27/08/11

Quem tem uma mãe tem tudo?

"Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes são-no cada uma à sua maneira", escreveu Tolstoi, o maior deles todos. Anna acabaria mal, como se sabe, embora nada no romance do russo nos permita estabelecer uma relação directa entre adultério e suicídio.
Seguindo Nabokov, Anna Karénina não é um tratado sobre as consequências funestas da infidelidade conjugal, antes uma exposição moral sobre os limites do “amor carnal” enquanto alicerce da felicidade familiar.
Outra visão da família, muito menos optimista, foi avançada por Ken Loach em Family Life, filme de 1971 que relata o processo de degradação de Janice, uma jovem que se vai afundando na loucura, enquanto os pais (sobretudo, a mãe...), incapazes de se porem em causa e pensando ajudá-la, a empurram mais e mais para o abismo da esquizofrenia.
Deixando de lado Engels, Origem da Família, da Propriedade e do Estado (ensaio que, devo confessar, varri completamente da memória), o facto é que a família, nas mais variadas formas, vem constituindo uma estrutura social fundamental.
A esquerda, grosso modo, gosta de olhá-la como essencialmente repressiva e castradora — uma espécie de força de inércia que detém o avanço social — enquanto a direita prefere prestar-lhe homenagem, considerando-a o alicerce do desenvolvimento individual. Margaret Thatcher, por exemplo, não hesitou sequer em afirmar que “there is no such thing as society. There are individual men and women, and there are families”.
Inegável é que a coisa se complicou muito com a entrada das mulheres no mercado de trabalho (num curioso processo em que a emancipação feminina deu as mãos à “boa e velha ganância capitalista”).
À visão dourada dos bebés pioneiros, entregues aos cuidados de instituições pedagógicas profissionais, somam-se as escolas/depósito, o encolhimento das famílias ao mínimo denominador comum, a ascensão das crianças e jovens ao estatuto de consumidor…
Numa frase, parafraseando Roth e pensando ainda nos motins ingleses: talvez seja chegada a altura de começar a falar a sério.

13 comentários:

semfamília disse...

Quem tem mãe tem tudo, quem não tem mãe é orfão!

joao de miranda m. disse...

O/A autor(a) deste blog escreve assombrosamente bem e é dono(a) de uma erudição fora do comum. Isso leva-nos a acreditar que ainda vale a pena ler a blogosfera. É por isso que estou aqui a agradecer.
Mas olhe, não esqueça assim "A Origem da Família, da Propriedade e do Estado" de Engels. É do melhor que li nesta matéria... :)
jmm

fallorca disse...

Leoparda,
assistes, impávida e serena, a esta hesitação: «O/A autor(a) deste blog»?
Chama o sapo, quero dizer, o príncipe :P

Ana Cristina Leonardo disse...

semfamília, não teria dito melhor e felizmente não sou órfã

joão de miranda, quanta simpatia!

fallorca, o sapo viveu a leste dessas coisas do género... embora haja quem diga... enfim, não posso contar

m.a.g. disse...

Quando já não suporto pensar nas vítimas dos lares desfeitos, começo a pensar nas vítimas dos lares intactos.
Com aplicação aos estados e governos, já se vê.

Carlos Azevedo disse...

«talvez seja chegada a altura de começar a falar a sério»

Subscrevo, Ana Cristina. Infelizmente, falar (e, antes disso, pensar) a sério é algo que ninguém parece querer fazer -- e se há quem o faça, pouco interessa a quem tem o poder de mudar alguma coisa.

Ana Cristina Leonardo disse...

pois é, Carlos, às vezes penso que o que mais há para aí é malta na fase anal do pensamento

joao de miranda m. disse...

fallorca,
Não foi hesitação. Foi mesmo desconhecimento. Chegou-me às mãos este texto, sem reparar de quem veio. Agora, sim, sei que é uma mulher a autora do blog, e isso não acrescenta nem subtrai nada ao que fica dito... Mas reorienta-me o discurso para um elogio ainda mais intenso, e uma alegria maior ao proferi-lo... :)

fallorca disse...

«...talvez seja chegada a altura de começar a falar a sério.»
E tomates=liberdade interior, para tal?

fallorca disse...

joao mirande de m., na boa, méne :)

Cristina Torrão disse...

Ana Cristina, se bem se lembra, a um seu post sobre o assassino norueguês, um acto que pôs muita gente a perguntar-se em que sociedade vivemos, eu disse algo como: para criar aberrações destas, não é preciso a sociedade, basta uma família.

Parabéns por este texto!

sandra pop disse...

A tirania das "três letrinhas apenas", desde tenra idade...

m.a.g., fez muito bem em lembrar as "vítimas dos lares intactos".

Ana Cristina Leonardo disse...

sandra, a tirania dos lares intactos/três letrinhas apenas (as mães estão sempre lixadas... mas isso seria outra conversa) é muito bem retratada no filme Family Life