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06/04/12

O valentão do Chiado ou das regras da pancadaria

Não era no tempo em que os animais falavam, mas decerto bastante anterior à decisão de proibir o fumo à mesa dos restaurantes. Veneziana, há muito que seria de mau-gosto perguntar-lhe a data de nascimento e, ainda assim, a sua presença não passaria despercebida ao mais míope dos comensais.
Mistura improvável de Anna Magnani com Monica Vitti, tendo terminado le pere al vino rosso, lançou-me um wildeano le dispiace se fumo? e eu, incapaz de contrariar uma senhora que teria sobrevivido pelo menos a duas guerras mundiais, limitei-me a um gesto de assentimento por ter a boca cheia e a infeliz mania de confundir italiano com espanhol. Acendeu o cigarro com o que me pareceu uma boa dose de volúpia e rematou enfumaçada: “Hábito novo, o de perguntar. Afinal, eu sou do tempo em que os homens fumavam charuto e andavam a cavalo”.
A primeira vez que presenciei a polícia de choque em manobras os homens já não andavam a cavalo, salvo a força da GNR e os campinos da lezíria ribatejana.
Festival de Jazz de Cascais, creio que 1973. A polícia carregou e um dos espectadores, intercalando a fuga com paragens momentâneas para insultos à autoridade, perdeu sucessivamente terreno até acabar no chão sob uma saraivada de golpes.
Não seria a única vez que tive o desprazer de ver cassetetes ao vivo e a cores. Confesso que nunca me habituei. Ainda hoje é uma coisa que me chateia. Afinal, até a pancadaria tem regras.
Se der um estalo não é suposto levar um tiro em resposta. Se tirar uma fotografia, não é suposto levar chibatadas ou acabar no hospital. Jornalista ou não jornalista. Falo da regra da proporcionalidade de que já falava Aristóteles, um apreciador da arte equestre que nada sabia de charutos.

09/02/10

Manifestações


Corre na NET a petição Todos Pela Liberdade que inclui convocatória para manifestação, quinta-feira, às 13 horas, em frente à Assembleia da República.
Há muitos anos que não vou a manifestações. A primeira vez que me vi – involuntariamente – metida numa foi, ainda menina e moça, no Festival de Jazz de Cascais, salvo erro em 1973, quando a polícia de choque investiu forte e feio nos espectadores, um deles a perder terreno na fuga por conta dos insultos que não se coibía de lançar sobre as forças da ordem e as forças da ordem a aproximarem-se cada vez mais e eu aos berros “Corre! Corre!” e tudo acabou comigo no carro de um amigo dos meus pais a chorar de raiva e impotência e o desconhecido no chão a levar um enxerto que lhe devem ter aberto a cabeça.
Não penso ir a esta, apesar de se prever bem mais calma*. Não porque não preze a liberdade. Olá se prezo! Não porque me sinta incomodada por participar numa manifestação ao lado de pessoas com as quais pouco ou quase nada terei em comum (não vale a pena estar sempre a citar aquela frase do não concordo nada com as suas palavras mas defenderei até à morte o seu direito a proferi-las e tal e tal). Não, certamente, por obscuras e requentadas elucubrações ideológicas. Nem sequer por causa da treta pragmática da alternativa ou da falta dela.
A razão é outra. É porque vi, com estes que a terra há-de comer, que a liberdade (de imprensa, que julgo ser aquilo que está fundamentalmente em causa aqui) tem muito menos que ver com Sócrates, himself, do que com uma vaga de fundo que começou a varrer o jornalismo há um par de anos, com a demissão (compulsiva) de poucos e a demissão (acobardada) de muitos – bastante antes de haver faces ocultas que favorecessem o medo.
Explicada a minha discordância, se alguém quiser convocar uma manifestação contra isto – força!

* o que não me impediu de assinar a petição por concordar genericamente com ela