As ameaças de um grupo de militares ao escritor António Lobo Antunes cheiram-me a esturro. Não porque duvide da indignação dos ditos mas por me parecer estranho que alguém que quer ir ao focinho de outrem (expressão de caserna, naturalmente) ande por aí a anunciá-lo pela comunicação social. A não ser, claro, que os militares em causa gostem de fazer tudo às claras, como julgo ser o caso do ministro que os tutela.E se, por um lado, estes reformados da guerra me recordam demasiado aquela expressão portuguesa do "agarrem-me senão... qualquer coisa", por outro, Santos Silva, ao anunciar publicamente o envio de espiões para o Afeganistão e Líbano, provou que não basta ser adepto do malhanço para saber brincar às guerras.
Quanto ao escritor Lobo Antunes, gosto muito. Sobre a coragem não-literária do próprio nada sei. Mas em verdade também vos digo: cá para mim, a coragem, como quase todas as qualidades humanas, depende. Pessoalmente, prefiro um escroque cobarde a um escroque corajoso. Sempre causará menos estragos.
[Sobre o livro onde vem impressa a frase que terá ateado a fogueira, Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes, de João Céu e Silva, como escrevi na altura, não o achei grande espingarda]