19/11/09

Tudo isto é uma enorme maçada, como diria o Dr. Mário Soares

Supondo, por mera hipótese de raciocínio, serem verdadeiros os vários factos que, segundo o semanário Sol, envolvem José Sócrates, as consequências de tal situação estão à vista: o Governo, o Estado e as instituições ficariam a tal ponto descredibilizados que a solução seria, pura e simplesmente, a demissão do primeiro-ministro pela prática reiterada de batotas várias, de todo incompatíveis com a lei e com a ética, com a dignidade do seu cargo e com o interesse nacional.
É evidente que toda a gente, incluindo os titulares de altos cargos políticos, tem direito à sua privacidade. E também é evidente ter havido uma grave violação (apenas mais uma…) do segredo de justiça.
Os apaniguados de Sócrates desmultiplicaram-se, numa operação mediática sem precedentes, a invocar razões puramente jurídicas em tudo quanto é sítio, procurando desviar as atenções do problema político e da sua real dimensão.
Mas o problema tornou-se escandalosamente político. E tornou-se também uma questão de decência. As coisas são o que são e são assim mesmo.
O presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o procurador-geral da República viram-se metidos num verdadeiro imbróglio. Trata-se de dois altos magistrados, cuja idoneidade, rigor, competência e experiência são absolutamente indiscutíveis.
Por muitas explicações que sejam dadas agora quanto ao calendário das remessas e da apreciação das certidões, foi nítido o embaraço decorrente da situação, aliás protelado ao longo de vários dias e artificialmente pontuado por reenvios de competências que deixaram toda a gente perplexa. Ora nada disto terá decorrido da evidente inocuidade dos conteúdos das certidões enviadas. Se fossem inócuos tais conteúdos, qualquer deles poderia ter vindo logo a público dizer isso mesmo, dissipar dúvidas com a sua palavra autorizada e acalmar a opinião pública. Ninguém discutiria então a aplicação da lei.
Mas agora, mandadas destruir as certidões (e quem sabe se algum jornal tem cópia delas...), pode sempre pairar a suspeita de que esses conteúdos não eram afinal tão inócuos quanto isso e apontavam para qualquer coisa de política e juridicamente tão desconfortável que só um procedimento meramente formal conseguiu travar outros desenvolvimentos. No plano político, isso é desastroso e vira-se contra José Sócrates.
E afinal quem é que mandou fazer as escutas e analisou o resultado desses procedimentos. Terão sido políticos da oposição? Jornalistas de tablóides? Paparazzi desempregados? Jovens e ineptos utilizadores do Magalhães?
A resposta é confrangedoramente simples: foram magistrados portugueses, o procurador-coordenador do DIAP de Aveiro e o juiz de instrução criminal, no exercício das respectivas funções, quem sustentou existirem indícios da prática de um crime de atentado ao Estado de direito. Tratar-se-ia de puros incompetentes? De estagiários sem saber nem experiência? De loucos furiosos de justicialismo ultra-esquerdista a dispararem contra revoadas de mosquitos na outra banda? Ou antes de gente que achou ser de tal gravidade a matéria de que lhe chegavam indícios que entendeu do seu dever não agir de outra maneira?
Fosse como fosse, independentemente de apreciações formais, os factos que, pelo processo ínvio e lamentável da violação do segredo de justiça, vieram a público, adquiriram a maior relevância política e não há argumentação jurídica, por muito fundamentada que seja, que possa dissipar o seu efeito negativo.
O que é que faz com que José Sócrates e o seu naipe de ventríloquos e demais criaturas de serviço finjam não perceber o que se passa? Não há "salto à vara" que lhes permita passar airosamente por cima da situação criada, sem um esclarecimento muito sério que, dadas as circunstâncias, devia ser um imperativo político para o primeiro-ministro.
O mais deprimente é a sensação generalizada com que se fica de que Portugal está a caminho de se transformar numa república em que as bananas crescem num lodaçal. É nesses lugares que os valores se evaporam, as leis são impunemente violadas, tudo se degrada, todos os responsáveis são cúmplices e nada nem ninguém consegue evitar isso.
Mas é muitíssimo bem feito. Elegeram essa gente? Pois têm o que merecem… Assoem-se lá a esse guardanapo. Besuntem-se com o resultado. Amanhã ainda vai ser pior...

18/11/09

Eu escuto, tu escutas, ele/ela escuta, nós escutamos, vós escutais, eles/elas escutam ― e assim vamos escutando e rindo


16/11/09

Treblinka*


* Porque acabo de ler Sou o Último Judeu - Treblinka (1942-1943), Chil Rajchman, Teorema, 2009. E como do campo de extermínio de Treblinka não sobrou nada, existindo mesmo uns celerados que negam que alguma vez tenha existido, assinalo esta entrevista com o SS Franz Suchomel, feita por Claude Lanzmann, com o horror explicado ao pormenor. Aqui, aqui, aqui,aqui, aqui, aqui e aqui.

14/11/09

Aos amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder

12/11/09

Sleeping mode


07/11/09

Vantagens de um governo minoritário (II): agora pelo menos já não falam de campanhas negras e ficam tão-só repetitivos e tristonhos

«Concerteza que telefonei ao dr. Armando Vara porque é meu amigo e meu camarada. Como sabem este processo entristece-me pelo facto de envolver um amigo meu há tantos anos (...) Tenho uma relação de há muitos anos com o dr. Armando Vara. Fiz com ele uma carreira política. Por isso este processo é para mim triste».
Lido aqui.

06/11/09

Champagne taste e o resto é conversa



Do you want to take me cruising on an ocean liner to places I looooooong to see...
Well, with my champagne taste and your beer bottle pockets, don't forget to write me when you get there in your row-boat when you've paddled across the sea without me.
Do you see us dining on caviar and pheasant with decedents of royalty.
Well with my champagne taste and your beer bottle pockets, I'll be having pheasant while you're dining with the peasants dunking donuts in a diner without me.
You said you have ambition to make my dream come true, well brother you just keep right on wishing and all of my dreams will come true... without you.
Do you see me in a Jaguar with all the accessories and one of those accessories is YOU? Well with my champagne taste and your beer bottle pockets, take back your Jaguar accessories etcetera and drive back to your dreamland without me.
And if I wanted diamonds you'd offer me breakfast at tiffanies and luncheons at Cartier's you'd recommend. Well with my champagne taste and your beer bottle pockets you will have to work-on something better than a zircon because your diamonds is this girl's worst friend.
You said you'd promise me anything to make my life a feasssssssst. You didn't give me anything, not even Arpege you beast!
And it wouldn't surprise me if a lady like Godiva had someone like you to give her the stole.
For with her champagne taste and your beer bottle pocket when she couldn't get those dresses she just let down all her tresses and forgot she was a lady after all.
So if you want me to become apart of your permanent employ, before my champagne fizzles come up with the real McCoy. Show me you can separate the MAN from the BOY and bring me a constant life of champagne taste.

05/11/09

Vantagens de um governo minoritário: agora pelo menos já se demitem

Primeiro foi o Vara a saltar a corda. Agora é o Penedos. Entretanto, a grande prosadora da DREN que dá pelo nome de Margarida Moreira viu-se destronada at last. E a propósito de drenar e de at last, alguém sabe what happened to Lopes da Mota?

04/11/09

A gripe maligna, a Fátima Campos Ferreira e os plurais em estrangeiro, passe a publicidade

«Se for uma gripe benigna, o que é que se deve dar a uma criança? Os famosos benurões – passe a publicidade?», Fátima Campos Ferreira em discurso directo roubado daqui.

03/11/09

Nada de novo no reino de Portugal e dos Algarves

«Este mundo é um vasto naufrágio. Salve-se quem puder» (Voltaire, carta a Cideville, 28 de Janeiro de 1754)
Lido em A Aventura da Memória e Outros Contos, Voltaire, 2009, Estrofes & Versos

02/11/09

Para manter a semana em alta [e os sisudos e sisudas que se lixem]

31/10/09

Creio que a isto se chama autenticidade [obrigada, José]


[o vídeo é fraco, a canção é belíssima]

30/10/09

A gripe A e os deputados da nação

O título da notícia era assim: Bloco de Esquerda entende que não é necessário alargar aos partidos prioridade na vacinação. Como escreveria se fosse mais jovem, "parti-me a rir!"
E eu que nem sabia que os deputados tinham sido convidados a participar na maior operação de marketing à escala mundial depois daquela campanha que encheu o Iraque de armas de destruição maciça.
Foi quando li isto e fez-se luz. Reproduzo.
«Foram considerados um grupo prioritário e não podia ser de outra maneira. Um coro de protestos democráticos sublinharia qualquer decisão que os excluísse. Alguns aceitaram, como aqueles incontornáveis que têm obrigatoriamente de ser convidados, e não percebem que devem indicar um substituto ou alegar impossibilidades de agenda. Outros prescindiram da honra e humildemente ofereceram a sua dose a um eleitor necessitado.
«No sistema democrático português só há cinco deputados necessários. Os outros têm voto obrigatório para o que interessa: programa do governo, moções de censura e aprovação do orçamento. E para o resto têm um voto vigiado, asfixiado ou claustrofóbico, consoante a bancada. Tinham poupado 224 vacinas e vacinado o Dr. Jaime Gama.»

29/10/09

Ainda em modo de meditação, a Pastelaria recomenda: "O Sindicato dos Polícias Iídiches"

Começa assim
«Landsman andou nove meses a arrastar-se pelo Hotel Zamenhof, sem que nenhum dos outros residentes arranjasse maneira de ser morto. Por fim, alguém meteu uma bala no cérebro do ocupante do 208, um yid que dizia chamar-se Emanuel Lasker.
(continua)
O Sindicato dos Polícias Iídiches, Michael Chabon, Casa das Letras

27/10/09

«Princesas, Príncipes, Fadas e Piratas com Problemas» ― um dos contos é meu


Chama-se Crispim, o Pirata que tinha medo da água e há mais cinco aventuras assinadas por Ana Luísa Amaral, Gonçalo M. Tavares, João Pedro Mésseder, Rita Saldanha e Rui Zink. O álbum, editado pela Porto Editora, tem prefácio de Manuel António Pina e coordenação de Pedro Sena-Lino.
O meu conto começa assim

«Era uma vez um pirata de perna de pau, olho de vidro e cara de mau. O pirata de perna de pau, olho de vidro e cara de mau chamava-se Crispim e estava farto de ser pirata. O que ele queria ser era apanhador de ostras.
«Crispim nascera numa família de piratas: pai pirata, mãe pirata, avós e avôs piratas, tios, tias, primos e primas, todas e todos piratas... Enfim, até onde ele conseguia descer na árvore genealógica, nunca ninguém na família fizera nenhuma outra coisa que não fosse piratear. A única excepção era o seu primo Catita, conhecido por Olho de Peixe-Agulha, que um dia, perdido de amores por uma camponesa, trocou os perigos do alto mar pela vida de agricultor. A família falava dele com um enorme desprezo e passara a chamá-lo Catita, Olho de Couve-Lombarda.
«Crispim tinha cara de mau mas não era mau de todo. Claro que quando era criança sonhara ser tão malvado como o célebre Capitão Gancho. Ao aprender a ler, porém, deixara-se dessas manias.»
(continua)

25/10/09

Ainda o Saramago e o marketing antijeová

«Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito.»
Vasco Pulido Valente, "Uma farsa". Público. 23.10. 2009
Ou como me dizia um amigo: «É como se alguém lesse as Fábulas de La Fontaine e achasse que aquilo era mesmo sobre cigarras e formigas».
Já depois de ter feito este post, descobri que há um kit Saramago ateísmo para donas de casa modernas, e que aos 100 primeiros compradores serão oferecidos action man de José Saramago.
Não podia deixar de vir acrescentar estas preciosas informações.

21/10/09

Eu cá simpatizo com anarquistas e simpatizo com espanhóis ― já do Santos Silva não gosto nada

A propósito disto

20/10/09

Post breve de uma panteísta confessa (eu) a propósito do último Saramago, que não li, e da Bíblia que leio sempre que posso

Retomo o comentário que deixei aqui, a propósito da transcendente polémica de saber se Caim matou realmente Abel:
"Um homem que tem como profissão a escrita e não fica fascinado com a extraordinária narrativa que é o old book (deixo de lado as mariquices do new) é um idiota"
Quanto à melhor piada sobre o assunto, li-a aqui: "Deus nunca precisou de insultar a obra de Saramago para vender mais bíblias"

18/10/09

A book a day keeps the doctor away

De características autobiográficas e estranhamente premonitórias, Os Irmãos Tanner, romance assinado por um homem que passou grande parte da vida num hospício (“Estou aqui, não para escrever, mas para ser louco” – responderia a alguém que o visita em Herisau), é, como todos os livros de Robert Walser, uma obra-prima de delicadeza.
Passeio solitário, deambulação quase fantasmática, chega-nos impregnado de uma espécie de inocência ontológica que põe em causa todas as convenções (as existenciais e as ficcionais). E se ao próprio se poderiam colar os versos de Rimbaud (outro desmistificador da coisa literária) – “Par délicatesse j’ai perdu ma vie” –, aos seus textos resta a grandeza que lhe vem dessa forma de contar e dizer sem alarde, dessa atenção sem questionamento, desse olhar desarmado sobre o mundo, onde poderemos intuir desassossego (a biografia vale o que vale...) mas, sobretudo, um enorme desejo de paz.
Os Irmãos Tanner, ficção que retoma muitas das experiências reais da sua vida familiar, é uma reflexão errante e impressionista que se diz por exemplo assim, na voz de Hedwig: “Por vezes tenho a sensação de estar separada da vida por uma parede fina mas opaca. Mas não posso ficar triste, só posso reflectir sobre isso”.
E é também o texto onde Walser antevê a sua própria morte, tantos anos depois, sozinho sobre a neve (como a personagem dessa lindíssima novela de Yourcenar, Un homme obscur): “Tão nobre a sepultura que ele escolheu para si mesmo. Jaz debaixo de magníficos pinheiros verdes cobertos de neve. Não vou avisar ninguém. A natureza vela pelos seus mortos, as estrelas cantam em voz baixa em torno da sua cabeça e os pássaros nocturnos grasnam, e é esta a música ideal para quem já não ouve nem sente”.
Robert Walser, Os Irmãos Tanner, Relógio D’Água, 2009

16/10/09

Não, não me fui embora