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10/11/10

Enquanto o FMI, já perto da fronteira da Galiza, tenta perceber o método português de pagamento das SCUTS, Teixeira dos Santos continua a fazer força

Surpreendido pelos jornalistas à saída do seu encontro semanal com o Professor Karamba, o Ministro das Finanças reafirmou que só com muita, muita concentração Portugal conseguirá afastar as forças maléficas do FMI. Adiantando que o Professor Karamba ficara no interior do edifício a concentrar-se com toda a força mais um bocadinho, e recusando-se a mais declarações, Teixeira dos Santos entrou no carro rematando com ar compungido: May the force be with you.
Os jornalistas, também eles comovidos, desmobilizaram.
[também publicado aqui]

30/07/10

Da casa pia ao fripór sem esquecer as scuts e as causas da decadência do Quental

Na minha opinião (muitíssimo pessoal) isto começou irreversivelmente a afundar-se no dia em que Carlos Cruz foi chorar à TV. Como todos os que eram nascidos na altura se lembrarão de certeza, vivia-se um tsunami avant la lettre.
O Carlos Cruz!!! E sim, ponham pontos de exclamação nisso.
Também eu fiquei de boca aberta. Depois vi-o chorar no ecrã e a coisa cheirou-me a esturro: cá para mim, que já li muitos livros e assisti a muitos filmes embora desconfie visceralmente da psicologia e possa estar enganada, um homem acusado de pedofilia não chora. Fica em estado catatónico, enfurece-se, gagueja ou pragueja, mas não chora. E não estou a citar Sttau Monteiro nem o Gonçalo Amaral.
Culpado ou inocente, confrontar-se com a simples eventualidade de um Carlos Cruz pedófilo terá sido para todos o que de algum modo simpatizavam com ele (e eram quase todos) tão devastador como (imagina-se) o encontro de Maiakovski com a besta estalinista. Mas enquanto o poeta russo se foi com um tiro certeiro no coração, os portugueses continuaram a reproduzir-se.
Carlos Cruz era, pois, um tipo simpático. Excelente comunicador, encarnava uma espécie de good neighbor next door, género Tom Hanks mas mais baixo. E também ele transversal a todos os géneros, gerações, e credos.
Resumindo: a participação no velho Zip Zip garantia-lhe uma aura anti-fascista (palavra muito em voga a dada altura); a locução do programa humorístico Pão com Manteiga — onde lia com sotaque brasileiro a memorável frase Este já está liquidado. O tiro foi bem na testa. Não comerá mais criancinhas no caminho da floresta — garantia-lhe uma aura libertária; a apresentação de Quem Quer Ser Milionário alargou-lhe a zona de influência e, finalmente, ao dar o rosto pelo euro tornou-se num valor unânime (a malta do PCP, que era contra o euro, estava garantida por causa do Zip Zip...).
Carlos Cruz era assim uma espécie de Mário Soares dos pequeninos pró maior, porque nem lhe era necessário descontar o ódio persistente dos taxistas.
Agora imaginem comigo. O que é que aconteceria se alguém descobrisse que a própria mãe — que lhe ensinara coisas tão inócuas como comer sem pôr os cotovelos na mesa — escondia dentro de si um Hannibal Lecter?
Pondo de lado a hipótese reconfortante de tal pessoa se converter ao vegetarianismo, é provável que o seu sistema de valores ficasse um tanto baralhado.
Tenho para mim que foi isso que aconteceu a Portugal. Seja Carlos Cruz condenado ou não pela justiça, a mera suspeita abriu a caixa de Pandora e não há como fechá-la.
Pondo as coisas em perspectiva.
O que é o inglês técnico de Sócrates comparado com pedofilia? O que são os submarinos de Portas comparados com pedofilia? O que é um sobrinho na Suíça comparado com pedofilia? O que são as offshores do BPN comparadas com pedofilia? O que são os robalos de Vara comparados com pedofilia? O que é um centro comercial em Alcochete comparado com pedofilia? O que é o gamanço de dois gravadores comparado com pedofilia? O que são as lutas intestinas no Ministério Público comparadas com pedofilia? Etc.
Comparado com pedofilia, talvez mesmo só as SCUTs. Isto atendendo, pelo menos, à projecção da polémica, cuja dimensão interclassista e catastrofista já levou muitos comentadores, ou pelo menos eu, a antevê-las como o (contra)ponto G que fará cair o governo.
Entretanto, a reflexão sobre o caso das SCUTs, matéria que parece indiciar uma estranha fixação automobilística do povo lusitano — talvez só comparável à fase anal definida por Freud — remeteu-me, sem eu querer até porque não conduzo, para uma frase do Sena: O problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal.
Eu sei que Sena tinha mau feitio. Mas com feitio ou sem feitio, tenho para mim que o homem estava certo. O que me cria um problema novo: a frase foi escrita muito antes do libelo a Carlos Cruz. Ou seja, talvez não resida nele a explicação que eu buscava e, assim sendo, este post não tem pés nem cabeça. Ou terá? Em verdade vos digo que não sei.
O que sei resumidamente é isto.
O Sócrates aborrece-me. O Passos maça-me. Cavaco anestesia-me. Quanto ao resto, Portas tem boa voz mas não me encanta; o PCP idolatrou anos e anos a Zita e só isso é quanto basta; por fim, o fracturante Louçã: demasiado beato.
Apesar de tudo e parafraseando o outro, we'll always have Cormac. Melhor dizendo, no country for old ladies que quanto à decadência já Antero falava disso e antes de haver televisão.

30/06/10

Esta gente do governo é tão tonta que me obriga a concordar com um iluminado como o Macário Correia

Apesar do assunto das SCUTs não me interessar por aí além, reconheço que quando penso nele (o que nunca faço nos dias da semana divisíveis por dois) acabo sempre um pouco confusa.
A última proposta do governo (última, naturalmente, é uma forma de expressão...) acerca de quem deve e não deve pagar portagem — só paga a malta dos concelhos mais ricos — suscitara-me uma dúvida. Passo a expô-la.
Eu vivo num concelho dos mais pobres. Tenho três Ferraris (é um exemplo; eu nem gramo Ferraris). Não pago portagem?
Então não é que vejo hoje a minha dúvida ser expressa pelo Macário Correia?! Confesso o meu incómodo. E prometo nunca mais pensar no assunto.

27/06/10

Fish and chips, perdão, scutes e chipes embora o assunto não me interesse por aí além

Scutes lembra-me escuteiros e chipes, claro, batatas fritas. O assunto, apesar de não ter a certeza de poder chamar assunto às batatas fritas, não me interessa por aí além. Como diria Benchley.
Fazendo, contudo, um esforço de descentramento cívico, estou disposta a apostar que nas análises profundas que se farão ouvir após as próximas eleições legislativas (digo já que não arrisco datas…) a coisa será dada como a gota de água que fez cair José Sócrates.
De facto, a embrulhada é de monta. Promete-se a uns dinamarqueses que a gente não conhece de lado nenhum um negócio da China em Portugal. Como Portugal fica mais perto, os dinamarqueses, que também não nos conhecem de lado nenhum, aceitam sem saber no que se metem.
O assessor de um secretário de Estado chega mesmo a despedir-se do cargo para representar voluntariamente os escandinavos no nosso país, arriscando-se, afinal, a ir engrossar as filas do Fundo de Desemprego onde, como se sabe, dada as restrições impostas pela crise, já não há ninguém para servir salmão.
Ao desemprego terá, pois, o pobre assessor de somar o deficit de ómega 3, o que evidentemente resultará numa diminuição acentuada do seu bom colesterol, facto sobremaneira injusto dado Pedro Bento ser rapaz ainda jovem e para mais empreendedor, que é do que este país mais precisa como bem disse Cavaco Silva, cujo antigo governo by the way também terá caído por causa de umas portagens na ponte 25 de Abril, o que não deixa de denunciar um curioso padrão no comportamento político dos portugueses que já terá sido com certeza analisado pelo sociólogo Boaventura de Sousa Santos.
E tudo isto porque alguém decidiu que só a região norte passaria a pagar portagens. Os tipos da região norte ficaram naturalmente chateados (eu também ficaria, mesmo se o assunto não me interessa por aí além…) e garantem que ou há moralidade ou comem todos. Parece que vão todos comer pela medida grande. Mas, por enquanto, sem chips nem fish.
Entretanto, na Dinamarca, um pescador de salmão, entediado enquanto esperava pela passagem dos peixes, decifrou a sigla SCUT (SEM CUSTO PARA O UTILIZADOR), que até aí pensava ser uma variante portuguesa de salsichas.
Incrédulo, telefonou ao seu conterrâneo (e novo empregador do ex-assessor do secretário de Estado Paulo Campos), que ficou tão surpreendido como ele, e depois foram os dois beber umas Carlsberg, provavelmente a melhor cerveja do mundo.