31/12/07

Então, até para o Ano. Bailem Muito! Pela minha parte, «I Could've Danced All Night»


Steve Allen e Sammy Davis Jr.

Literatura para Fumadores mas, como não Sou Fundamentalista, os não Fumadores também Podem Ler

A propósito da entrada em vigor amanhã da lei anti-tabaco, repesquei um texto sobre um livro que anda por aí (foi publicado em 2004 pela Teorema) e que fala das relações entre a cultura e o acto de fumar. Chama-se apropriadamente A Matéria de Que São Feitos os Sonhos e merece ser lido. O autor, quando o conheci, fumava SG Ventil.
A Matéria de Que São Feitos os Sonhos não é um livro a favor ou contra o fumo. Pretende apenas, a pretexto desse prazer etéreo, expor «uma teia sem fim de narrativas que evidencia como as grelhas de leitura mudam com a mudança do mundo. Na verdade, no início dos anos 60 (...) a representação que se fazia dos ‘grandes homens’ estava indissoluvelmente ligada a um cigarro (Bogart), a um charuto (Churchill) ou a um cachimbo (Sherlock Holmes)».
Arriscando-me a ser acusada de ignorante a respeito dos malefícios do tabaco, recordo que Churchill morreu aos 91 anos, Arthur Conan Doyle aos 71 e que, dos três, apenas Bogart desapareceu precocemente aos 57. Mas, como decerto subscreveria Hanif Kureishi, «antes ignorante que fascista».
«(...) porque a morte, como processo fortemente não-linear, tem aversão à ‘separabilidade’ dos factores que a provocam, talvez seja de aceitar alegremente o velho aforismo ‘It’s better to die from something than from nothing’», escreve-se na pág. 238 em resposta ao facto de fumar se ter tornado «the leading cause of statistics». Recordar que «não é possível dar conta da combinatória de riscos a que cada ‘morto’ foi sujeito» talvez não seja despiciendo quando, entre outras, mortes tão provectas como as de Bette Davis, Cantinflas ou John Huston (todos aos 81 anos), Sinatra e Barbara Stanwyck (82), Freud (83), Groucho Marx (86), ou mesmo David McLean, o cowboy da Marlboro (73), são apontadas pelos militantes antitabagistas como exemplos de desaparecimentos ligados ao tabaco. Apetece lembrar que, atendendo pelo menos à idade, os referidos teriam de morrer de alguma coisa.
Reafirme-se: o objectivo de Henrique Garcia Pereira não é negar os riscos da nicotina; o que ele faz é passar em revista memórias, leituras e cumplicidades, criadas e vividas em ambiente de fumo. Dele, aliás, não seria de esperar um livro politicamente correcto ou — dever-se-ia antes dizer? — politicamente saudável.
Lisboeta, nascido na capital em 1945, formou-se em Engenharia Química e de Minas no Instituto Superior Técnico, onde é professor catedrático. Define-se como babyboomer, urbano e viajante. Adivinha-se, pela leitura dos seus textos (onde as notas de rodapé fazem parte do núcleo duro da escrita), ser também um leitor compulsivo (e um amante incondicional de Enrique Vila-Matas).
Em 2000 publicou Arte Recombinatória (Teorema) [é esse livro que exibe na fotografia acima]; em 2002, Apologia do Hipertexto na Deriva do Texto (Difel), obra a que a APE concedera o Prémio Revelação de 1999. A intrincada teia que estabelece entre vida/ciência/literatura, já presente nos trabalhos anteriores, volta a constituir a trama do presente livro.
À primeira parte, onde Garcia Pereira deriva pelas suas memórias invocando a bolorenta Lisboa da sua juventude, fugas e autores de estimação, seguem-se oito anexos temáticos que relacionam o fumo com a clorofila; o amor; a repressão; o jornal; o risco; a lentidão; o imaterial; e, e, e...
O tema do cigarro serve-lhe, por exemplo, para tecer alguns comentários sobre a «leveza» das ligações em rede (Net), para contar a história da cigarreira de Crowley onde este terá escondido uma enigmática carta a Pessoa ou, até, para estabelecer relações desejáveis entre a imaterialidade do fumo e a figura do judeu errante. E, porque escrevi «judeu errante», sublinho as passagens onde se referem as campanhas nazis contra o tabaco e os estudos do médico alemão Fritz Lickint, que, já em 1939, publicava um trabalho sobre a relação entre fumo e cancro no aparelho respiratório.
A Matéria de Que São Feitos os Sonhos conta centenas de histórias, em ritmo levemente provocatório, e recorda, sobretudo, que enquanto actores conscientes não necessitamos de ser protegidos daquilo que nos dá prazer. Lembre-se que a radicalidade das actuais campanhas já chegou ao ponto de passar uma borracha sobre vários retratos (o que remete para o belíssimo começo de Kundera em O Livro do Riso e do Esquecimento): Lucky Luke, os Beatles e Malraux são apenas três exemplos de censura histórica.
Como diz Harvey Keitel em Smoke: «Cigarros hoje, sexo amanhã», e hoje já nem a simples pergunta «Desculpe, tem lume?» seria permitida a Bacall antes de ensinar Bogart «how to whistle».

29/12/07

Da Literatura e Coisas Afins

Concentração foi a palavra-chave de 2007. Concentração de editores [com investimento internacional pelo meio], concentração de livreiros [a Byblos segue a tendência dos mega-espaços], concentração nas apostas [os bestsellers jogam para bingo]. Em relação aos volumes editados, não há alterações: como em 2006, cerca de 14 mil. No resto, prossegue também a normalização: publicar livros é cada vez mais um negócio como qualquer outro, com direito a Operação Furacão e tudo. E por falar em negócios, o mais mediático [há quem diga, escandaloso] foi certamente a compra pelo grupo de Paes do Amaral da Caminho, a casa de José Saramago [entretanto também comprou a Dom Quixote].
Quase no final de 2007, o mundo editorial animou-se com um assomo de polémica, com Vasco Pulido Valente a garantir que Miguel Sousa Tavares não percebia nada de História e que O Rio das Flores não lhe outorgava o almejado estatuto de escritor. Não houve bengaladas e a literatura não ficou mais próspera. O resto do ano foi morno: Gonçalo M. Tavares ganhou outro prémio e António Lobo Antunes escandalizou de novo ao afirmar, sem falsos pudores: «Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares». Esteve bem, porque O Meu Nome é Legião é um dos acontecimentos literários do ano que finda. O mesmo se diga das novas edições de Debaixo do Vulcão, Malcolm Lowry, Salammbô, Gustave Flaubert, A Sonata de Kreutzer, Lev Tolstói, Margarida e o Mestre, Mikhail Bulgákov, Corre, Coelho, John Updike, A Grande Arte, Rubem Fonseca e Aproveita o Dia, Saul Bellow.
Além destes, se partisse agora para uma ilha, levaria também A Ponte sobre o Drina, Ivo Andric, A Estrada e Este País não É para Velhos, Cormac McCarthy, Um Homem Acidental, Iris Murdoch, Época de Acasalamento, P. G. Wodehouse, Vertigens. Impressões, W.G. Sebald, Todo o Mundo, Philip Roth e, mesmo sem ainda ter lido, Arthur & George, Julian Barnes. Por precaução, juntaria ao pacote O Silêncio dos Livros, George Steiner. Bons títulos impressos ainda em papel, enquanto não chega a Portugal a moda japonesa dos «mobile novel». Uma das histórias, escritas ao telemóvel por Mika, chama-se Céu de Amor e reza assim: «Sou baixo, estúpido, não sou giro, sou um monte de lixo e não tenho sonhos». Alguém devia escrever um romance sobre isto.

28/12/07

O Mundo não Cabe na Cabeça dos Provincianos. E é Pena. Porque Tudo Seria mais Pitoresco e Divertido.

Benazir Bhutto foi assassinada. Do atentado resultou a morte de mais 20 pessoas e, segundo a Reuters, pelo menos cerca de 70 paquistaneses já faleceram durante os tumultos que se seguiram ao desaparecimento da ex-primeira ministra a 27 de Dezembro, com as forças paramilitares do país a receberem hoje autorização para disparar à-vontade, em caso de alteração à ordem pública. Os votos de condolências surgiram de todas as partes do mundo, incluindo, claro, os EUA.
O presidente Bush, que tinha entretanto elegido o Paquistão e esse grande democrata que é o general Moucharraf como aliados de peso na «luta contra o terrorismo mundial», apareceu a chorar lágrimas de crocodilo. Tudo o resto — as alianças perversas, a crise energética, as armas nucleares, a situação no Afeganistão — foi varrido para debaixo do tapete, para apenas deixar ouvir um palavreado oco que, sob o bom nome da ética, esconde uma realpolitik desastrosa e um real descontrolo da situação internacional.
O mundo fica agora um lugar ainda mais perigoso, face ao qual vêm carpir a estafada ladaínha dos direitos humanos, progressivamente transformados em slogan vazio de conteúdo para enganar o pagode. A morte de Benazir Bhutto é uma tragédia. Porque morre uma mulher de coragem (independentemente das opiniões que se tenham sobre o seu percurso político), e porque o seu assassínio trouxe à tona o resultado de políticas sem escrúpulos e sem princípios. Que Bush, um cowboy ignorante e caceteiro, tenha chegado à presidência dos EUA, devia-nos preocupar. Tanto quanto o radicalismo islâmico que não é mais — ou talvez seja — do que uma forma actualizada de fascismo.
Entretanto, por cá, na West Coast da Europa, enquanto a humanidade avança pelos nove círculos do Inferno, vamo-nos entretendo com temas fracturantes e pitorescos. Por exemplo: em que locais se pode fumar depois de 31 de Dezembro? Ou: podem ou não os portugueses usar colheres de pau nos restaurantes? É o choque civilizacional no seu melhor.
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Sobre as tricas geoestratégicas que envolvem o Paquistão, aqui. Em português, para uma história política abreviada do país até ao final do século XX aqui. Do site do The New York Times, imagens do atentado, do funeral, e da vida de Benazir Bhutto.

«Os Amantes Imponderáveis São Archotes da Matéria na sua Frondosa Verdura», António Ramos Rosa

Vedrai Vedrai, Luigi Tenco
Mi sono innamorato di te, Luigi Tenco
Mais sobre Luigi Tenco, aqui

26/12/07

Portugal como Vontade e Representação

«Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo». Eis o que nunca poderia dizer porque Portugal nunca me disse muito – e uma acidez espasmódica galga-me a boca do estômago quando me falam de pátria. [Nada escrevo de original. José Cardoso Pires registou-o em Alexandra Alpha: «Isto não é um país, é um lugar mal frequentado».]
A imagem – a pedir uma dose reforçada de Alka-Seltzer – é contrária à poética das coisas belas, eu sei. Também sei isto: «Metade da minha alma é feita de maresia». Nasci no extremo Sul: a geografia vale tanto como a genética.
Dir-me-ão: «E o Cavaco?». O Cavavo é um «montanhêro», na feliz definição do meu descansado tio, algarvio da borda d’água, que a reservava com parcimónia a todos os que tivessem nascido a mais de três quilómetros do mar.
Pouco importa já aquele que o poço trocou pela fonte. Dada a mudança acrescida de estatuto existencial – de primeiro-ministro infalível ascendeu a chefe de Estado dilacerado pelas dúvidas [não aprovo/ aprovo/ não aprovo/ aprovo/ Ó MARIA!] – só o futuro próximo lhe fará, ou não, justiça. Daqui a 9 meses, aproximadamente, virá a público o resultado do seu lancinante grito: «Eu não acredito que tenha desaparecido dos portugueses o entusiasmo de trazer vidas novas ao mundo!» O meu tio está morto, logo, incapacitado. Se não estivesse, esta história da West Coast teria acabado com ele.
Com a Primavera veio o Allgarve: 9 milhões de euros gastos numa campanha mundial decidida pelo inefável Ministro da Economia e Inovação (?), Manuel Pinho. [É verdade que nessa altura era-lhe impossível saber que, sem custar um tostão a Portugal, Gerry McCann viria a organizar no Verão a maior campanha de marketing a que o Algarve já assistiu desde o tempo em que era reino.]
Em pleno Inverno do nosso descontentamento chega a cowboyada da West Coast: «Como pode uma marca que é a 23ª do mercado, que tem fraca e até má reputação, pobres argumentos, baixo preço e uma desmotivada força de vendas, dar a volta por cima e criar um grande impacto no mercado?». A marca – e depois eu é que falto ao respeito à pátria... – é Portugal.
«Portugal é visto como um país do Sul. Um país de Sol e Mar mas também de subdesenvolvimento, iliteracia, corrupção e dos recorrentes indicadores estatísticos de miséria. O Sul é o filtro que nos condena a sermos vistos como somos». Ora a merda!!! [e olhem que na minha família não somos de dizer asneiras].
Continuemos a ler Pedro Bidarra, grau 33 em marketing e publicidade e responsável da campanha: «Sem ser exaustivo, digamos que o Sul tem bom tempo, calor, gente simpática, boa comida, paz, esplanadas e dolce farniente; e tem subdesenvolvimento, gente pobre e iliterada, corrupção e os indicadores estatísticos de miséria» [sem ser exaustiva: serei da gente pobre e iletrada ou da simpática e corrupta?].
E o que é que tem a West Coast? Ah! Ah! Segundo a mesma luminária tem «associações "aspiracionais" – Hollywood ou Silicon Valley, por exemplo – que sem nada termos que fazer contaminam o conceito positivamente, tornando-o mais glamouroso e mais cosmopolita. Depois há as pontes e colinas de Lisboa e S. Francisco, o Vale do Douro e o Napa Valley, a aridez da Baja Californiana e o nosso Alentejo, coincidências felizes que é só aproveitar
Se isto fosse mesmo a West Coast ou eu a Calamity Jane esse tal Bidarra mais o Pinho do costume haviam de comer pó. Em memória do meu tio. Amen (e com glamour aspiracional).

25/12/07

Perplexidades Natalícias

A Rainha de Inglaterra Poderá Ter Descoberto o You Tube pelo Natal mas os The Pogues já lá Estavam

Para rematar a saga natalícia, a realeza britânica faz-se representar no You Tube. Na Pastelaria, continuamos a preferir os velhos The Pogues.

E sim, parece que a coisa termina hoje (embora ainda faltem os Reis Magos). Por falar em Reis Magos, uma sugestão para o dia de Natal. Começa com a chegada dos três cavalheiros a casa do Brian:
Continua aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
Para quem preferir algo mais rápido, mas também inteiramente dentro do espírito da época e com legendas.
Só com mais um aqui e aqui.
Uma boa alternativa ao bacalhau, que ainda por cima está em risco de extinção.

24/12/07

A ASAE vista por Jacques Tati e Vasco Pulido Valente

Uma Cozinha ASAE/DGS
A ASAE Explica-se
A ASAE (Autoridade de Segurança Alimentar e Económica), preocupada com o seu bom-nome e reputação, resolveu explicar que não é tão má como a pintam. “Dizer mal” da ASAE parece que se tornou uma “moda” e ela, naturalmente, sofre com isso; tanto mais que ajudou Portugal a estar “à frente da Europa” na sua importantíssima especialidade. Para que Portugal a compreenda e a estime, resolveu assim desfazer alguns “mitos”: do mito da bola-de-berlim ao mito da açorda. A bola-de-berlim, por exemplo. A ASAE não proibiu que se venda a bola-de-berlim nas praias. Proibiu, sim, que se vendam nas praias bolas-de-berlim de mau “fabrico” (e, tanto quanto me lembro, em “contentores” com uma temperatura excessivamente alta), para evitar que o bom público ingerisse “óleos saturados”, muito deletérios para a “saúde humana”. Se este zelo inquisitorial expulsar a bola-de-berlim das praias, ninguém poderá culpar a simpática ASAE. O mesmo se passa com a colher de pau. Ao contrário de um boato insidioso, a ASAE não baniu as colheres de pau. Só baniu as colheres de pau “que não se encontrem num perfeito estado de conservação”. Será que a ASAE se propõe examinar as colheres de pau de cada português? Revolver com minúcia cada gaveta? É uma ideia prometedora. Quanto às castanhas que se costumavam embrulhar em papel de jornal, a ASAE jura que não condena essa prática venerável, desde que o papel de jornal não contenha qualquer desenho, pintura ou palavra impressa “na sua parte interior”. Por outras palavras, desde que não seja papel de jornal. A ASAE é generosa. Excepto no galheteiro, que não quer ver na frente; e nos petiscos domésticos, de que suspeita do fundo da sua alma vigilante (os portugueses são porcos). Já com o pão para a açorda, a ASAE adoptou uma política liberal, uma vez que lhe dêem a garantia (como?) de que ele não foi contaminado. E, num gesto, que sempre lhe agradeceremos, não obriga ao uso de copos de plástico para o café.
A ASAE é um corpo de polícia estimável. A polícia é em si própria estimável e o indigenato precisa muito de polícia. Como a história prova, os portugueses não se portam nunca convenientemente se não os proibirem, inspeccionarem, multarem e de várias maneiras reprimirem a intervalos regulares. Pena que a benéfica existência da ASAE não encoraje o governo a fundar uma milícia contra o álcool, o tabaco, o sal, o açúcar, a obesidade e a preguiça. E, pensando bem, contra o voto. [in Público]

21/12/07

Se há Começos que nos Levam a Devorar Compulsivamente um Livro... Então, este É com Certeza um desses

Raparigas de Escassos Recursos
Há muito tempo, em 1945, todas as boas pessoas de Inglaterra eram pobres, salvo certas excepções. Prédios em mau estado, ou sem estado possível, ladeavam as ruas, alvos de bombardeamentos cheios de destroços de gravilha, casas como dentes gigantes cujas cáries haviam sido perfuradas, exibindo as cavidades. Alguns prédios bombardeados pareciam ruínas de velhos castelos até que, vistos mais de perto, sobressaíam os papéis de parede de várias salas bastante normais, andares sobre andares, expostos, como num palco com menos uma parede; às vezes uma corrente de autoclismo suspendia-se sobre o nada do tecto de um quarto ou quinto andar; a maioria das escadas sobrevivia, como uma nova forma de arte, dando para um destino não especificado cada vez mais alto, que exigia esforços extraordinários à imaginação. Todas as boas pessoas eram pobres; ou, pelo menos, era um axioma genérico, sendo que os melhores de entre os ricos seriam pobres de espírito.
Não havia qualquer razão para alguém ficar deprimido com o cenário, seria como ficar deprimido com o Grand Canyon ou qualquer outro fenómeno terrestre sobre o qual não havia nada a fazer. As pessoas continuavam a trocar garantias de sentimentos depressivos sobre o tempo ou as notícias, ou o Albert Memorial que não tinha sido atingido, nem sequer beliscado, por bomba nenhuma desde o princípio até ao fim. [continua]
Muriel Spark, Relógio D'Água, Novembro 2007

And Now for Something Completely Different — Orgulho hetero?


Andy Williams, Music To Watch The Girls Go By, 1966.

18/12/07

Excitação! Excitação! Excitação!

Se eu tivesse uma livraria colocaria no seu frontispício esta frase de Groucho Marx: «Outside of a dog, a book is man's best friend. Inside of a dog it's too dark to read».
Se eu tivesse uma livraria poderia até vir a escrever um livro que começasse assim: «Eu tive uma livraria em Olhão...», e depois falaria de ilhas.
Nunca tive uma livraria: ninguém disse que a vida seria fácil, ou se disse devia ser julgado por perjúrio. Mas gosto de livrarias. Por exemplo, adoro a Galileu de Cascais. E de uma que havia no Chiado com um sininho na porta que fazia tlim-tlim-tlim-tlim quando entrávamos (é verdade que não tinha muito movimento, o que que tornaria ensurdecedora a onomatopeia...).
Mudam-se os tempos, mudam-se as livrarias. E também elas se renderam ao progresso galopante que já vem da Revolução Industrial. Se nessa altura a maior parte da malta era analfabeta com todas as letras, hoje, apesar da alfabetização que o século XX nos trouxe, às livrarias já não bastam os livros — que são, para quem não souber do que se trata, objectos tradicionalmente feitos para serem lidos.

«O livro em si não chega, porque há muita concorrência dentro da própria área da cultura e entretenimento, e é preciso reinventar o negócio e trazer alguma excitação». Foram estas sábias palavras proferidas por Teresa Figueiredo, actual directora de marketing da Bertrand, senhora que exibe no curriculum 12 anos de árduo labor na Lever, a maior multinacional de sabões e detergentes.
Numa entrevista que descobri transcrita na WEB (aqui, para ser mais precisa), quando a páginas tantas lhe perguntam (suponho que vomitando já tanto know-how):
Afinal, a Bertrand é uma loja ou uma livraria?
a resposta foi esclarecedora:

«Depende de como entendemos livraria. Se sinónimo daquele sítio pouco envolvente, com teias de aranha e pouco excitante, a Bertrand não é uma livraria. Agora, a ideia de livraria não tem de ser negativa, é uma loja onde vendo livros e tenho um ambiente agradável. Somos uma loja no sentido em que vendemos livros. Mas face ao passado, somos uma livraria no sentido de divulgar os livros e de ter como missão fazer chegar os livros a todo o lado e de divulgar os autores e a leitura. Dizer que somos apenas uma loja seria redutor.»
Quanta fluência! Quanta inteligência! Quanta modernidade!
Todas estas exclamações não passam de inveja minha, claro. Como nos dias que correm só com uma Mauser apontada à cabeça entraria numa livraria Bertrand, resta-me reconhecer que não passo de uma carcomida leitora, cheia de teias de aranha, pouco envolvente e nada, nada, excitante. Analfabeta? Reaccionária?

Bar Aberto na Pastelaria

Cocktails for two - Spike Jones & City Slickers, 1945

16/12/07

Alta Tendencial da Taxa de Imbecilidade

Famílias desfeitas. Disfuncionais. Rendimentos curtos. Professores deprimidos e amedrontados. Burocracia ministerial galopante e paranóica. Espaço escolar degradado. Treta pedagógica. Manuais dementes. Pais ausentes. E depois apareceu um relatório da OCDE que coloca os jovens portugueses de 15 anos no vergonhoso 37º lugar, entre 57 países sujeitos a um inquérito sobre conhecimentos e competências escolares.
Comentário chocalhado por Cavaco Silva, à saida de um simulador: «Aprender exige disciplina, trabalho, exige esforço da parte de professores, pais, da comunidade, mas também muita disciplina dos alunos».
Perante tal profundidade voluntarista, somos levados a concluir com mágoa que, à imagem do Partido Reformista do Eça [Economias! Economias! Economias!],esta malta não tem ideias: Disciplina! Disciplina! Disciplina!

15/12/07

Os Malditos

«Irmãos humanos, deixem-me contar-vos como foi que se passou», assim começa As Benevolentes (Dom Quixote), o outro nome das temíveis Fúrias. Romance de quase 900 páginas, escrito em francês por Jonathan Littell, um norte-americano com menos de 40 anos, arrebatou em 2006 os prémios Goncourt e da Academia Francesa, tornando-se num inesperado sucesso de vendas.
Verdadeiro compêndio das atrocidades nazis, tem como narrador Max Aue, homossexual incestuoso e próspero homem de negócios, em tempos um dedicado SS, o qual nos confessa, logo a abrir, não sofrer de arrependimento, embora sofra pontualmente de enxaquecas, insónias e distúrbios intestinais. Na verdade, o que ele gostaria era de se ter dedicado às artes.
Hannah Arendt previra que o problema do Mal seria o grande tema do pós-guerra. Ao invés, prontamente se varreu a ética para debaixo do tapete, e até Se Isto É Um Homem, de Primo Levi — considerado, à falta de termo mais adequado, «o» clássico da literatura sobre o Holocausto — passou despercebido durante mais de uma década, só ganhando visibilidade já nos anos 60.
Entretanto, mais livros surgiram a público, e seria injusto não registar, entre outros, nomes como Jean Améry, Jorge Semprún, Robert Antelme, David Rousset ou Imre Kertész. Todos estes autores partilharam a vivência concentracionária e todos eles decidiram (e conseguiram) dá-la a conhecer. Fizeram-no recorrendo ao material da memória, sem que por isso se vislumbre nas suas obras qualquer resquício de mimetismo aristotélico, qualquer ilusão na correspondência gemelar entre a palavra e o real.
Ainda assim, a sua experiência testemunhal, enquanto protagonistas da «shoah» (palavra hebraica para «catástrofe»), tê-los-á impedido de ultrapassar a fronteira em que a linguagem tende a submergir no abismo; caberia à imaginação de outros transpor o fosso sem se perder no Inferno. E Inferno aqui não é uma metáfora inócua: muitos dos autores citados (e não citados), incluindo Primo Levi, acabaram por suicidar-se.
Porém, como ficcionar o Mal que marcou a ferros o século XX, sobretudo depois de tantos terem levado a sério a declaração bombástica de Adorno que, do seu exílio na América e invocando Auschwitz, condenava a poesia ao silêncio eterno? Nota de rodapé: a poesia, como se sabe, sobreviveu, embora o poeta judeu Paul Celan, também ele um sobrevivente, se tenha atirado ao Sena (Adorno morreu na cama).
Certas derivações metafísicas foram-se, entretanto, colando ao tema do Holocausto. Adjectivos algo pomposos e de qualidade negativa (indizível, incompreensível, indefinível...) cobriram-no de uma mística brumosa que, por lhe negar explicação, do nosso ponto de vista acaba a matar as vítimas duas vezes.
O israelita David Grossman foi um dos que tentou contrariar a corrente, ficcionando em Ver: Amor (Campo das Letras) a experiência de Wasserman, um velho sobrevivente judeu. Não o fez, contudo, sem suportar críticas pela «blasfémia» e também sem impregnar o romance de uma atmosfera fantástica e alegórica, como que confirmando os versos de T.S. Elliot: «Vai, vai disse a ave: o género humano/ não pode suportar muita realidade.»
Curiosamente, tem sido mais fácil aos escritores vestirem a pele dos carrascos. O recentemente falecido Norman Mailer, por exemplo, cujo último livro O Fantasma de Hitler (Dom Quixote) acaba também de ser publicado, atirou-se directamente à jugular da besta e reinventou um jovem Hitler tocado pelo Demónio. Convencido que o ditador ultrapassava a compreensão humana, Mailer adiantou que, para si, a única explicação estava na existência do Mal... Mas agora que até a Igreja Católica veio dizer que o Diabo não era para se levar à letra, a hipótese do Mal absoluto parece perder terreno face à da sua banalidade.
As Benevolentes aposta na segunda hipótese. Max Aue é claríssimo: «Se nasceram num país ou numa época em que não só ninguém aparece para matar as vossas mulheres, os vossos filhos, mas em que ninguém aparece também para vos dizer que matem as mulheres e os filhos dos outros, dêem graças a Deus e vão em paz. Mas mantenham sempre presente no espírito esta ideia: talvez tenham tido mais sorte do que eu, mas nem por isso são melhores do que eu.»
Todo o livro — com o seu longo cortejo de horrores, da frente russa aos campos de extermínio, acabando na queda de Berlim — se constrói a partir dessa premissa inquietante: não há humanos inocentes. Os que discutem Kant, apreciam Vermeer ou falecem com Monteverdi são os mesmos que assassinam sem pestanejar milhões de seres: como diria Steiner, «as humanidades não humanizam».
Não há ali ninguém decente, resume Vargas Llosa. Será essa a prova de que somos (ou seríamos) todos culpados? David Rousset, que sentiu na pele os efeitos da barbárie, escreveu que «os homens normais não sabem que tudo é possível», o que o filósofo Lévinas traduziu assim: «A questão metafísica primordial já não é a de Leibniz, de saber porque existe algo em vez de nada, mas porque existe mal em vez de bem.»
Seja o que for que se pense deste romance, é também para isso que ele nos obriga a olhar.

14/12/07

Encontrei 2 Provas Irrefutáveis da Divindade de Cristo Perdidas nos Confins da WEB. É a minha Modesta Contribuição para o Movimento Fuck Christmas

De vez em quanto, surgem uns bloguistas a propor cadeias... de qualquer coisa. De livros, filmes, frases, lugares, etc. Dizem eles: «Escolhe 5 — qualquer coisa — e passa a palavra.»
Venho agora anunciar que o proselitismo e as listas, mesmo as de compras, causam-me crises de urticária. Mas o pior não é isso. O pior é que — e grande é a minha irritação —, sempre que alguém me escolhe para próxima vítima, a zona do meu cérebro onde se alojam inconfessáveis superstições acende uma luz vermelha e o terror instala-se: «Será que se interromper a cadeia, o cabelo me vai cair?», ou: «Acordarei transformada em insecto, como o Gregor Samsa?»
Indo directa ao assunto. Nunca ninguém me propôs que participasse na cadeia: «Cinco coisas que me marcam na pessoa de Cristo». Porém, ela existe. E por sua causa as minhas convições nunca mais serão as mesmas.

As respostas de Davi Lago deram-me que pensar. As três primeiras, nem por isso. A virgindade de Maria, a Trindade, o pecado original e tal, isso é fácil. Mas repare-se nas duas últimas alegações.
Dois mil anos de esforço intelectual e 300 de fogueiras, e que eu me metamorfoseie já aqui se alguém conseguir citar um único Padre da Igreja que bata em clarividência este Pastor da Igreja Batista Getsêmani, um Jesus freak, nas palavras do próprio.
Rendo-me. E que os
incréus façam o mesmo!
«5 coisas que me marcam na pessoa de Cristo
[...]
4. Sua ressurreição. Você pode visitar o caixão de Nietzsche, Sartre, Freud, Marx, Darwin, mas não o de Jesus.
5. Sua influência na História. Ele não é uma lenda, ele andou entre nós. Tudo que Jesus tocou foi transformado. Tudo é Antes ou Depois de Cristo. “Que dia é hoje?”. “Hoje é 17 de julho do ano 2007 depois de Cristo”.»
E escusam de vir cá com o argumento de que hoje, afinal, é 14 de Dezembro.

12/12/07

Cenas da Vida Quotidiana ou de como alguns Portugueses não Páram de me Surpreender pela sua Clarividência

Passo a explicar. Apesar de ambas as minhas pernas permanecerem intactas desde o dia em que nasci, e apesar de nunca ter estado de binóculos debruçada sobre o Sena pronta a salvar Michel Simon da sua vida de clochard — portanto, não sendo coxa nem voyeur — fui obrigada a notar a desenfreada agitação que possuí todas as quintas-feiras os meus vizinhos da frente.
Adivinho-os emalando roupa interior, sacos-cama, pratos e escovas de dentes, partindo depois apressados para destino desconhecido, com a urgência febril de quem partisse para África como bem notou Ruben A em O Outro que era Eu. Os que ficam ocupam-se em actividades bizarras: pregam tábuas nas janelas, enchem os ouvidos de cera ou põem a televisão aos berros. Separa-nos um Largo desafogado e, embora estando convicta, como dizia Léon Blum, que todos viveríamos melhor se os humanos fossem santos, não lhes cederia o lugar.
Passo a explicar. A partir de quinta-feira ninguém dorme na parte de baixo nem na parte de cima do meu bairro. Eu, que vivo precisamente a meio, disfruto de um silêncio virtuoso. Mas eu própria virtuosa, não sou cega. A partir de quinta-feira as ruas e avenidas enchem-se de milhares de crianças prematuramente alcoolizadas, ou seja, às 23, 24 horas já circulam em Esses estreitíssimos, fazendo tangentes a carros, Ecopontos e caixotes tradicionais. O meu cão às vezes ladra-lhes. Não é por mal. É por medo. Porque eu tenho um cão.
Quando o passeio nas manhãs que se seguem aos tornados, o pobre animal fica indeciso entre as ervas e os copos que esvoaçam (de plástico e quando há vento) no terreno descabelado do que em tempos foi um jardim. Sobram duas ou três árvores raquíticas e um chafariz nauseabundo, onde não ousaria entrar nem que o próprio Mastroianni lá estivesse tiritando à minha espera. E olhem que o Marcelo era tudo menos de se deitar borda fora.
Ora bem. Junto a esse simulacro de jardim — tão, tão simulacro que nem Platão o quereria na Caverna — havia uns bancos. De madeira escalavrada e verde descolorado mas, ainda assim, uns bons bancos. Com costas, se é que me faço entender. Nunca neles namorei, mas que davam um jeito danado às pernas de muitos munícipes, ah, isso sem dúvida. Ora bem. Tiraram os bancos!
Concluíram inteligências superiores que os três ou quatro restantes convidavam à permanência no local bêbedos, mendigos, toxicodependentes e outra gente de má raça.
Suponho que todos eles se equilibrem agora nos troncos das árvores raquíticas, dado o mar de plástico branco que continua a atapetar a nossa calçada típica, e cujo cheiro adocicado tanto baralha o meu cão. Proponho que a medida seguinte seja a Junta cortar o mal por junto e pela raíz. Cortem-se as árvores! Já agora, porque não a Câmara Municipal emparedar as arcadas do próprio Terreiro do Paço, dada a inexplicável mania de hordas de intocáveis se estenderem lá debaixo?
Só para acabar. O meu cão continua a enervar-se caninamente com os miúdos que a partir de quinta-feira pedem lume ao candeeiro e os meus vizinhos do Largo insistem em abandonar as casas a caminho do Ultramar.

11/12/07

Confirma-se: a Sociologia Política É uma Treta e Há Coisas que só mesmo a Genética Poderá Explicar - III

Há várias coisas que melhoram com a idade. Uma, dizem, é o vinho do Porto. A outra é de certeza o Vasco Pulido Valente.
«Deixou de fumar, começou a fazer jogging, agora corre a meia maratona. A saúde conta. Não é autoritário, nem reservado, nem austero, nem arrogante, é firme. A firmeza vem da vontade, a vontade vem da convicção. É um português que serve. Gosta mais, de resto, de servir o país nos momentos difíceis do que nos momentos fáceis. Não fala, santamente, de sacrifício. Fala, santamente, de missão. É fiel à sua missão e não pretende outra recompensa. Sofre por vir nos jornais; como o outro, não gosta de “ser falado”. Viveu sempre dividido entre a acção e “a contemplação e o pensamento”. Há, dentro dele, um “permanente paradoxo”. A política, no fundo, não passou de “uma soma de casualidades”. Mas dará sempre “o melhor de si”.
Quem não ficará extasiado com este exemplo? Um homem de família, um homem simples, que tenta ver os filhos: disciplinadamente. Um homem tolerante. Ouve as críticas. Respeita a opinião alheia e espera que respeitem a dele. Quando não está de acordo, não está: e não esquece que foi escolhido pela maioria do povo para “cumprir” o “melhor” para esse povo. “Muito obsessivo com o trabalho”, não se considera um workaholic.
Tem pena de não ler, por falta de tempo. No Verão, lê “obsessivamente”, impelido talvez pelo seu lado contemplativo e de pensamento. Este Verão, leu três livros, dois livros de história e um romance. Admira Ortega y Gasset, “um bom filósofo”, que “escreve bem”. Quanto a poetas, não admira nenhuma personalidade viva, com a presumível excepção de Manuel Alegre, de que retira um indescrito “prazer”.
Acredita que nada impede Portugal de se tornar um “país moderno, competitivo, com uma boa educação e com protecção social”. Quer um Portugal “aberto e dinâmico”. Acha Portugal “muito aberto”. Reafirma que é de esquerda, como provam a Lei do Aborto e as leis da paridade e da procriação medicamente assistida. Pensa que a perspectiva socialista é a de “pôr o Estado ao serviço dos mais pobres”. Sabe que ainda existem bolsas de pobreza. Insiste em que os países que controlam o défice são mais livres. Mais democráticos.
Isto o que é? Não é uma pessoa, não é um político, não é um ente reconhecivelmente humano. É uma montagem publicitária: polida, vácua, inócua. O herói de plástico, uma invenção. É José Sócrates, o primeiro-ministro.»
Transcrito do Público de 9 Dezembro 2007

10/12/07

As Mãos Sujas [e corrigidas]

E já que temos que levar com o Natal... Conta a versão tradicional da lenda que Judas Iscariotes vendeu Jesus por 30 moedas. Quanto a Pilatos [e não Pilates, o homem da ginástica pós-sueca, como bem notou JL (ver comentários a este post)], limitou-se a lavar as mãos. Sócrates não precisou de as lavar porque, em público, nunca as suas extermidades roçaram de um só dedinho que fosse as manápulas de Mugabe.
João Gomes Cravinho aceitou fazer o trabalho sujo, o que deu origem à situação caricata de vermos chefes de Estado de países aos quais, afinal, se reconhece toda a legitimidade do mundo, serem recebidos oficialmente como pretos de terceira: não por um igual, nem sequer pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, mas por um secretário de Estado que, muito à-vontade no seu papel de porteiro, deglutia croquetes nos intervalos [supõe-se que previamente visionados pela ASAE].
Em privado, claro, Sócrates não escapou ao castigo. Mas, repare-se: sem registo de imagem. E como bem sabia Estaline, quando mandava retocar os retratos, se não há registo... é porque nunca existiu. Se isto não é viver com brilhantismo da imagem, expliquem-me o que é viver da imagem.
Futilidades propagandísticas, dir-se-á, se comparadas com a situação verdadeiramente negra que se vive em África [não resiti ao trocadilho óbvio]. Não desesperemos: a Europa decidiu, já não era sem tempo, ocupar-se do assunto, mesmo se com alguns percalços pelo meio. Porque houve quem, indiferente ao estalar do verniz multirracial, abandonasse a Cimeira declarando que “África não está à venda”. Ou seja, e como diria o velho Marx, no fundo, no fundo, confirmou-se que money makes the world go around.
Quanto aos direitos humanos, já deles se tinha ocupado com grande firmeza o escocês Gordon Brown que mandou a Lisboa, em seu lugar, Valerie Ann Amos, Baroness Amos (of Brondesbury), uma baronesa de pele negra que assim como chegou partiu. E se isto não é perverso, expliquem-me o que é perverso.
Mas o nosso Durão Barroso também esteve bem: «If you are an international leader, then you are going to have to be prepared to meet some people your mother would not like you to meet. That is what we have to do from time to time».
Deduz-se que não estaria a referir-se a esse farol da democracia e da verticalidade, o engenheiro do petróleo José Eduardo dos Santos, de quem já foi hóspede oficial... Mas fosse quem fosse o alvo da aversão materna, se isto não é uma frase digna de um international leader, expliquem-me o que é um international leader.
Sem merdas freudianas, The Economist foi directo ao ponto: «For the Europeans are worried that they are losing both trade and clout on a continent that they used to regard as their own backyard. Over the past five years resource-hungry China has swept across a grateful continent, buying oil and minerals. (…) India, too, has been buying oil and mineral concessions in countries such as Sudan and Nigeria. America has revived its interest in Africa: it wants to take 25% of its oil imports from there to decrease its dependence on the Middle East. America has also been recruiting new allies, such as Mali, in its fight against Islamist terrorism.»
Quando valores [tão] mais altos se levantam, como poderia a Europa recusar-se a sujar as mãos?

09/12/07

A Revolução Cultural Chinesa Vertida para Português — Com a Devida Vénia a António Barreto

A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da "fast food", para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e "petiscos", a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados. A SOLUÇÃO FINAL vem aí.
Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará.Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda agente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar! Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico. Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido. Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos. Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem ao lado a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido. Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido. Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido. Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas. Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido. Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido. Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido. Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais. É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos. Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.
AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever. Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto. Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género. Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas. No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta"produto não válido", mesmo que esteja vazia. Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação. Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda. Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido. Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido. Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica. As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas. As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado. Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço. Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta coma data e a hora do corte. O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.
TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.
António Barreto, Público, 25 de Novembro de 2007

08/12/07

Os Bestsellers São apenas isso: Bestsellers. Sobra a Questão Encombrante de Saber quanto Espaço Ocupam

Ser ou não ser literatura, eis a questão. O dilema impõe-se, tanto mais que as letras se subtraem ao rigor logarítmico de uma escala de Richter, por exemplo. Claro que seria sempre possível submetê-las a uma grelha cujas variações se situassem, como em Mercalli, entre os graus qualitativos «muito fraco» e «catastrófico». Ainda assim.
Literariamente falando, a que corresponderia, digamos, o grau X, o «desatroso», aquele que exige que a maior parte dos edifícios e suas fundações sejam destruídos, assim como pontes e barragens, já para não falar de águas enlouquecidas, rasgões no solo e linhas de comboio entortadas? Somos obrigados a reconhecer que, pelo menos esta última condição, dificilmente se aplicará à literatura. Resumindo: por muito mau que um livro seja, ele não provoca terramotos (mesmo quando é Pulido Valente a criticá-lo).
O leitor pensará que estamos a ser irónicos (talvez, um bocadinho...), mas a verdade é que este é um problema tramado. Como definir esse indefinível «je ne sais quoi» que tanto explica a obra literária como a beleza do nariz de Cleópatra?
Fazemos aqui um desvio porque é impossível resistir a Pascal: «A causa [do amor] é um je ne sais quoi (Corneille) e os efeitos são espantosos. Esse je ne sais quoi, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro. Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado» (Pensamentos, frag. 162). Os romances, ao contrário do nariz de Cleópatra, não mudam a face da terra. Por muito boas que sejam as intenções dos autores. Sobre isto, André Gide proferiu a tal frase assassina: «É com bons sentimentos que se faz má literatura». Será injusta, mas só muito, muito raramente.
O jornalista da RTP José Rodrigues dos Santos publicou o seu quinto romance. A curiosidade levou-me e lê-lo. A curiosidade matou o gato. E é com pena que confesso: O Sétimo Selo foi uma desilusão.
Explico o «com pena». Precisamente por ser de opinião que nenhuma escala é aplicável, sem risco, à literatura, não sou dos que acham que só a intensidade de grau XII merece a pena. Entre Raúl Brandão e Lídia Jorge existe um mundo. Claro que o título era suspeito. Sobretudo após a vaga requentada de new age trazida por Dan Brown e que apenas serviu para dar razão a G. K. Chesterton: «Quando os homens já não acreditam em Deus, isso não se deve ao facto de não acreditarem em nada mas sim ao facto de acreditarem em tudo».
Esclareça-se. José Rodrigues dos Santos não joga propriamente nesse campeonato; os esoterismos não são sequer a sua «cup of tea». Indo directa ao assunto: de que trata, então, O Sétimo Selo? Bom, de dois assuntos estridentes: petróleo e aquecimento global.
Tomás de Noronha (historiador português, perito em criptanálise e línguas mortas) vê-se envolvido numa estranha aventura que começa quando um cientista é morto na Antárctida, logo após ter confirmado que a plataforma de gelo Larson-B se tornara mais esburacada do que um queijo suíco. Ao lado do corpo, uma mensagem que Noronha é chamado a decifrar pela Interpol: «666», o número da Besta.
Depois disto, andamos com ele num corropio planetário, com início na pacata Coimbra, cidade onde a mãe do herói definha num lar, pretexto que serve para coser, sem felicidade, o tema da velhice no romance. Ao longo da investigação, o historiador, que fora colega de liceu de um dos suspeitos do crime, irá tomar contacto com a catástrofe (energética) iminente e os meios de a conjurar.
Naturalmente, a vertente pedagógica do livro atravessa-o do princípio ao fim (o autor agradece, aliás, a especialistas de várias áreas). Disso não viria mal ao mundo (apesar de, ao contrário do que se conclui, o conceito de aquecimento global por acção humana não merecer a unanimidade científica – e os que o negam não estão todos a soldo das petrolíferas!).
O mal está em que para romance falta-lhe o sal do «je ne sais quoi» (a pitada de «666» é demasiado insonsa). Para livro científico, faltam-lhe as credenciais. Salva-se o primeiro capítulo, cuja leitura nos recorda, a espaços, as saudosas aventuras de Blake e Mortimer assinadas por E. P. Jacobs. «Damned!». É muito pouco.

Para Ouvir durante o Fim-de-Semana — Coisas que quase Nos Levam a Acreditar no Design Inteligente [a Ordem É Arbitrária]

Leonid Kogan toca Shostakovich Op.99(77) 3rd mvt
Maria Callas & Alfredo Kraus em Lisboa, 1958, La Traviata de Verdi (Siempre Libera)
Diana Damrau, Der Hölle Rache, A Flauta Mágica de Mozart
Alain Vanzo canta «Je crois entendre encore», Les Pêcheurs de perles de Bizet

07/12/07

Afinidades Electivas

Um dia ia acontecer. Da série TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA, o post XXV roubado ao Provas de Contacto. [a fotografia veio por arrasto]

«Não tenho computador. Está no fundo da piscina do meu quintal com a televisão e as bolas de golfe. O cibermundo cria a ilusão da comunicação. Coloca-se a palavra 'ciber' antes de outra qualquer e parece que fica logo tudo 'novo e melhorado'. Faz parte do vírus publicitário. Ciberconversas, ciberpaixões, ciberdescobertas. É uma forma de nos venderem coisas que já estavam disponíveis. Desconfio muito disso. Parece-me que o progresso é obsessivo e compulsivo. Tenho a sensação que as pessoas não estão a sair de casa. Passam a vida à frente dos computadores e tudo lhes chega através do ecrã. É o que toda a nação realmente quer mas qualquer coisa que seja assim tão popular ou tão facilmente acessível habitualmente não é boa para nós. É como a água da torneira, não é boa para beber, não passa de químicos e mijo reciclado. Acho que estamos no meio de uma revolução e ninguém sabe de que lado vêm as pedras.» [o bold é meu]

Este é especialmente dedicado ao PCR. Se ele e outros ainda estivessem no Público talvez Hugo Chávez não tivesse ganho por antecipação.

O que me Ocorre Dizer acerca da Barraca que Muammar Kadafi, o Homem do Livro Verde e agora do Petróleo, Montou em Portugal

A Líbia será uma ditadura "verde", e eu sei que nos hotéis se gasta imensa água e energia e tal — há até aqueles cartõezinhos a pedirem-nos para sermos poupados nas toalhas e nos lençóis — mas, por favor, não me falem em campismo. Ecológico, sem dúvida, mas péssimo para o reumático. E uma pessoa chega a uma altura da vida...

06/12/07

O Estado do Mundo — o Resto É Conversa Para Embalar Criancinhas

They shoot horses don't they?, Sydney Pollack, 1969 [a partir da novela homónima de Horace McCoy, publicada pela primeira vez em 1935]. A coisa já vem de longe. Portanto.

discurso sobre a reabilitação do real quotidiano

(IX)
No país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno

E no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela só até à ilharga
a grande história do amor só até ao pescoço

E no país no país que engraçado no país
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora aí está -não é outro senão a divina criança (prometida)
uso dos meus olhos grandes bons e aberto
se vejo a noite (on ne passe pas)
Diz que grandeza de alma. Honestos porque.
Calafetagem por motivo de obras.
É relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no país onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato

Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação, Assírio & Alvim

04/12/07

Citações sobre Jornalismo Dedicadas a José Manuel Fernandes e Hugo Chávez. Servidas à Borla, com os Cumprimentos da Pastelaria

Edward Eggleston: «O jornalismo é coscuvilhice organizada»
Ellen Goodman: «No jornalismo, existiu sempre tensão entre falar primeiro e falar verdade»
Mark Twain: «Não sou editor de jornal, e tentarei sempre ser bom e portar-me bem para que Deus nunca me transforme num»
Graham Greene: «Uma das razões que, cada vez mais, leva os romancistas a distanciarem-se dos jornalistas é que os romancistas andam a tentar escrever a verdade e os jornalistas andam a tentar escrever ficção»
Karl Kraus: «Jornalista: uma pessoa sem ideias mas com habilidade para expressá-las; um escritor cujo talento melhora com o prazo de entrega do texto: quanto mais tempo tem, pior escreve»
G. K. Chesterton: «O jornalismo consiste, em larga medida, em dizer que "Lorde Jones faleceu" a pessoas que não sabiam sequer que Lorde Jones alguma vez estivera vivo»
Frank Zappa: «Os jornalistas do Rock são pessoas que não sabem escrever entrevistando pessoas que não sabem falar para pessoas que não sabem ler»
Carl Sandburg: «Os jornais dizem por antecipação o que vai acontecer — talvez»
Stuart Paddock: «O que nos guia é dizer a verdade, temer a Deus e fazer dinheiro»
Charles Tatum (aliás, Kirk Douglas, em Ace in the Hole, filme de Billy Wilder de 1951): «Consigo lidar com grandes notícias e com pequenas notícias. E se não houver notícias nenhumas, saio à rua e mordo um cão».
Neste caso não era preciso.

[Aos visitantes da Pastelaria baralhados com esta borla a José Manuel Fernandes, informo que o Público, jornal de que é director, noticiava ontem (3/12/2007) na primeira página: «Venezuela diz "sim" à proposta de Chávez, oposição apela à vigilância». Como 3 de Dezembro não foi dia das mentiras e Hugo Chávez perdeu nas urnas, supõe-se que a chamada de capa do Público de hoje seja: «José Manuel Fernandes, enganado por uma astróloga de Sintra, mantém a fé nos Pastorinhos de Fátima: a derrota de Chávez foi um milagre!»

03/12/07

Correndo o Risco de Passar por Criacionista... e Mantendo-me em Deriva Cósmica — da Série «Livros que Nos Reconciliam com o Mundo»

Fred Hoyle ― astrofísico e (também) escritor de Ficção Científica ― foi um homem controverso. A sua hipótese de um Universo Estacionário sem começo nem fim viu-se batida pelo Teoria do Big Bang, cujo nome, curiosamente, se lhe deve; a sua visão da vida como tendo chegado à Terra caída do espaço não colhe grandes adeptos. O que quiserem. O facto é que O Universo Inteligente (Presença, 1983) continua a chamar ciclicamente por mim do alto da estante. Transcrevo o primeiro parágrafo do primeiro capítulo. Espero que vos abra o apetite.

«Há cerca de uma geração, ou pouco mais, foi prestado um péssimo serviço ao pensamento popular ao divulgar-se a ideia de que uma horda de macacos batendo em máquinas de escrever acabaria por escrever as peças de Shakespeare. Esta hipótese é falsa, de tal forma falsa que nos perguntamos como foi possível ser tão difundida. Penso que os cientistas desejavam acreditar que absolutamente tudo, mesmo a origem da vida, poderia ocorrer por acaso, desde que o acaso operasse a uma escala suficientemente grande. É este o erro óbvio, pois todo o Universo observado pelos astrónomos não seria suficientemente grande para conter a horda de macacos necessária para escrever sequer uma cena de uma peça de Shakespeare, ou para conter as suas máquinas de escrever, e muito menos para guardar todo o papel com a enorme quantidade de disparates que os macacos escreveriam até "acertarem". O aspecto fundamental é que o único modo viável para o Universo produzir as peças de Shakespeare foi através da existência da vida, produzindo o próprio Shakespeare.»

01/12/07

Porque Viver Sempre Também Cansa

Um post publicado no 2+2=5 assinado por Táxi Pluvioso pôs-me a viajar no tempo. Explico. Falava-se de Einstein. Alguém lembrou depois a bomba atómica e Dr. Strangelove: or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, o filme definitivo sobre o assunto realizado por Stanley Kubrick e interpretado pelo magistral Peter Sellers. O meu espírito não estava para aí virado.
Empolgada pela relatividade espacio/temporal, desatei a andar alegremente para a frente e para trás ignorando o sentido dos ponteiros do relógio — que não uso. Gostaria de partilhar com os visitantes da Pastelaria este agradável estado de espírito, e ninguém melhor do que Eric Idle para ilustrar do que falo. Faço dele as minhas palavras: Always look on the bright side of life.
(Façam favor de assobiar nas alturas certas)

Eu sei que esta leveza hedonista indicia uma superficialidade ontológica contrária à existência autêntica proposta por Heidegger, aproximando-me à velocidade da luz dessa Chica Almodóvar cantada por Sabina.
(Para quem tiver pouco ouvido para línguas, a letra aqui)

Não é que uma rapariga, lá por usar às vezes altíssimos saltos, não possa interrogar-se sobre o sentido da vida. Eu interrogo-me. Até agora a melhor resposta que encontrei foi esta:



E — por agora — é tudo o que tenho a dizer sobre o assunto. Desculpem a imodéstia, mas acho que para um domingo e para uma Chica Almodóvar nem está assim tão mal. Do que é que estavam à espera? Da Relatividade Restrita e Geral em três lições?

A Propósito da Série «Fuck Christmas» do «Provas de Contacto»

Encontrei a música aqui. Não resisto a reproduzi-la com os meus sinceros votos de boas festas.

30/11/07

Confirma-se: a Sociologia Política É uma Treta e Há Coisas que só mesmo a Genética Poderá Explicar - II

«Ninguém se aproximava dele, no meio da imensa impressão que causava nos moços de fretes. Por fim, pouco a pouco, alguns jornalistas mais curiosos foram-se chegando, começaram a tocar-lhe com o dedo, a ver se era de pau. Era de carne, verdadeiro. Percebeu-se mesmo que falava. Então os mais audaciosos fizeram-lhe perguntas.
– Senhor – disseram – espalhou-se por aí que vindes restaurar o País. Ora deveis saber que um partido que traz uma missão de reconstituição deve ter um sistema, um princípio que domine toda a vida social, uma ideia sobre moral, sobre educação, sobre trabalho, etc. Assim, por exemplo, a questão religiosa é complicada. Qual é o vosso princípio nesta questão?
– Economias! – disse com voz potente o partido reformista.
Espanto geral.
– Bem! e em moral?
– Economias! – bradou.
– Viva! e em educação?
– Economias! – roncou.
– Safa! e nas questões de trabalho?
– Economias! – mugiu.
– Apre! e em questões de jurisprudência?
– Economias! – rugiu.
– Santo Deus! e em questões de literatura, de arte?
– Economias! – uivou.
Havia em torno um terror. Aquilo não dizia mais nada. Fizeram-se novas experiências. Perguntaram-lhe:
– Que horas são?
– Economias! – rouquejou.
Todo o mundo tinha os cabelos em pé. Fez-se uma nova tentativa, mais doce.
– De quem gosta mais, do papá, ou da mamã?
– Economias! – bravejou.
Um suor frio humedecia as camisas. Interrogaram-no então sobre a tabuada, sobre a questão do Oriente...
– Economias! – gania.
Foi necessário reconhecer, com mágoa, que o partido reformista não tinha ideias.
(...)»
Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre, Maio 1871

Só Queria Dizer uma Coisa: NÃO HÁ MEDÍOCRES INOCENTES

Queixa das almas jovens censuradas, José Mário Branco (poema de Natália Correia)

29/11/07

Confirma-se: a Sociologia Política É uma Treta e Há Coisas que só mesmo a Genética Poderá Explicar - I

«Debalde porém se esperaria que milagrosamente, por efeito de varinha mágica, mudassem as circunstâncias da vida portuguesa. Pouco mesmo se conseguiria se o País não estivesse disposto a todos os sacrifícios necessários e a acompanhar-me com confiança na minha inteligência e na minha honestidade – confiança absoluta mas serena, calma, sem entusiasmos exagerados nem desânimos depressivos. Eu o elucidarei sobre o caminho que penso trilhar, sobre os motivos e a significação de tudo que não seja claro de si próprio; ele terá sempre ao seu dispor todos os elementos necessários ao juízo da situação.
Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar.»
Dicurso de António Oliveira Salazar, 27 de Abril de 1928

Uma Canção Melancolicamente Socrática que Eu Já não me Lembrava que Sabia


Jean Gabin, Maintenant je sais

Au milieu de ma vie, j'ai encore appris.
C'que j'ai appris, ça tient en trois, quatre mots:
Le jour où quelqu'un vous aime, il fait très beau,
j'peux pas mieux dire, il fait très beau.

28/11/07

De Maio de 68 a Novembro 07 ― Sinais do Progresso (Post Modificado e, Espera-se, Melhorado)

Paris, Maio 1968
Paris, Novembro 2007
«Dissemos que o objecto do Espírito não é se não ele próprio. Nada há de mais elevado do que o Espírito, nada seria mais digno de se tornar no seu próprio objecto. O Espírito não encontra paz, não pode ocupar-se de mais nada antes de se conhecer e saber o que é (...) O Espírito deve, pois, chegar ao saber do que é verdadeiramente e objectivar esse saber, transformá-lo num mundo real e produzir-se a si próprio objectivamente. É esse o fito da história universal. (...) O Espírito não é um ser natural, como o animal que é aquilo que é imediatamente. O Espírito produz-se a si próprio, faz-se a si próprio o que é. O seu ser não é existência em repouso, mas actividade pura: o seu ser é ter sido produzido por si, ter-se tornado por si, ter-se feito por si. Para existir verdadeiramente é necessário que tenha sido criado por si: o seu ser é o processo absoluto. Esse processo, mediação de si próprio consigo próprio e por si próprio (e não por um outro) implica que o Espírito se diferencie em Momentos distintos, se entregue ao movimento e à mudança e se deixe determinar de diversas maneiras. Esse processo é também, essencialmente, um processo gradual, e a história universal é a manifestação do processo divino, da marcha gradual através da qual o Espírito conhece e realiza a sua verdade. Tudo o que é histórico é uma etapa desse conhecimento de si. O dever supremo, a essência do Espírito, é conhecer-se e realizar-se. É o que ele leva a cabo na história: produz-se sob certas formas determinadas, e essas formas são os povos históricos. Cada um desses povos exprime uma etapa, designa uma época da história universal. Mais profundamente: esses povos encarnam os princípios que o Espírito encontrou em si e que deve realizar no mundo. Existe, pois, entre eles uma conexão necessária que não exprime se não a natureza mesma do Espírito. A história universal é a manifestação do processo divino absoluto do Espírito nas suas mais elevadas formas: marcha gradual pela qual ele alcança a sua própria verdade e toma consciência de si. Os povos históricos, as características determinadas da sua ética colectiva, da sua constituição, da sua arte, da sua religião, da sua ciência, constituem as figurações desta marcha gradual.»
E estava eu a encontrar consolo nestas palavras de Hegel, escritas em A Razão na História, quando o poeta Borges me saltou ao caminho no meio dos escombros da periferia parisiense e filosofou do alto da sua cegueira: «A metafísica é um ramo da literatura fantástica». Porra!

27/11/07

Era uma vez um Ursinho de Peluche Chamado Maomé... — a História Parece Ter Graça mas não Tem Graça nenhuma

Este texto foi escrito a propósito da contestação histérica às caricaturas de Maomé publicadas em Setembro de 2005 por um jornal dinamarquês. Tudo o que nele está dito se aplica, por maioria de razão, ao actual caso da professora primária britânica, presa no Sudão por ter permitido que a um ursinho de peluche fosse dado o nome do Profeta. Está sujeita a 40 chibatadas, 6 meses de prisão e uma multa em dinheiro. Parece mentira mas não é.



Estes são os meus princípios. Se não gostarem, arranjo outros. A frase é de Groucho Marx e há quem ande a levá-la a sério. Os pedidos de desculpa — os «apelos ao respeito e ao bom senso», eufemisticamente falando — multiplicaram-se nas últimas semanas, encabeçados pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que veio apelar ao perdão dos ofendidos e lembrar que a liberdade de imprensa se deve exercer respeitando «plenamente os princípios e crenças de todas as religiões».
No já remoto dia 12 de Maio de 1952, no New York Herald Tribune, o cardeal espanhol Pedro Segura arriscava ser mais claro: «A liberdade de imprensa é um dos maiores males que ameaçam a sociedade moderna». Apesar das suas desavenças com Franco, Pedro Segura era um homem de direita. Também por isso, não deixa de ser curioso que, com algumas excepções, sejam os media posicionados desse lado quem mais vem reproduzindo os cartoons da discórdia. Razão invocada? Haja liberdade de opinião! O mundo anda confuso.
Em 1859, no ensaio On Liberty (Ensaio sobre a Liberdade, Arcádia, 1973), John Stuart Mill escrevia que «o único fim pelo qual a humanidade está autorizada, individual ou colectivamente, a interferir na liberdade de acção de qualquer um dos seus é para sua própria protecção». Cerca de 100 anos antes, Voltaire terá dito: «Não concordo com uma única palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito a dizê-lo».
Esta tolerância inegociável, assente numa liberdade axiomática que tanto tempo levou a conquistar — recorde-se que o Index do Vaticano apenas foi suprimido pelo Papa Paulo VI em 1965 e que a reabilitação oficial de Galileu data de 1992, 359 anos após o célebre «Eppur si muove» —, parecia, pelo menos para alguns e até há poucas semanas, prerrogativa da nossa cultura. Engano nosso?
A gaguez com que muitos vêm reagindo à vaga de fundo dos fundamentalistas islâmicos permite-nos suspeitar que, também deste lado (talvez porque o mundo é redondo e não tem lados), o princípio da liberdade, nomeadamente o da liberdade de expressão, pode estar a preços de saldo.
Acrescentando à lista de citações outro notável, note-se apenas como Bertrand Russell, a propósito da censura, definia «obscenidade» ainda em tempos bem recentes: «Obscenidade não é termo passível de definição legal exacta: na prática dos tribunais, significa 'tudo o que choca o magistrado'». À luz da actual e piedosa compreensão pela revolta dos fiéis, o termo (agora chamam-lhe blasfémia) parece ter-se tornado em «tudo o que choca as multidões em fúria».
Não sejamos ingénuos. Por detrás do caso dos cartoons espreitam, também na Europa, coisas com muito menos graça. A xenofobia é, com certeza, uma delas. Ainda assim, alguém consegue imaginar os Estados membros da União Europeia reunidos de urgência em 1978, a braços com uma revolta cristã contra A Vida de Brian, o último Monty Python acabado de estrear?
Pois é o que vem acontecendo em Bruxelas, vários séculos passados sobre a chamada Idade das Trevas, aquela durante a qual, na opinião de Jim Hankinson, «a pouca filosofia que existia na Europa sofreu uma viragem depressivamente teológica, centrando-se em disputas tais como se Deus era Uma Pessoa em Três ou Três Pessoas Numa, a natureza exacta da Substância do Espírito Santo e quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete (no caso improvável de desejarem realmente fazê-lo)» (in O Especialista Instantâneo em Filosofia, Gradiva/Público, 1996).
Hankinson é um brincalhão, mas Aristóteles estava a falar a sério quando concluiu que «as cobras não têm pénis porque não têm pernas; e não têm testículos por serem tão compridas». Hoje rimo-nos desta precipitação empírica, mas tenderá o (nosso) riso a desaparecer, como previu o francês Marcel Schwob?
«Esta prova física grosseira do sentido que temos de uma certa desarmonia no mundo deverá apagar-se face ao cepticismo total, à ciência absoluta, à piedade geral e ao respeito por todas as coisas. Rir é deixar-se surpreender por uma negligência das leis (...)», escreveu o autor de Vidas Imaginárias (Teorema, 1990). Nesta altura, os simpatizantes do respeito e do bom senso dirão que há limites para tudo. 35 anos depois de Jesus Cristo (Superstar) ter dançado na Broadway, teremos de começar de novo?
Sobram os adeptos do «bom gosto». Sobre esses, o filósofo espanhol Fernando Savater disse o que havia a dizer na edição de 11-02-2006 do El País: «Jean Daniel (reputado jornalista francês, fundador e director de Le Nouvel Observateur) informou-nos, nestas mesmas páginas, que aceita a blasfémia sempre que acompanhada de bom gosto e dignidade artística: ele é daqueles que apenas apreciam stripteases quando são feitos ao som de Mozart».
Guardados para o fim os que se indignam com «o insulto gratuito e permanente a uma cultura» («Choque e Pavor», Daniel Oliveira, Expresso, 4-02-2006) e, fazendo minhas as palavras do cronista, «só para sabermos do que estamos a falar», repare-se na confusão instalada, para desconforto de muitos (mais à esquerda do que à direita), entre três conceitos distintos: tolerância, cepticismo e relativismo (no qual nem Einstein acreditava).
Simon Blackburn, filósofo inglês, autor, entre outros, do útil e divertido Dicionário de Filosofia (Gradiva, 1997), deu, a 13-12-2001, uma palestra sobre o tema no King's College londrino.

«A tolerância é a disposição para combater a opinião apenas com a opinião: por outras palavras, a disposição para proteger a liberdade de expressão e para enfrentar as divergências de opinião apenas com a reflexão crítica e não com a repressão ou a força», resumiu, sublinhando depois uma evidência histórica que nem todo o esforço doutrinário do padre Carreira das Neves (ver Expresso, «Actual», 11-02-2006) consegue obliterar: «A tolerância deu entrada na vida política com o Iluminismo. Trata-se de uma virtude caracteristicamente secular (...). De um modo diferente, o relativismo presume que "não existem assimetrias na razão e no conhecimento, na objectividade e na verdade (...)". Tudo o que há são diferentes pontos de vista, cada um dos quais "verdadeiro" para aqueles que o defendem (...). Não só devemos tentar compreendê-los (aos vários proponentes dos vários pontos de vista), mas também reconhecer a existência de uma simetria de estatutos. As suas opiniões "merecem o mesmo respeito que as nossas" (...) podemos ter valores ocidentais, mas eles têm outros; nós temos uma visão ocidental do universo, eles têm a deles; nós temos a ciência ocidental, eles têm a ciência tradicional», etc., etc.
Resta a especificação de «cepticismo». Blackburn fá-la com clareza: «Segundo o relativista, a crença e a convicção voam pela janela fora porque (...) há por aí demasiadas verdades (...). Para o céptico, a crença e a verdade voam pela janela fora porque a verdade é demasiado rara. Ao contrário da atitude mental relativista, a do céptico é muitas vezes merecedora de admiração».
O resultado patético da promoção generalizada do «ponto de vista» a princípio gnoseológico e ético é bem ilustrado por Blackburn, que narra, nem a propósito, um episódio retirado de um encontro ecuménico: «Primeiro os budistas falaram das vias para a serenidade, da subjugação do desejo, do caminho da luz, e os seus colegas do painel disseram todos: "Eh pá, fixe, se te dás bem com isso é porreiro". Então o hindu falou dos ciclos de sofrimento, nascimento e renascimento, dos ensinamentos de Krishna e da via para a libertação, e todos disseram: "Eh pá, fixe, se te dás bem com isso é porreiro". E assim sucessivamente, até que chegou a vez do sacerdote católico falar da mensagem de Jesus Cristo, da promessa de salvação e do caminho para a vida eterna. Nessa altura, todos disseram: "Eh pá, fixe, se te dás bem com isso é porreiro". Mas ele deu um murro na mesa e gritou: "Não! Não é uma questão de eu me dar bem com isso! É a verdadeira palavra de Deus, e se não acreditam vão todos direitos para o Inferno!" E todos disseram: "Eh pá, fixe, se te dás bem com isso é porreiro"».

Marguerite Yourcenar estava convencida que as religiões monoteístas tinham sido a desgraça dos homens. Nietzsche anunciava que os deuses tinham morrido de riso ao ouvirem um deles dizer que era o único. Alfred Jarry garantia que «Deus é o caminho mais curto entre o zero e o infinito, tanto numa direcção como noutra». São opiniões estimáveis, mesmo se não temos de concordar com elas.
Entretanto, há gente condenada ao silêncio, à morte, desaparecida, facto que os ocidentais preocupados «com insultos gratuitos permanentes» tendem a esquecer com total liberdade. Leia-se novamente Savater: «Sei - disse-mo Cioran - que todas as religiões são cruzadas contra o sentido de humor, nego-me, contudo, a acreditar que mil e quinhentos milhões de muçulmanos se tenham forçosamente de sentir ofendidos: seria tomá-los a todos por imbecis, o que me parece sumamente injusto. Se fosse muçulmano (...) perguntar-me-ia, como fez o semanário jordano Shihane, "o que prejudica mais o Islão, estas caricaturas ou um sequestrador que degola a sua vítima em frente às câmaras?" Infelizmente, já não teremos resposta nem debate, porque o semanário foi imediatamente fechado e o seu director despedido».
Como lembrou Susan Neiman em O Mal no Pensamento Moderno (Gradiva, 2005) - ela sim, com inegável bom senso - «lamentar a perda absoluta de referências para julgar o certo e o errado devia ser supérfluo um século depois de Nietzsche». Nem por isso a filósofa norte-americana deixa de realçar que «a perda de certezas sobre os alicerces gerais dos valores não afectou as certezas sobre os exemplos particulares». Por esta razão, a advertência sobre o risco de pensarmos que «os "bons" somos nós e os "maus" são os outros» (Carreira das Neves) não acrescenta nada ao assunto, escamoteando apenas uma realidade que importa condenar, sem ilusões na «conciliação do inconciliável» (ver Vasco Pulido Valente, Público, 12-02-2006): sistemas teocráticos onde o petróleo flui por entre a maior miséria e as mulheres vivem subtraídas aos mais elementares direitos.

E agora: podemos falar a sério ou já não se pode brincar?