03-07-2009
Interrompo os altíssimos debates literários de Paraty para ir beber seis caipirinhas pelo alma do Pinho!
01-07-2009
A caminho de Paraty, depois dou notícias (entretanto, deixo-vos com impressões antigas...)
Paraíso, por exemplo. Sobretudo se se trata de um texto sobre viagens, logo ali apetece amaldiçoar o hiperbólico escriba, condenando-o, por exemplo, a três meses de férias na Quarteira. Para além de - quase sempre - se tratar de uma descarada patranha, deixa-nos sem distintivo face ao que poderá ser um resquício do Eden primordial. Digo resquício, visto que - é do Livro - do Paraíso não se sabe a geografia, na única certeza de que para lá não há passagens low cost.
O caso é este: Paraty poderia caber nessa categoria. Só que, dado o desgaste linguístico, ninguém iria acreditar. Abandonem-se, pois, os predicados e exponham-se os factos. E o facto é que chegámos lá de noite.
Com sonos acumulados, tanto eu como o fotógrafo concordámos em dormir cedo. Uma batida tremenda despertava-me passadas escassas horas, como se a minha cama (comigo lá dentro, e aí residia o problema) tivesse sido catapultada para um sambódromo adventício.
Não era Carnaval. Obrigada a regressar a uma dimensão do real onde todos, menos eu, pareciam divertir-se altamente ao ritmo de intermináveis cirandas – na origem, bailes de roça assistidos por viola, violão, cavaquinho e pandeiro de adufo, as mulheres rodando as saias e os homens sapateando tamancos de madeira enquanto o mestre virandeiro marca a cadência improvisando versos: imagine-se o estardalhaço! –, e quando já me dispunha, ensonada mas pragmática, a render-me ao «se não podes derrotá-los junta-te a eles», eis que a toada se torna mais tranquila, invocando sucessos melosos lá da década de 40... Eram umas três da manhã, eu ressuscitara ao som de um ô si balança/ ô si balança/ no si balançá/ ô si balança/ ô si balança/ prà lá e prà cá repetido à exaustão, por isso que se me seja dispensado o rigor discográfico.
No dia seguinte deslindava-se o motivo da festança: a cidade comemorava 335 anos de emancipação política e o que eu estivera a ouvir fora a Grande Ciranda de Paraty, e depois a Orquestra New York Society Band, a actuarem no Mercado do Produtor Rural, por acaso MESMO atrás do meu hotel. O fotógrafo, que não dera por nada, alojado noutra estalagem fora do centro histórico, nem por isso foi poupado ao ô si balança/ ô si balança/ no si balançá/ ô si balança/ ô si balança/ prà lá e prà cá que trauteei toda a manhã. Aguentou estoicamente até à hora do almoço. À sobremesa, depois de uma irrepreensível galinha de cabidela (a tradução local é "ao molho pardo"), arremeteu-me com um «Não se canta à mesa!» fulminante. E ameaçou amordaçar-me.
A primeira referência conhecida ao sítio de Paraty recua a 1554, data em que Hans Staden foi feito prisioneiro pelos índios desta região localizada no extremo Sul do Estado do Rio de Janeiro (a 248 quilómetros do Rio e 330 de São Paulo), aventura que deixou registada em Diário. Os seus habitantes originais eram os índios Guaianá, que se ficavam pela serra no Verão e desciam ao litoral durante o Inverno, ao encontro de clima mais ameno. A desova dos cardumes de tainhas e piratis (não confundir com paraty) durante o tempo fresco, era outra das razões que levava os Guaianá a acercarem-se do mar, que por aqui forma uma baía protegida.
Em língua tupi «paraty» significa golfo e, conhecido o costume dos indígenas de recorrerem aos acidentes geográficos para baptizar os lugares, fica esclarecida a toponímia da cidade. Desses ocupantes primitivos restam as aldeias de Tekoa Araponga, na Vila do Patrimônio, que reúne 40 Guarani, e a Aldeia de Tekon Tatim, onde vivem cerca de 100, ambas em Reservas Florestais Federais.
Foi esta última que tentámos visitar. A caminho de Paraty Mirim – lugarejo encantador a 17 quilómetros de Paraty, cujo porto serviu durante muito tempo para o desembarque ilegal de escravos, até entrar em decadência a partir do século XIX –, à beira da estrada de terra, não havia a certeza de lá podermos entrar. Dependia do pajé.
Esclareço. Aqui, os índios não vivem no meio das outras pessoas. A má consciência dos políticos levou-os a «ceder-lhes» terras onde, apesar das eventuais boas intenções, residem condenados a um ostracismo proteccionista. Assim, a gente vai na estrada, vê uma placa a dizer Propriedade Privada - Reserva Federal, umas pessoas sentadas junto a umas casas mesmo ali, e se quiser perguntar que dia é hoje?, por exemplo, tem de mandar um fax para Brasília pedindo autorização à FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Isso, ou esperar que o pajé, que é o índio responsável pela aldeia, esteja bem-disposto e nos deixe aproximar.
Parado o jipe, Armando, guia credenciado conhecido por Vagão, e Miriam Cutz (a nossa incansável cicerone) avançam para tentar falar com o cacique (o termo não tem aqui sentido pejorativo). É então que uma criança se aproxima da viatura junto da qual eu e Henrique, o fotógrafo, aguardamos o resultado das negociações.
A biologia explicará, ou não, o meu instinto maternal exacerbado. Na circunstância, deu-me para pegar na criança ao colo e afastar-me do jipe, com a intenção de a entregar a alguém e desviá-la da estrada. Ao fim de meia dúzia de passos, sai-me ao caminho uma mulher mal-encarada – e mal oxigenada. Olha-me como se reconhecesse em mim um membro de alguma organização dedicada ao tráfego de menores e rosna: «Não podem tirar fotografias sem autorização». Eu não tenho máquina, carrego apenas um pequenino índio. Controlo um desejo primitivo de a esbofetear (que a biologia também explicará) e respondo que só pretendo proteger o bebé, que uma irmã (presumo) acaba de levar de volta. Entretanto, as negociações prosseguem. Vagão e Miriam não conseguem falar com o pajé. Barrados pelos dois responsáveis da FUNAI (além da mulher há um outro elemento, menos desagradável mas igualmente inflexível), acabamos todos por nos vir embora. «Se quiserem entrar (mas onde verá o homem a porta?!) mandem um fax para Brasília», relembra o sujeito da Fundação.
Coisas menos desagradáveis. Aparecida, por exemplo. Se a vida fosse um pouco mais cor-de-rosa, quem sabe ela partilhasse as passerelles com a própria Gisele Bundchen! A jovem surgiu-nos como uma aparição na cozinha do Sr. Arlindo Sacramento, velho de incríveis olhos azuis que tem como máxima de vida, brincar e caçoar não pega nada.
Moradores de uma pequena casa na serra, a caminho da Cachoeira da Pedra Branca, nos arredores de Paraty, recebem-nos com um hospitaleiro Sejam bem chegados!, oferecem-nos água e bananas doces e indicam-nos o caminho da queda de água onde não somos os únicos a mergulhar.
Tínhamos partido de manhã para conhecer a Estrada da Serra, nome pelo qual é conhecida a Estrada Real (ou Caminho do Ouro), troço de engenharia viária que explica por que razão Paraty teve importância fundamental na história brasileira, chegando a ser o segundo maior porto do país (e um segredo de Estado durante todo o século XVIII).
Dispomo-nos a repisar a via por onde os portugueses transportavam (obrigatoriamente, já que este era o único itinerário permitido) o ouro vindo do interior, de Minas Gerais, até ao porto de Paraty, e daí para Portugal via Rio de Janeiro. Calcetado por pedras enormes (a que chamam estilo pé-de-moleque), que o tempo e os elementos não conseguiram vencer, visitamos um trecho preservado de oito quilómetros.
Tudo parece ter tido início com a expedição de Martim Correa de Sá, em 1597, à frente de 700 europeus e 2 000 índios, visando refazer um antigo trilho dos Guaianás, que, por sua vez, teriam usado caminhos abertos pelos animais. Essa autêntica «via romana» (chegou a alcançar 1 200 quilómetros), viveu em permanente engarrafamento durante a febre do ouro que começou em 1700, juntando homens e animais de carga, escravos e salteadores, tropas e aventureiros, numa viagem que durava mais de 45 dias. No final do século XVIII, com a abertura do Caminho Novo, que chegava ao Rio via Petrópolis (onde se instala a Corte), mais o enfraquecimento do negócio do ouro, o Caminho de Paraty entra em declínio.
O silêncio é de chumbo. É difícil imaginar a azáfama que por aqui já se viveu, os gritos, os assaltos, as mortes, a fúria e o sangue dos homens arrebatados pelo metal precioso. As árvores têm um porte extraordinário, há plantas que se enroscam mal lhes tocamos, a água requebra-se em riachos cristalinos, um musgo vermelho-vivo garante a pureza absoluta do ar. A meio de uma subida mais íngreme, uma placa assinala «Canela Fedorenta». Ultrapassada a árvore, o insólito letreiro ganha todo o sentido: faz-se sentir um cheiro intenso a estrume, de que o nosso guia se diverte a testar o efeito. Uma vista belíssima sobre a baia de Paraty espera-nos no alto. Nesse dia almoçamos na Fazenda Murycana, que recua ao século XVII, eleita de D. Pedro I que nela pernoitou várias vezes acompanhado da amante, a Marquesa de Santos. Uma visita ao antiquíssimo engenho onde ainda hoje é produzida de forma artesanal a aguardente, envelhecida depois em pipas de carvalho e cerejeira, encerra o repasto.
Este é um dos seis engenhos que restam em Paraty, que já contou com mais de 100. Porque ao ciclo do ouro seguiu-se o da aguardente (depois, ainda, o do café), permanecendo esta a mais afamada do Brasil. Fazem os locais questão de precisar que na região «nunca se produziu cachaça mas pinga – que vem a ser aquela aguardente fabricada exclusivamente a partir da garapa, do caldo de cana fermentado e destilado, depois da fervura e evaporação, que pinga na bica do alambique».
Explicação dada, estamos agora a corroborá-la no Refúgio, onde se bebe a melhor caipirinha local. Dirigido por Zé Paulo, um conversador nato, o restaurante ocupa local privilegiado frente ao porto, em terreiro largo. O lugar certo para se estar ao final da tarde. «O meu avô era de Beirute, e com esta minha cara de rato árabe do deserto confundem-me com o Bin Laden. O Amyr Klink, por causa do nome, pensam que é parente do Sadam», graceja Zé Paulo.
Precisamente hoje, durante um passeio pelo mar, tinhamos avistado a ilha onde mora Klink, apenas uma entre as 65 que povoam a costa.
As serras, envolvas em névoa, vão-se aclarando à medida que a escuna avança, multiplicando-se ad infinito, como se deslizassemos num cenário pintado por Wang Fo. O recorte doce da paisagem, as formas arredondadas, as águas calmas, tudo isso explicará muito da leveza dos brasileiros, expostos a elementos que longe de se oporem aos homens antes parecem acolhê-los. Apesar do gigantismo dos morros que avistamos, é a mansidão que predomina sobre o medo que podemos imaginar ter assaltado os primeiros europeus aqui chegados.
Aparecida acompanha-nos e mergulha enquanto Henrique lhe testa a fotogenia. Um dos membros da tripulação regressa à superfície com estrelas-do-mar, explicando-nos que não se podem virar ao contrário porque morreriam. Uma mãe procura o filho à beira da histeria: «Meu filho afundou!» São apenas paulistas viciados no stress da cidade grande. Na ilha do Mantimento, do presidente da Fiat brasileira, junto à qual estamos ancorados, descobrem-se micos-leão dourados, uma espécie de macaco raríssima e em vias de extinção. Na ilha da Sapeca, o prazer do ócio degusta-se num tasco de madeira, enquanto um gato de olhos azuis disputa os restos do almoço a uma cadela chamada Menina.
A poucos metros, num outro ilhéu, adivinha-se uma construção de gosto duvidoso, misto de Taj Mahal e pagode chinês. Um dos tripulantes do barco explica-me que foi uma oferta a Collor de Melo, que teve um sonho de marajá. A casa terá envolvido corrupção, o nome de António Carlos, ex-governador da Bahia (petit nom, Toninho Malvadeza), a empresa de construção viária OAS (vulgarmente conhecida por «Obras Arranjadas pelo Sogro») e uma doação a um funcionário, entretanto falecido, cuja viúva decidiu não cumprir o «contrato». Ficou com a casa para ela. Um provérbio local garante: «Brasileiro estraga de dia, Brasil recupera de noite». Por enquanto, o sonho de marajá continua de pé.
Exactamente por motivos inversos é que Paraty foi declarada Monumento Histórico Nacional em 1966, segundo a UNESCO «o conjunto arquitectónico mais harmonioso do século XVIII no Brasil». O centro histórico, de planta em leque e cobrindo grande parte da cidade, é habitado e vivido pelos locais (não se tratando, portanto, de postal ilustrado para turistas).
Explode numa panóplia de cores formidável, com as casas listadas por azuis, bordeaux, verdes e amarelos, janelas protegidas por um delicado entrançado de madeira (muxaribe), símbolos maçónicos nas fachadas e nas esquinas, «calçamento pé-de-moleque» nas ruas cuja leve depressão central permite que as águas entrem e saiam de Paraty banhando-a nas marés de lua cheia, pequenas lojas, bons restaurantes de cozinha caiçara (um misto da culinária trazida pelos europeus e paladares índios), vegetação exuberante tombando do interior das casas, como é o caso da Rua do Fogo, assim conhecida por ter sido ponto de encontro de marinheiros e mulheres de «vida fácil».
E se foi o Caminho do Ouro que trouxe fama a Paraty, foi também, paradoxalmente, o seu declínio que a preservou. Quando, em 1885, é inaugurado o caminho de ferro entre São Paulo e o porto do Rio de Janeiro, Paraty apenas vê confirmada a sua queda.
Até há pouco tempo chegava-se aqui como no passado: de barco, vindo de Angra dos Reis, ou, a partir de 1950, por terra, via Cunha, por uma estrada que apenas era transitável quando não chovia, em parte decalcada sobre o velho caminho do ouro e do café. Fora já por esta que chegara, em 1929, o primeiro automóvel, incapaz, contudo, de fazer o percurso de volta. Um ano depois, a estrada seria destruída por tanques militares que se dirigiam a São Paulo durante a Revolução dos Trinta, só reabrindo ao fim de duas décadas.
«É sempre pelos caminhos que Paraty se salva e se perde», cita Diuner Mello, historiador local autodidacta, conhecedor dos meandros da cidade como poucos. E salvar-se-á novamente, já na década de 70, com a abertura da Rio/Santos, que a subtrai a quase um século de isolamento.
A poucos quilómetros, as praias da Trindade, em tempos famoso destino hippy, também só há pouco têm acesso por estrada alcatroada. Alternativa banhista às ilhas, trata-se de uma vila de pescadores sujeita a forte pressão imobiliária nos anos 70, quando foi palco que uma rocambolesca ocupação por parte de uma empresa multinacional, que meteu jagunços e tiroteio. O conflito foi parar à justiça e a Associação dos Moradores Nativos e Originários da Trindade conseguiu preservar a vila, encravada hoje no Condomínio de Laranjeiras, um casario de luxo privado guardado a metrelhadora e onde os moradores só usam helicóptero.
A nossa viagem está a chegar ao fim. Tomamos um copo de despedida no Refúgio e à terceira caipirinha uma enorme luz desaparece no firmamento sem deixar rasto.
Um parênteses. Para além de tudo o resto, que é imenso, Paraty é também conhecida pelo seu «clima peculiar». Abreviando: OVNIS, pessoas que se passeiam compulsivamente de madrugada pelas ruas curvas do centro, «cavalos de Diana que pastam nas praças a dor alheia» (e é verdade que os animais andam soltos à noite), passado maçónico, esquisites templárias, enfim, a habitual panóplia new age... Naquele momento, a beleza do lugar, o céu tão estranhamento aceso e, concedo, as caipirinhas, terão permitido que me enredasse nessas coisas improváveis.
O fenómeno gera controvérsia à mesa. Miriam reconhece não saber do que se trata, mas a verdade é que lhe pareceu grande de mais para estrela cadente. Henrique, positivo, recusa mistérios. Eu, a única que estava de costas para o «objecto», não sei o que dizer. Cito Zé Paulo, o rato do deserto: «Não existem problemas. Existem enigmas», uma frase roubada já nem ele se lembrava onde.
E é quando proponho a última caipirinha. Aquela. A tal. A one for the road. Juro.
29-06-2009
Um poeta atira-se à jugular da prosa
José Agostinho Baptista conta uma história. Chama-se O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos e foi agora publicado, como habitualmente, pela Assírio & Alvim. Termina assim:«Rondarei as cavernas, a cria do urso branco, as ossadas de um mercador e de um peregrino. Entre o gelo e o degelo, pressentirei a alcateia que desde a infância me conhece tão bem como conhece as suas crias. Alisarei a pedra, o punhal, o machado, cortarei as urzes e o zimbro, matarei a lebre e a serpente, e depois será outono e depois inverno e depois primavera e depois o verão. Um dia, o condor subirá até estas paragens e à aproximação do crespúsculo regressará às cordilheiras do sul. À porta do templo dos cem tigres esceveria, se soubesse: eu era o guardião mas agora não sou nada, não quero nada, ando por aí. Só tenho uma flauta de canas verdes e um cão. Tudo o resto sonhei.»
O lançamento de O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos vai acontecer no próximo dia 4 de Julho, no Restaurante Many, a partir das 18 horas, na Fajã da Areia, São Vicente, Ilha da Madeira.
27-06-2009
Não vamos mais longe: só pelos nomes que dá às coisas se vê que o Irão é um país esquisito
Guia Supremo: autoridade máxima do Irão em termos políticos e religiosos; desde 1989 ocupa o cargo Ali KhameneiA soap Fripór cada vez mais hilariante...
Agora foi a vez do ex-presidente PS da Câmara de Alcochete ser constituído arguido. De seu nome, Inocêncio... Talvez seja o facto de ter lido O Capital em pequenina que me impede de ser solidária com o Berardo em grande
Confesso que não volto a Marx há muitos anos. Do filósofo alemão terei retido apenas umas ideias vagas, mas que, sendo vagas, ainda assim explicarão o meu pé atrás em relação ao vil metal. Do qual nada espero, esclareça-se, excepto que chegue para eu pagar as contas.
E foi talvez essa leitura precoce que me levou a encarar com absoluta naturalidade as acusações feitas há dias a cinco administradores do BCP. Segundo consta, não terão sido rapazes muito honestos, facto que está na origem da profunda indignação do comendador Joe Berardo que qualificou a matéria de roubo.
Face a isto, sei que o que vou dizer agora pode ser tomado por completa ingenuidade, se não mesmo por burrice: mal por mal, prefiro tipos que enriquecem à custa de crimes de manipulação de mercado, falsificação de documentos e burla qualificada, do que criaturas que enriquecem à custa do apartheid.
Inútil será que se exija moralidade ao capital: eis o que me ficou do velho Marx. Já a um primeiro-minstro, por exemplo, deve exigir-se alguma. Porque, super e infra estruturas à parte, assim como assim há limites. Acho eu.
Ou seja, e citando mais uma vez o insuspeito Johnny Caspar, um dos mafiosos do extraordinário Miller's Crossing: «(…) I'm talkin' about character. I'm talkin' about – hell, Leo, I ain't embarrassed to use the word – I'm talkin' about ethics».
26-06-2009
Não vi a entrevista da Manuela Ferreira Leite na televisão mas este vídeo em que ela dança é de certezinha melhor
25-06-2009
Organizem-se porra ou mais uma cagada em três actos
PRIMEIRO ACTO «O senhor ministro da Agricultura agradeceu-lhe o gesto, agradeceu essa carta e tomou a decisão de nomear um novo gestor para o PRODER. É assim que se comporta um Governo decente. O Governo vai nomear um novo responsável pelo PRODER»
TERCEIRO ACTO
[logo a seguir, sem intervalo, ainda na Assembleia da República mas de novo à porta do plenário...]
Da série embirrações assumidas: este manuel de pinho nunca me desilude!
23-06-2009
Don DeLillo: retrato exacto de uma geração em 429 palavras [como só um escritor seria capaz, claro]
(...) «Toda a gente já leu sobre como foi difícil para vocês, veteranos do Vietname, a transição para a vida civil. Estavam tão bem nos campos de prisioneiros, a supervisionar a tortura de um ou outro camponês.»«É melhor ir com calma», disse ele.
«E de repente vêem-se de volta à América e andam por aqui, desconcertados. Não admira que conservem o mesmo sorriso. Eu sei, os camponeses eram perigosos. O inimigo estava por todo o lado.»
«Está a sair dos seus domínios.»
«É verdade», disse ela. «É uma insolência da nossa parte, os não combatentes, criticarmos Os Que Estiveram Lá. Eu compreendo esse ponto de vista e até simpatizo com ele. Ainda assim, sempre senti que a melhor forma de ver as coisas é objectivamente e, às vezes, a distância permite-nos uma visão mais clara e precisa. Uma distância de milhares de quilómetros. Os sofrimentos testemunhados em ambos os lados do conflito podem não passar de uma mentira. Mas você tem razão, em termos gerais. No meu ridículo esforço para ser imparcial, consigo compreender o seu ponto de vista. E, sim, admito que estou fora dos meus domínios. Por isso, voltemos atrás. Falemos antes de coisas que vi e ouvi.»
O táxi seguia agora para o centro da cidade pelo lado oeste do parque.
«Você e o senador andam atrás do mesmo. Eu sei do que se trata, embora não possa dizer que compreenda plenamente que interesse vêem naquilo. Mas não importa. O que importa é que um homem foi morto à conta disso.»
«E acha que isso é importante.»
«Acho que merece ser tido em consideração.»
«A mim não me parece que seja importante.»
Mudger estava inclinado para ela, coarctando-lhe um pouco o espaço, com o seu braço esquerdo estendido sobre o topo do banco.
«Está a aprender a falar comigo?», perguntou ela.
«Como?»
«Disse que não sabia falar comigo. Que por isso é que aqui estava.»
«Estou a aprender alguma coisa. Não sei bem o quê. Acha então que é importante. Um homem foi morto. E há dez anos, também achava que foi importante? No tempo do seu perito em demolições?»
«Está a par disso. Claro.»
«Claro que estou. O grande Gary Penner, já falecido. E ali andava você, muito magra e perdida, no seu casaco com dragonas. Quantas pessoas é que o Gary mandou pelos ares, nas suas aventuras? Você devia saber. Vivendo com ele. Tendo vivido com ele. Meia dúzia de seguranças. Alguns transeuntes. Um braço aqui, uma perna acolá.»
Moll olhou pela janela.
«Você não interveio directamente. Assistir da bancada já era suficientemente divertido. Mas entretanto amadureceu, não é verdade? O terror já não é tão excitante como outrora. Sabemos demasiado. Vimos coisas. Agora dedicamo-nos à jardinagem biológica.»
«Acha mesmo que amadureci?»
«Um pouco», disse ele. «Em certa medida. O suficiente para estabelecer limites.»
(...)
Cão em Fuga, Don DeLillo, Relógio D’ Água, 2009, trad. de José Miguel Silva
22-06-2009
Sem tempo para mais, passo pela Pastelaria só para dizer isto: ao contrário do Pacheco Pereira, eu não me importava nada de ser a loira do regime!

21-06-2009
Um gin tonic com muito gelo e alguém que dispare sobre o pianista s.f.f. [sim, eu sei que é o Liberace...]
20-06-2009
19-06-2009
A propósito da famigerada arrogância de Sócrates gostava de dizer que há arrogantes de quem gosto muito
Para que não restem dúvidas: não me parece que a arrogância seja, em si mesma, um mal. Aliás, poucas coisas me parecem, em si mesmas, um mal. 18-06-2009
Coisas de que gosto vá lá saber-se porquê

À semelhança deste homem que circunspecto
assiste, prefiro o silêncio das salas vazias.
Depois de o prato, a faca, a colher
e o garfo terem sido removidos da mesa,
ficamos sós com as nossas memórias,
trespassados pela luz
de uma lâmpada de sessenta watts
que de súbito emudece.
Na margem de um estremecimento
acende outro cigarro.
Nos vidros a chuva vigia.
Jorge Gomes Miranda, in O Acidente (Assírio & Alvim, 2007)
17-06-2009
A propósito da crise no Irão lembrei-me que já houve um tempo em que a malta queria era ir para Pasárgada

Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Manuel Bandeira
16-06-2009
Isto não é um post sobre futebol embora possa parecer
Roubado daqui para o Zé.
15-06-2009
Não é que eu acredite no bom selvagem mas as crianças podem ser mesmo uma delícia
Conta a Helena do 2 Dedos de Conversa que, aos 7 anos, a sua filha Christina foi convidada a participar numa acção de formação e treino cujo objectivo era melhorar o ambiente da escola. Um dos exercícios propunha que os diálogos entre os miúdos começassem por "eu", com o que se tentava evitar situações de ataque e agressão imediatas.Continua a Helena:
Uns tempos depois a Christina contava-me, toda orgulhosa:
― Hoje tive uma discussão com a Clea e fui capaz de usar frases começadas por "eu"!
― Então o que é que lhe disseste?
― Disse-lhe assim: eu acho que tu és uma parva.
13-06-2009
Dói-me vagamente a cabeça: hoje não conseguirei dizer coisas inteligentes. Acho que foi das sardinhas
António Variações [3 de Janeiro de 1944/13 de Junho de 1984]
12-06-2009
Silvio Berlusconi, Muammar Kadafi e as 700 virgens
A vida amorosa e sexual de Silvio Berlusconi não me interessa para nada. Compreendo que a legítima tenha pedido o divórcio; o resto é lá com eles.Em rede
- 00:04
- 2 dedos de conversa
- 2+2=5
- A balada do café triste
- A causa das coisas
- A causa foi modificada
- A cidade das mulheres
- A curva da estrada
- A dança da solidão
- A kangoo amarela
- A la gauche
- A origem das espécies
- A terceira via
- A única real tradição viva
- Abrasivo
- Agricabaz
- Agua lisa
- Ali_se
- Almocreve das petas
- Amor e outros desastres
- Anabela Magalhães
- Andre Benjamim
- Anjo inútil
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- We have kaos in the garden

