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24/01/25

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Tempo de Chuva»

 «(...) Assim: bem podem os bem-intencionados (vamos ser generosos e esquecer os mal-intencionados…) bradar aos céus pelos factos. Bem podem os mesmos arrumar qualquer teoria menos consensual na categoria das teorias da conspiração (relembro a canonização da indústria farmacêutica aquando da pandemia de covid-19: de repente, ninguém tinha lido "O Fiel Jardineiro", John le Carré decerto um amalucado anticiência, qualquer dúvida, por mais sensata, arrumada na categoria dos devaneios delirantes…); bem podem os mesmos fazer campanhas contra as “percepções” e clamar (o que depois das “impressões anteriores” da alma de Plotino, nascido no início do ano 200, parece um pouco anacrónico…) pela cientificidade das convicções humanas; bem podem hastear a bandeira da Razão das Luzes (80 anos depois de Auschwitz é obra!); bem podem varrer para debaixo do tapete as verdades inconvenientes (cf. o ódio do povo russo a Putin que, desde o começo da invasão da Ucrânia, todos os dias corre o risco de ser atirado da varanda…), esquecendo a sagacidade de Aleixo: “P’ra mentira ser segura/ e atingir profundidade,/ tem que trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade” ou o conselho sábio de Mark Twain: “Em caso de dúvida, diga a verdade”; bem podem distinguir a censura boa da má, sendo a boa a que se aplica aos “deploráveis”, o facto — e já que se fala de factos — é que de bem-intencionados está o inferno cheio.

Os ventos não correm de feição. E temo que após o episódio da tomada de posse não fiquemos menos confusos, parafraseando a célebre frase, “Confused? You won't be, after this week's episode of ... Soap" — não é alta cultura, é de uma sitcom. (...)»

11/07/11

A book a day keeps the doctor away: "A Toupeira", John le Carré

John le Carré é um daqueles nomes que não precisa de apresentações. Ao lado de Ian Fleming, pai do 007, le Carré é o escritor mais famoso de romances de espionagem do século XX.
A ter de escolher entre os dois, o autor de A Toupeira seria naturalmente o eleito. Assim como não hesitaria entre James Bond e George Smiley. Enquanto o primeiro é apenas um “boneco” bem esgalhado, George Smiley é uma personagem “de carne e osso” (a melhor definição de Bond, deu-a, aliás, o próprio le Carré: “A impressão que dava é que [Bond] cometeria as mesmas proezas ao serviço de qualquer país, desde que as mulheres fossem bonitas e os Martinis fossem secos.”).
A editora D. Quixote acaba precisamente de reeditar A Toupeira, um livro que tem Smiley como protagonista e a denúncia de um agente duplo ao serviço dos soviéticos como fio condutor. A trama é bem esgalhada mas o que logo sobressai é o retrato das personagens, a começar pela do espião britânico na reforma.
Verdadeiro anti-herói, fisicamente decadente, introspectivo e com um casamento falhado (a forma como lida com a infidelidade da mulher é um magnífico traço do seu carácter), Smiley conduz paulatinamente a investigação, toda ela assente em episódios do passado que a memória de agentes lançados ao ostracismo vai desenterrando.
História adulta com a Guerra-fria em fundo, A Toupeira recusa qualquer visão maniqueísta do mundo, sobretudo, qualquer visão maniqueísta dos homens.
O suspense domina mas o que assombra é a inteligência de le Carré, capaz de nos envolver num enredo de espiões nostálgicos e simultaneamente implacáveis. Além disso, o que pode ser mais romanesco do que a descodificação de um duplo? E se a espionagem perdeu há muito o glamour, George Smiley, esse, continua a comover-nos. Enigmático... e enigmaticamente.
A Toupeira, John le Carré, D. Quixote, 2011