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31/03/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Atrás dos tempos vêm tempos»

«... O que também está muito em alta são os “leitores sensíveis”. Embora não seja de hoje, a revisão de textos autorais que se vêem expurgados de vocabulário ou passagens consideradas problemáticas — em nome do combate ao racismo, misoginia, homofobia, gordofobia… — é actualmente defendida com grande à-vontade, nomeadamente no que diz respeito aos livros infanto-juvenis, como uma prática normal e pedagógica, garante de que os infantes de hoje serão adultos exemplares amanhã.

Sendo sabido que pôr uma criança em contacto com livros nos quais, por exemplo, caçar leões ou lobos ou ursos lhes é apesentado como actividade normal, não censurável, constitui meio caminho andado para mais tarde seguirem os passos do ex-Rei de Espanha e tornarem-se assassinos de elefantes, nada como oferecer-lhes apenas, desde a mais tenra idade, obras edificantes sobre a irmandade das espécies. Outro exemplo: A Bela Adormecida, texto que transmite uma visão do feminino desactualizada — recorde-se o beijo do príncipe em momento algum antecedido de permissão — também será de evitar.

O proselitismo do Bem — pedra de toque de todo e qualquer puritanismo — abarca, pois, tanto os pais conservadores da Florida que consideraram pornográfica a estátua de Miguel Ângelo e inaceitável que os seus filhos a vissem, como os mais paranoicos radicais woke capazes de descobrir debaixo de cada pedra uma realidade ou motivação censuráveis.

Entretanto, os tempos pouca importância dão às estátuas e aos livros. (...)»

12/08/22

Jean-Jacques Sempé (17 de Agosto de 1932 – 11 de Agosto de 2022)

A minha filha mais nova adorava as Histórias do Menino Nicolau (eu também).
Uma ocasião, para a disciplina de Português, foi pedido aos miúdos que escolhessem para ler na sala de aula um conto alusivo ao Natal.
Ela escolheu uma história do Menino Nicolau. Quando a mostrou à professora, esta franziu o nariz e disse-lhe que, pronto, era uma história de Natal, até era original e tal, mas não era bem aquilo, blá-blá-blá. Em resumo, era demasiado divertida. 

Depois queixam-se de os miúdos não gostarem de ler e de haver tanto letrado analfabeto a dar aulas de Português e a achar que o Valter Hugo Mãe é um grande escritor ou/e a massacrar as crianças com os poemas do José Jorge Letria e os contos do António Torrado.  


© Stephane De Sakutin/AFP/DPA