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02/08/09

Hoje o intocável Belenenses, amanhã esperamos para ver

Eu não sou fã do João Bónifácio. Aliás, já aqui escrevi irritada contra um texto dele. Dito isto, acrescento que sou absolutamente fã desta máxima batida do Voltaire: «Não concordo com uma única palavra do que diz, mas defenderei até à morte o seu direito de dizê-la».
Vem isto a propósito do imenso sururu que se criou por causa de um texto de JB publicado no Público sobre o Super Bock Super Rock.

O texto começa assim: Toda a gente que segue futebol com um mínimo de regularidade conhece a constante nudez quinzenal do Estádio do Restelo. O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego. Portanto a ideia de fazer um festival de música popular naquele mesmo estádio quase parece uma acção de beneficência.
Vai daí, os tipos do Belenenses abespinharam-se [ler aqui]. Posso perceber.
Deixo de perceber quando Nuno Pacheco, sub-director do Publico, vem pedir publicamente desculpas ao clube de Belém. Mas menos percebo ainda quando o Provedor do mesmo jornal vem dar razão aos indignados.

[...] Joaquim Vieira, esclarece que:
1) "não (lhe) parece curial que o jornal envie para criticar um espectáculo quem a priori assume a sua aversão aos artistas. Não é crível que um crítico com tal parti pris consiga manter o mesmo tipo de abordagem e distanciamento que terá perante intérpretes que aprecia ou lhe sejam indiferentes. Tal aitude prejudica a igualdade de tratamento que o 'Público' deverá dar a todos os intervenientes nos eventos que cobre, como jornal cujo estatuto editorial defende o recurso aos 'indispensáveis mecanismos de objectividade'.
Tradução: "não apreciar" um artista é igual a "ter-lhe aversão"; quando "não se aprecia um artista" (isto é, quando se lhe "tem aversão"), o "distanciamento", o "tipo de abordagem", a "igualdade de tratamento" e os "indispensáveis mecanismos (???) de objectividade" ficam comprometidos; mas, quando "se aprecia" (ou se lhe é... "indiferente"), a "objectividade" fica salvaguardada.
Daqui decorre que:
a) para o trabalho crítico de cobertura de um festival - com muitas bandas e músicos de variados estilos e géneros, todos susceptíveis de gerar graus diversos de "aversão", "apreciação" ou "indiferença" -, o "Público" deverá mobilizar um exército de críticos seleccionados banda a banda, de acordo com uma declaração de afinidades estéticas previamente preenchida e entregue ao editor;
b) para a crítica ao concerto/disco/DVD de uma única banda ou músico (presume-se que o mesmo se aplique ao cinema, teatro, dança, literatura, artes plásticas...), os críticos deverão ser, preferencialmente, recrutados nos seus clubes de fãs e, para que tudo corra bem, mediante a aprovação dos próprios artistas (e, já agora, dos respectivos agentes e promotores dos concertos/festivais);
c) o trabalho crítico passa, de aqui em diante, a ser encarado como um "exercício de objectividade".
2) "O 'Público' que ambiciona claramente ter uma função federadora em relação à população portuguesa, deveria cuidar de não alienar os diversos grupos sociais com considerações gratuitas ou de mau gosto, eventualmente ofensivas. A responsabilidade não é de J.B., mas de um editor que deveria ter feito a leitura prévia do texto e chamar-lhe a atenção para uma passagem mais desprimorosa para os adeptos de um clube. Na esmagadora maioria dos casos, o redactor cai em si, muda o que tiver de ser mudado e o texto cumpre na mesma a sua função".
Tradução: "função federadora" - vender mais do que os miseráveis números actuais que o Belmiro, não tarda nada, fecha a torneira; "não alienar os diversos grupos sociais" - na gebalhada da bola, não se toca nem com uma flor que os gajos passam-se! É piar fininho e deixar-se de fantasias (para a política, haverá normas a expor posteriormente); "a responsabilidade não é de J.B. mas... de um clube" - os jornalistas/críticos são uns tontos que não medem o perigoso alcance do que escrevem e tem de haver quem os meta na ordem; "Na esmagadora maioria dos casos, o redactor cai em si, muda o que tiver de ser mudado" - na esmagadora maioria dos casos, o redactor recorda-se que tem a prestação da casa para pagar, que não lhe dá jeito nenhum perder o emprego, mete o rabo entre as pernas e obedece ao chefe; "o texto cumpre na mesma a sua função" - o texto "enche o buraco" na página que estava previsto sem aborrecer ninguém.
Nota: na página anterior à do Provedor, no mesmo espaço do "editorial" em que, há dias, apresentara desculpas públicas ao Belenenses pelas "ofensas" de João Bonifácio, Nuno Pacheco insurge-se indignadamente contra os limites à liberdade de informação impostos por Hugo Chávez, na Venezuela.

30/07/08

Cohen, os gajos engraçados e a sombra do cão

Há um provérbio português que diz assim: Mais vale cair em graça que ser engraçado. Ocorre-me a máxima a propósito de um texto de João Bonifácio sobre o último concerto de Leonard Cohen em Portugal. A coisa tem dias mas só recentemente me chamaram a atenção para tão «explosiva» prosa.
Não conheço Bonifácio e do Cohen conheço-lhe apenas a poesia e as canções. Mas sei, isso sei, quando alguém se esforça desesperadamente por ter graça e parecer irreverente. Sei-o, porque há uma notória diferença entre SÊ-LO e parecê-lo.
(...) Tudo o que de mau há na música de Cohen das últimas décadas - os arranjos ao gosto de Julio Iglesias, o funk branco soft porno???, as harmonias de guitarra à Casino do Estoril, os órgãos planantes para dois dedos de Martini em varanda de resort de luxo ao pôr-do-sol - esteve ali demasiado exposto, bem ao gosto dos turistas alemães de classe média alta???.
(...) É que, por detrás daquela voz de charme e da pose de cavalheiro que está ali por acaso???, ele canta: a sida, a crueldade emocional, o sado-masoquismo, o terror, o advento do fascismo, o crack, o sexo anal, o cunilingus enquanto forma de salvação, todas as coisas bonitas de que precisamos quando estamos de férias no Algarve???.
A minha recomendação é que João Bonifácio passe umas boas férias no Allgarve, já agora, deixe de usar tantas vezes o evocativo «judeu» e, sobretudo, não faça tanta questão em ter graça. Porque não tem. A não ser que estejamos a referirmo-nos àquela sua famosa tradução do Ne me quitte pas de Jacques Brel em que Laisse-moi devenir (...) L’ombre de ton chien passou hilariantemente a Deixa-me ser o ombro do teu cão…