24/04/14

À nossa! E festejem como quiserem...


20/04/14

Isto não é uma parábola pascal

Não, não vou citar o "Porque Não Sou Cristão" do Bertrand Russell. Nem sequer debruçar-me sobre a contumaz questão do "porque" e do "por que". Vou apenas explicar a razão de ser do meu anti-proselitismo, incluindo o religioso.
Era eu menina e moça e fui visitar durante o Verão o Bom Jesus de Braga, na companhia de uns amigos dos meus pais que costumavam passar férias no Norte. Mais ou menos a meio da escadaria do Santuário, tropeço, quase literalmente, numa crente muito velha que subia os degraus de joelhos, ladeada por duas jovens que iam a pé agarradinhas cada uma ao seu rosário. Os joelhos da velha sangravam e o ar parecia-lhe custar a sair, ou a entrar, dos pulmões. Tive uma reacção puramente física de indignação, ou seja, a cena provocou-me vómitos.
Na minha inocência de menina e moça, o que mais me custava entender era o facto de as duas jovens parecerem não se importar com o sofrimento da crente, caminhando impávidas e alheadas a seu lado, como se não fosse nada com elas. Não me aguentei, e fui tentar ajudar a velha a levantar-se. Naturalmente, a velha não queria levantar-se.
Gerou-se pois uma grande confusão, os amigos dos meus pais tiveram de intervir, mas do que nunca mais me esqueci foi do ar desvairado e acusatório de uma das acompanhantes que gritava que agora a avó (era a avó) tinha de recomeçar tudo de novo, lá de baixo, porque eu dera cabo da promessa!
Vá lá uma menina e moça encher-me de boas intenções para ajudar o próximo!
Serviu-me de lição. Na realidade, duas. Nem sempre quem te quer bem te faz bem, e quando e se fizeres bem prepara-te para levar porrada em troca. São duas lições que me têm sido muito úteis ao longo da vida.

17/04/14

Jorge Fallorca: Junho de 1949/ Abril de 2014

Estava doente. Melhorou. Adoeceu de novo. Piorou. Depois morreu. Acho que foi Nabokov quem disse que a morte era uma banalidade. Quanto ao Pessoa, escreveu: “Morrer é só não ser visto.” Apesar disto, nem uma palavra? Afinal, caros senhores, morreu um poeta. E fosse o mundo um sítio recomendável, um poeta valeria decerto mais do que um alqueire de banqueiros.
Manuel António Pina vaticinou: “A poesia vai acabar, os poetas/ vão ser colocados em lugares mais úteis./ Por exemplo, observadores de pássaros/ (enquanto os pássaros não/ acabarem).” Sábio, porém, é quem discorre assim:
“Antes que seja tarde, devo dizer que considero o acto de escrever pouco saudável.
E gostaria que o tom fosse considerado como um desabafo, e não confessional.
Decorrido meio século de existência, aprendi a coabitar comigo mesmo.
Quer essa relação se assuma como um comovido flash back, ou um severo ajuste de contas.
Felizmente, sobra-me mais tempo para esquecer, do que para emendar.
Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita - como qualquer outro acto criador - antropófaga até à vileza.
Ninguém se surpreenderá se afirmar que a minha geração superou esse objectivo.
Excedendo-se no show off, ou no strip-tease onanista, onde um predisposto auditório se reconhece e excita.
A leitura das gerações que me precedem, em nada têm contribuído para perturbar, ou abalar, este assumido preconceito.
Os Pessoa, Kérouac, Ginsberg, Hemingway, Michaux, Aquilino, Cardoso Pires, o exaltante Saint John Perse, ou o inevitável Herberto, todos me recusaram uma escrita límpida e saudável.
Até mesmo em O Sorriso Aos Pés da Escada, o único Miller que conservo, a beleza é perversa e sublinhada por um fio de pus.
Todos eles me envenenaram uma predisposição que começou por ser saudada na escola, e onde a família se conformou em depositar esperanças de que continuasse a ser bonita.
E, sobretudo, que tivesse futuro.
Antes que seja tarde, devo esclarecer que ainda hoje tenho relutância em considerar o futuro, e que me reservo o maior desprezo pelo presente.
Sem pretender a honestidade que, dificilmente, reconheço nos outros, arrisco que a escrita - como qualquer outro acto criador - precisa de vítimas.
E alimenta vítimas.”
Desculpem-me a citação longa. Não é preguiça, é dar a palavra a quem sabe: Jorge Fallorca, “Longe do Mundo”, 2004. Partiu. Deixa mulher, um filho e dois netos.

21/02/14

A Ucrâna? Pois, é complicado.

Ler aqui como neo-nazis ucranianos estarão metidos ao barulho.

Tic-Tac-Tic-Tac-Tic-Tac... e um dia faz PUM!

Nunca fui à Suíça. Também nunca fui ao Luxemburgo. No Luxemburgo dizem-me que é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um luxemburguês ter sido lá nado e criado. Mais de 30% da população é de origem estrangeira e cerca de 16% portuguesa, o que talvez explique o facto de o 1º-ministro ter contratado uma empresa do Luxemburgo para lhe atender os telefones da casa de São Bento, na eventualidade de alguém lhe querer falar - e eu sei lá, há gente capaz de tudo! –, milagre da globalização e milagre do ajuste directo, neste caso à We Promote, detida pela Sociedade Comercial Silvas (Primos), S.A., detida, por sua vez, pela Finanter Incorporation, que, por sua vez... mas eu não sou de intrigas e também me chamo Silva: voltemos à bucólica Suíça.
Como dizia, nunca lá fui. Um amigo brasileiro com quem fui há muitos anos a Paris antes de eu ter ido com ele a Paris foi sozinho à Suíça. Louro e de olhos azuis, mais louro do que um suíço louro e com os olhos mais azuis do que um suíço de olhos azuis. Na altura, imperava a ditadura brasileira e o meu amigo vivia na Europa como refugiado político. Quando chegou à fronteira da Suíça, os suíços foram muito simpáticos porque pensaram que ele era um suíço louro & tal mas mal olharam para os documentos sentiram-se ludibriados porque ele era um selvagem brasileiro vindo do Rio Grande do Sul! Engavetaram o sorriso suíço e mandaram o meu amigo tirar as malas do carro. O meu amigo obedeceu civilizadamente e eis senão quando dá pelos guardas suíços com as manápulas enfiadas nos pertences, manuseando cuecas, camisolas interiores (por causa do frio da Europa...), lâminas de barbear e panfletos anti-fascistas. O meu amigo achou aquilo muito pouco civilizado e pensou em invocar a Convenção de Genebra. Lembrando-se que haviam sido os suíços a inventar o J dos passaportes judaicos, pediu-lhe que calçassem luvas. Os guardas, respeitadores da Lei, calçaram as luvas, vasculharam o que tinham a vasculhar e em seguida desmontaram peça a peça o carro do meu amigo que era um Mini amarelo no qual muitos anos depois, mas isso os suíços não o poderiam saber, haveríamos de ir os dois a Paris.
O meu amigo ficou com um grande pó aos suíços, incluindo o Alain Tanner que tinha feito “A Cidade Branca”. Eu o suíço de que mais gosto é do Robert Walser. E pronto. Para a semana talvez fale da Dinamarca, onde também nunca fui, mas que já me descreveram como sendo um país muito civilizado onde se matam girafas.

Uma piada seca chamada Europa

Supermercados portugueses com preços iguais aos de Berlim. Salários a rondar os valores da Conchinchina. União Europeia?! Estados Unidos da Europa?! Tudo a falar inglês técnico?! É o delírio!

Salários em Portugal ainda deveriam baixar entre 2% e 5%, defende Bruxelas

17/02/14

Conselho Nacional da Ciência e Tecnologia puxa as orelhas ao governo em comunicado público

O texto, bastante crítico sobre as políticas para a ciência de Passos Coelho e de Nuno Crato, pode ser lido aqui.

Tomai, embrulhai e ide pôr a excelência que vos enche a boca num sítio que eu cá sei!

14/02/14

Daquela vez que eu fui à Ásia e se falou da Maria João Avillez

[a propósito da Maria João Avilez ter escrito um livro sobre Vítor Gaspar]

Uma vez, estava eu na Ásia, a única vez que estive na Ásia, e tive uma ideia. Eu costumo ter ideias mesmo quando não estou na Ásia mas esta ideia foi na Ásia. Estávamos num jantar e eu tive uma ideia. Partilhei-a com as pessoas que estavam a jantar comigo e depois, passado um bocado, fomos todos para a cama. No outro dia, ainda na Ásia, fui dar um mergulho na piscina. Uma das pessoas que tinha estado comigo no jantar chegou à beira da piscina e disse-me: "Olhe, aquela ideia que teve ontem... era uma óptima ideia". Eu, que sou bastante mãos largas no que respeita a ideias, respondi enquanto sacudia os meus longos cabelos molhados (esta parte é ficção): "Qual ideia?". Acho que a pessoa não ficou com muito boa impressão minha derivado a eu já não me lembrar de qual era a ideia, mas relembrou-ma cortesmente. Eu disse: "Ah, essa ideia!" E depois acrescentei: "Mas a Maria João Avilez não escreveu em tempos um livro com base numa ideia parecida?" A pessoa que estava comigo na beira da piscina respondeu um pouco laconicamente: "Hummmm". Eu disse: "Não era bom, o livro?" E a pessoa, que era uma óptima pessoa, respondeu: "Olhe, era um livro, como direi, era um livro muito... olhe, muito Maria João Avilez." E depois fomos os dois tomar um gin que era quase hora do almoço na Ásia.

O mar enrola na areia...

Mar avança Portugal adentro. E se já jardim não somos, a continuar assim nem o à beira-mar plantado nos sobrará.

Ler notícia AQUI.

13/02/14

O Estado a que isto chegou II [e ainda os cravos da Joana Vasconcelos]

Viver Dentro das Nossas Impossibilidades

O primeiro-ministro foi ao Tramagal dizer, e cito de cor, que "estamos a caminhar para viver dentro das nossas possibilidades". O uso do plural majestático é manifestamente irónico embora, decerto, as figuras da retórica clássica não devam ser o "forte" da formação intelectual de Passos Coelho. Quem o conhece bem, disse-me outro dia que o chefe do governo se "sente" como um evangelista de "igrejas" como a IURD (salvo o devido respeito) que, uma vez recolhido o dízimo junto dos suspeitos do costume, fica como que tomado por uma "visão" escatológica em relação à sua função de pastor milenar da pátria. Depois de ter conseguido, pelo menos na semântica, mudar o sintagma "acima das nossas possibilidades" para o "dentro" delas, Passos com certeza quer significar por "dentro das nossas possibilidades" coisas como "habituem-se a viver na nova normalidade". O que, para a maior parte das pessoas, quer dizer "habituem-se a viver com as vossas novas impossibilidades". O que é certo é que esta mistificação, mais "espiritual" que política, vai fazendo o seu caminho comunicacional - o único que interessa fazer - enquanto o mais próximo candidato a sucessor deste notável evangelista, A. J. Seguro, cercado por dentro e por fora, aparenta não conseguir sair dos caminhos na floresta em que tanto se enfiou como o enfiaram. Por exemplo, hoje os juros da dívida 10 anos andam pelos 5%, o ministro da Defesa Nacional terá confessado a um general não entender "nada" de Defesa, o glorioso perdão fiscal do final do ano terá "custado" quase 500 milhões de euros em juros, coimas e derivados, os ajustes directos de 2013 terão ficado na orla do 2 mil milhões de euros, os famosos submarinos, em 300 milhões, o arbítrio da "avaliação do desempenho" passa a poder despedir democrático-cristã-livremente, mas um pensionista que receba três dígitos líquidos de rendimento já não tem dinheiro a meio do mês para poder "viver dentro das suas possibilidades"? As "novas impossibilidades" existem porque subsistem "velhas possibilidades" do tipo das indicadas que escapam ao vocabulário da promessa da felicidade "empresarial" que não entra no plural majestático do primeiro-ministro. Talvez a escultora do regime, a grande navegadora de cacilheiros Vasconcelos, consiga traduzir este "desígnio" original para os quarenta anos do "25 de Abril". Quem, melhor do que ela, poderia representar as nossas novas impossiblidades?

O Estado a que isto chegou.

Os cravos gigantes serão criados pela Joana Vasconcelos com a pele cristalizada de 40 toneladas de tomate (oferta da "Guloso") - cujas sobras reverterão para um mega-gaspacho na ponte 25 de Abril, confeccionado pro bono pelo Frater Sobral - e servirão para enquadrar, nas escadarias da Assembleia da República, a declamação por José Luís Peixoto (patrocinado pela República Democrática Popular da Coreia) do poema "Abril,  ó cucamandro, morrestes-mes!", enquanto, sobre o parlamento, adejará uma imensa gaivota-que-voa-que-voa montada a partir de 40 000 pensos higiénicos Evax Fina & Segura com asas.

Informação recolhida no blogue do João Lisboa, com mais desenvolvimentos poéticos aqui.

E para que não restem dúvidas sobre o facto de eu achar o director do Zoo dinamarquês um animal...

Aquilo que nos faz ter piedade dos animais em sofrimento é, ao contrário do que pensam alguns, não uma forma retorcida de desprezo pelo humano mas uma qualidade nossa de mostrar respeito pelo que é diferente de nós.
Marguerite Yourcenar, essa Senhora com S maiúsculo, resumiu-o numa simples frase: "Et puis, il y a toujours pour moi cet aspect bouleversant de l’animal qui ne possède rien, sauf la vie, que si souvent nous lui prenons".
É a vida que nos comove. É o despojamento absoluto que nos comove. É a fragilidade que nos comove. E ainda bem. Quer dizer que ainda não embrutecemos completamente.
As crianças não precisam de ver girafas a ser esquartejadas. As crianças precisam de conviver com animais, com árvores e com a Natureza. Depois queixem-se de ter filhos insuportáveis e neuróticos e hiper-activos e outras coisas piores.


Para assinar a petição pela demissão do animal de director, assinar AQUI

Para ler sobre a previsão de mais um abate na Dinamarca, ler AQUI

[Só para quem tiver estômago] Para assistir ao espectáculo didáctico oferecido às criancinhas, não vão elas pensar que a carne que comem em casa vem das árvores, AQUI

12/02/14

Bom dia!

Os suíços inventaram o J para os passaportes judaicos e não foi há muitas décadas. Na Dinamarca de hoje esfola-se uma girafa à frente das crianças com intuitos educativos. Há dias em que gosto muito de ser portuguesa e do Sul.

11/02/14

Os biscoitos não provei mas a poesia é maravilhosa como é hábito em José Luís Peixoto



Por fim, fui à SPA levantar os biscoitos que têm um excerto de um poema meu na caixa em 4 idiomas. Gosto muito desse uso do poema e dos biscoitos. 10 cêntimos de cada caixa vão para o IPO de Lisboa.
"mãe, / às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo. / a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia/ mais bonita que tenho. gosto de quando estás feliz. // lê isto: mãe, amo-te." Não inventei nada.

02/02/14

Dando algum enquadramento à tradição da praxe...

O PRAXISMO-JAVARDISMO
Antes da REACÇÃO contra a revolução do 25 de Abril de 1974, não havia praxe em Lisboa. O espírito crítico de um escol cultural, prevalente na Universidade, tinha padrões exigentes. Ensino superior não queria dizer ensino inferior. Era uma elevação sobre a miserável circunstância dominante. A praxe era considerada – e bem -- COISA DE LABREGOS.
Em Coimbra, nos anos sessenta, após as críticas corajosas de Flávio Vara (“ O Espantalho da praxe…” 1958) e a chegada de uma geração mais desempoeirada, a praxe quase desapareceu. Reinstalaram-na depois com todo o seu fétido programa passadista.
A praxe é o abraço alcoolizado entre o ricaço marialvão, abrutalhado e analfabeto e o povoléu boçal e trauliteiro, folclorizando o servilismo medieval em vestes eclesiásticas. Ao fim e ao cabo, o velho Portugal alarve, mendigo, medievalóide e agachadinho, mas de telemóvel em riste.
Não se ponderem gradações entre um medievalismo civilizado e um medievalismo excessivo. Toda a praxe é desprezível. No estado a que as coisas, desgraçadamente, chegaram, proibir seria contraproducente. Mas há muitas formas de desencorajar. E os professores – que têm sido, aliás, de uma distracção cúmplice (mea culpa) – sabem isso bem.
Oxalá os estudantes se dêem conta de como foram inferiorizados e transformados em «jovens velhinhos» por uma súcia rasca.
Tanto mais que a situação assume contornos sinistros e mafiosos. Ao que parece, com “omertà” e tudo. Um atavismo lusitano vem fazer de hífen entre a tradição siciliana e o nórdico Nacional-Socialismo.
Pior que mera COISA DE LABREGOS.


O texto é do Mário de Carvalho.