Mostrar mensagens com a etiqueta Sofia de Melo Breyner. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sofia de Melo Breyner. Mostrar todas as mensagens

12/03/10

Das pessoas sensíveis que leram Cormac, adoram Cormac mas não matam galinhas ou se a sociedade é o que é porque havia a escola de ser diferente?

Um miúdo atirou-se ao rio. Passados poucos dias um homem fez o mesmo. Não se conheciam. Entre eles, apenas uma coisa em comum: a escola. Um era aluno, o outro professor.
A morte do miúdo e a morte do homem fizeram manchete nos jornais e desencadearam imensos comunicados. De indignação, de consternação, de interpretação. Os dois teriam sido vítimas de violência. Psicológica, ou física ou ambas.
Ministério, Direcções-Gerais (o homem apresentava “fragilidades psicológicas”), pedagogos, psicólogos, associações de pais e associações de professores, a polícia (o miúdo “queria apenas chamar a atenção") e até os Partidos opinaram sobre o sucedido.
Os comentários foram de largo espectro, incluindo os que clamam por castigos exemplares e os que clamam por acompanhamentos exemplares. Comum a todos, a necessidade de repensar a escola.
A escola, claro, que tem as costas largas. Mas o que é a escola se não o reflexo, mais ou menos exacto, da vida fora da escola? Os estabelecimentos escolares tornaram-se mais violentos? E o que é a vida lá fora? Um mar de rosas?
Infelizmente Rousseau não tinha razão. Muito mais perto da verdade estará Cormac McCarthy.
Como no poema de Sofia, porém, “as pessoas sensíveis” que lêem Cormac e adoram Cormac “não são capazes de matar galinhas/ porém são capazes de comer galinhas”.
Modernas e progressistas ― adoram os Cohen! ―, mostram-se na verdade incapazes de perceber o velho xerife Bell. Aquele que escreve:

“Há uns tempos li nos jornais que um grupo de professores encontrou por acaso um inquérito que foi enviado nos anos trinta a um certo número de escolas de todo o país. Incluía um questionário sobre quais os problemas mais graves que aconteciam nas escolas. E encontraram também os formulários de respostas, que tinham sido preenchidos e devolvidos dos quatro cantos do país. E os problemas mais graves que os professores apontavam eram coisas como conversar nas aulas e correr pelos corredores. Mascar pastilha elástica. Copiar os trabalhos de casa. Coisas desse género. Então eles policopiaram uma data de exemplares e enviaram-nos para as mesmas escolas. Passados quarenta anos. Bom, algum tempo depois receberam as respostas. Violações, fogo posto, homicídio. Drogas. Suicídios. E eu ponho-me a pensar nisto. Porque muitas das vezes que eu digo que o mundo está a ir direitinho para o Inferno ou alguma coisa do género, as pessoas limitam-se a fazer-me um sorriso e dizem-me que eu estou a ficar velho. Que este é um dos sintomas. Mas cá no meu entender, se alguém não vê a diferença entre violar e assassinar pessoas e mascar pastilha elástica é porque tem um problema muito mais grave do que o meu. Quarenta anos também não é assim tanto tempo. Talvez os próximos quarenta anos façam acordar algumas pessoas da anestesia em que caíram. Se não for demasiado tarde.” (in Este País não É para Velhos)