Acaba de ser traduzido em Portugal o mais recente ensaio de Milan Kundera, Um Encontro: na realidade, reúne vários encontros e reencontros. A Checoslováquia serve de cenário a alguns deles, mesmo se o escritor, a viver em França desde 1975, acumula as nacionalidades checa e francesa.Reflexão e memória andam quase sempre de mãos dadas, como no texto dedicado a Anatole France, de quem Kundera se serve para reflectir sobre “listas negras”, escritores que deixaram de ser lidos ou são lidos com desconfiança (primeiro as ideias, depois a obra – Sartre, ao invés de Tolstoi, por exemplo). Porquê? A resposta não é una e voltar-se-á de certo modo ao tema a propósito de Curzio Malaparte e dos chamados “escritores comprometidos”, com um desvio irónico por Brecht, intitulado “Que Restará de Ti, Bertolt?”.
O curto apontamento sobre a solidão erótica em Philip Roth é perspicaz e certeiro, assim como o que Kundera dedica a Céline. Reafirma-se a paixão por Rabelais e a Europa Central (Kafka é, claro, obrigatório) cruza-se algures com a Martinica a propósito da passagem pela ilha de André Breton.
Os ensaios são pessoalíssimos, pontos de vista que se assumem subjectivos e ao “correr da pena”. À intenção teorética sobrepõe-se a empatia com o objecto: fascínio confessado por Francis Bacon (numa leitura estimulante que evita repisar o lugar-comum do “horror”, sempre invocado quando se fala da pintura de Bacon); lição generosa de história e literatura a partir de A Pele de Malaparte, classificado como “arqui-romance”.
Mas se a literatura, naturalmente, domina neste livro, não menos ricos são os ensaios sobre música. Em resumo: 25 anos depois de A Arte do Romance, Kundera continua a fazer-nos pensar.
Um Encontro, Milan Kundera, D. Quixote, 2011, trad. de Isabel St. Aubyn
Os ensaios são pessoalíssimos, pontos de vista que se assumem subjectivos e ao “correr da pena”. À intenção teorética sobrepõe-se a empatia com o objecto: fascínio confessado por Francis Bacon (numa leitura estimulante que evita repisar o lugar-comum do “horror”, sempre invocado quando se fala da pintura de Bacon); lição generosa de história e literatura a partir de A Pele de Malaparte, classificado como “arqui-romance”.
Mas se a literatura, naturalmente, domina neste livro, não menos ricos são os ensaios sobre música. Em resumo: 25 anos depois de A Arte do Romance, Kundera continua a fazer-nos pensar.
Um Encontro, Milan Kundera, D. Quixote, 2011, trad. de Isabel St. Aubyn