"Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes são-no cada uma à sua maneira", escreveu Tolstoi, o maior deles todos. Anna acabaria mal, como se sabe, embora nada no romance do russo nos permita estabelecer uma relação directa entre adultério e suicídio.
Seguindo Nabokov, Anna Karénina não é um tratado sobre as consequências funestas da infidelidade conjugal, antes uma exposição moral sobre os limites do “amor carnal” enquanto alicerce da felicidade familiar.
Outra visão da família, muito menos optimista, foi avançada por Ken Loach em Family Life, filme de 1971 que relata o processo de degradação de Janice, uma jovem que se vai afundando na loucura, enquanto os pais (sobretudo, a mãe...), incapazes de se porem em causa e pensando ajudá-la, a empurram mais e mais para o abismo da esquizofrenia.
Deixando de lado Engels, Origem da Família, da Propriedade e do Estado (ensaio que, devo confessar, varri completamente da memória), o facto é que a família, nas mais variadas formas, vem constituindo uma estrutura social fundamental.
A esquerda, grosso modo, gosta de olhá-la como essencialmente repressiva e castradora — uma espécie de força de inércia que detém o avanço social — enquanto a direita prefere prestar-lhe homenagem, considerando-a o alicerce do desenvolvimento individual. Margaret Thatcher, por exemplo, não hesitou sequer em afirmar que “there is no such thing as society. There are individual men and women, and there are families”.
Inegável é que a coisa se complicou muito com a entrada das mulheres no mercado de trabalho (num curioso processo em que a emancipação feminina deu as mãos à “boa e velha ganância capitalista”).
À visão dourada dos bebés pioneiros, entregues aos cuidados de instituições pedagógicas profissionais, somam-se as escolas/depósito, o encolhimento das famílias ao mínimo denominador comum, a ascensão das crianças e jovens ao estatuto de consumidor…
Numa frase, parafraseando Roth e pensando ainda nos motins ingleses: talvez seja chegada a altura de começar a falar a sério.
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27/08/11
09/12/10
17/11/10
Vão desculpar-me a linguagem de caserna mas custa-me a crer que um clube de gajas nuas fomente a leitura de Faulkner ou sequer do Henry Miller
Cada um lê como muito bem lhe apetece. Uns gostam de ler na cama, antes ou depois de dormir ou de outra coisa qualquer. Há quem teime nos cafés, apesar do sumiço dos mesmos. Há quem prefira jardins e há quem eleja a sanita. Há leitores que só na biblioteca e outros que só em trânsito. Há quem leia enquanto come. Há quem não dispense o barulho e há quem exija silêncio.O meu leitor preferido é Eliot: I read, much of the night, and go south in the winter.
Isto era tudo o que eu sabia sobre o assunto antes de ter tropeçado no Naked Girls Book Club, um clube semiprivadoe exclusivamente feminino em que a condição para se ser sócio é gostar de ler despido(a). E quem julgue que a coisa se fica pela leitura d’ O amante de Lady Chatterley ou similares mais apimentados, esclareço já que quando se clica no rectângulo à direita que diz “books reviews” vamos parar imediatamente a Faulkner e ainda por cima a Absalom, Absalom.
Impressionados? Eu fiquei, embora confesse que só me veja a ler Tolstói muito vestida, de preferência de xaile, lareira acesa e uma caixa de madeleines para acompanhar o cognac.
O que me leva da Karénina a Marilyn. Dizia Wilder: My aunt Minnie would always be punctual and never hold up production, but who would pay to see my aunt Minnie?
Citado o meu guru, se é verdade que as meninas do Book Club serão um pouco mais atraentes do que a tia Minnie do Wilder, I presume, ainda assim a Marilyn mete-as a todas num chinelo. Despida ou vestida. E se ela lia e mesmo que não lesse!
Citado o meu guru, se é verdade que as meninas do Book Club serão um pouco mais atraentes do que a tia Minnie do Wilder, I presume, ainda assim a Marilyn mete-as a todas num chinelo. Despida ou vestida. E se ela lia e mesmo que não lesse!
15/03/10
Prémio Leya 2009 atribuído ao historiador moçambicano João Paulo Borges Coelho ― há muito que a literatura é outra coisa
[Uma versão abreviada deste texto foi publicada no semanário Expresso, caderno Actual]À boleia dos versos de Natália ― “ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer”― arriscaria que entre as artes literária e culinária existem certas afinidades electivas. A culinária parte, todavia, em vantagem: os seus ingredientes base podem ser mais ou menos nobres ou mais ou menos variados; a literatura está confinada ao verbo ― alquimia de fracos recursos, vive do mistério que transforma a palavra vulgar em romanesca ou poética.
Nele entrados, terá de obrigatoriamente acontecer aquilo que o nobel J-M G Le Clézio resumiu assim: “Les mots ne veulent pas dire les sentiments, les passions ou les obsessions. Cela ne les intéresse pas. Ils vibrent et tremblent comme des oiseaux avant de crier" (in L'Inconnu sur la Terre). Acrescente-se ao manuseio do verbo o pesado lastro da história da literatura e perceber-se-á que contar (mais) uma história não basta.
João Paulo Borges Coelho tinha uma para contar. Melhor, várias. Escreveu O Olho de Hertzog e venceu o prémio Leya 2009.
O tempo da acção recua ao fim da Grande Guerra, o cenário fica na África Austral (entre Moçambique e a África do Sul), o protagonista é Hans Mahrenholz, um misterioso militar alemão que deambula por Lourenço Marques ― onde se cruza com uma plêiade de personagens, recriadas, umas (como a do jornalista mulato João Albasini de quem o livro reproduz alguns editoriais), ou imaginadas de raiz, outras ―, o cocktail doseado em partes exactas de História e thriller.
Quem é Hans Mahrenholz, chegado num zepelim de onde se atira de pára-quedas em socorro de um exército que já havia perdido a guerra? O que procura ele em Lourenço Marques, disfarçado de inglês sob o nome de Henry Miller? Quem é Rapsides, o homem da cicatriz? E Glück, essa figura sombria à luz da qual se vai desenhando Mahrenholz?
Estas perguntas delimitam o enredo; das respostas, infelizmente, não resulta um grande livro.
Borges Coelho ensaia estratégias conhecidas.
Alternância temática de capítulos (a fuga ao exército português no mato versus peripécias urbanas); alternância da primeira e terceira voz do narrador; tentativa de cruzamento dos tempos da acção dentro de um mesmo plano, vide mesmo parágrafo (de todo não conseguida, sobretudo atendendo a essa obra-prima de Saul Bellow intitulada A Autêntica); recurso hiper-realista a listas de publicidade de época (já ensaiado jocosamente, entre outros, por Camilo, mas que aqui pouco mais é do que um acrescento ornamental), analepses, encontros e desfechos forçados (inverosímeis no registo realista adoptado), inconsistência das personagens (mesmo João Albasini parece uma caricatura)…
Se a isto juntarmos a cacofonia das aliterações, as soluções frásicas duvidosas (“soluços molhados do tempo”, logo na primeira página), uma linguagem que não levanta voo e um esqueleto organizacional à vista, sobra o rigor histórico, o ineditismo do material ficcionado, uma ou outra imagem conseguida ("... caminhando pelos capinzais como se anda nas ruas da cidade, olhando as árvores como se olhasse as montras"), o jogo de identidades (ninguém é quem parece ser num tempo e espaço históricos que se encontram, eles mesmos, pejados de indefinições), e, sobretudo, esse achado delicioso do contabilista A.O. Salazar.
Encerrando o balanço estritamente literário (prémios e negócios à parte), diria que não basta ser historiador para escrever um romance histórico (leia-se Guerra e Paz) e que, em O Olho de Hertzog, Glück perde demasiado para Kurtz, sendo impossível ― além de inadmissível― entrados no século XXI, vir falar de arte literária e ignorar Conrad e Tolstói. Logo os dois. E que dois!
O Olho de Hertzog, João Paulo Borges Coelho, Leya, 2009
18/02/10
A book a day keeps the doctor away
Novela belíssima onde se entrevê o que virá a ser esse romance portentoso chamado “Guerra e Paz”, Tolstói levou cerca de uma década para escrever/reescrever esta aventura passada no Cáucaso, recorrendo para isso à sua própria experiência na região, enquanto jovem militar do exército russo.“Cossacos”, que só seria publicado em 1863, servindo então para pagar uma dívida de jogo do conde russo, é o último livro do seu primeiro período, imediatamente anterior às duas obras-primas que são “Guerra e Paz” e “Anna Karénina”.
Narra as aventuras de Olénin, um jovem sub-oficial que um dia decide trocar a vida citadina de Moscovo por um porvir cheio de promessas homéricas em terras distantes e primitivas: “Todos os sonhos sobre o futuro se juntavam com imagens do Amalat-Bek, das circassianas, dos montes, despenhadeiros, rios de rapidíssima e terrível corrente e dos perigos.”
A novela põe em jogo os dilemas morais recorrentes na obra de Tolstói, traduzidos aqui no antagonismo entre uma vida assente na “lei natural” – a que Olénin vai encontrar no Cáucaso – e o artificialismo das regras sociais que ele conhecia da cidade civilizada. Pelo meio há uma história de amor, personagens fortíssimas, como a do velho Erochka, para o qual não existe pecado, e, sobretudo, há essa capacidade extraordinária de Tolstói para nos dar a ver, de um modo rigoroso e ainda assim compassivo, o fluir complexo da existência humana.
Lev Tolstói, Cossacos – Novela do Cáucasso, Relógio D'Água, 2010
26/08/09
A book a day keeps the doctor away
Não garanto a afirmação de Harold Bloom, inserida na contracapa, de que Hadji-Murat é "a melhor história do mundo", ou sequer que é "pelo menos a melhor que eu li até hoje". Mas, claro, é Tolstói. E dizer isto é dizer já quase tudo.A novela, que leva o nome de um herói (real) do Cáucaso que, durante o reinado do czar Nicolau I, enfrentou a invasão dos exércitos russos, foi publicada postumamente e terá sido a última coisa escrita por Lev Tolstói. Retoma as aventuras e desventuras do resistente homónimo muçulmano, contando-nos as suas desavenças com outros guerreiros caucasianos, a sua tentativa para salvar a família e a sua aliança improvável com os invasores. O confronto entre dois mundos e duas culturas em cenário de guerra (ainda hoje absolutamente actual na Tchetchénia) é o pano de fundo da história narrada, convidado o leitor a escutá-la na "Introdução": "Então, lembrei-me de uma história caucasiana que em parte testemunhei, em parte ouvi contar por outros, e o resto fantasiei. Esta história, tal como se formou na minha memória e imaginação, é a que relato a seguir."
Começa, então, o encantamento (só interrompido pela necessidade de consultar as notas de tradução, que teria sido mais simpático colocar em rodapé de página e não no final do volume...), encantamento reforçado pelo estilo próximo da oralidade, pelas tergiversações que vão, aqui e ali, interrompendo a construção da obra (que nada tem de linear) e, sobretudo, pelo pacto narrativo que vamos estabelecendo com o livro e que nos coloca, a nós, leitores, pelo menos momentaneamente, nesse limbo de inocência e entrega sem o qual a leitura deixa de ser prazer para se transformar em mero esforço.
Hadji-Murat lê-se como um livro de aventuras. É um livro de aventuras. O destino (trágico) do protagonista vai-se desenrolando subtilmente à nossa frente, enriquecido por toda uma plêiade de personagens, pinceladas naquele jeito realista que torna qualquer obra de Tolstói num quadro a transbordar de vida. E a simpatia assumida do russo pelo seu herói fora-da-lei (o que levaria, aliás, o livro a ter problemas vários com a censura), descrito não como um bárbaro primitivo mas como um corajoso insurrecto, confirma aquele traço único de Tolstói, sempre capaz de nos seduzir pela bondade.
Lev Tolstói, Hadji-Murat, Relógio D'Água, 2009
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