30/08/10

Da concentração no largo do camões às ambulâncias do INEM (que só actuam em caso de vida ou de morte) e este é o ponto comum entre uma coisa e outra

Corre por aí uma polémica, arrisco que de características tipicamente portuguesas, a propósito da concentração contra o apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani realizada em Lisboa no sábado passado.
A polémica, se assim lhe posso chamar, não é sobre o tamanho das pedras adequado ao acto. Tem que ver com outra coisa. A saber, com quem estava por detrás da dita.
Infelizmente, sobre isso nada posso adiantar. Não sei. Nem sequer sei quem terão sido os organizadores oficiais (a controvérsia pressupõe, claro, que existem organizadores não oficiais).
Também nada posso dizer de particularmente interessante sobre quem esteve presente. Encontrei uma amiga que não via há algum tempo e tropecei na Edite Estrela (despermanenteada). Confesso que não me agrada por aí além concentrar-me ao lado de Edite Estrela, mas a causa justificava-o (foi o que pensei na altura).
No Largo de Camões, muito pouca gente. Mais ou menos o mesmo número de pessoas que se juntava na escadaria da igreja do Chiado a ver uns mimos.
Os organizadores, era evidente, mostravam-se pouco familiarizados com megafones. Percebiam-se mal e os discursos foram moles.
Muitas mulheres de democrático salto-alto — o que me deixa sempre um pouco perplexa por ser do tempo em que a malta, quando se concentrava, corria o risco inevitável de ter de se desconcentrar à pressa.
Tudo isto, porém, são pormenores. Explico-me.
Se fosse eu quem tivesse sido condenada ao apedrejamento (ou, para que não haja equívocos, condenada à morte por qualquer dos métodos disponíveis) gostaria de saber que pelo mundo fora havia gente a manifestar-se. Incluindo a Edite Estrela (já sei que não poderia contar com o Pereira Coutinho que tem uma visão masturbatória da compaixão ou lá o que é...).
Adianto ainda que se tivesse organizado a coisa (não sei quem foi, como já referi acima...) teria preferido concentrar-me na Rua Alto do Duque, 49 e deixar saquinhos de pedras sortidas à porta da embaixada. Até tive uma ideia para um cartaz: As pedras já cá cantam.
Resumindo: na minha (pessoalíssima) opinião, corre por aí uma polémica tonta. Como até o politizado mais empedernido salvo seja, canhoto ou dextro, deveria perceber, o caso é de vida ou morte.
O que me conduz ao segundo tema deste post: o INEM.
Pois o 112, aquele número universal a quem a gente pensa poder recorrer quando está mesmo à rasca, afinal, não é o que parece.
A não ser que já estejamos mortos ou prestes a ficá-lo nos próximos 20 minutos, do 112 despacham-nos para os bombeiros.
Reparem, nada tenho contra bombeiros. Aliás, se há gente de quem goste é de bombeiros. A questão não é essa.
Eu sei que a uma senhora não fica bem falar do metal vil, mas a questão é que em Lisboa os bombeiros cobram 30 euros por ida (e o mesmo à volta), para nos levarem nem que seja a dez minutos de casa. Se sairmos do concelho — e tivermos, por exemplo, de levar um doente de Lisboa ao Hospital de Cascais — são 53 (só ida e não têm troco).
Insisto. O problema não reside nos bombeiros. O problema é o INEM.
Ok. Não se justifica ocupar uma ambulância por causa de uma dor de dentes. Ok. Não morro se não for ao hospital, digamos, no prazo de uma hora. Mas e se a situação for daquelas em que se nada for feito morro daí a três? Espero o óbito e telefono depois do além?
Parafraseando o Sócrates, se o Serviço Nacional de Saúde é uma batalha sem fim a vida é ao contrário. E borrifa-se nos "cortes estruturais". Não acreditam, perguntem ao ex-ministro do trabalho do PS, o profícuo Maldonado Gonelha.

17 comentários:

fallorca disse...

Bola bem recheada, com «o tamanho das pedras adequado ao acto», ao post

Ana Paula Fitas disse...

Ana Cristina,
Os casos não são para sorrir mas fica aqui o meu :) pela forma como bem abordou a questão.
Um abraço.

Cristina Gomes da Silva disse...

Mas, afinal, porquê tanto alarido em torno da "identificação/identidade" dos organizadores/as? São mesmo sinais da torpe democracia em que vivemos. Numa democracia a sério os cidadãos conscientes conhecem os seus direitos e os seus deveres e não precisam de emblemas à lapela, seja de que partido for. O resto são, do meu ponto de vista, atoardas de quem acha que a democracia representativa exclui a participação não filiada dos homens e mulheres que acham que não devem calar-se. Abraço, para aí

Miguel Serras Pereira disse...

Excelente, Ana Cristina. Não sei se não serei um dos polemistas visados, mas, já disse e mantenho: excelente post, camarada (se me permite o vocativo).
Abraço

msp

Luis Serpa disse...

A blogosfera, cara Ana Cristina (pelo menos a "de referência"), atravessa uma fase triste. Polémicas tontas e tontices polémicas: parece um cão a morder-se a cauda, perdoe-me a banalidade da analogia.

Há-de passar, espero.

Ana Paula Fitas disse...

Cara Ana Cristina,
Vou fazer link :))
Abraço.

Ana Cristina Leonardo disse...

Caros comentadores, folgo em saber que pelo menos meia dúzia de pessoas concorda com o meu ponto de vista. Não estou habituada a tanto!

Luís disse...

Ana Cristina, meia-dúzia mais um.

margarete disse...

"O resto são, do meu ponto de vista, atoardas de quem acha que a democracia representativa exclui a participação não filiada dos homens e mulheres que acham que não devem calar-se"


este tipo de coisas faz-me sempre lembrar a inclusão (ou não) de acções de voluntariado nos CV's

N. disse...

fiquei a pensar nessa manif. o dia todo - a ideia de que o tempo é a distância a que se está das pedras não me largou.

João Lisboa disse...

Já desenterraste a G3 que tinhas escondida no quintal?

http://lishbuna.blogspot.com/2010/08/e-guerra-portugueses-e-guerra-bravos.html

Ana Cristina Leonardo disse...

Luís, obrigada (meia dúzia mais um, então, é o paraíso...)
Margarete, smile
N, um abraço
João, tu não me puxes pela G3,perdão, língua

Carlos Azevedo disse...

Sim, o caso é de vida ou de morte, mas a vida ou a morte de Sakineh Mohammadi Ashtiani parece ser o que menos interessa; interessa, isso sim, apontar o dedo a quem foi ou não foi, a quem organizou ou deixou de organizar. Não deixa de ser caricato - no mínimo! - que num país em que os cidadãos têm tão pouca consciência política - sendo, por isso mesmo, muito pouco cidadãos, se me é permitido exprimir-me assim - tudo seja partidarizado e reduzido a míseras e insignificantes querelas. Até a vida de uma mulher, que, no fundo, para quem assim fala vale pouco - vale nada.

(E, sim, o post é excelente, mas isso já meia-dúzia mais um assinalaram.)

Zé_Lucas disse...

Presumo que por estar de férias, não acompanhou a tal polémica de início e, assim, só conseguiu apanhar a parte em que se perguntava quem pagou. Virá desse facto, talvez, o tom mais ou menos ligeiro das suas opiniões sobre o assunto, assim tipo MST, que dispara primeiro e pensa depois (se pensar). O essencial, grosso modo, foi a tentativa de discutir o aproveitamento político que estaria a ser feito com a situação da senhora lá no Irão. Não me lembro nunca de esta - a situação - aparecer desvalorizada. Talvez ache isso pouco importante, não dê para escrever umas postas tão engraçadas, mas é a vida!
Cumps

Ana Cristina Leonardo disse...

"Presumo que por estar de férias"

Zé Lucas, infelizmente não tive férias

"Virá desse facto, talvez, o tom mais ou menos ligeiro das suas opiniões sobre o assunto, assim tipo MST, que dispara primeiro e pensa depois (se pensar)."

Como não há facto (ou seja, não houve férias), talvez eu não mereça sequer o benefício da dúvida e, assim, poupo-lhe o trabalho de tentar ser simpático

"O essencial, grosso modo, foi a tentativa de discutir o aproveitamento político"

Quando cheguei a esta parte já estava a dormir... Ou para ser mais clara: estou-me a borrifar para essa história do aproveitamento político. E até acho que o Zé Lucas, se estivesse em risco de ser apedrejado até à morte, tb. estaria. Seria a vida, não é?

Zé_Lucas disse...

"...estou-me a borrifar para essa história do aproveitamento político. E até acho que o Zé Lucas, se estivesse em risco de ser apedrejado até à morte, tb. estaria. Seria a vida, não é?"

Se a justificação é tambem estar para ser apedrejada, eu entendo que simplifique! É aquela pulsão primária que conhecemos por instinto de sobrevivência.
Literalmente, é a vida.

Ana Cristina Leonardo disse...

Zé Lucas, não sou eu, é a Sakineh Mohammadi Ashtiani. E no caso, como parece ainda não ter percebido, e, agora sim, simplificando para ver se desta percebe, a coisa não é hipotética.