O historiador Jorge Martins assinou um estudo recente e exaustivo, em três volumes, sobre a presença judaica no nosso país: Portugal e os Judeus. A obra, reconhecida como o mais importante trabalho da área desde que Mendes dos Remédios publicou, em 1895, Os Judeus em Portugal, foi agora complementada por uma versão breve dirigida ao grande público.Entre nós, a presença judaica, tida como um lugar-comum, é na verdade pouco estudada. Afirma-se correntemente que um número assinalável de portugueses terá sangue judaico a correr-lhe nas veias, aponta-se a origem judaica de inúmeros apelidos (pondo nisso, talvez, até um certo exagero), conhecem-se influências na culinária (as alheiras, por exemplo, criadas para contornar o consumo proibido da carne de porco), na linguagem, na própria idiossincrasia lusa, mas trabalhos aprofundados são escassos. Breve História dos Judeus em Portugal vem contribuir para colmatar essa falha.
Organizado cronologicamente e recuando até período anterior à fundação do reino, conduz-nos pela Idade Média, pela época dos Descobrimentos, pelo período Liberal, pela I República e pelo Salazarismo, detendo-se em pormenor na sangria cultural e financeira que resultou do estabelecimento da Inquisição, na extraordinária Obra de Resgate encabeçada por Barros Bastos já no século XX (de que a comunidade de Belmonte é exemplo mundialmente único), e na política do Estado Novo no que respeita aos acossados de Hitler. Mas ler esta Breve História… será, sobretudo, compreender como a especificidade da política nacional em relação aos judeus (nomeadamente, o seu baptismo compulsivo em 1497, durante o reinado de D. Manuel I) se repercute até hoje no marranismo que atravessa a sociedade portuguesa, fundamento de uma identidade “não apenas múltipla e miscigenada, mas [também] difusa e sempre dominada por uma angustiante duplicidade (…)”.
Breve História dos Judeus em Portugal, Jorge Martins, Nova Vega, 2009