12/12/09

A book a day keeps the doctor away

Um leitor sabe: nada melhor do que a descoberta de um autor, mesmo tardia. Mea culpa, ainda assim, visto que César Aira (apesar de já o terem classificado como o “segredo mais bem guardado da Argentina”) não só escreve num idioma acessível mas também estava publicado entre nós, na mesma editora (Assírio & Alvim), traduzido pelo mesmo poeta (José Agostinho Baptista).
O livro de 2005 chama-se Como me Tornei Monja; este, Um Episódio na Vida do Pintor Viajante, acaba de sair. César Aira é um dos escritores eleitos de Enrique Vila-Matas. Eu gosto muito de Vila-Matas mas não seria obrigatório… Não sendo, aconteceu.
Um Episódio na Vida do Pintor Viajante é um deslumbramento. É-o, mesmo se a espaços envereda por caminhos especulativos perturbadores da leitura (do leitor), a propósito dos quais se poderia até presumir ter outro argentino dos grandes, Cortázar, escrito isto: “(…) quanto mais se parecer um livro com um cachimbo de ópio mais satisfeito ficará o chinês que o fuma, disposto no máximo a discutir a qualidade do ópio mas não os seus efeitos letárgicos” (A Volta ao Dia em 80 Mundos).
Neste caso é tudo bom, incluindo o estranhamento que vai crescendo paralelo ao deslumbramento, à medida que uma espécie de raciocínio obscuro se contrapõe à exposição de recorte clássico. Talvez seja essa, aliás, a qualidade maior desta narrativa breve: linguagem claríssima servida por uma “história” enigmática (ou vice-versa). O que no início nem parece. Começa assim: “No Ocidente, houve poucos pintores viajantes realmente bons. O melhor, de quem temos notícias e abundante documentação foi o grande Rugendas, que esteve duas vezes na Argentina (…)”.
E prossegue:: “Johan Moritz Rugendas nasceu na cidade imperial de Ausburgo a 29 de Março de 1802, filho, neto e bisneto de prestigiados pintores do género (…)”.
Na aparência estamos face a um texto biográfico respeitador dos cânones tradicionais, tendo por objecto uma personagem real: Rugendas existiu, foi pintor e visitou o continente americano. A novela, porém, vai ganhando complexidade conforme o narrador vai abandonando a objectividade descritiva, substituindo-a por um desejo de interioridade, na verdade nunca alcançado: Rugendas resiste a deixar-se fixar no retrato, comprovando assim que qualquer biografia é um projecto, se não inútil, decerto inacabado. E, quando a meio do relato da viagem de Rugendas pela pampa argentina se dá o terrível acidente, ele escapará totalmente por detrás da mantilha negra que lhe cobre o rosto e os delírios.
Acrescente-se: tendo como protagonista um pintor, a qualidade pictórica de Um Episódio na Vida do Pintor Viajante sobressai mais ainda, barroca e onírica, ao mesmo tempo que exacta. Numa palavra, surreal.
César Aira, Um Episódio na Vida do Pintor Viajante, Assírio & Alvim, 2009

2 comentários:

GabrielPedro disse...

Há outro grande escritor Argentino,nem sempre lembrado: Manuel Mujica Lainez.
É diferente? É.
E contemporâneo de Cortázar.
quanto a Vila-Matas, vemo-nos em Barcelona...

Ana Cristina Leonardo disse...

Nunca li. Muito obrigada pela sugestão, vou procurar