"Je voudrais bien écrire comme on parle. Je voudrais bien écrire comme on chante, ou comme on hurle, ou simplement comme on allume une cigarette avec une allumette, et on fume doucement, en pensant à des choses sans importance. Mais cela ne se fait pas. Alors, j’écris comme on écrit, assis sur la chaise de paille, la tête un peu penchée vers la gauche, l’avant-bras droit portant au bout une main pareille à une tarentule qui dévide son chemin de brindilles et de bave entortillées.", J. M. G. Le Clézio.
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10/08/13
15/03/10
Prémio Leya 2009 atribuído ao historiador moçambicano João Paulo Borges Coelho ― há muito que a literatura é outra coisa
[Uma versão abreviada deste texto foi publicada no semanário Expresso, caderno Actual]À boleia dos versos de Natália ― “ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer”― arriscaria que entre as artes literária e culinária existem certas afinidades electivas. A culinária parte, todavia, em vantagem: os seus ingredientes base podem ser mais ou menos nobres ou mais ou menos variados; a literatura está confinada ao verbo ― alquimia de fracos recursos, vive do mistério que transforma a palavra vulgar em romanesca ou poética.
Nele entrados, terá de obrigatoriamente acontecer aquilo que o nobel J-M G Le Clézio resumiu assim: “Les mots ne veulent pas dire les sentiments, les passions ou les obsessions. Cela ne les intéresse pas. Ils vibrent et tremblent comme des oiseaux avant de crier" (in L'Inconnu sur la Terre). Acrescente-se ao manuseio do verbo o pesado lastro da história da literatura e perceber-se-á que contar (mais) uma história não basta.
João Paulo Borges Coelho tinha uma para contar. Melhor, várias. Escreveu O Olho de Hertzog e venceu o prémio Leya 2009.
O tempo da acção recua ao fim da Grande Guerra, o cenário fica na África Austral (entre Moçambique e a África do Sul), o protagonista é Hans Mahrenholz, um misterioso militar alemão que deambula por Lourenço Marques ― onde se cruza com uma plêiade de personagens, recriadas, umas (como a do jornalista mulato João Albasini de quem o livro reproduz alguns editoriais), ou imaginadas de raiz, outras ―, o cocktail doseado em partes exactas de História e thriller.
Quem é Hans Mahrenholz, chegado num zepelim de onde se atira de pára-quedas em socorro de um exército que já havia perdido a guerra? O que procura ele em Lourenço Marques, disfarçado de inglês sob o nome de Henry Miller? Quem é Rapsides, o homem da cicatriz? E Glück, essa figura sombria à luz da qual se vai desenhando Mahrenholz?
Estas perguntas delimitam o enredo; das respostas, infelizmente, não resulta um grande livro.
Borges Coelho ensaia estratégias conhecidas.
Alternância temática de capítulos (a fuga ao exército português no mato versus peripécias urbanas); alternância da primeira e terceira voz do narrador; tentativa de cruzamento dos tempos da acção dentro de um mesmo plano, vide mesmo parágrafo (de todo não conseguida, sobretudo atendendo a essa obra-prima de Saul Bellow intitulada A Autêntica); recurso hiper-realista a listas de publicidade de época (já ensaiado jocosamente, entre outros, por Camilo, mas que aqui pouco mais é do que um acrescento ornamental), analepses, encontros e desfechos forçados (inverosímeis no registo realista adoptado), inconsistência das personagens (mesmo João Albasini parece uma caricatura)…
Se a isto juntarmos a cacofonia das aliterações, as soluções frásicas duvidosas (“soluços molhados do tempo”, logo na primeira página), uma linguagem que não levanta voo e um esqueleto organizacional à vista, sobra o rigor histórico, o ineditismo do material ficcionado, uma ou outra imagem conseguida ("... caminhando pelos capinzais como se anda nas ruas da cidade, olhando as árvores como se olhasse as montras"), o jogo de identidades (ninguém é quem parece ser num tempo e espaço históricos que se encontram, eles mesmos, pejados de indefinições), e, sobretudo, esse achado delicioso do contabilista A.O. Salazar.
Encerrando o balanço estritamente literário (prémios e negócios à parte), diria que não basta ser historiador para escrever um romance histórico (leia-se Guerra e Paz) e que, em O Olho de Hertzog, Glück perde demasiado para Kurtz, sendo impossível ― além de inadmissível― entrados no século XXI, vir falar de arte literária e ignorar Conrad e Tolstói. Logo os dois. E que dois!
O Olho de Hertzog, João Paulo Borges Coelho, Leya, 2009
01/02/09
A book a day keeps the doctor away
«O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que não sabia bem ao certo se acabava de deixar o Exército ou um asilo psiquiátrico», explica J. M. G. Le Clézio no intróito a este romance antigo, o primeiro, que lhe valeria o Prémio Renaudot de 1963, anterior, portanto, aos Índios, ao México e aos desertos. Recentemente reeditado, reli-o também agora, para confirmar o que sabia: é um belíssimo romance. E se me pedissem que o abreviasse em três penadas – o que, de facto, me pediram – acrescentaria à descrição do próprio: O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que se pôs um dia a perseguir um cão. Era esta a imagem que tinha; é a imagem que perdura.Cão e homem invertem às tantas os papéis, e nesse quadro bizarro avesso à normalidade está tudo o que de mais radical trespassa a obra deste francês maurício: uma visão do real que enfrenta corajosamente os paradoxos e que escapa a todo e qualquer maniqueísmo – o humano, não como categoria transcendente à matéria, mas o humano inscrito absolutamente na matéria. Aquilo que Paul Valéry terá deixado antever quando escreveu, «Le plus profond c’est la peau».
Assim, a denúncia do materialismo, da solidão das cidades, do excesso de ruído, do consumismo sem freio, a que muitos insistem em reduzir a obra de Le Clézio, é um tiro aquém e pueril, pois que foi também ele quem disse nesse ensaio extraordinário, L’Extase materielle: «O corpo é vida, o espírito é morte. A matéria é ser, o intelecto nada».
Trata-se, pois – como se intui, desde logo, nesta narrativa de estreia –, de nos religar à matéria, telúrica, primeva (Herberto Helder traduziu-o, não certamente por acaso…), como bem se expressa neste diálogo que transcrevo:
«"Adão, fazes-me medo assim nessa posição, não te mexes, não respiras, dir-se-ia um cadáver…”
«“Idiota!”, respondeu Adão, “interromper a minha contemplação! Agora acabou-se, seria preciso recomeçar tudo desde o princípio.”
«“Recomeçar o quê?”
“Nada, nada… Não te posso explicar. Tinha já chegado ao vegetal… Aos musgos, aos líquenes… Estava pertíssimo das bactérias e dos fósseis. Não te posso explicar.”».
E seria com certeza interessante, à luz disto, comparar o jovem Adão em fuga com o desassossegado Holden Caulfield, desse outro inclassificável que dá pelo nome de Salinger.
O Processo de Adão Pollo, J.M.G.Le Clézio, Europa-América, 2008
01/01/09
Porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, no essencial estou de acordo com Rui Bebiano
Na página da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique deparo com um artigo que me parece pouco sério, assinado por Alain Gresh, editor do jornal, com o título «Gaza: ‘choque e pavor’». Trata-se, a meu ver, de um exemplo de impudor cheio de boa intenções alardeado por certos analistas — mapeados entre a esquerda mais ortodoxa e aquela que se autoproclama crítica mas é incapaz de reapreciar dinamicamente o seu sistema de crenças — sempre que falam da eternizada crise do Oriente Médio. O autor parte de uma situação assustadora, sobretudo para os civis que não podem escapar-lhe, que se prende com os actuais bombardeamentos israelitas lançados sobre a faixa de Gaza. Pretende aqui, como tantos outros textos o procuram fazer, denunciar a sua brutalidade e protestar contra o seu prolongamento, o que me parece ser uma causa boa e necessária. Os militaristas israelitas não podem sentir-se livres para promoverem uma escalada sem fim e com danos intoleráveis. Mas Gresh fá-lo recorrendo a um conjunto de omissões e de insinuações que não podem servir quem pretenda proceder a uma abordagem equitativa e justa do problema, a qual passa por tudo menos pela consideração das «duas partes» — como se neste conflito seja possível separá-las com toda a clareza sem opções intermédias — enquanto antagonistas de uma luta unívoca entre o bem e o mal.
Começa por ignorar completamente a provocação do Hamas que antecedeu o ataque de Israel, traduzida no lançamento, a 20 de Dezembro, de dezenas de rockets sobre as cidades judaicas de Ashdad e Ashkelon (fala apenas da sua ténue reposta após o início dos bombardeamentos israelitas). Continua tentando provar a «legitimidade democrática» do governo islamita do Hamas quando este tomou o poder de uma forma descricionária após uma guerra de extermínio contra os militantes da Fatah que levou até à fuga de Gaza de dezenas de milhar de refugiados palestinianos. Esquece que, como até o próprio Hamas reconhece, cerca de 250 dos mais de 300 mortos nos ataques da aviação israelita pertencem às milícias do movimento (o que não isenta de crítica esses ataques, mas indica o seu sentido primordial). Ignora a repelente estratégia dos islamitas no sentido de disseminarem quartéis e rampas para o lançamento de rockets no centro de áreas habitacionais que lhes servem de escudo humano. E, finalmente, faz tábua rasa dos direitos históricos dos israelitas sobre a presença na região, que não podem, nem devem, sobrepor-se aos dos palestinianos, mas precisam ser conformados com eles. Não seria preciso tanto para julgar um artigo como parcial e, realmente, pouco honesto.
Amos Oz tem falado repetidamente de uma inevitabilidade que ele próprio já não verá, e muitos de nós não terão também tempo de ver, que é esta, bem simples: irmãos de sangue e vizinhos, palestinianos e judeus, custe o que custar, estão condenados a entenderem-se, a colaborarem, a miscisgenarem-se até. Ainda que contra a vontade de quem, lá como aqui deste lado da Europa, sofre de miopia e se empenha teimosamente em atear rastilhos para alimentar a sua leitura maniqueia do mundo.
Começa por ignorar completamente a provocação do Hamas que antecedeu o ataque de Israel, traduzida no lançamento, a 20 de Dezembro, de dezenas de rockets sobre as cidades judaicas de Ashdad e Ashkelon (fala apenas da sua ténue reposta após o início dos bombardeamentos israelitas). Continua tentando provar a «legitimidade democrática» do governo islamita do Hamas quando este tomou o poder de uma forma descricionária após uma guerra de extermínio contra os militantes da Fatah que levou até à fuga de Gaza de dezenas de milhar de refugiados palestinianos. Esquece que, como até o próprio Hamas reconhece, cerca de 250 dos mais de 300 mortos nos ataques da aviação israelita pertencem às milícias do movimento (o que não isenta de crítica esses ataques, mas indica o seu sentido primordial). Ignora a repelente estratégia dos islamitas no sentido de disseminarem quartéis e rampas para o lançamento de rockets no centro de áreas habitacionais que lhes servem de escudo humano. E, finalmente, faz tábua rasa dos direitos históricos dos israelitas sobre a presença na região, que não podem, nem devem, sobrepor-se aos dos palestinianos, mas precisam ser conformados com eles. Não seria preciso tanto para julgar um artigo como parcial e, realmente, pouco honesto.
Amos Oz tem falado repetidamente de uma inevitabilidade que ele próprio já não verá, e muitos de nós não terão também tempo de ver, que é esta, bem simples: irmãos de sangue e vizinhos, palestinianos e judeus, custe o que custar, estão condenados a entenderem-se, a colaborarem, a miscisgenarem-se até. Ainda que contra a vontade de quem, lá como aqui deste lado da Europa, sofre de miopia e se empenha teimosamente em atear rastilhos para alimentar a sua leitura maniqueia do mundo.
Ao contrário deles, prefiro valorizar a sinal de aproximação entre dois universos expresso nesse instinto de proximidade, desenhado por Le Clézio em Estrela Errante, que foi possível desenvolver entre Esther, a judia que fugira aos nazis e chegava a Israel à procura de reconstruir a sua vida, e Nejma, que ao mesmo tempo deixava o país em colunas de refugiados, rumo ao exílio. Leio: «A água, a terra e o céu mistura-se. Há uma brisa que se espalha e oculta imperceptivelmente o horizonte. (…) Tudo está calmo no molhe.» Um dia, contra os cães raivosos, também as pessoas partilharão o destino comum dos elementos. Até que esse dia chegue, porém, convirá que não façamos por adiá-lo alinhando cegamente num dos lados do partido do ódio.
Roubado, dispensada a cerimónia, daqui.
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12/10/08
«O Arquipélago da Insónia», de António Lobo Antunes

De acordo com a famosa máxima do ensaísta inglês Walter Pater (1839-1894), «all art constantly aspires towards the condition of music, because, in its ideal, consummate moments, the end is not distinct from the means, the form from the matter, the subject from the expression (...)». Esta concepção da música como a «grande arte» parece ajustar-se cada vez mais à escrita de António Lobo Antunes. O seu último título, O Arquipélago da Insónia, indiferente ao pretexto ficcional ― ascensão e queda de uma família latifundiária alentejana (?)―, surge habitado por uma polifonia de espectros, soando como uma melodia riscada por frases e sons sincopados e crispados, agentes devoradores da própria partitura do texto que, ainda assim, sobrevive.
No princípio há uma casa: «De onde me virá a impressão que, na casa, apesar de igual, quase tudo lhe falta?». Depois vão saindo dela, em lenta procissão, as personagens (mortas ou vivas?, acabará por perguntar-se o leitor que não pode evitar Pedro Páramo, de Juan Rulfo): um avô («comandando o mundo»), criadas submissas («― Chega cá»), dois irmãos, um deles autista («repara no meu irmão que não responde a nada interessado na música», uma avó («a chávena da minha avó a tremelicar no pires»), um feitor («sob as nogueiras a lutar com os sapatos sem dar com as árvores sequer conforme lhe sucedeu pisar o padre que se sumia na terra»), um ajudante de feitor («Para alguma coisa há-de servir esse idiota»), um pai («e ninguém ao seu lado, você sozinho pai e todavia à procura, as mãos a segurarem o que julgava as mãos da minha mãe»), uma mãe («alguma vez a vi sem ser de costas para mim?»)... somando-se a estas outras tantas, fios frágeis de um emaranhado narrativo que, à maneira de um sonho, tanto escapa à temporalidade sequencial como às leis de causa e efeito. E, também por isto, trata-se de um livro do qual se gosta mais à segunda leitura.
Chegados aqui, teria de nos vir à cabeça O Som e a Fúria, de William Faulkner, escritor que António Lobo Antunes diz ler cada vez menos mas de cuja família literária não poderá fugir. Precisamente sobre a tragédia da família Compsons, escreveu ele: «(...) possui a qualidade de ser um romance que, tal como a grande poesia, se relê no maravilhamento da descoberta: a todo o passo damos com pormenores que nos haviam passado despercebidos, em cada página nos emocionamos». Mas se, como na extraordinária obra do Nobel americano, também em O Arquipélago da Insónia há uma família decadente e um «Idiota» a que se quer dar voz, torna-se arriscado ir mais longe nas comparações. Neste as vozes misturam-se (uma só, afinal?), o ritmo delirante é omnipresente, a alucinação é indistinta do real e vivos e mortos trocam de papéis, esfumando-se, uns e outros, em fotografias antigas sem futuro. As palavras atropelam-se, interrompem-se, rodopiando indiferentes às regras da identidade, da linearidade, indiferentes também à preguiça do leitor, esse leitor que já Machado de Assis interpelava ironicamente em Memórias Póstumas de Brás Cubas: « (...) tu amas a narrativa direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem». Neste caso, claro, o estilo chega expurgado de realismo, mero pretexto imagético para um exercício radical de linguagem: onírica, exacta, cruel (a morte, o sexo e o crime mancham O Arquipélago da Insónia), nunca descarnada, à imagem da música ― a mais racional e sensual das artes.
E também por mais este livro, mesmo se distinto da condição mágica de «Iniji», se poderá dizer da busca literária de António Lobo Antunes o mesmo que J.M.G. Le Clézio disse a propósito dessa espécie de poema assinado por Henri Michaux: «As linguagens pesadas tropeçam nas suas consoantes, nas sílabas, como um cego tropeça nos móveis de um quarto desconhecido. Já não pretendemos falar todas as línguas. As palavras encontram-se além, sempre além, e é preciso apanhá-las depressa. As vogais que soam, ressoam. Talvez seja preciso abandonar tudo.»
No princípio há uma casa: «De onde me virá a impressão que, na casa, apesar de igual, quase tudo lhe falta?». Depois vão saindo dela, em lenta procissão, as personagens (mortas ou vivas?, acabará por perguntar-se o leitor que não pode evitar Pedro Páramo, de Juan Rulfo): um avô («comandando o mundo»), criadas submissas («― Chega cá»), dois irmãos, um deles autista («repara no meu irmão que não responde a nada interessado na música», uma avó («a chávena da minha avó a tremelicar no pires»), um feitor («sob as nogueiras a lutar com os sapatos sem dar com as árvores sequer conforme lhe sucedeu pisar o padre que se sumia na terra»), um ajudante de feitor («Para alguma coisa há-de servir esse idiota»), um pai («e ninguém ao seu lado, você sozinho pai e todavia à procura, as mãos a segurarem o que julgava as mãos da minha mãe»), uma mãe («alguma vez a vi sem ser de costas para mim?»)... somando-se a estas outras tantas, fios frágeis de um emaranhado narrativo que, à maneira de um sonho, tanto escapa à temporalidade sequencial como às leis de causa e efeito. E, também por isto, trata-se de um livro do qual se gosta mais à segunda leitura.
Chegados aqui, teria de nos vir à cabeça O Som e a Fúria, de William Faulkner, escritor que António Lobo Antunes diz ler cada vez menos mas de cuja família literária não poderá fugir. Precisamente sobre a tragédia da família Compsons, escreveu ele: «(...) possui a qualidade de ser um romance que, tal como a grande poesia, se relê no maravilhamento da descoberta: a todo o passo damos com pormenores que nos haviam passado despercebidos, em cada página nos emocionamos». Mas se, como na extraordinária obra do Nobel americano, também em O Arquipélago da Insónia há uma família decadente e um «Idiota» a que se quer dar voz, torna-se arriscado ir mais longe nas comparações. Neste as vozes misturam-se (uma só, afinal?), o ritmo delirante é omnipresente, a alucinação é indistinta do real e vivos e mortos trocam de papéis, esfumando-se, uns e outros, em fotografias antigas sem futuro. As palavras atropelam-se, interrompem-se, rodopiando indiferentes às regras da identidade, da linearidade, indiferentes também à preguiça do leitor, esse leitor que já Machado de Assis interpelava ironicamente em Memórias Póstumas de Brás Cubas: « (...) tu amas a narrativa direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem». Neste caso, claro, o estilo chega expurgado de realismo, mero pretexto imagético para um exercício radical de linguagem: onírica, exacta, cruel (a morte, o sexo e o crime mancham O Arquipélago da Insónia), nunca descarnada, à imagem da música ― a mais racional e sensual das artes.
E também por mais este livro, mesmo se distinto da condição mágica de «Iniji», se poderá dizer da busca literária de António Lobo Antunes o mesmo que J.M.G. Le Clézio disse a propósito dessa espécie de poema assinado por Henri Michaux: «As linguagens pesadas tropeçam nas suas consoantes, nas sílabas, como um cego tropeça nos móveis de um quarto desconhecido. Já não pretendemos falar todas as línguas. As palavras encontram-se além, sempre além, e é preciso apanhá-las depressa. As vogais que soam, ressoam. Talvez seja preciso abandonar tudo.»
Fotografia de Enric Vives-Rubio
09/10/08
Ainda Le Clézio: texto que eu tinha traduzido para a Phala do Hermínio e que não sabia por onde andava
O Miguel descobriu-o no site da Assírio & Alvim (obrigada!) e passou-me a informação. Aqui fica a versão em português do que no post anterior publiquei no original.«Vou-vos dizer, vou-vos explicar tudo. Tinha, portanto, dez, doze anos e morava nessa velha casa que dava para o porto, um pouco napolitana, completamente a cair, com lençóis a secar a todas as janelas do pátio, gatos semi-selvagens que lutavam nos telhados e, claro, os bandos de pombos. Nesse tempo não sabia o que era um escritor, não fazia a menor ideia, nem suspeitava que tinha havido um escritor chamado Jean Lorrain que habitara a mesma casa, outrora. Recordo esta casa sobretudo na época do calor, no Verão e no começo da Primavera, porque deixávamos as janelas abertas e escutávamos o barulho dos gaivões e os arrulhos dos pombos. Mas havia especialmente um barulho que mexia comigo. Não posso verdadeiramente dizer porque é que me inquietava, mas ainda hoje quando penso nisso me arrepio e entro numa espécie de estado de melancolia e impaciência que precede o momento em que sei que terei de me sentar em qualquer lado, ali mesmo onde estou, agarrar num caderno e numa lapiseira e começar a escrever. Este barulho, eram as vozes dos jovens que chamavam uns pelos outros no pátio, que gritavam os seus nomes. Havia os rapazes que assobiavam, e os outros que metiam a cabeça à janela, e diziam: "Estás abonado?" E os de cima: "Onde é que vão?" Eles iam já não sei onde, à praia ou à feira, ou simplesmente conversar à esquina da rua, ou esperar as raparigas que saíam da escola Ségurance, isso já não tem nenhuma importância. Mas quando ouvia aqueles assobios, e os nomes que ecoavam no pátio, imaginava uma vida diferente da minha, imaginava as correrias pelo infinito das ruas, imaginava os banhos na água fria do mar, o sol, o cheiro dos cabelos das raparigas, a música dos dancings, a aventura, a noite. Nunca ouvi chamar o meu nome no pátio, nunca ouvi assobiar por mim. Eu vivia na mesma casa, mas era outro mundo. Aqui está, é por isto que eu escrevo.»
J.M.G. Le Clézio in Libération, Março de 1985 [retirado de A Phala 36; tradução de Ana Cristina Leonardo].
Estou muito contente com a Academia Sueca
O Nobel da Literatura não foi para o Roth, mas foi para um outro escritor que eu adoro. Ainda por cima, um homem lindo: Jean-Marie Gustave Le Clézio. Disse ele: «De deux choses l'une: on risque de se faire avaler par la littérature ou par soi-même. Si on se fait avaler par soi-même, on devient fou. Si on se fait avaler par la littérature, on devient écrivain.»[o ano passado tinha deixado aqui na Pastelaria um texto seu, publicado num dossier antigo do Libération organizado sob o tema «Porque é que eles escrevem?» Volto a publicá-lo]
Je vais vous dire, je vais tout vous expliquer. Donc, j'avais dix-douze ans, j'habitais cette vieille maison sur le port, un peu napolitaine, complètement décrépie avec des draps que séchaient à toutes les fenêtres de la cour, les chats à demi-sauvages qui se battaient sur les terasses, et bien sûr les escadrilles de pigeons. En ce temps là je ne savais pas ce que c'était qu'un ecrivain, je n'en avais pas la moindre idée, je ne me doutais pas qu'il y avait eu un ecrivain nommé Jean Lorrain qui avait habité dans la même maison, autrefois. Je me souviens de cette maison surtout à la belle saison, en été et au commencement du printemps, parce qu'on laissait les fenêtres ouvertes et qu'on entendait le bruit des martinets et les roucoulements des pigeons. Mais il y avait un bruit spécialement qui me faisait quelque chose. Je ne peux pas vraiment dire pourquoi ça m'inquiétait, mais aujourd'hui encore quand j'y pense ça me fait frissonner et ça me met dans cet état de sorte de mélancolie et d'impatience qui précéde le moment où je sais que je vais devoir m'asseoir n'importe où, lá où je suis, prendre un cahier et un crayon à bille et commencer à écrire. Ce bruit, c'était les voix des jeunes gens qui s'appelaient dans la cour, qui criaient leurs noms. Il y avait des garçons qui venaient siffler, et d'autres mettaient la tête à la fenêtre, et ils disaient: «Tu cales?» Et ceux d'en haut: «Où vous allez?» Ils allaient je ne sais plus où, à la plage, ou à la foire, ou simplement au coin de la rue pour discuter, ou attendre les filles qui sortaient de l'école Ségurane, ça n'a plus aucune importance. Mais quand j'entendais ces sifflements, et les noms qui réssonnaient dans la cour, j'imaginais une autre vie que la mienne, j'imaginais les courses dans l'infinie des rues, j'imaginais les bains dans l'eau de mer froide, le soleil, l'odeur des cheveux des filles, la musique des dancings, l'aventure, la nuit. Jamais je n'ai entendu appeller mon nom dans la cour, jamais je n'ai entendu siffler pour moi. J'etait dans la même maison, mais c'etait un autre monde. Voilà, c'est pour cela que j'écris.
27/09/07
LIVROS QUE NOS RECONCILIAM COM O MUNDO - excerto
Não sei muito bem como é possível, mas a verdade é esta: sou um índio. Não o sabia antes de ter encontrado os Índios, no México e no Panamá. Sei-o agora. Não sou talvez um índio muito bom. Não sei cultivar o milho nem afeiçoar uma piroga. O peiote, o mescal ou a chicha mastigada sobre mim não exercem grande efeito. Mas quanto ao resto, quanto à maneira de andar, de falar, de amar ou de ter medo, posso dizer o seguinte: quando encontrei esses povos índios, eu, que não julgava por aí além ter família, senti-me como se de repente tivesse conhecido milhares de pais, de irmãos e de esposas. Como sempre, porém, quando uma pessoa pretende falar de um povo, quando se põe a adivinhar as paixões e os desígnios de uma comunidade que não é a sua, e mesmo que não creia forçosamente na ciência, corre sempre grandes riscos. Assim acontece com estas páginas, escritas para falar de gentes cuja grande virtude é a de serem inacessíveis e silenciosas, porque, desgraçadamente, estas páginas só sabem falar do seu autor.
Há, no entanto, outra coisa: na altura em que este livro termina apercebo-me de que seguiu, sem eu disso me dar conta, e como se fosse por acaso, o desenvolvimento do cerimonial mágico de cura: Taú Sa, Beka, Kakvahaí. Serão pois estas três etapas, que arrancam o homem índio à doença e à morte, precisamente as mesmas que balizam a vereda de toda a criação: Iniciação, Canto, Exorcismo? Há-de talvez saber-se um dia que não havia arte, mas tão-só medicina.
21/09/07
PORQUE É QUE ELES ESCREVEM - J.M.-G. LE CLÉZIO
Je vais vous dire, je vais tout vous expliquer. Donc, j'avais dix-douze ans, j'habitais cette vieille maison sur le port, un peu napolitaine, complètement décrépie avec des draps que séchaient à toutes les fenêtres de la cour, les chats à demi-sauvages qui se battaient sur les terasses, et bien sûr les escadrilles de pigeons. En ce temps là je ne savais pas ce que c'était qu'un ecrivain, je n'en avais pas la moindre idée, je ne me doutais pas qu'il y avait eu un ecrivain nommé Jean Lorrain qui avait habité dans la même maison, autrefois. Je me souviens de cette maison surtout à la belle saison, en été et au commencement du printemps, parce qu'on laissait les fenêtres ouvertes et qu'on entendait le bruit des martinets et les roucoulements des pigeons. Mais il y avait un bruit spécialement qui me faisait quelque chose. Je ne peux pas vraiment dire pourquoi ça m'inquiétait, mais aujourd'hui encore quand j'y pense ça me fait frissonner et ça me met dans cet état de sorte de mélancolie et d'impatience qui précéde le moment où je sais que je vais devoir m'asseoir n'importe où, lá où je suis, prendre un cahier et un crayon à bille et commencer à écrire. Ce bruit, c'était les voix des jeunes gens qui s'appelaient dans la cour, qui criaient leurs noms. Il y avait des garçons qui venaient siffler, et d'autres mettaient la tête à la fenêtre, et ils disaient: «Tu cales?» Et ceux d'en haut: «Où vous allez?» Ils allaient je ne sais plus où, à la plage, ou à la foire, ou simplement au coin de la rue pour discuter, ou attendre les filles qui sortaient de l'école Ségurane, ça n'a plus aucune importance. Mais quand j'entendais ces sifflements, et les noms qui réssonnaient dans la cour, j'imaginais une autre vie que la mienne, j'imaginais les courses dans l'infinie des rues, j'imaginais les bains dans l'eau de mer froide, le soleil, l'odeur des cheveux des filles, la musique des dancings, l'aventure, la nuit. Jamais je n'ai entendu appeller mon nom dans la cour, jamais je n'ai entendu siffler pour moi. J'etait dans la même maison, mais c'etait un autre monde. Voilà, c'est pour cela que j'écris.29/08/07
PENSAMENTO RECONFORTANTE ANTES DE IR PARA A CAMA
21/08/07
PENSAMENTO RECONFORTANTE ANTES DE IR PARA A CAMA
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