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13/08/22

AINDA A FATWA A SALMAN RUSHDIE

Ver tanto(a) «ofendidista», tanto(a) defensor da «liberdade de expressão sim, mas com limites», tanto(a) adepto(a) da «censura para não conspurcar os factos», tanto(a) «controleiro da verdade», todos e todas perturbadíssimos com o atentado a Salman Rushdie dá-me volta ao estômago.

Só me lembram o poema da Sophia sobre as pessoas que não matam galinhas, mas lambuzam-se com uma canjinha ou uma perninha de frango assado.

29/04/12

Não é 1 de Maio, o 25 de Abril já foi, mas o que eu quero agora é falar do 27 de Julho... de 1970

É dos livros que Salazar caiu de uma cadeira e depois disso nada foi como dantes. Como seria de esperar numa terra de escravos, cu pró ar ouvindo/ ranger no nevoeiro a nau do Encoberto, a queda, embora aparatosa, foi amortecida. Tão amortecida que uma farsa se organizaria em torno do Presidente do Conselho, convencendo-se este por dois anos que continuava a mandar. Mas “Tudo É Vaidade” e a Ceifeira levá-lo-ia a 27 de Julho de 1970, dia em que muitos portugueses optaram por aprimorar-se com uma gravata vermelha, ainda as gravatas não tinham sido proibidas por Assunção Cristas.
O caso é que antes da morte do ditador se tornar oficial, na editora onde a minha mãe trabalhava se soube por portas e travessas clandestinas que Salazar já não estava entre nós. Primeiro foi a descrença, natural ao fim de 36 anos, depois foi a festa. Resumindo: a contribuição dos presentes para o Produto Interno Bruto baixou nesse dia para níveis negativos.
A minha mãe resolveu, então, avisar o marido da boa nova, certa que essa seria a retaliação possível pelos anos que este passara a olhar o mar revoltado e teatral no Forte de Peniche. Telefonou e disse: “Prepara champanhe, temos de comemorar”. Uma colega acrescentaria entre risos: “Acabaram as filmagens do Solar das Oliveiras”.
A graça acabou mal e acabaram as duas na António Maria Cardoso, no edifício da PIDE onde, em memória das vítimas, foi entretanto erguido um condomínio de luxo. A polícia chegara depressa, e elas, identificadas já pela voz, receberam ordem de prisão. Quanto a meu pai, passaria a noite à espera da mulher na rua de má memória, sem champanhe, e não sei se de gravata vermelha.
E é também por isto que gosto muito do 25 de Abril.
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02/08/11

Às vezes prefiro mesmo a minha cadela e que se lixe a metafísica

A história de Ameneh Bahrami é sinistra. Um homem, Majid Mohavedi, que viu recusado o seu pedido de casamento, atirou-lhe ácido à cara, desfigurou-a e cegou-a.
Segundo a lei vigente no Irão, quem com ferro mata com ferro morre. Um tribunal condenou Majid Mohavedi à cegueira e a sentença só não foi executada porque a vítima o perdoou no último momento. Em vez de cego, o agressor terá de lhe pagar uma determinada quantia em dinheiro, com base naquilo a que é chamado “dinheiro de sangue”.
É evidente que qualquer ser humano que lance ácido sobre outro merece castigo e dos valentes (a não ser que mais nenhum recurso lhe reste para se salvar a si próprio), e a história desta iraniana dirá muito da relação entre os dois sexos no país.
O que choca, contudo, na notícia é, mais do que o gesto do homem, um tribunal tê-lo condenado à cegueira. E, ainda mais do que isso, a execução da sentença ter lugar num hospital. Sem ou com anestesia, pergunto?
Porque, no último caso, seria um pouco como a pena capital, em que os matamos civilizadamente, tal como no poema da Sophia, sem descurar a sensibilidade do acto.