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13/08/11

A book a day keeps the doctor away: "Sob a Rede", Iris Murdoch

Iris Murdoch é uma escritora sui generis que consegue aliar, como poucos, as ideias abstractas que fazem o caldo das suas histórias , às personagens concretas dir-se-iam de carne e osso que povoam os seus livros.
Formada em filosofia, temas como o amor, o poder, a linguagem ou a responsabilidade moral transformam-se em Murdoch em paisagens humanas, imprevisíveis e teatrais, como se, através da imaginação desta autora nascida em Dublin (1919-1999) considerada um dos expoentes da literatura de língua inglesa da segunda metade do século XX as próprias Ideias platónicas ganhassem vida e complexidade.
Um Platão ao contrário que, ao invés de Sartre (autor que Murdoch estudou), é capaz de nos conduzir para lá de personagens-arquétipo.
Como se escreve em Sob a Rede: “Toda a teorização é uma fuga. Temos de ser regidos pela própria situação e esta é indiscutivelmente particular. Efectivamente, é qualquer coisa da qual nunca nos conseguimos aproximar o suficiente, por muito que tentemos é como se ela estivesse a rastejar sob a rede. (…) É certo que as teorias podem, com frequência, ser uma parte da situação que temos de enfrentar. Mas, então, toda a espécie de mentiras e fantasias óbvias podem ser parte de tal situação; e diria que devemos saber detectar e evitar as mentiras e não que devemos ser bons a mentir. (…) Sei que coisa alguma nos consola e nada se justifica a não ser uma boa história – mas isso não impede que todas as histórias sejam mentiras. Apenas os homens mais eminentes podem falar e ser, apesar de tudo, verdadeiros. Qualquer artista sabe isto de uma forma confusa; sabe que uma teoria é a morte e que qualquer expressão está sobrecarregada de teoria. Somente os mais fortes podem vencer esse peso.”
Oxalá, pela sua aparente aridez, o excerto citado não afaste leitores do divertidíssimo Sob a Rede. Trata-se (apenas) de uma passagem do diálogo, O Silencioso, que, em tempos, o protagonista deste primeiro romance de Iris Murdoch havia escrito e publicado; o mesmo é relido, com saudável ironia e distanciamento, pelo seu autor em Sob a Rede.
O livro de estreia de Iris Murdoch data de 1954 e relata as aventuras picarescas de um escritor/tradutor, quase sempre falido, na Londres intelectual da altura, Jake Donaghue; mistura amores, política, estrelas de cinema, pequenos gangsters, muitas passagens pelos pubs, e até o rapto de um simpático cão/vedeta, em registo acelerado e burlesco.
Donaghue, o protagonista/narrador, é um bom tipo que vai sobrevivendo de expedientes nos intervalos de penúria, faz pela vida como pode e tem uma tendência acentuada para encontrar mulheres que não se importam de olhar por ele.
No início acaba de ser posto na rua por uma delas, que o troca por um corrector de apostas de perfil mais que duvidoso. O resto do romance relata as andanças de Donaghue que, no meio do caos em que vê transformada a sua vida, tenta manter alguma integridade moral, reflectindo sobre as escolhas que lhe vão sendo impostas, surpreendendo-se com os vários twists que não esperava (o leitor acompanha-o…).
As características e preocupações dos futuros romances de Murdoch estão já todos aqui, nomeadamente o tema do Bem (transversal à obra) que se vê reforçado pela inclusão da figura de Hugo Belfounder, personagem algo enigmática, milionário que lida mal com o dinheiro e o poder e que busca o despojamento a qualquer preço.
O melhor de Sob a Rede está, contudo, na forma pícara como a escritora entrelaça a catadupa de acontecimentos e… nos próprios acontecimentos.
Deixando-se levar sem freio, Iris Murdoch cria algumas cenas de antologia, como a bebedeira que termina com o mergulho nocturno no Tamisa de Donaghue e amigos (incluindo Lefty, o excêntrico líder dos Novos Socialistas Independentes), ou o desabamento dos cenários da antiga Roma, nos estúdios de cinema onde Lefty fazia um empolgado e empolgante comício interrompido pela polícia. Sem a maturidade de outros livros posteriores, ainda assim, uma delícia!
Iris Murdoch, Sob a Rede, 2011, Relógio d’Água, trad. de Maria de Lourdes Guimarães

22/04/10

Quando for grande também quero ser famosa, ter utilidade política, comprar uma valise à carton e fundar uma associação em defesa dos flamingos*

Nunca gramei do género queques de esquerda. Queques por queques, prefiro os autênticos, os da Linha, e não me estou a referir à concorrência.
Sendo eu ainda do tempo do a menina pecebe?, em Cascais a malta sempre ia à praia e o mar, como se sabe mesmo sem ter lido a Murdoch, é uma coisa que areja a cabeça e o resto.
Quando olho para a Inês de Medeiros, sinto-lhe a falta do mar. Ela, por seu turno, sente falta de Paris.
Ao fim de vários meses sem saber quem lhe pagava as viagens para a Cidade da Luz, Lello teve voto de qualidade e pôs a Assembleia da República a entrar com o carcanhol.
Ou seja: je paie, tu paies, il paie, nous payons, vous payez, ils payent.
Esclareça-se. Não é que eu seja forreta. Não é sequer que eu ache que quem lhe deu emprego não devesse arcar com os tickets. A minha dúvida é outra: porque raio a convidaram? porque raio é a Inês de Medeiros deputada do PS e para mais por Lisboa?
E reparem. A minha dúvida é bastante anterior àquela sua singela declaração se Sócrates mentiu nem acho que seja muito grave (à propos, se ela não acha muito grave um primeiro-ministro mentir ao parlamento, porque carga d’água faz parte da comissão de ética do mesmo, mesmo sendo aquela a comissão de ética do mesmo?).
Bom, hoje fez-se luz. Parece que a deputada integrava uma lista de personalidades encabeçada por Figo, cuja simpatia e popularidade foi testada por um estudo de opinião realizado para a PT... Ou seria para o PS? Confesso que esta parte me escapou.
Enfim, seja como for, resolvido o caso, resta-me recordar apenas algumas das opiniões expressas por Inês de Medeiros quando esta ainda era só candidata e os contribuintes não tinham que lhe pagar as viagens.
Perguntaram-lhe.
E ela respondeu.
Touchant, n'est-ce pas?
Fiquei com uma dúvida: é mais caro ir aos Açores ou a Paris? É que se for mais caro ir aos Açores, o que suponho que seja, os termos em que é apresentada esta decisão é a xicaespertice mais xicaespertice de que tive conhecimento nos últimos tempos... ]

19/01/09

A book a day keeps the doctor away

Bradley Pearson é um escritor de meia-idade com um livro na cabeça. Como qualquer escritor com um livro na cabeça, Bradley precisa de silêncio. É por isso que decide ausentar-se de Londres, onde mora sozinho num pequeno apartamento rodeado de pó e literatura. Falhado o seu casamento com Christian, que emigrara, entretanto, para os EUA, de onde acaba de regressar na condição de viúva, resta a Bradley a amizade, não isenta de rivalidade, com Arnold Baffin, autor mais novo e de sucesso que ele próprio ajudou a lançar mas por cuja obra foi perdendo admiração. Do rol das personagens principais consta também Rachel, mulher de Arnold, dona de casa dedicada apesar de descontente com o seu limitado papel, a irmã de Bradley, Priscilla, mulher de Roger, do qual decidiu separar-se da pior maneira, e Julian, a jovem filha do casal Baffin. No início do romance Bradley tem as malas feitas e está pronto a partir. Mas todos os aludidos acima, mais o desprezado ex-cunhado Francis, acabarão por lhe entrar, literal e teatralmente casa dentro (Murdoch publicaria, aliás, uma versão para palco de O Príncipe Negro em 1989), retendo-o em Londres, num corrupio de toques de campainha, bateres de porta e entradas e saídas que levam o leitor a imaginar-se numa plateia assistindo a uma comédia de enganos. E, de facto, O Príncipe Negro é uma comédia de enganos. Negra.
Como sempre em Murdoch, a acção alia-se à reflexão. Neste livro que vai buscar título a Hamlet (peça e personagem presentes em alguns momentos-chave do romance), a escritora irlandesa (1919-1999) leva longe o cruzamento entre os dois planos. O próprio Bradley, enquanto protagonista e narrador, vai intercalando os acontecimentos com as suas observações, escritas no caso a posteriori, já que tudo o que nos é narrado teve lugar no passado. Mas não só ele. Em quatro posfácios, assinados por quatro das personagens, outras tantas visões nos desconcertam, confrontando-nos com a pergunta: o que é a verdade?
Eros e Thanatos jogam aqui ao gato e ao rato, e mesmo se o rato ganha aparentemente a partida, a serenidade final de Bradley permite-nos pensar que a redenção é possível. Assumidamente platónica, Murdoch crê no amor como caminho para o conhecimento (e o verdadeiro conhecimento é necessariamente bom…). Não o encara, contudo, como expressão beatífica que nos conduziria para fora do mundo (embora Bradley se encontre, de certa maneira, fora do mundo); ao invés, ele é condição de aproximação aos outros. Uma aproximação cheia de escolhos, mal-entendidos e sofrimento; mas sem os outros seria fácil ser bom. E como ser bom, é a interrogação ontológica radical que trespassa toda a obra de Iris Murdoch. Colocada, claro, com ironia e recorrendo a personagens a quem gostamos de tratar pelo nome. Um grande livro.
Iris Murdoch, O Príncipe Negro, Relógio d’Água, 2008

16/09/08

Dilemas pós-férias ou algo parecido com isso

«Seria preciso ler Platão ao contrário» é um arranque que nem Iris Murdoch aguentaria. Talvez, em alternativa, «Chovem alfaborras por aqui». Ou soaria melhor, «Por aqui chovem alfarrobas»? Camus disse que elas «exalam um cheiro a amor». E isso em língua nenhuma se contesta.