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09/07/11

And here we go again

Há falta de dinheiro? Aumentem-se os impostos! A fórmula é simples, oferece séculos de garantia e apresenta uma única falha: não tem aplicação doméstica.
O Estado português acaba de a pôr novamente em prática criando um imposto extraordinário, tanto mais extraordinário quanto o actual primeiro-ministro havia há bem pouco considerado um “disparate” cortar o que quer que fosse nos subsídios. Será, afinal, no natalício e aplica-se a cristãos, agnósticos, ateus e prosélitos de quaisquer credos. É universal. Tão universal que se estende também... a quem não recebe subsídio, ou seja, aos chamados freelancer.
Segundo a Wikipédia, a primeira vez que a palavra freelancer apareceu cunhada foi em 1918 no Ivanhoe de Walter Scott, referindo-se o escritor a cavaleiros mercenários que lutavam por quem lhes pagasse mais. Pessoalmente, contudo, prefiro a definição avançada já no século XX pelo irlandês Brendan Behan: “The freelance writer is a man who is paid per piece or per word or perhaps”.
Em Portugal, este ano, seja o freelancer pago à peça, à palavra ou talvez, uma coisa é certa: leva com o novo imposto e deixemo-nos de minudências.
Dito isto, alguém podia também perguntar ao governo onde foi ele buscar a taxa de 50%. Isto porque, naturalmente, 50% de um subsídio de 600 euros não é o mesmo que 50% de um subsídio de 6 mil. A quem iria receber um subsídio de 6 mil euros, bastar-lhe-á, talvez, seguir os conselhos avançados por José António Saraiva na edição do semanário SOL de 20 de Junho passado.
I quote: trocar o Mercedes E pelo Mercedes C ou o Audi 6 pelo Audi 4, o champanhe Moët & Chandon pelo patriótico Raposeira, o fato Armani por um Dielmar, cortar nas idas ao esteticista e cabeleireiro, preferir detergentes marca branca, evitar os terríveis tempos mortos nos aeroportos mais o risco da perda de bagagens e fazer férias cá dentro, ou, fazendo-as lá fora, optar pela classe turística em vez de insistir na 1ª ou mesmo na Executiva.
Entretanto, o resto da malta faz o quê? Poupa nos jornais e deixa de comprar o SOL?

05/05/10

A book a day keeps the doctor away: "Nova Iorque", Brendan Behan

Imagine-se um combate de boxe transposto para o papel. Imagine-se o saltitar rápido dos pés, o bailado das mãos, os golpes assestados no adversário. Traduza-se isso em palavras, frases, parágrafos, episódios curtos e velozes. Se conseguirmos imaginar isso, ficaremos com uma pequena ideia do que é Nova Iorque, o livro de Brendan Behan que em abençoada hora Carlos Vaz Marques leu e a Tinta da China editou.
Brendan Behan (1923-1964), irlandês daquela colheita que deu bêbedos famosos e escritores extraordinários, é um ficcionista das margens, dos que além de ficcionistas foram aventureiros, marinheiros e trapaceiros, provando de tudo o que a vida tinha para lhes ensinar... antes de terem sido inventadas as escolas de escrita criativa.
Filho de uma família pobre de republicanos, mais tarde membro do IRA, decidiu-se pela militância nas letras durante um dos seus périplos pelas prisões britânicas. Foi poeta, dramaturgo, memorialista e contista. Apesar do relativo sucesso junto do público e da crítica que conheceu em vida (ou também por isso), o alcoolismo acabaria por vencê-lo precocemente, aos 41 anos.
Nova Iorque, o título agora editado entre nós, é uma viagem literária electrizante por uma cidade eléctrica e insone esgalhada a um ritmo de nos deixar sem fôlego.
Com prefácio curto de Enrique Vila-Matas, as memórias expressas no livro organizam-se de modo algo caótico e errático (o que é uma virtude), traduzindo-se numa torrente de pequenas histórias. Quanto ao humor, esse é a rodos.
Nova Iorque transporta-nos a lugares (bares) onde nunca entraremos mas que, como escreve Vila-Matas, nos deixam (inexplicavelmente) cheios de saudades, e apresenta-nos a personagens com quem (maioritariamente) também gostaríamos de ter tomado um copo.
Talvez o livro de Brendan Behan seja sobre uma cidade (e uma Irlanda...) que já não existe (embora muitos dos lugares de que ele fala ainda existam — incluindo o Hotel Chelsea, onde Nova Iorque foi escrito). Apesar disso, sabe-se, a big apple continua a ser um dos locais mais fascinantes do mundo. E isso também se deve de certeza ao facto de ter acolhido gente como Brendan Behan, capaz de escrever assim: «Não há nada que me irrite mais do que essas pessoas que tentam rotular gerações de escritores, como se toda a escrita fosse produzida numa maternidade. Por amor de Deus, os escritores não vêm em gerações.
Alguém me perguntou certa vez se eu era um escritor da classe operária. Ora, sem dúvida que é essa a minha origem, mas não me considero um escritor da classe operária, nem um escritor irlandês, nem de nenhuma outra seita em concreto. Considero-me apenas um escritor.
— Vá perguntar a Evelyn Waugh se ele é um escritor da classe média — respondi — Se ele disser que sim, então eu serei um escritor da classe operária.
Tenho o maior respeito pela prosa do Sr. Waugh, apesar das suas manias, das suas cartolas, dos seus coletes de cetim e dos seus enormes auscultadores. Tenho a certeza de que poderia comprar uns mais pequenos, mas prefere não o fazer. Ainda assim, é um escritor maravilhoso. Não conheço ninguém, além de Waugh, que pudesse ter escrito uma frase assim: "O seu queixo era tão proeminente que, quando comia, as migalhas que lhe caíam dos lábios não ficavam irremediavelmente perdidas."
(...)
O famoso actor irlandês Michael MacLiammoir escreveu em tempos num jornal que era uma pena os escritores irlandeses não serem mais unidos. Referia-se a mim e a Samuel Beckett, um querido e velho amigo meu e um extraordinário dramaturgo. Não sei de que tratam as suas peças, mas sei que gosto delas. Não sei como será nadar em pleno oceano, mas sei que gosto. Gosto da sensação da água a fluir em mim.
Não percebo por que motivo os escritores têm de ser unidos, tal como não vejo motivos para os canalizadores ou os banqueiros serem unidos.
O Padre Tom Fox, autor de vários documentos excelentes, apesar de um pecador como eu os considerar por vezes um pouco deprimentes, disse-me que a única coisa que detestava num restaurante era quando o sentavam ao lado de outro padre.
Mas os escritores são unidos no sentido em que costumam apreciar a companhia uns dos outros, já que muitas vezes sentem que os outros escritores são as únicas pessoas com quem vale a pena discutirem o seu trabalho. A não ser que tenhamos em conta a questão do dinheiro, claro. Como dizia o Dr. Johnson, um homem que escreva e que não o faça por dinheiro é uma besta quadrada.»
Disto já não há!
Nova Iorque, Brendan Behan, Tinta-da-China, 2010
*uma versão mais curta deste texto foi publicada no semanário Expresso

27/04/10

Como os temas fracturantes me aborrecem um bocadinho e de momento não estou virada para o Lenine nem para a Comissão de Ética tomem lá o Brendan Behan

"Não faz sentido falar de homossexualidade como se fosse uma doença. Já vi pessoas com homossexualidade, tal como já vi pessoas com tuberculose, e não há qualquer tipo de semelhança.
A minha atitude em relação à homossexualidade é muito semelhante àquela mulher que, aquando do julgamento de Oscar Wilder, disse que não se importava com o que faziam, desde que não o fizessem na rua e não assustassem os cavalos."
in Nova Iorque, ed. Tinta da China