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22/12/12

O Homem Pensa, Deus Ri

Gosto muito de Santo Agostinho. Apesar disso, só posso dar razão a Jim Hankinson quando este escreve em “O Especialista Instantâneo em Filosofia”, a propósito da chamada Idade das Trevas: “a pouca filosofia que existia na Europa sofreu uma viragem depressivamente teológica, centrando-se em disputas tais como se Deus era Uma Pessoa em Três ou Três Pessoas Numa, a natureza exacta da Substância do Espírito Santo e quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete (no caso improvável de desejarem realmente fazê-lo)”.
Séculos passados sobre a castração de Abelardo e a Querela dos Universais, deparamo-nos com a polémica sobre o burro e a vaca. Ao que parece, o Papa terá sido mal citado. Bento XVI, apesar de ter escrito que tais criaturas não constam no registo bíblico, nunca ordenou que fossem excomungadas do presépio.
Não deixa de ser curioso, contudo, o ruído à volta das declarações do chefe da Igreja católica. Jornais, televisões e redes sociais atiraram-se aos pobres animais como cães a osso, e os debates renhidos sobre a existência de Deus deram lugar a acesas discussões sobre a existência dos dois quadrúpedes.
Que nos seja permitido suspeitar que tal deriva teológica substancia um empobrecimento intelectual do mundo, a que acresce o facto de ninguém nos garantir que a veemência posta na defesa dos pobres bichos não possa igualar, em fanatismo, o vigor com que foi afirmado o Ser Supremo.
É dos livros que a fé move montanhas e tende a deixar um rasto de cadáveres. Chato mesmo, é que nada nos garante que sem fé a coisa tivesse corrido melhor, apesar de alguns estudos afiançarem que os países nórdicos (com maior % de ateus) são socialmente mais justos. E se a coisa for do clima?

17/10/11

Moral e Religião

Sou do tempo em que eram muitas as famílias a fruir de um pobrezinho de estimação.
Não lá em casa, porque o pater familias, antifascista convicto, inimigo da caridadezinha e fã incondicional de Victor Hugo, preferia incentivar à revolta os miseráveis que nos batiam à porta, recordando que a culpa era de Salazar e do regime, frase que desde cedo me pareceu cair em saco roto, no caso em barriga vazia, intuindo precocemente que fome e insurreição nem sempre andam de mãos dadas.
Na mesma época, tinha aulas de Religião e Moral e, apesar do ateísmo dominante no círculo familiar (ou quiçá por isso), nunca sonhei com incêndios. Recordo dois episódios.
O primeiro teve que ver com a minha perplexidade ante o mistério da Santíssima Trindade. A professora tentou esclarecer a coisa falando de três fósforos acesos que, reunidos, geravam uma só chama, continuando, porém, a ser três, mas só mais tarde percebi que a minha dúvida fizera correr rios de tinta muito antes de eu ser nascida: “(…) a pouca filosofia que existia na Europa sofreu uma viragem depressivamente teológica, centrando-se em disputas tais como se Deus era uma Pessoa em Três ou Três Pessoas Numa, a natureza exacta da Substância do Espírito Santo e quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete (no caso improvável de desejarem realmente fazê-o)”, Jim Hankinson, O Especialista Instantâneo em Filosofia.
O segundo episódio é o que me traz. Era opinião maioritária na turma que as esmolas deviam destinar-se prioritariamente a artigos de primeira necessidade. A mestra da cadeira, contrariando o reaccionarismo precoce das alunas, argumentou, então, que os meninos pobres também tinham direito a rebuçados.
A ideia será cândida, mas foi essa mulher cujo nome não recordo que me veio à cabeça quando na esplanada do café vi o miúdo, 20 anos (?), 11 da manhã, corpo franzino, casaco desportivo puído e fecho estragado, os braços sobre a mesa amparando a cabeça deitada (abandonada a leitura das ofertas de emprego do jornal), um raio de sol que lhe aquecia a nuca, uma cerveja vazia à frente. E a cerveja era a única coisa que o tornava humano.