Mostrar mensagens com a etiqueta O sorriso da hiena. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O sorriso da hiena. Mostrar todas as mensagens

01/08/07

O Sorriso da Hiena (Danação)

— Jogam?
Por entre o fumo esboça-se uma boca escancarada em ouro.
— Jogam?
e o tabuleiro de xadrez desce sobre a mesa e a Mulher ouve de novo a voz — um rosto cada vez mais perto, gordo e suado, agora oblíquo:
— Mais chá?
O Homem, sentado ao lado da Mulher, insinua-se aproximando o corpo:
— Só há chá?
o que a obriga a desviar-se contra o frio dos azulejos, encurralada na troca de palavras.
A boca de ouro denuncia um sorriso cúmplice e afasta-se devolvendo-a à minúcia com que calcava as folhas engelhadas de hortelã, para regressar com dois copos baços que iludem na perfeição o pecado do álcool.
— Era isto?
A Mulher, suspensa e entorpecida pelo fumo que se entrelaça na luz do candeeiro fixo na parede, estremece ao bater do vidro sobre a mesa.
Desperta, pergunta:
— Queres jogar?
E o Homem responde:
— Sim, sim
ao mesmo tempo que desenha um O com o polegar e o indicador na direcção da bebida proibida — Parfait! — e a boca de ouro se esgueira pela varanda aberta às montanhas recortadas à lua, massas negras e gigantescas que parecem mesmo ali — na verdade ainda a muitos quilómetros para Norte.

— Peão de rei? — comenta a Mulher para o Homem.
— Why not?
e ela, indecisa, opta pela simetria. Os dois peões enfrentam-se no xadrez e o Homem adianta um cavalo.
— Cavalo, a minha arma preferida — diz.
Mais demorada, a Mulher imita-o.
Um bispo branco percorre agora três casas pondo em perigo a posição da Mulher que avança o peão de dama num gesto automático de defesa. Começa a alhear-se. Uma tontura subtrai-lhe o equilíbrio sempre que se inclina para mexer uma peça e um vómito enrola-se-lhe na boca. É a vez do Homem. Um peão, de novo, e a partir daqui as jogadas vão-se tornando mais lentas. Quando ele anuncia, à primeira baixa:
— Chèrie, bispo f7
a Mulher há muito desatara o tempo.
Miríadas de vozes ressoam-lhe em vocábulos avulsos, restando-lhe na cabeça o espaço exacto do pânico de em vão tentar perceber o que se diz. Quer falar, dar sentido ao lastro das palavras — o pensamento atropela-as. Ao concluir que qualquer tentativa resultaria surda para lá da redoma onde se encerrara, a Mulher ensaia um contraponto à vertigem. Fixa obsessivamente o tabuleiro e o esforço leva-a ao enjoo e a ignorar o Homem que dissera:
— Vamos, claro. Pode ser que resulte
em resposta seca.
— Que resulte, o quê?
— Sei lá, a experiência… Como se fôssemos à experiência.
— É isso que achas?
— O que lhe queres chamar? Lua de mel? Não é uma lua de mel, tu sabes.
— Nunca pensei que fosse.
— Não queria que se criassem equívocos.
— Eu sei que te bastas a ti próprio. Posso correr o risco?
— Podes.
— Vamos, então? — concluíra ela
e foi a última viagem
… durante a qual iniciam um jogo de xadrez no bar de um hotel escolhido praticamente ao acaso que a Mulher, não o sabendo ainda, há-de revisitar, cobertas já as montanhas pela neve do Inverno, o Homem definitivamente ausente.
Obstinado, cumprir-se-á até ao fim. Condenado a uma mente tangencialmente mortífera, desbaratava o frenesim das ideias em sinapses malignas que lhe decidiam o pânico — e era quando ele gostaria de ser outra pessoa, liberto dos nós que tecia e desfazia à sua volta.
Por enquanto, a Mulher teima apenas em amá-lo diante do tabuleiro sobre a mesa baixa, apesar do fumo e do álcool a empurrarem para dentro dela durante um jogo em que já só o Homem persiste — os dois entrincheirados nos seus mundos, incapazes de uma troca de olhares ou do indício de um gesto.
— Amo-te — crê a Mulher ter arrancado ao silêncio que nenhuma palavra interrompeu.
O Homem anuncia-lhe:
— Xeque ao rei.
Repete:
— Xeque ao rei.
Depois disto nada. Porque também ele se parece ter evadido para longe, alheio ao xadrez e ao desespero afónico da Mulher.
Ela olha-o por detrás da sua redoma, debatendo-se inutilmente contra a injustiça maior de lhe ser proibido aproximar-se do Homem a quem invade por instantes uma tristeza funda, depressa se negando à piedade que sabe minar todas as coisas, descrente incondicional da ordem e da pacificação.
Muito mais tarde, esquecido o jogo, dir-lhe-á:
— Não sou capaz, vê se percebes, não sou capaz — suspendendo-a na impossibilidade de redimir o desamor.
E exorcizará o desconsolo cedendo à voragem que o desata, cruel e lunar, contrariando o antiquíssimo vício da Mulher de se desejar abrigo, expondo-se único à explosão anunciada, comparável por defeito ao parto de um cometa.
Jogador, persistiria em apostar o corpo contra a cabeça, aguardando que uma circunstância lhe desmascarasse a batota. O que finalmente aconteceu.
Ainda assim a Mulher teima em amá-lo diante das montanhas brancas alumiadas pela lua no Inverno, resgatada em vão a última viagem, perplexa face à duração do mundo. Folheia os papéis onde ele tentara escrever sobre o danado desacerto. Lê: «por uma vez o gesto identificou-se com o miolo das palavras, e seria esse o único talento que o homem tumultuosamente pretendia — um talento sem direito nem avesso».

— Aqui estou, condenada a habitar esta antecipação de ruínas, como lhe chamaste. Conseguirei eu mesma ser pedra? — pergunta a Mulher
.

23/07/07

O Sorriso da Hiena (A Ilha)

A brisa rasa o cais pregueando as águas. Ancorados a cada um dos lados do pontão dormitam barcos embalados pela maré, gemendo ora uns, ora outros.
A mulher caminha sobre o paredão perpendicular à ria, um saco apertado contra o peito, detendo-se-lhe o olhar no que lhe parece ser o caos absoluto dos barcos — redes, remos, bóias, bidões, aparelhos, canas, cordas, velas enroladas, cadáveres de motores —, atenta à chiadeira de uma bicicleta que passa. Acena com a cabeça ao pescador que lhe antecipa o gesto, parada, à espera, como se pudessem o homem e a sua bicicleta eclipsar-se no ar, vendo-o afastar-se na direcção da primeira e única curva que a vista alcança, a estrada perdendo-se no horizonte. A mulher retoma o passo e lê chegada ao pára-vento: «Os barcos de carreira estão temporariamente suspensos».
Descansa no pontão, escutando o pulsar da ria nas escadas que descem do cais, atapetadas de algas e enxames de lapas expostos pela maré baixa. Derrama-se uma luz frouxa sobre a tarde e rolos de espuma desfazem-se contra as paredes do molhe. Um bando de gaivotas sobrevoa uma traineira. Persegue a fantasia das aves que planam já ao largo e nesse movimento se precipita a si própria, deixando para trás as casas, o traçado das ruas, as árvores do jardim, o bulício do cais, até a fachada da vila — onde, em primeiro plano, uma mulher sentada aperta um saco contra o peito — se esbater em nada.

— A cabeça de um homem é tão obscura como o equilíbrio de um gato.
Teria sido ele a dizer isto? Sim, mas só depois, muito depois.

A mulher sabe — como um bicho sabe da floresta a crepitar em chamas — que invocar a memória é pressagiar a morte. E então? Como renegar o sal das amoras, as casas caladas, a névoa que os alheia das sobras do mundo? Como esquecer o rosto tolhido pela doença, os olhos encovados, o corpo à mercê de uma desconhecida inventada numa manhã de Outono?
Olha o sol prestes a desaparecer e de súbito o adivinha, confirmando-o num movimento lento de cabeça, posto atrás dela exorcizada a febre. Num murmúrio, ouve-o perguntar-lhe na sua língua estrangeira: «Je peux vous embrasser?», e os braços dele rodeiam-lhe a cintura, o peito junto às costas dela, a cabeça pousada sobre a curva do seu ombro, e só então o sol se transfigura em lume, cobrindo-se o céu, eles, a Ilha — o mundo, seria? — de uma calma inteira que a mulher revive na cadência da maré pulsando nas escadas que descem do pontão para o mar. Uma benção.
Faz-se ouvir a cantilena do comboio que atravessa a vila. A-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, e já essa outra história se esvaía em fumo como uma cabeleira moura desmanchada ao vento.
A-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, insiste o comboio enquanto se afasta.
A-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, e as traineiras-luzes-de-uma-vila-acesa se não soubéssemos, a Sul, só o mar.
A-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, e o maior equívoco que seria o da abnegação que espera recompensa.
A-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, e a nossa impotência em coincidir com o tempo das coisas desejadas.

— Sinto a tua falta, mesmo se contigo estou tão sozinho como sem ti — disse-lhe também o homem.
E, mesmo à porta, sentencioso:
— Todas as coisas são irreversíveis embora nada seja inevitável. A morte, apenas. Eis a regra do jogo.
— Cala-te! — pede-lhe a mulher sentada no cais tentando escutar as vozes.
E as vozes insistem: «Uma benção!»
«Uma benção!», insistem os barcos. «Uma benção!», segredam as árvores do jardim. «Uma benção!», repetem as casas de cal. «Uma benção!», regozijam-se os mortos nas campas. «Uma benção!», murmuram as gentes pelas ruas. «Uma benção!», sibilam as águas. UMA BENÇÃO!, grita o pescador na sua bicicleta antes de desaparecer atrás de uma nuvem em direcção ao Sul.
Edward Hopper, Rooms by the Sea