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01/06/10

A Faixa de Gaza: porque não sou apreciadora de avestruzes

1. O ataque ao navio de ajuda humanitária que seguia para a Faixa de Gaza e a morte de alguns passageiros a bordo é um crime e um desastre moral para Israel.
2. O bloqueio à Faixa de Gaza é uma tragédia.
3. A quantidade de comentários anti-semitas a propósito destes acontecimentos provoca-me asco (é sempre curioso verificar que, em outros casos, acusam-se os políticos ou os governos em exercício — no caso de Israel... acusa-se Israel).
4. A decisão egípcia de abrir a SUA fronteira com a Faixa de Gaza é louvável e devia levar alguns comentadores a reflectir sobre o que falam. Ao menos, a estudarem geografia.
5. Em Israel, não são poucos os isrealitas que têm condenado o ataque.

01/01/09

Porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, no essencial estou de acordo com Rui Bebiano

Na página da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique deparo com um artigo que me parece pouco sério, assinado por Alain Gresh, editor do jornal, com o título «Gaza: ‘choque e pavor’». Trata-se, a meu ver, de um exemplo de impudor cheio de boa intenções alardeado por certos analistas — mapeados entre a esquerda mais ortodoxa e aquela que se autoproclama crítica mas é incapaz de reapreciar dinamicamente o seu sistema de crenças — sempre que falam da eternizada crise do Oriente Médio.
O autor parte de uma situação assustadora, sobretudo para os civis que não podem escapar-lhe, que se prende com os actuais bombardeamentos israelitas lançados sobre a faixa de Gaza. Pretende aqui, como tantos outros textos o procuram fazer, denunciar a sua brutalidade e protestar contra o seu prolongamento, o que me parece ser uma causa boa e necessária. Os militaristas israelitas não podem sentir-se livres para promoverem uma escalada sem fim e com danos intoleráveis. Mas Gresh fá-lo recorrendo a um conjunto de omissões e de insinuações que não podem servir quem pretenda proceder a uma abordagem equitativa e justa do problema, a qual passa por tudo menos pela consideração das «duas partes» — como se neste conflito seja possível separá-las com toda a clareza sem opções intermédias — enquanto antagonistas de uma luta unívoca entre o bem e o mal.
Começa por ignorar completamente a provocação do Hamas que antecedeu o ataque de Israel, traduzida no lançamento, a 20 de Dezembro, de dezenas de rockets sobre as cidades judaicas de Ashdad e Ashkelon (fala apenas da sua ténue reposta após o início dos bombardeamentos israelitas). Continua tentando provar a «legitimidade democrática» do governo islamita do Hamas quando este tomou o poder de uma forma descricionária após uma guerra de extermínio contra os militantes da Fatah que levou até à fuga de Gaza de dezenas de milhar de refugiados palestinianos. Esquece que, como até o próprio Hamas reconhece, cerca de 250 dos mais de 300 mortos nos ataques da aviação israelita pertencem às milícias do movimento (o que não isenta de crítica esses ataques, mas indica o seu sentido primordial). Ignora a repelente estratégia dos islamitas no sentido de disseminarem quartéis e rampas para o lançamento de rockets no centro de áreas habitacionais que lhes servem de escudo humano. E, finalmente, faz tábua rasa dos direitos históricos dos israelitas sobre a presença na região, que não podem, nem devem, sobrepor-se aos dos palestinianos, mas precisam ser conformados com eles. Não seria preciso tanto para julgar um artigo como parcial e, realmente, pouco honesto.
Amos Oz tem falado repetidamente de uma inevitabilidade que ele próprio já não verá, e muitos de nós não terão também tempo de ver, que é esta, bem simples: irmãos de sangue e vizinhos, palestinianos e judeus, custe o que custar, estão condenados a entenderem-se, a colaborarem, a miscisgenarem-se até. Ainda que contra a vontade de quem, lá como aqui deste lado da Europa, sofre de miopia e se empenha teimosamente em atear rastilhos para alimentar a sua leitura maniqueia do mundo.
Ao contrário deles, prefiro valorizar a sinal de aproximação entre dois universos expresso nesse instinto de proximidade, desenhado por Le Clézio em Estrela Errante, que foi possível desenvolver entre Esther, a judia que fugira aos nazis e chegava a Israel à procura de reconstruir a sua vida, e Nejma, que ao mesmo tempo deixava o país em colunas de refugiados, rumo ao exílio. Leio: «A água, a terra e o céu mistura-se. Há uma brisa que se espalha e oculta imperceptivelmente o horizonte. (…) Tudo está calmo no molhe.» Um dia, contra os cães raivosos, também as pessoas partilharão o destino comum dos elementos. Até que esse dia chegue, porém, convirá que não façamos por adiá-lo alinhando cegamente num dos lados do partido do ódio.
Roubado, dispensada a cerimónia, daqui.

11/03/08

Porque anda muita gente por aí a falar do que não sabe, dou a palavra a Amos Oz*

Don’t march into Gaza

Anger, frustration and invective are riling us. Israel must not fall into the trap that Hamas is setting for us — we must not march into Gaza. Because the number of casualties in a ground invasion of Gaza would be much greater than the number of casualties caused by Kassam rockets over the last seven years. Because during five of the seven Kassam years, we controlled the entire Gaza Strip and hundreds of rockets were fired on Sderot anyway, in addition to repeated bloody assaults on the Israeli settlers who lived there. Apparently, we've forgotten.Reoccupying the Gaza Strip would not necessarily end rocket fire on Sderot and its environs. In addition to the continuing attacks on Sderot, our occupying force would face gunfire and suicide bombers, day in and day out. Moreover, an invasion of Gaza would unite the Palestinian masses and the Arab and Muslim worlds around Hamas, which at present is isolated and loathed by most Arabs. If Israeli forces invaded Gaza, Hamas' fighters would immediately be seen as defenders of a Palestinian Masada to the Palestinians, the Arab world and international public opinion -- the few against many, residential neighborhoods facing an army, refugee camps under the shadow of bomber squadrons, boys battling tanks, David versus Goliath. If we conquer Gaza, we'll find ourselves sitting on thorns and scorpions. The occupying force will not have a day of peace. Neither will the inhabitants of Sderot and the area around it.
Even in such times of anger, when our hearts go out to the ongoing suffering of the Israelis of Sderot, we must not forget that the root of the Gaza problem is that hundreds of thousands of human beings are rotting there in refugee camps, camps that are incubators of poverty and despair, ignorance, religious and national fanaticism, hatred and violence. From a historical point of view, there can be no solution to the problem of Gaza as long as there is not at least a modicum of hope for these desperate people somewhere on the horizon. Then what can we do? We can and must achieve a cease-fire with Hamas in Gaza. A cease-fire would come, of course, with a high political price. But among all the prices Israel would have to pay for a mistaken and rash decision, it is the least deadly and the most bearable.
Retirado daqui e na sequência deste post.
*Escritor israelita com vários livros traduzidos para português

04/03/08

64% dos israelitas são pelo cessar-fogo

A violência no Médio Oriente tende a levar a posições extremadas, com alguns defensores de Israel a mostrarem-se mais papistas do que o Papa na compreensão da política militar do governo de Ehud Olmert.
Parece ser o caso, por exemplo, de Filipe Nunes Vicente que assina o seguinte post no Mar Salgado: «Tanto Israel como o Hamas visam alvos. O Hamas visa apenas civis, Israel visa o Hamas e atinge por vezes civis. É um facto. No entanto, o ponto preferido dos media portugueses é este: Israel mata mais. Isto é deveras espantoso. O Hamas só está em baixo na contabilidade macabra porque não tem as armas de Israel. Ou alguém pensa que um tipo que odeia o vizinho e lhe atira pedras todos os dias desdenharia usar uma metralhadora?»
Como a História não se faz de «se(s)», julgo ser um dever moral condenar as mortes de civis palestinianos na Faixa de Gaza (cuja responsabilidade caberá em última instância ao primeiro-ministro de Israel, o mesmo que, recorde-se, conduziu há pouco uma guerra desastrosa no Líbano — da qual pretenderá limpar-se agora da pior maneira).
No meio da barbárie, consola-me saber que 64% dos israelitas são pelo cessar-fogo, mesmo que tal implique conversações com o Hamas. Um facto que me dá mais que pensar do que todos os apoios incondicionais e/ou argumentos rebuscados em defesa da política de terra queimada.