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06/12/09

A book a day keeps the doctor away

Morreu o ano passado, aos 78 anos. Ficou conhecido sobretudo por essa obra-prima chamada O que Diz Molero, (a)caso feliz de reconhecimento público e prova que usar pontuação esquisita não é só para o José Saramago.
Dinis Machado não foi, porém, apenas autor desse “livro-bomba, obra d’arromba” (para citar Luiz Pacheco). No seu currículo, curto, é verdade, incluem-se ainda Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Marquéz, Bertrand, 1984, Reduto Quase Final, Bertrand, 1989, e Gráfico de Vendas com Orquídeas e Outras Formas de Arrumação de Conhecimentos: 20 Textos (de 1977 a 1993), Cotovia, 1999.
Aprendiz de Bartleby que à expressão “I would prefer not to” preferia o “Let’s get out of here” das fitas dos camónes (como lembrou Maria Piedade Ferreira na “Ler” nº72), Machado escreveu também uma tríade de policiais a troco de vinte contos nos idos de 60, la vie oblige. Assinou-os com o americaníssimo e apropriadíssimo pseudónimo de Dennis McShade, recebeu a massa e não terá pensado mais no assunto.
Recentemente, a Assírio & Alvim pegou nos três títulos, vestiu-os com novas capas e reeditou-os: Requiem para Dom Quixote, 2008, Mão Direita do Diabo, 2008, Mulher e Arma com Guitarra Espanhola, já este ano. Todos eles protagonizados por Peter Maynard – assassino profissional e literato com dúvidas existências e propensão para o monólogo (homenagem à personagem borgeana do conto Pierre Menard, autor de Quixote) –, antecederam O que Diz Molero no tempo mas não na acutilância da prosa. E, no meio disto tudo, ficaram uns papéis na gaveta. Quase sessenta páginas. Acabam de chegar às livrarias sob o título Blackpot.
O registo é policial e, apesar de Peter Maynard já não entrar na história – escrito Blackpot muito mais tarde, algures entre 1983 e 1985 –, a sua estrutura (delirantemente cerebral) lembra ainda o argentino cego. A chave do plot estará na frase final, roubada ao romance A Queda, de Camus: “Quando todos formos culpados então será a democracia”. Se isto for verdade, o inédito machadiano é o policial mais democrático que já li na minha vida.
Capítulo a capítulo (31, menos um do que o total das peças do xadrez), as personagens vão-se matando umas às outras, assumindo os lugares deixados vazios:
"Gulliver ligou para Armador.
– Então?
– Já está – disse Armador – Matei-o há duas horas.
– Ok – disse Gulliver.
– Ouve – disse Armador – Tu agora és Legos?
– Sou Legos.
– E Condor?
– Também sou Condor.”
Um divertissement absurdo (Beckett está lá de novo) onde domina o humor negro e aquele estilo irresistível e livre de Machado. Como concluiu Pacheco a propósito de O que Diz Molero: "Valeu!"

08/01/08

Os Chupistas ou Porque não se Calam? — Parte II

A ouvi-los, Luiz Pacheco teria ganho o prémio de maior escritor português do século XX. Se os seus livros valessem acções, seria uma corrida à Bolsa.
O que me irrita em toda esta história não é o Pacheco, é o país. Pacheco, como o próprio reconheceu em vida, foi sobretudo um perdigueiro de afiadíssimo faro para as coisas da literatura. Como editor publicou só os melhores. Como autor arriscava o desassombro. É fácil compreender como isso seria raro (e inaudito) num país cujo quadro clínico oscilava entre o bolor salazarento e a catequese PCP mais os fãs do André Breton, não em revolução permanente, antes em cisões contínuas. Leia-se O Libertino Passeia por Braga, escrito nos anos 60, e imagine-se o que seria... Braga ainda hoje o que é.
Dito isto, quanto ao resto viveu quase sempre mal, ou mesmo miseravelmente, porque para aí o empurraram a vida e os genes com que aterrou no mundo.
Pacheco era ele próprio: aldrabão, sobrevivente, desenrasca, preguiçoso e talentoso. Na velhice, viveu de glórias esfumadas que não chegaram para lhe evitar o asilo. Num país merdoso e cinzento como uma tarde de chuva, eterna e da miudinha, Pacheco peidava-se em público e todos os Jojos deliravam, lançava um pró caralho e instalava-se a catarse. Era a excentricidade zoológica que se visita numa jaula. Alinhava no jogo e jogava-o com primor. Se queria. Quando o convidaram para escrever no Público, ele próprio conta, fizeram-no farejando sangue: não lhes deu sangue e o folclore perdeu interesse. Suponho que se sentisse só. Foi um desperdício de talento, mas também para isso é preciso algum.
Que saltem agora uns cangalheiros empantufados a endeusar o «maldito» dizendo que eram amigos dele (numa contradição dos termos: os malditos não têm amigos, como bem lhes poderia explicar Baptista Bastos que em tempos escreveu: «Luiz Pacheco é meu amigo mas eu não acredito no diabo»), comparando-o — oh momento de originalidade olímpica! — com o Borges, porque também ele escrevia textos curtos (assim se provando como o size matter, até nas letras...), ou recordando como sempre o admiraram quando nem uma fralda para a incontinência lhe forneceram em vida, é de vómito. É Portugal (de plástico que é mais barato) no seu melhor.
O Pacheco de que eu mais gosto é o da história do táxi. Se a memória não me engana, contou-a o Mário Soares que um dia se cruzou com ele, teso, naturalmente, e lhe cedeu 20 paus. O Pacheco apanhou um táxi e, como logo o taxista o avisou que troco não havia, ali mesmo lhe ofereceu a fresca nota, na altura bem choruda.
E eu, que nunca sequer fui adepta do morto em vida, acho que só este episódio bastava para meter no chinelo os autores de tanto encómio.
Bardamerda! – dir-lhes-ia Luiz Pacheco. E o mesmo lhes digo eu, que nem sou de escrever asneiras.
A miséria tem muito encanto vista le coeur bien au chaud. E parece que ele deixou muitas cartas...

07/01/08

Porque não se calam?

«Luiz Pacheco é um dos escritores mais importantes do século XX português, um dos grandes estilistas da literatura portuguesa. Ele é o nosso Jorge Luís Borges, porque, não tendo nada a ver, à partida, com o escritor argentino, escrevendo também sempre textos curtos, escrevendo prosa normalmente com não mais de cinco páginas, dez páginas, marcou as nossas letras», Rui Zink
«Era uma personalidade que poderíamos considerar excêntrica, que sempre que abria a boca nunca se sabia o que ia dizer, mas era um ser humano único (...) Sinto a morte de Luiz Pacheco de uma forma muito profunda, já que o considerava um amigo pessoal e é quase como se o conhecesse intimamente», João Pedro George
«Sempre admirei muito em Luiz Pacheco o seu espírito de irreverência, a liberdade crítica, a capacidade de destruir corrosivamente as convenções, quase sempre mortas já. [...] Era um espírito que, naquela atmosfera passiva, adormecida, dos anos 50, 60 e ainda 70, trouxe, por vezes com excessos de linguagem, uma lufada de ar novo. Era dos espíritos mais irreverentes deste país», Vítor Aguiar e Silva
E até eu, que não punha no Olimpo o falecido, consigo perceber a treta destes encómios que chegam em bicos de pés. Em alternativa, leia-se aqui.
Ou o próprio: «não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim?», Luiz Pacheco, Carta a Fátima

06/01/08

Isto de Estar Vivo ainda um Dia Acaba Mal

Não vou embandeirar em arco: conheci o Luiz Pacheco em Setúbal e não gostei nada do homem; a verdade é que escreveu alguns textos de antologia. Libertário e leitor afiadíssimo, de há uns anos a esta parte prontificava-se a fazer de escritor maldito e usava a irreverência para entreter o pagode. O pagode, burgesmente instalado mas incapaz de resistir à caralhada e à má língua, delirava. A última vez que o ouvi citado foi a propósito de uma dessas entrevistas. Quando a jornalista chegou, o Pacheco, astuto, foi avisando: «Se pensas que vens para a última, desengana-te. Já muitos vieram pensando o mesmo e eu continuo cá». Morreu ontem. O Manuel da Fonseca bem avisara: «Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal». Que descanse em paz.