São anafados, engravatados e grunhem ao telemóvel. Passeiam-se pelas urgências do ambulatório guiados por uma senhora de bata branca que tem bordado no bolso directora de qualquer coisa.A cor da bata da senhora, que não é médica, foi escolhida criteriosamente pela equipa de marketing e publicidade do hospital: sugere respeitabilidade, confiança, segurança.
(A coisa está mais do que provada: enfiem uma bata branca num idiota qualquer e as vendas do detergente aumentam.)
O grupo de trogloditas tem um ar saudável. Os doentes não. O mundo não é justo, já sabíamos, e a cena tem lugar no recentemente inaugurado HPP Hospital de Cascais.
Num pequeno ecrã da sala de espera das urgências corre em permanência o filme da inauguração. Resultado, levamos com o Sócrates de cinco em cinco minutos.
Dito isto, o novo hospital, não há nada a dizer, fica num sítio fantástico, cheio de bons ares apesar de um pouco ventoso e fora de mão. Para os lados de Alcabideche.
Mas também nisso eles pensaram.
(Eles são a malta do HPP Saúde.)
Há uma praça de táxis (normalmente vazia) e autocarros que passam de hora e meia em hora e meia. Por perto, várias megas-lojas e um centro comercial com hipermercado. O que poderíamos querer mais? Um audi, um chauffeur e um pretinho da guiné para nos carregar as compras?
O velho hospital ficava no centro de Cascais e rebentava pelas costuras. Fizeram, pois, um novo.
É ajardinado, tem estacionamento pago e o hall de entrada lembra um hotel do Allgarve. Além de substituir o antigo também substituiu o ortopédico da Parede.
Segundo informa um gajo com o nome adequado de José Miguel Boquinhas, a HPP Saúde é responsável pela gestão do Hospital de Cascais, em regime de Parceria Público-Privada (PPP). É o primeiro hospital do Serviço Nacional de Saúde a ser concessionado e construído neste regime, que contempla a concepção, construção, financiamento, conservação e exploração da unidade hospitalar.
Quanto ao HPP Saúde, himself, é dirigido pelo socialista Dr. António Manuel Maldonado Gonelha, a quem as más línguas do costume preferem chamar electricista mas não pude confirmar, e tem qualquer coisa que ver com a Caixa Geral de Depósitos, não percebi bem.
O que percebi bem foi isto.
No recente HPP Hospital de Cascais, apesar da largueza do edifício, o número de camas somado é igual ao que existia nos antigos hospital de Cascais e da Parede. Com uma nuance: como aumentou o número de especialidades, os doentes que anteriormente eram enviados para outras unidades hospitalares agora também vão para Alcabideche.
Conclusão: quem quiser ser internado, acampa nos corredores. Que são largos, insisto.
Será ao que eles chamam, lá no site deles, umas vezes "a saúde da nova geração", outras vezes "cuidados de saúde de excelência". É só carregar na setinha.
