem os meta na ordem; "Na esmagadora maioria dos casos, o redactor cai em si, muda o que tiver de ser mudado" - na esmagadora maioria dos casos, o redactor recorda-se que tem a prestação da casa para pagar, que não lhe dá jeito nenhum perder o emprego, mete o rabo entre as pernas e obedece ao chefe; "o texto cumpre na mesma a sua função" - o texto "enche o buraco" na página que estava previsto sem aborrecer ninguém.
Nota: na página anterior à do Provedor, no mesmo espaço do "editorial" em que, há dias, apresentara desculpas públicas ao Belenenses pelas "ofensas" de João Bonifácio, Nuno Pacheco insurge-se indignadamente contra os limites à liberdade de informação impostos por Hugo Chávez, na Venezuela.
2) "O 'Público' que ambiciona claramente ter uma função federadora em relação à população portuguesa, deveria cuidar de não alienar os diversos grupos sociais com considerações gratuitas ou de mau gosto, eventualmente ofensivas. A responsabilidade não é de J.B., mas de um editor que deveria ter feito a leitura prévia do texto e chamar-lhe a atenção para uma passagem mais desprimorosa para os adeptos de um clube. Na esmagadora maioria dos casos, o redactor cai em si, muda o que tiver de ser mudado e o texto cumpre na mesma a sua função".
Tradução: "função federadora" - vender mais do que os miseráveis números actuais que o Belmiro, não tarda nada, fecha a torneira; "não alienar os diversos grupos sociais" - na gebalhada da bola, não se toca nem com uma flor que os gajos passam-se! É piar fininho e deixar-se de fantasias (para a política, haverá normas a expor posteriormente); "a responsabilidade não é de J.B. mas... de um clube" - os jornalistas/críticos são uns tontos que não medem o perigoso alcance do que escrevem e tem de haver quem os meta na ordem; "Na esmagadora maioria dos casos, o redactor cai em si, muda o que tiver de ser mudado" - na esmagadora maioria dos casos, o redactor recorda-se que tem a prestação da casa para pagar, que não lhe dá jeito nenhum perder o emprego, mete o rabo entre as pernas e obedece ao chefe; "o texto cumpre na mesma a sua função" - o texto "enche o buraco" na página que estava previsto sem aborrecer ninguém.
Nota: na página anterior à do Provedor, no mesmo espaço do "editorial" em que, há dias, apresentara desculpas públicas ao Belenenses pelas "ofensas" de João Bonifácio, Nuno Pacheco insurge-se indignadamente contra os limites à liberdade de informação impostos por Hugo Chávez, na Venezuela.