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18/12/13

Faz favor que eu não duro sempre...



Pde ser comprado AQUI.

10/10/13

A Teolinda Gersão para o Jorge Fallorca

Há uma frase de Paul Valéry que creio assentar como uma luva à escrita de Teolinda Gersão: “ Ce qu’il y a de plus profond chez l’homme, c’est la peau”. (Traduzo, para quem já esqueceu o francês: “O que há de mais profundo no homem é a pele”).

Escritora discreta, apesar do reconhecimento, “As águas livres – Cadernos II” é a sua obra mais recente. O caderno I ficou lá para trás (1984) e chamou-se “Os guarda-chuvas cintilantes”, facto que a própria se encarrega de nos lembrar agora: «O primeiro, a que na altura não chamei Caderno, foi "Os guarda-chuvas cintilantes". Dei-lhe como subtítulo Diário, o que provavelmente desconcertou os leitores. Na verdade, é um diário heterodoxo, que quebra os dois pilares em que era suposto assentar: o eu e o tempo (…).»

Confessadamente adversa a ortodoxias (nomeadamente, à dos “formatos”), Teolinda Gersão lança “As águas livres” a seguir ao romance “A Cidade de Ulisses”, surpreendendo-nos com um livro algo inclassificável. Com facilidade encontramos nele, pelo menos, três registos: o explicativo, o reflexivo e o descritivo. A sua organização e conteúdo fragmentários atravessam territórios vastíssimos, geografias diversas (dentro e fora do país) – aventurando-se também com mestria pelo universo dos sonhos –, desrespeitam o tempo-sequência, invocam questões/filiações literárias, não desprezam a política, sendo, no essencial, um exercício delicado de “atenção” ao mundo.

A oficina é discreta, o narrador é despretensioso, o texto nunca se põe em bicos de pés. A sabedoria não chega com fanfarras, a palavra dispensa paramentos, o estilo (essa dificuldade de expressão a que se referiu Mário Quintana) é desataviado. «Kierkegaard aparece às vezes de visita.» (estou a citar). 

Teolinda Gersão, As Águas Livres – Cadernos II, 2013, Sextante

A ler um escritor que não foi prémio Nobel


03/10/13

Razão tem o Cavaco: isto há gente mesmo masoquista

"Descobri a escrita do Valter Hugo Mãe numa tarde chuvosa de 2010. O "remorso de baltazar serapião" caíra-me no colo sem pré-aviso e, sem mais nem quê, abarbatou-me pelos colarinhos para me largar apenas depois da desfolha da última página. Arrasado com tamanho talento, só me saíram duas palavras: quero mais."

Excerto de "Carta Aberta a Valter Hugo Mãe", Nelson Nunes, publicada AQUI

16/05/13

A book a day keeps the doctor away, e este livro é maravilhoso


"De todos modos, ¿no cayó en la misma tentación el rabino Ben Zwi al ver en una carnicería cristiana un jamón de Praga rosado y fresco?
- ¿A cuánto es este pescado? - le preguntó al carnicero.
- No es pescado, sino jamón de Praga.
- No te pregunto cómo se llama el pescado, sino a cuánto sale...."

29/12/12

Sobre livros e assuntos correlativos

António Lobo Antunes não ganhou o Nobel. A quem isso possa interessar: Philip Roth também não. 
Face a este não-acontecimento, o balanço de 2012 será morno. 
Dito isto, livros, como chapéus, há muitos. Mas um balanço, ou mesmo um singelo balancete (é o caso), implica conclusões; não basta a matéria de facto, é preciso arriscar um veredicto. 
Cá vai o meu, pessoal, embora, espero, transmissível: a língua portuguesa anda a empobrecer muito (e, neste caso, a culpa não é do AO).
Lê-se grande parte dos novos autores, e a nossa “cabeça estremece com todo o esquecimento” das palavras.
É verdade que não é Maria Velho da Costa quem quer, mas de quem na actualidade se poderá dizer: “o maestro sacode a batuta”?
E outra dúvida: o que os levará a abraçar, maioritariamente, um realismo serôdio, tecendo tramas estéreis que nada acrescentam à “biblioteca de Babel”?
Que a Sistema Solar e o Aníbal Fernandes nos sirvam de consolo!

18/12/12

A book a day keeps the doctor away: "Os Superficiais"


O tema anda a ser falado por aí. António Damásio, por exemplo (que é citado por Nicholas Carr), referiu-se-lhe a “vol d’oiseau” em “O Livro da Consciência”: “(…) as capacidades geradas pelas multitarefas [da era digital] trazem vantagens espantosas; em contrapartida, poderá haver um custo em termos de aprendizagem associativas, consolidação de memória e emoção. Não temos ainda ideia de qual poderá ser esse custo.” 
Carr dedica ao assunto um livro inteiro, significativamente chamado: “Os Superficiais”. O resto do título define com igual clareza a sua área de estudo: “O que a Internet Está a Fazer aos Nossos Cérebros”. 
Défice de atenção e dificuldade de memorização são alguns dos pavores que assombram a educação, mesmo se, infelizmente, os responsáveis preferem distrair-se com polémicas oitocentistas. A tese de Carr é clara: as vantagens do uso da Internet não podem fazer esquecer os seus malefícios – que não são poucos: “A internet é uma tecnologia do esquecimento” (pág. 239). 
“Os Superficiais” é um passeio fascinante pelas alterações que as novas tecnologias estão a introduzir na nossa mente (e também no nosso comportamento emocional). A obra assenta em dois pilares fundamentais: na neuroplasticidade (o cérebro individual não é uma estrutura de betão e “educa-se” ao longo da vida com a experiência) e na famosa convicção de McLuhan: “O meio é a mensagem”. Entre as visões determinista e instrumentalista da tecnologia, Carr tenta uma 3ª via, mas, embora as suas conclusões não sejam apocalípticas, algum desconforto se instala no leitor quando o acaba de ler: estará a internet a embrutecer-me? 
Depois pensamos: se ele próprio conseguiu escrever 326 páginas sobre isso talvez ainda haja esperança!

Os Superficiais - O que a internet está a fazer aos nossos cérebros,  Nicholas Carr, Gradiva, 2012, trad. de Luiza Alves da Costa, 326 páginas

07/08/12

A book a day keeps the doctor away: Com os Loucos, Albert Londres,

“Se eu quisesse enlouquecia”, escreveu há muitos anos Herberto Helder. A frase abre um dos textos mais citados de “Os Passos em Volta”: Se eu quisesse enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio.... Trata-se, evidentemente, de uma liberdade poética: ninguém enlouquece por assim o decidir, e ninguém no seu juízo perfeito assim o decidiria. A loucura não tem graça nenhuma e, para o saber, não é preciso ter lido “A História da Loucura” de Foucault ou visto “Family Life” de Ken Loach. Dito isto, Albert Londres arranca-nos gargalhadas.
“Com os Loucos” é o quarto título da Sistema Solar, chancela lançada pela anterior equipa da Assírio & Alvim. Traduzido por Aníbal Fernandes, o livro tem todas as razões para ser apetecível: o editor, o tradutor… e o autor.
Albert Londres (1884-1932) foi um caso sério do jornalismo francês, cognome oficial, “príncipe dos repórteres”. Na apresentação de “Com os Loucos” assinada por Aníbal Fernandes, como sempre um valor acrescentado, reproduz-se este retrato: “Na sua carreira não isenta de quixotismo procurar-se-ia em vão uma reverência ao dinheiro, uma deferência para com os que governam ou financiam, a docilidade perante as ordens e as recomendações, a aceitação dos factos consumados e dos poderes estabelecidos, a fuga perante as responsabilidades.” 
Existe um reputadíssimo prémio de jornalismo que leva o seu nome desde 1933, ano seguinte à sua morte a bordo do Georges Philippar, navio que o trazia da China e que se incendiou em condições nunca totalmente esclarecidas. Teria sido Londres, que garantia transportar na bagagem os ingredientes de um grande escândalo, alvo de um atentado que o arrastaria para a morte, a ele e a quase 100 dos 700 e muitos passageiros do Georges Philippar? A pergunta nunca foi cabalmente respondida mas Londres não necessitaria disso para se transformar numa lenda. Ter-lhe-ia bastado a sua fibra de repórter.
“Com os Loucos” reúne uma série de textos publicados em 1925 no “Petit Parisien”, fruto da peregrinação de Londres por dezenas de asilos franceses, denúncia das condições desumanas e absurdas em que a ciência moderna da psiquiatria (?), apoiada na bengala estatal, lançou os loucos. No jornal foram 12, no livro somam 22. O primeiro texto conta como tudo começou: “Embora eu não seja louco, pelo menos à vista, quis olhar para a vida dos loucos. E os serviços públicos franceses não ficaram satisfeitos. Disseram-me: ‘A lei de 38, segredo profissional, o senhor não vai olhar para a vida dos loucos.” Fui ter com ministros, e os ministros não quiseram ajudar-me. Um, no entanto, teve esta ideia: ‘Alguma coisa farei por si se alguma coisa fizer por mim: submeter à censura os seus artigos.’ Pus-me longe dele, e ainda lá ando.” 
Humor negro. Escrita de cadência exacta. Remates imprevisíveis. Curiosidade à prova de temas difíceis e grandes distâncias. Empatia. Resultado, um ícone inimitável: “Notre métier n'est pas de faire plaisir, non plus de faire du tort, il est de porter la plume dans la plaie.
Lê-se “Com os Loucos” e vão caindo por terra todas as supostas leis (invioláveis e maçadoras) do jornalismo de reportagem. Londres parece errático. Londres troca o realismo pela notação impressionista. Londres toma partido. Londres prefere a verdade à objectividade. Londres não conta histórias (cliché que servirá à exaustão de alibi à mediocridade e à falta de assunto), Londres vê. E o talento que é preciso para ver! 
Com os Loucos, Albert Londres, Assírio & Alvim, 2012