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06/02/10

A book a day takes the doctor away

Mark Rowlands, peculiar professor de filosofia que desde a infância sempre tivera cães, passou ao papel a sua vivência de doze anos ao lado de Brenin, um lobo bebé que um dia não resistiu a comprar e a levar consigo.
O relato dessa ligação resultou no colorido “O Filósofo e o Lobo”, um ensaio maravilhoso sobre o que se pode aprender sobre os homens vivendo com um canis lupus.
A primeira tese do livro – mais do que uma tese, é um aviso aos leitores que, seduzidos pelas aventuras narradas, as pretendam repetir – é que um lobo não é um cão; e embora Rowlands já imaginasse que assim fosse, imaginava-o apenas de uma maneira vaga. Quando chegou a casa com Brenin e em cerca de quinze minutos lhe foi dado avaliar, pela experiência, o grau (catastrófico) das diferenças, o então jovem filósofo retirou a única conclusão que se impunha: “nunca, mas mesmo nunca, (…) podia deixar Brenin sozinho em casa. (…) Os lobos, aprendi, aborrecem-se muito, muito rapidamente – 30 segundos sozinhos, normalmente é quanto basta”.
Nesta altura estamos ainda no princípio da vida conjunta de ambos… e no princípio do livro. O que se segue é um excepcional, divertido e comovente ensaio filosófico (apesar de as palavras “divertido” e “comovente” raramente nos ocorrerem quando lemos filosofia) sobre coisas tão diversas como a felicidade, a ética (incluindo os direitos dos animais), Deus ou a morte. Além, claro, de ser uma reflexão (com muito, muito de empírico) sobre o que é “ser homem” e o que é “ser lobo” (ou, se preferirem, sobre o “ser” de cada um dos referidos “entes” – a excentricidade de Rowlands permite-lhe, entre muitos outros, citar Heidegger).
À medida que o relato prossegue, vamos ficando a perceber que, segundo o companheiro de Brenin, os primeiros "entes" (ou, mais genericamente, os “símios”) não saem (estética e moralmente, pelo menos) a ganhar aos segundos (os “lupinos”). À cultura requintada da dissimulação e da mentira, à qual séculos de evolução conduziram vitoriosamente os primatas, o autor de “O Filósofo e o Lobo” contrapõe a existência do lobo, assente na fruição do presente, na força destemida, sem truques, mais próxima de Dionísio do que de Apolo.
Não se trata, porém, de humanizar o lobo; muito menos de vender qualquer teoria pronta-a-usar que nos garantisse coisas tão tolas e requentadas como a que devemos “viver o momento” (Rowlands é claríssimo a este respeito: “nunca aconselharia ninguém a fazer algo que é impossível”). Trata-se, antes, de um livro exigente, apesar de leitura acessível, porque nos coloca – nus – face à nossa existência, escolhas, esperanças ou momentânea sorte. Um livro que nos propõe viver com a “impassibilidade de um lobo”. Aposta decerto “demasiado difícil e demasiado austera”, mas, como escreve Rowlands, “no final, só os nossos desafios nos podem redimir”.
O Filósofo e o Lobo, Mark Rowlands,Lua de Papel, 2009