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19/03/09

Sobre contentores e outras miudências

Não vou jurar, mas talvez não volte ao assunto. Nem vou repetir os factos: 17 putos ciganos de fraco aproveitamento, entre os 9 e os 19 anos de idade, foram agrupados num monobloco colocado no recreio da Escola Básica 1 de Lagoa Negra, em Barqueiros, Barcelos.
A notícia surgiu e, talvez porque metia ― de novo! ― a iletrada Moreira, deu estrilho. Ao coro dos indignados (alguns, certamente hipócritas, e que viram na ocasião uma mera oportunidade para malhar na defensora do Sócrates), juntaram-se outros que desconfiaram da história. O problema era o contentor? Seriam mesmo só ciganos? Que mal tem uma turma especial quando a conversa da "escola inclusiva" parece mesmo só conversa?

Ora bem.
1. Quanto aos contentores, repito mais ou menos o que já escrevi num comentário deixado no post anterior:
Eu realmente não percebo a que ponto teremos chegado para que se ache normal dar aulas em contentores, mesmo que lhe chamem monoblocos e venham apetrechados. Uma coisa é uma situação provisória a que os putos até acharão graça, como a tudo o que é diferente. Outra é considerar que dar aulas em contentores, em situação prolongada, é admissível... porque nós também tivemos. A única explicação que encontro para isto é que, definitivamente, nos devemos ter habituado ao horrível. Recordo apenas, como disse antes, que a respeitabilidade das instituições passa pelo espaço e pelos seus equipamentos. O presidente da república não vive numa barraca e os tribunais não se alojam em vãos de escada. O espaço das escolas é um aspecto que foi absolutamente descurado, para finalmente chegarmos aqui em que contentores why not?
2. Turma de ciganos
A turma é de ciganos, de acordo com todas as notícias, e eu não vejo, mas talvez me expliquem, o que é que do ponto de vista escolar poderá justificar a sua separação por etnia, a não ser que falem romeno.
3. Escola inclusiva
A escola devia ser inclusiva (apesar do termo ser um pouco arrevesado). Mas ter uma escola inclusiva não significa, claro, distribuir os problemáticos por turma e disso resultar apenas que os problemáticos continuam problemáticos e os outros não aprendem nada com o desassossego.
Para resumir: os contentores repugnam-me; que a autoridade do Estado e das suas instituições não sirva para assegurar às crianças ciganas a escolaridade a que têm direito, recorrendo-se depois a estes expedientes mal-acondicionados, indigna-me (embora não estejamos em Itália). Justificar isto tudo com a inserção social e a discriminação positiva acho absolutamente delirante (aliás, a própria expressão "discriminação positiva" me parece delirante).
Não quero ser pessimista: mas algum daqueles miúdos, com ou sem ar-condicionado, gostará de ir à escola? E se gostar, vai aprender o quê? Ou não é para isso que a escola serve?

18/03/09

A ciganagem e tudo aquilo que já nos parece normal

Volto ao tema. Eu sabia que o assunto não era líquido. Mesmo expurgado das tricas partidárias que, realmente, não me interessam.
Factos: uns miúdos ciganos que, ao que parece, vêm mostrando alguma relutância em frequentar a escola, foram colocados, separadamente, num contentor e nele têm aulas exclusivas.
A bondade da solução foi defendida publicamente por Margarida Moreira que justificou o contentor (ou monobloco), e a diferenciação correlativa, como medida de discriminação positiva e de inclusão social.
Enquadramento: escusando-nos ao politicamente correcto, teremos de reconhecer que os ciganos não são lá muito bem vistos.
Só dois exemplos: aqui há uns tempos houve uma bronca das valentes que implicou a Mercedes, com o concessionário C. Santos a desaconselhar, em documento interno, a venda da marca aos ciganos. E também há uns tempos, um pouco mais recuados, em 1996, houve outra bronca das valentes, que meteu o então governador civil de Braga, Pedro Bacelar de Vasconcelos, que saiu em defesa dos ciganos que a população de Oleiros pretendia correr de lá.
Equipamentos: sublinho ainda que essa coisa dos contentores (mesmo que luxuosamente apetrechados e hermeneuticamente interpretados) não será com certeza a melhor forma de dignificar as escolas. Ninguém me disse, mas desconfio que a mania dos pré-fabricados abarracados que durante muito tempo dominou a paisagem escolar (quando, após o 25 de Abril, o número de estudantes, felizmente, aumentou em flecha), alguma coisa terá que ver com o declínio da respeitabilidade da mesma.
A discriminação positiva: claro que não há nada mais injusto do que tratar como igual aquilo que é diferente. Mas há direitos básicos. E o da educação é com certeza um deles. Neste aspecto, com o nomadismo das populações ciganas a descer consideravelmente, interrogo-me sobre as especificidades dessa comunidade que tenham implicações em matéria de educação.
Não falam português? Têm feriados à Quarta? Lêem da esquerda para a direita? Usam a numeração romana?
Será, no caso concreto, o grupo do contentor formado por alunos mais velhos que merecem um tratamento diferente. Sem dúvida. Mas o único tratamento diferente que ocorre é enfiá-los todos juntos dentro de um monobloco e fé em deus? Alguém acredita que, do ponto de vista escolar, e do ponto de vista da inserção social, isso contribua – realmente – para alguma coisa objectivamente positiva?
Pergunto-me: que raio de escola é esta, e que raio de sociedade é esta, que acha normal segregar alunos pela sua origem? Porque, deixemo-nos de tretas, é disso que se trata (ou não haverá na região mais nenhum aluno crescido para juntar ao grupo?), mesmo apondo-lhe o chavão magnânimo da discriminação positiva.
É que a mim, mas se calhar sou eu, a discriminação tout court cheira-me sempre a queimado.

17/03/09

Que discriminem positivamente a Margarida Moreira e a metam num contentor a aprender português são os meus votos

A polémica sobre os alunos ciganos alojados em contentor próprio, trouxe de novo à liça a inenarrável Margarida Moreira. Independentemente das tricas partidárias que envolvam o assunto, o que me encanitou nesta história foi a conversa da discriminação positiva e da integração social. Fala Margarida Moreira da especificidade do grupo e de que seriam alunos que tinham fugido à escola.
Pergunto eu: mas, nesse caso, não seria mais eficaz aplicar-lhes uns triângulos castanhos para não repetirem a graça?