Li este conto zen há muitos anos. Num livro de entrevistas a Marguerite Yourcenar. Seria mais ou menos assim.Um monge que vivia retirado do mundo conseguira, após uma vida inteiramente dedicada à Meditação, caminhar sobre as águas. Um dia, passeando-se pela floresta à beira rio, encontrou Buda.
― Mestre! Mestre! ― gritou o monge para o Iluminado ― Ao fim de tanto tempo seguindo os teus ensinamentos, jejuando, castigando o corpo, negando as paixões, pois vê do que sou capaz.
E atravessou o rio para a outra margem sem sequer molhar os sapatos. No regresso, Buda perguntou-lhe:
― Quanto tempo demoraste a conseguir caminhar assim sobre as águas?
― Uma vida inteira. Cerca de quarenta anos.
― E porque gastaste tu quarenta anos numa coisa que, de barco, te demoraria nem cinco minutos?
Lembro-me sempre desta história quando me falam indiscriminadamente de coragem. E a muitos tenho ouvido falar da "coragem" de Sócrates perante "tantos ataques" [agora, até lhe trocaram o nome]. Pois bem. Eu cá, na minha opinião pessoal, acho que quem tem coragem devia ir para bombeiro. Isso sim, é admirável.