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22/10/10

Há vida para além do deficit: ontem fui ouvir Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço está velho. Naturalmente. Estava também um pouco cansado, como confessou, com chiste, no final.
A sala estava cheia, mesmo se pequena. Cheia e silenciosa, porque a voz de Eduardo Lourenço fala agora mais baixo.
Lourenço falava a propósito do novo livro do ensaísta e tradutor João Barrento, acabado de publicar pela Assírio & Alvim: O Género Intranquilo, Anatomia do Ensaio e do Fragmento.
O autor de Heterodoxia preferiu dissertar sobre coisas antigas que não interessam nada. Entre elas, Montaigne, o inventor do género. E falando sobre coisas antigas que não interessam nada, deu aos presentes uma lição de sabedoria, elegância, humor e simplicidade. Às vezes estas coisas andam juntas. E também gostei que não citasse Adorno nem referisse a comédia do orçamento.

27/01/10

A book a day keeps the doctor away

O título de Stig Dagerman, “A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer”, poderia estar inscrito no túmulo de Jean Améry, ao lado do seu número de prisioneiro de Auschwitz que realmente aí figura.
Até agora, escandalosa e inexplicavelmente ignorado em Portugal, Jean Améry, nascido Hans Mayer na Viena de 1912, de mãe católica e pai judeu, escreveu algumas das mais radicais e complexas reflexões sobre o Holocausto, sendo um autor de importância semelhante a Primo Levi, com quem, aliás, partilhou o cativeiro em Auschwitz-Monowitz, ambos adstritos à IG Forben que aí produzia borracha sintética à custa de trabalho escravo. Mas se a relação particular de Améry ao judaísmo – de família assimilada (o pai morre na I Guerra Mundial e ele será educado no cristianismo pela mãe), é preso e torturado pelas SS pela sua resistência política ao regime hitleriano, acabando por ser enviado para Auschwitz enquanto judeu – não explica, com certeza, o seu olhar despido de sentimentalismo, talvez o facto da judeidade lhe ter sido imposta do exterior – nesse número gravado no braço e depois no túmulo, despojando-o, ao mesmo tempo, de identidade e cultura (alemã, de que mantém a língua mas não o nome) – esteja relacionado com a busca de um lugar de liberdade e libertação que é, neste ensaio, o lugar ocupado pelo acto do suicídio.
“Atentar contra si – Discurso Sobre a Morte Voluntária” antecede em dois anos o desaparecimento de Améry, que acaba por morrer de overdose de comprimidos em 1978, e assume-se, desde logo, como um não-tratado de suicidologia. As estatísticas não lhe interessam, assim como não lhe interessam a psicologia ou a sociologia. Reflexão livre, alicerçada na experiência, também não se poderá classificá-la como uma apologética da morte voluntária. Mais próximo da filosofia, o livro tem a seu favor, apesar da contenção e secura da escrita, um substrato vivencial que o “humaniza”, dando-nos a ler um pensamento assinado que não esconde interrogações nem contraditoriedades. Com posfácio e notas de Pedro Panarra, aguarda-se agora que alguém se decida a publicar ”Para além da Culpa e da Expiação”.

Jean Améry, Atentar Contra Si. Discurso Sobre a Morte Voluntária, Assírio & Alvim, 2009

12/12/09

A book a day keeps the doctor away

Um leitor sabe: nada melhor do que a descoberta de um autor, mesmo tardia. Mea culpa, ainda assim, visto que César Aira (apesar de já o terem classificado como o “segredo mais bem guardado da Argentina”) não só escreve num idioma acessível mas também estava publicado entre nós, na mesma editora (Assírio & Alvim), traduzido pelo mesmo poeta (José Agostinho Baptista).
O livro de 2005 chama-se Como me Tornei Monja; este, Um Episódio na Vida do Pintor Viajante, acaba de sair. César Aira é um dos escritores eleitos de Enrique Vila-Matas. Eu gosto muito de Vila-Matas mas não seria obrigatório… Não sendo, aconteceu.
Um Episódio na Vida do Pintor Viajante é um deslumbramento. É-o, mesmo se a espaços envereda por caminhos especulativos perturbadores da leitura (do leitor), a propósito dos quais se poderia até presumir ter outro argentino dos grandes, Cortázar, escrito isto: “(…) quanto mais se parecer um livro com um cachimbo de ópio mais satisfeito ficará o chinês que o fuma, disposto no máximo a discutir a qualidade do ópio mas não os seus efeitos letárgicos” (A Volta ao Dia em 80 Mundos).
Neste caso é tudo bom, incluindo o estranhamento que vai crescendo paralelo ao deslumbramento, à medida que uma espécie de raciocínio obscuro se contrapõe à exposição de recorte clássico. Talvez seja essa, aliás, a qualidade maior desta narrativa breve: linguagem claríssima servida por uma “história” enigmática (ou vice-versa). O que no início nem parece. Começa assim: “No Ocidente, houve poucos pintores viajantes realmente bons. O melhor, de quem temos notícias e abundante documentação foi o grande Rugendas, que esteve duas vezes na Argentina (…)”.
E prossegue:: “Johan Moritz Rugendas nasceu na cidade imperial de Ausburgo a 29 de Março de 1802, filho, neto e bisneto de prestigiados pintores do género (…)”.
Na aparência estamos face a um texto biográfico respeitador dos cânones tradicionais, tendo por objecto uma personagem real: Rugendas existiu, foi pintor e visitou o continente americano. A novela, porém, vai ganhando complexidade conforme o narrador vai abandonando a objectividade descritiva, substituindo-a por um desejo de interioridade, na verdade nunca alcançado: Rugendas resiste a deixar-se fixar no retrato, comprovando assim que qualquer biografia é um projecto, se não inútil, decerto inacabado. E, quando a meio do relato da viagem de Rugendas pela pampa argentina se dá o terrível acidente, ele escapará totalmente por detrás da mantilha negra que lhe cobre o rosto e os delírios.
Acrescente-se: tendo como protagonista um pintor, a qualidade pictórica de Um Episódio na Vida do Pintor Viajante sobressai mais ainda, barroca e onírica, ao mesmo tempo que exacta. Numa palavra, surreal.
César Aira, Um Episódio na Vida do Pintor Viajante, Assírio & Alvim, 2009

06/12/09

A book a day keeps the doctor away

Morreu o ano passado, aos 78 anos. Ficou conhecido sobretudo por essa obra-prima chamada O que Diz Molero, (a)caso feliz de reconhecimento público e prova que usar pontuação esquisita não é só para o José Saramago.
Dinis Machado não foi, porém, apenas autor desse “livro-bomba, obra d’arromba” (para citar Luiz Pacheco). No seu currículo, curto, é verdade, incluem-se ainda Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Marquéz, Bertrand, 1984, Reduto Quase Final, Bertrand, 1989, e Gráfico de Vendas com Orquídeas e Outras Formas de Arrumação de Conhecimentos: 20 Textos (de 1977 a 1993), Cotovia, 1999.
Aprendiz de Bartleby que à expressão “I would prefer not to” preferia o “Let’s get out of here” das fitas dos camónes (como lembrou Maria Piedade Ferreira na “Ler” nº72), Machado escreveu também uma tríade de policiais a troco de vinte contos nos idos de 60, la vie oblige. Assinou-os com o americaníssimo e apropriadíssimo pseudónimo de Dennis McShade, recebeu a massa e não terá pensado mais no assunto.
Recentemente, a Assírio & Alvim pegou nos três títulos, vestiu-os com novas capas e reeditou-os: Requiem para Dom Quixote, 2008, Mão Direita do Diabo, 2008, Mulher e Arma com Guitarra Espanhola, já este ano. Todos eles protagonizados por Peter Maynard – assassino profissional e literato com dúvidas existências e propensão para o monólogo (homenagem à personagem borgeana do conto Pierre Menard, autor de Quixote) –, antecederam O que Diz Molero no tempo mas não na acutilância da prosa. E, no meio disto tudo, ficaram uns papéis na gaveta. Quase sessenta páginas. Acabam de chegar às livrarias sob o título Blackpot.
O registo é policial e, apesar de Peter Maynard já não entrar na história – escrito Blackpot muito mais tarde, algures entre 1983 e 1985 –, a sua estrutura (delirantemente cerebral) lembra ainda o argentino cego. A chave do plot estará na frase final, roubada ao romance A Queda, de Camus: “Quando todos formos culpados então será a democracia”. Se isto for verdade, o inédito machadiano é o policial mais democrático que já li na minha vida.
Capítulo a capítulo (31, menos um do que o total das peças do xadrez), as personagens vão-se matando umas às outras, assumindo os lugares deixados vazios:
"Gulliver ligou para Armador.
– Então?
– Já está – disse Armador – Matei-o há duas horas.
– Ok – disse Gulliver.
– Ouve – disse Armador – Tu agora és Legos?
– Sou Legos.
– E Condor?
– Também sou Condor.”
Um divertissement absurdo (Beckett está lá de novo) onde domina o humor negro e aquele estilo irresistível e livre de Machado. Como concluiu Pacheco a propósito de O que Diz Molero: "Valeu!"

26/07/08

Excelentes notícias, para variar


Protagonizado pelo inesquecível Peter Maynard, a Assírio & Alvim acaba de reeditar Mão Direita do Diabo, de Dennis McShade, igualmente conhecido por Dinis Machado. Primeiro de três policiais escritos por Machado, cerca de 10 anos antes de O que diz Molero, lá pelos 60, sai agora, 40 anos passados, com nova capa de João Fazenda.
Lá dentro, em posfácio, José Xavier Ezequiel dispara com pontaria: «Dinis Machado trata o policial negro por tu cá tu lá. Ele e o policial negro são unha com carne, quase como se tivessem andado na mesma escola, ou assentado praça juntos.
«(...) A ideia dos monólogos maynardo-molerianos veio-lhe d'A Queda de Camus. Já não é para todos. Mas onde é que, até então, se tinha visto um policial de bolso com referências a Dos Passos, Céline, Kafka, Joyce? Onde é que já se viu um assassino profissional que ouve Mozart, Bach, Debussy? Qual era o autor de policiais que os tinha para citar Rimbaud, Cervantes e Grimm no início dos livros?
«(...) Montalbán pode ficar descansado — nunca ninguém vai perceber que, quando Pepe Carvalho nasceu, já Peter Maynard comia pão com côdea.»