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26/10/22

PUTUNISTAS INFILTRADOS NOS EUA? É PERGUNTAR AO PACHECO PEREIRA.

Contrariando a convicção de Pacheco Pereira — que provavelmente não sabem quem é   ("A guerra na Ucrânia não tem solução negociada"), trinta congressistas norte-americanos militantes do Partido Democrata instaram Biden a reforçar as iniciativas diplomáticas junto da Rússia de modo a evitar uma escalada bélica. 

ADENDA: Entretanto, Pramila Jayapal retractou-se, argumentando que não queria ser confundida com os Republicanos numa altura em que decorrem eleições nos EUA. O comunicado é um achado sobre o qual eu diria que pior a emenda que o soneto. Também me lembrou Groucho Marx: "Estes são os meus princípios. Se não gostarem tenho outros". 

28/05/12

Uma conspiração de estúpidos

Se José Luís Arnaut tem razão, e falta à Grécia aquela qualidade “natural” que podemos admirar no faisão e na perdiz da célebre natureza morta de Renoir, ou mesmo em qualquer nação gerada por Deus na véspera do shabat, o que dizer do “paraíso artificial” que é indiscutivelmente este coiso, perdão, este jardim à beira-mar plantado cantado por Tomás Ribeiro?
Porque se é vero que, desaparecidos os loiros e as acácias olorosas, a noite de estrelas rutilante apenas ilumina autoestradas, tendo as torrentes alterosas dado lugar a barragens de um glorioso amarelo, nem por isso as aves gorjeiam menos noite e dia. Aves raras.
Tivesse Baudelaire conhecido o Portugal de hoje, e ao ópio, ao vinho e ao haxixe decerto acrescentaria a classe dirigente lusa, a qual, sem recurso conhecido a psicotrópicos, bombardeia o país com doses maciças de gás hilariante.
É assim que temos um ex-espião que descobre a sua queda para o coiso consumindo “O Santo” na infância, a que acresce, já na idade adulta, o modo pouco smart como deixa que o DIAP lhe game o smartphone, facto que nos permite suspeitar que em algum momento da vida terá telefonado ao pai, bradando, à maneira de Loureiro, “pai, já sou espião!”
Segue-se um ministro que, intérprete de uma versão série B do “J. Edgar” de Eastwood, ameaça uma jornalista de publicar na Internet pormenores da sua vida privada, desconhecendo, porventura, que na era do facebook a vida privada já não é como soía.
Para apimentar o plot, veio o mesmo negar as acusações pedindo porém desculpa pelo coiso, o que nos leva aquela frase avisada de Groucho: “Ele pode parecer um idiota e agir até como um idiota, mas não se deixe enganar: ele é mesmo um idiota!"
E bote plurais nisso.

01/08/11

"Eu tenho horror a pobre!"

Ela é portuguesa e vive fora; ele é de fora e vive em Portugal. Em comum, uma certeza: os portugueses andam particularmente deprimidos. Mais do que é costume? Mais do que é costume.

“Depressão” recorda-me sempre Tiziano Terzani e o seu maravilhoso Disse-me um Adivinho: “Não é de admirar que a depressão seja hoje um mal tão comum. É quase reconfortante. É sinal que no íntimo das pessoas ainda resta o desejo de serem mais humanas”.
Os meus amigos conheciam o livro mas comentaram que não se devia exagerar. A crise era internacional e, fosse como fosse, a Europa mantinha-se o melhor sítio para se viver. Eu disse que talvez, mas.
Que seria bom não esquecer que ainda há 66 anos a Europa provocara uma razia no mundo e que os seus líderes actuais me faziam perigosamente pensar na piada de Lewis Black: “In my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants” (e já passaram quase 12 anos…), e também na frase de Groucho Marx em Duck Soup: “Ele pode parecer um idiota e falar como um idiota mas não se deixe enganar, ele é realmente um idiota”.

Após a fase das piadas voltámos a falar a sério da recente obsessão pelas fronteiras, dos imigrantes magrebinos afogados no Mediterrâneo, da e.coli dos pepinos que era coisa dos PIGS espanhóis, da implosão dos Impérios, da dívida americana, da extrema-direita francesa, da desorientação generalizada da esquerda, dos chineses… O costume.

E depois aconteceu o massacre na Noruega.
Um homem louro, um homem nórdico, alto, de olhos azuis, praticamente um património, um baluarte da Europa civilizada, praticamente uma Claudia Schiffer de calças, como diria Caco Antibes, matou quase uma centena de pessoas. Antes de passar à acção terá tido tempo para escrever “2083, A European Declaration of Independence”, um longo manifesto em defesa de uma nova Cruzada contra os perigos do Islão e do marxismo. Não, “as humanidades não humanizam”. Mesmo. Como dizia o raio do Steiner e eu não me canso de repetir.

14/04/10

Declaração de princípios: ó a democracia (e se não gostarem tenho outros)*

A democracia é uma merda mas não temos nada melhor.
E é uma merda, basicamente por isto: o meu vizinho do quinto esquerdo bate na mulher, espanca o cão, grita com a mãe, deita lixo pela janela, cospe na rua, abalroa velhinhas no supermercado, buzina o carro às três da manhã, empanturra as crianças de estalos e MacDonald's, ouve televisão aos berros, faz incursões semanais ao Colombo, não grama pretos nem monhés e é feio que nem uma porta. Felizmente não é meu vizinho. Mas podia ser.
Porque o ponto é este: um troglodita que vive na Idade da Pedra e que ainda terá de reencarnar pelos menos umas 100 vezes, como rato, até regressar de novo como hominídeo tem exactamente os meus direitos do que eu.
Desabafo feito, não tenho alternativa. Ou talvez tenha: abalroá-lo um dia destes pelas escadas e esperar que ninguém me veja.
Não me interpretem mal. Sou pela Lei como forma de regulação da selva que isto seria (ainda mais) se a Lei não existisse. Sou pela Lei e pela Democracia porque todas as outras formas de Poder me parecem mais perigosas. Em privado, contudo, estou também com o cidadão que tenta resolver certas coisinhas pelas suas próprias mãos, se assim puder e não tiver escolha.
Resumindo: sou contra a pena de morte (em absoluto e sob qualquer circunstância), mas se o troglodita do quinto esquerdo envenenasse a minha cadela e saísse impune teria de se haver comigo. Não digo que lhe pusesse vidro picado nos hambúrgueres (tenho alguma dificuldade em lidar com a vingança servida como prato frio…), mas havia de me lembrar de qualquer coisa. Menos cruel, embora certamente proporcional.
Outro exemplo: percebo melhor a operação “Cólera de Deus” da Mossad do que a invasão do Iraque mesmo se ratificada pela ONU.
E isto é na realidade tudo o que me apraz dizer sobre o Estado de Direito, atrás do qual se escudam todos os trogloditas enquanto a democracia lhes dá jeito. Digo-o por experiência, por nunca ter feito o meu género passar-me por virgem pudica e, last but not least, por ter lido O Processo de Kafka.
* No original, “Those are my principles, and if you don't like them... well, I have others", Groucho Marx
[Ocorreu-me este desabafo a propósito disto]

28/01/09

Who the fuk is Manuel Queiroz?

A pergunta do título é retórica. Ou seja, estou-me nas tintas para o dito. Não sei quem é nem quero saber quem seja: Manuel Queiroz não me interessa como indivíduo mas como paradigma. No caso, paradigma da bêtise a que Flaubert chamou um figo e que, como é dos livros e da praxis, nunca vem só: faz-se habitualmente acompanhar da arrogância e quem vier atrás que limpe a merda.
Mas se a estupidez é universal ― como garante a frase apócrifa de Einstein (Só há duas coisas infinitas, a estupidez humana e o universo, e quanto ao último não tenho a certeza) ― há quem a cultive de um modo genuinamente português.
Para ir directa ao assunto: são aqueles tipos que, perante uma coisa estúpida, puxam dos galões da sua suprema inteligência e tornam a coisa estúpida ainda mais estúpida, atribuindo-lhe qualidades que mais ninguém viu, intenções que mais ninguém percebeu, estratégias que mais ninguém alcançou.
Perante tais maîtres à penser de puro sangue lusitano, Niccolò Machiavelli não passaria de um menino de coro e, já que falei em coro, assim de repente recordo-me de algumas vozes esdrúxulas que, no seu apoio à invasão do Iraque, e concorrendo taco-a-taco com Bianca Castafiore, conseguiam ultrapassar em muitos decibéis qualquer general americano mortinho por uma guerra.
Quanto a Manuel Queiroz, que é o exemplo que me traz agora, viu na reabilitação do bispo Richard Williamson, um inglês ultraconservador que acha que o Holocausto é uma história para adormecer criancinhas, um gesto papal cheio de conotações abscônditas mas que ele, e refiro-me naturalmente a Queiroz, alcança de modo claro e distinto (embora, e isto sou eu a falar, num português um pouco obscuro to say the least...). Os judeus tinham ficado lixados, a esquerda tinha ficado lixada, mas ele ― ele, Queiroz! ― sabia que Ratzinger visava mais longe e se estava a borrifar para os judeus e para a esquerda. Afinal, parece que o próprio Vaticano ficou incomodado com a história e, como já vem sendo enfadonhamente habitual, pediram-se desculpas.
Apropriadamente termino, pois, concluindo que há criaturas mais papistas do que o Papa ou em inglês para condizer com o título: He may look like an idiot and talk like an idiot but don't let that fool you. He really is an idiot.

21/01/09

Carta aberta aos clientes da Pastelaria

Conta-se – mas provavelmente trata-se de um mito urbano – que Bette Davis, já bem entrada na idade, mandou publicar anúncio pedindo – por amor-de-deus não faria o género dela – que alguém lhe desse trabalho. Não sou a Bette Davis. Desisti da carreira de actriz no dia em que a prof. de Canto Coral me preteriu em favor da Ana Paula – uma anã lambe-botas de gargarejar esdrúxulo –, atribuindo-lhe o papel da Inês Pereira. Também não estou ainda bem entrada na idade, embora subscreva, voluntária, a frase de Groucho Marx: I must confess, I was born at a very early age.
Acrescente-se: sei que dirijo tasco modesto onde o que quer que sirva chegará, no máximo, a cerca de mil leitores; número dos que por aqui passaram em demanda da Moreira, senhora cujo português técnico alagou a Pastelaria.
Quanto à legislação, desconheço-a. Requererá um anúncio particular publicitado num blogue autorização superior? Será deontologicamente correcto? Será contraproducente, empurrando-me para a classe das «pessoas infelizes», aquelas que nem O Segredo conseguirá salvar? Faria melhor em escrever directamente ao Obama? Tentar a Maçonaria?
Ora, que se lixe: «I don't believe in hell. I believe in unemployment». Fora isso tudo bem, como diria o Senhor Comentador.

30/06/08

A censura é a mais jovem de duas irmãs, a mais velha é a Inquisição*

A 1ª Vara Cível de Lisboa decidiu fechar o blog povoaonline. O presidente da câmara da Póvoa de Varzim, Macedo Vieira, sentiu-se ofendido, fez queixa e a justiça actuou. Entretanto, já está disponível o povoaoffline, mas Vieira admite avançar com uma providência cautelar caso este novo blog prossiga pelo mesmo caminho.
Miguel Sousa Tavares fizera queixa contra os anónimos que o tinham acusado de plágio. Os autores do povoaonline também o eram, mas o Tribunal obrigou o Google a encerrá-lo.
A Entidade Reguladora para a Comunicação Social já pode dar hoje em dia uma mãozinha nesta matéria, mas a decisão de encerramento, que é tomada pela primeira vez em Portugal, vem com certeza inaugurar uma nova época de caça.
Posto isto, gostaria de acrescentar uma coisa: nem sequer me lembro se alguma vez fui à Póvoa, mas aos legisladores, obviamente contra a censura mas seguros também que não há regra sem excepção, relembro as palavras sempre sábias de Marx (Groucho, naturally): Estes são os meus princípios. Se não gostarem, tenho outros.
*Johann Nestroy

18/12/07

Excitação! Excitação! Excitação!

Se eu tivesse uma livraria colocaria no seu frontispício esta frase de Groucho Marx: «Outside of a dog, a book is man's best friend. Inside of a dog it's too dark to read».
Se eu tivesse uma livraria poderia até vir a escrever um livro que começasse assim: «Eu tive uma livraria em Olhão...», e depois falaria de ilhas.
Nunca tive uma livraria: ninguém disse que a vida seria fácil, ou se disse devia ser julgado por perjúrio. Mas gosto de livrarias. Por exemplo, adoro a Galileu de Cascais. E de uma que havia no Chiado com um sininho na porta que fazia tlim-tlim-tlim-tlim quando entrávamos (é verdade que não tinha muito movimento, o que que tornaria ensurdecedora a onomatopeia...).
Mudam-se os tempos, mudam-se as livrarias. E também elas se renderam ao progresso galopante que já vem da Revolução Industrial. Se nessa altura a maior parte da malta era analfabeta com todas as letras, hoje, apesar da alfabetização que o século XX nos trouxe, às livrarias já não bastam os livros — que são, para quem não souber do que se trata, objectos tradicionalmente feitos para serem lidos.

«O livro em si não chega, porque há muita concorrência dentro da própria área da cultura e entretenimento, e é preciso reinventar o negócio e trazer alguma excitação». Foram estas sábias palavras proferidas por Teresa Figueiredo, actual directora de marketing da Bertrand, senhora que exibe no curriculum 12 anos de árduo labor na Lever, a maior multinacional de sabões e detergentes.
Numa entrevista que descobri transcrita na WEB (aqui, para ser mais precisa), quando a páginas tantas lhe perguntam (suponho que vomitando já tanto know-how):
Afinal, a Bertrand é uma loja ou uma livraria?
a resposta foi esclarecedora:

«Depende de como entendemos livraria. Se sinónimo daquele sítio pouco envolvente, com teias de aranha e pouco excitante, a Bertrand não é uma livraria. Agora, a ideia de livraria não tem de ser negativa, é uma loja onde vendo livros e tenho um ambiente agradável. Somos uma loja no sentido em que vendemos livros. Mas face ao passado, somos uma livraria no sentido de divulgar os livros e de ter como missão fazer chegar os livros a todo o lado e de divulgar os autores e a leitura. Dizer que somos apenas uma loja seria redutor.»
Quanta fluência! Quanta inteligência! Quanta modernidade!
Todas estas exclamações não passam de inveja minha, claro. Como nos dias que correm só com uma Mauser apontada à cabeça entraria numa livraria Bertrand, resta-me reconhecer que não passo de uma carcomida leitora, cheia de teias de aranha, pouco envolvente e nada, nada, excitante. Analfabeta? Reaccionária?

30/10/07

Duvido que Vos Interesse mas Mudei de Contador

O antigo, cada vez que eu espirrava, avançava um número. À velocidade a que contava visitantes, a Pastelaria depressa deixaria de ser uma pastelaria para ultrapassar a lotação de cabine do navio onde cabia sempre mais um em Uma Noite na Ópera. Continuam a ser bem-vindos.

26/07/07

+ de 9 milhões não viram Sócrates na SIC

Foi o meu caso. Por uma vez levei o Marx mesmo a sério e segui-lhe o conselho: «Acho a televisão muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para a outra sala e leio um livro».