29/12/07

Da Literatura e Coisas Afins

Concentração foi a palavra-chave de 2007. Concentração de editores [com investimento internacional pelo meio], concentração de livreiros [a Byblos segue a tendência dos mega-espaços], concentração nas apostas [os bestsellers jogam para bingo]. Em relação aos volumes editados, não há alterações: como em 2006, cerca de 14 mil. No resto, prossegue também a normalização: publicar livros é cada vez mais um negócio como qualquer outro, com direito a Operação Furacão e tudo. E por falar em negócios, o mais mediático [há quem diga, escandaloso] foi certamente a compra pelo grupo de Paes do Amaral da Caminho, a casa de José Saramago [entretanto também comprou a Dom Quixote].
Quase no final de 2007, o mundo editorial animou-se com um assomo de polémica, com Vasco Pulido Valente a garantir que Miguel Sousa Tavares não percebia nada de História e que O Rio das Flores não lhe outorgava o almejado estatuto de escritor. Não houve bengaladas e a literatura não ficou mais próspera. O resto do ano foi morno: Gonçalo M. Tavares ganhou outro prémio e António Lobo Antunes escandalizou de novo ao afirmar, sem falsos pudores: «Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares». Esteve bem, porque O Meu Nome é Legião é um dos acontecimentos literários do ano que finda. O mesmo se diga das novas edições de Debaixo do Vulcão, Malcolm Lowry, Salammbô, Gustave Flaubert, A Sonata de Kreutzer, Lev Tolstói, Margarida e o Mestre, Mikhail Bulgákov, Corre, Coelho, John Updike, A Grande Arte, Rubem Fonseca e Aproveita o Dia, Saul Bellow.
Além destes, se partisse agora para uma ilha, levaria também A Ponte sobre o Drina, Ivo Andric, A Estrada e Este País não É para Velhos, Cormac McCarthy, Um Homem Acidental, Iris Murdoch, Época de Acasalamento, P. G. Wodehouse, Vertigens. Impressões, W.G. Sebald, Todo o Mundo, Philip Roth e, mesmo sem ainda ter lido, Arthur & George, Julian Barnes. Por precaução, juntaria ao pacote O Silêncio dos Livros, George Steiner. Bons títulos impressos ainda em papel, enquanto não chega a Portugal a moda japonesa dos «mobile novel». Uma das histórias, escritas ao telemóvel por Mika, chama-se Céu de Amor e reza assim: «Sou baixo, estúpido, não sou giro, sou um monte de lixo e não tenho sonhos». Alguém devia escrever um romance sobre isto.

4 comentários:

Luis Eme disse...

Tanta coisa para ler...

Eu nem estava a pensar ler o "Rio das Flores"... mas o pai natal tem destas coisas...

Estou a chegar à página 100 e até agora não encontro nada parecido com uma obra prima, nem tão pouco uma "bosta", como o Vasco e companhia, quiserem fazer querer, dando uma ajuda nas vendas (pois, não há nada melhor que uma polémica para se vender)...

menina-alice disse...

Olha, vou guardar este post na minha xafarica à laia de post-it. ;)

Anónimo disse...

olha que o Lobo Antunes não se vá catar com as vaidades de cabeceira. O livro é um arrazoado de frases asem nexo a roçar o umbicalismo uma coisa sem nexo parva e que só os néscios patêgos proto intelectuais tipo Marmelada lêem como se de literatura se tratasse. O Antunes nunca foi grande escritor mas agora acabou mesmo. Ross Pynn volta estás perdoado o psi maluko já se passou de vez

Ana Cristina Leonardo disse...

Anónimo, é um bocadinho feio vir à Pastelaria, que é um estabelecimento que nem exerce o direito de admissão, e assim sem mais e sem se identificar chamar-me logo néscia patêga proto intelectual tipo Marmelada. Ainda assim deixe-me que lhe pergunte: o senhor(a) quem é? E, já agora, quem é Marmelada?