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13/10/10

Os socialistas de merda ou a merda de socialistas e o Maldonado Gonelha que vá morrer num corredor de hospital

São anafados, engravatados e grunhem ao telemóvel. Passeiam-se pelas urgências do ambulatório guiados por uma senhora de bata branca que tem bordado no bolso directora de qualquer coisa.
A cor da bata da senhora, que não é médica, foi escolhida criteriosamente pela equipa de marketing e publicidade do hospital: sugere respeitabilidade, confiança, segurança.
(A coisa está mais do que provada: enfiem uma bata branca num idiota qualquer e as vendas do detergente aumentam.)
O grupo de trogloditas tem um ar saudável. Os doentes não. O mundo não é justo, já sabíamos, e a cena tem lugar no recentemente inaugurado HPP Hospital de Cascais.
Num pequeno ecrã da sala de espera das urgências corre em permanência o filme da inauguração. Resultado, levamos com o Sócrates de cinco em cinco minutos.
Dito isto, o novo hospital, não há nada a dizer, fica num sítio fantástico, cheio de bons ares apesar de um pouco ventoso e fora de mão. Para os lados de Alcabideche.
Mas também nisso eles pensaram.
(Eles são a malta do HPP Saúde.)
Há uma praça de táxis (normalmente vazia) e autocarros que passam de hora e meia em hora e meia. Por perto, várias megas-lojas e um centro comercial com hipermercado. O que poderíamos querer mais? Um audi, um chauffeur e um pretinho da guiné para nos carregar as compras?
O velho hospital ficava no centro de Cascais e rebentava pelas costuras. Fizeram, pois, um novo.
É ajardinado, tem estacionamento pago e o hall de entrada lembra um hotel do Allgarve. Além de substituir o antigo também substituiu o ortopédico da Parede.
Segundo informa um gajo com o nome adequado de José Miguel Boquinhas, a HPP Saúde é responsável pela gestão do Hospital de Cascais, em regime de Parceria Público-Privada (PPP). É o primeiro hospital do Serviço Nacional de Saúde a ser concessionado e construído neste regime, que contempla a concepção, construção, financiamento, conservação e exploração da unidade hospitalar.
Quanto ao HPP Saúde, himself, é dirigido pelo socialista Dr. António Manuel Maldonado Gonelha, a quem as más línguas do costume preferem chamar electricista mas não pude confirmar, e tem qualquer coisa que ver com a Caixa Geral de Depósitos, não percebi bem.
O que percebi bem foi isto.
No recente HPP Hospital de Cascais, apesar da largueza do edifício, o número de camas somado é igual ao que existia nos antigos hospital de Cascais e da Parede. Com uma nuance: como aumentou o número de especialidades, os doentes que anteriormente eram enviados para outras unidades hospitalares agora também vão para Alcabideche.
Conclusão: quem quiser ser internado, acampa nos corredores. Que são largos, insisto.
Será ao que eles chamam, lá no site deles, umas vezes "a saúde da nova geração", outras vezes "cuidados de saúde de excelência". É só carregar na setinha.

30/08/10

Da concentração no largo do camões às ambulâncias do INEM (que só actuam em caso de vida ou de morte) e este é o ponto comum entre uma coisa e outra

Corre por aí uma polémica, arrisco que de características tipicamente portuguesas, a propósito da concentração contra o apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani realizada em Lisboa no sábado passado.
A polémica, se assim lhe posso chamar, não é sobre o tamanho das pedras adequado ao acto. Tem que ver com outra coisa. A saber, com quem estava por detrás da dita.
Infelizmente, sobre isso nada posso adiantar. Não sei. Nem sequer sei quem terão sido os organizadores oficiais (a controvérsia pressupõe, claro, que existem organizadores não oficiais).
Também nada posso dizer de particularmente interessante sobre quem esteve presente. Encontrei uma amiga que não via há algum tempo e tropecei na Edite Estrela (despermanenteada). Confesso que não me agrada por aí além concentrar-me ao lado de Edite Estrela, mas a causa justificava-o (foi o que pensei na altura).
No Largo de Camões, muito pouca gente. Mais ou menos o mesmo número de pessoas que se juntava na escadaria da igreja do Chiado a ver uns mimos.
Os organizadores, era evidente, mostravam-se pouco familiarizados com megafones. Percebiam-se mal e os discursos foram moles.
Muitas mulheres de democrático salto-alto — o que me deixa sempre um pouco perplexa por ser do tempo em que a malta, quando se concentrava, corria o risco inevitável de ter de se desconcentrar à pressa.
Tudo isto, porém, são pormenores. Explico-me.
Se fosse eu quem tivesse sido condenada ao apedrejamento (ou, para que não haja equívocos, condenada à morte por qualquer dos métodos disponíveis) gostaria de saber que pelo mundo fora havia gente a manifestar-se. Incluindo a Edite Estrela (já sei que não poderia contar com o Pereira Coutinho que tem uma visão masturbatória da compaixão ou lá o que é...).
Adianto ainda que se tivesse organizado a coisa (não sei quem foi, como já referi acima...) teria preferido concentrar-me na Rua Alto do Duque, 49 e deixar saquinhos de pedras sortidas à porta da embaixada. Até tive uma ideia para um cartaz: As pedras já cá cantam.
Resumindo: na minha (pessoalíssima) opinião, corre por aí uma polémica tonta. Como até o politizado mais empedernido salvo seja, canhoto ou dextro, deveria perceber, o caso é de vida ou morte.
O que me conduz ao segundo tema deste post: o INEM.
Pois o 112, aquele número universal a quem a gente pensa poder recorrer quando está mesmo à rasca, afinal, não é o que parece.
A não ser que já estejamos mortos ou prestes a ficá-lo nos próximos 20 minutos, do 112 despacham-nos para os bombeiros.
Reparem, nada tenho contra bombeiros. Aliás, se há gente de quem goste é de bombeiros. A questão não é essa.
Eu sei que a uma senhora não fica bem falar do metal vil, mas a questão é que em Lisboa os bombeiros cobram 30 euros por ida (e o mesmo à volta), para nos levarem nem que seja a dez minutos de casa. Se sairmos do concelho — e tivermos, por exemplo, de levar um doente de Lisboa ao Hospital de Cascais — são 53 (só ida e não têm troco).
Insisto. O problema não reside nos bombeiros. O problema é o INEM.
Ok. Não se justifica ocupar uma ambulância por causa de uma dor de dentes. Ok. Não morro se não for ao hospital, digamos, no prazo de uma hora. Mas e se a situação for daquelas em que se nada for feito morro daí a três? Espero o óbito e telefono depois do além?
Parafraseando o Sócrates, se o Serviço Nacional de Saúde é uma batalha sem fim a vida é ao contrário. E borrifa-se nos "cortes estruturais". Não acreditam, perguntem ao ex-ministro do trabalho do PS, o profícuo Maldonado Gonelha.