19/04/10

Do Forte de Peniche à cama do arqtº Paulino Montez passando pelas rendas de bilros — ou da vergonha de ter nascido em Portugal

Peniche é uma terra porreira. Fuma-se na maioria dos sítios, o mar é a perder de vista, o peixe serve-se fresco. Peniche só tem um problema: o Forte.
O Forte é como quase todos os Fortes. Aproado num promontório, expõe-se à força dos elementos em cenário qual Boca do Inferno qual quê e exsuda aquela patine histórica que celebra as potencialidades turísticas na razão directa da antiguidade.
Há muitos anos que não o visitava. Como já aqui escrevi, em criança fazia-o senão quinzenalmente pelo menos uma vez por mês. Partíamos, eu e a minha mãe, de manhã cedo de camioneta, dormíamos numa pensão de que me restam as imagens imprecisas de um quarto sombrio e de uma mulher de luto que falava connosco em surdina, e regressávamos no dia seguinte. No entretanto, visitávamos o meu pai, preso em Peniche. Eu odiava o passeio porque, invariavelmente, vomitava na camioneta.
Voltei lá este fim-de-semana. Já sabia do projecto da Câmara para o converter em Pousada, enaltecida a atractividade da fortaleza por via dos tipos que lá viveram embalados pelas ondas.
Logo à entrada, passado o fosso e a loja de souvenirs de mau agouro, uma placa com três indicações: a última assinala uma ESCOLA DE DANÇA!!! Estava fechada.
À direita, no pátio de um dos edifícios da antiga prisão, que acolhe agora um pífio CENTRO DE ARTES!!! (deserto), exibe-se uma embarcação de pesca com os seguintes dizeres (cito de memória mas juro que é pura verdade): “Aqui neste local ficava o recreio dos presos que eram vigiados pelo guarda desta guarita, servindo hoje este pátio para albergar outro grande resistentee segue-se informação sobre o barco”!!!!
No pátio de um dos outros edifícios-prisão, tropeçaria mais tarde numa cisterna descrita assim (sempre de memória): “Esta cisterna é muito boa, tem imensa água, os presos recolhiam-na de corda e balde e em Mil Novecentos e tal (não fixei) enquanto na vila a água era escassa e barrenta aqui nunca faltou e sempre de óptima qualidade”!!!
Nesse momento imaginei a inveja que se deve ter gerado na vila, os habitantes em procissão até ao Forte pedindo para serem encarcerados...
Na zona das solitárias, no topo da edificação, um placard informa que dali fugiu Dias Lourenço atirando-se sozinho ao mar. Como o placard é discretíssimo e a maioria das pessoas no local parece ter vindo para apreciar a vista (de facto, magnífica), não estranhei que um casal de jovens se desse a arroubos carnais no interior de uma das celas apesar da falta de conforto e do excesso de humidade.
No lado oposto, a um canto, ocupando uma das Alas destinadas aos presos, lá fica aquilo a que chamam Museu. Fui espreitar.
A funcionária que vende bilhetes a dois euros e meio explicava então a um grupo de visitantes que a cisterna era muito fresquinha e agradável no Verão mas que agora era melhor não descerem porque… Deixei de a ouvir e teletransportei-me por instantes para Birkenau onde alguém me aconselhava no meio do abrasador descampado que fosse descansar à sombra dos restos do forno crematório.
De volta a Peniche, encontro-me já dentro do “Museu”. Se a memória não me falha, são três andares. Até chegar ao último, passei por uma exposição de malacologia (como estamos sempre a aprender aprendi que é assim que se chama ao estudo das conchas…), arqueologia marítima (num recanto esconso cheguei a assustar-me com uma figura em tamanho natural vestindo um escafandro retirado directamente das “Vinte Mil Léguas Submarinas”, incluindo o pó), rendas de bilros, cama e restante mobiliário doado pelo arquitecto Paulino Montez (não, não se trata de um preso político mas de um ilustre da terra…), mais umas quantas aguarelas domingueiras assinadas pela respectiva esposa, o tal pátio/recreio com a cisterna e assim que me recorde de repente mais nada.
Poupo-vos ao cheiro a mofo e a merda. Este exala sobretudo no terceiro andar onde, finalmente, se percebe que pisamos uma antiga prisão política.
Um corredor com umas cinco ou seis celas aloja uma exposição a que simpaticamente chamarei pindérica, com destaque para uma porta fechada que nos convidam a espreitar e onde se exibe, diz-nos o papel lá colado, uma montagem cénica de uma cena de tortura. Adversa ao masoquismo, hesitei. Do outro lado, um teatrinho minúsculo com umas figurinhas pequeninas tipo presépio que não retive; por todo o lado, o nome de Álvaro Cunhal (com uma sala dedicada aos seus desenhos na prisão) e transcrições das Edições Avante ou similar. Esta parte também me lembrou a minha primeira ida a Auschwitz com a guia a sublinhar de cinco em cinco minutos os mártires cristãos do Campo…
Saí em estado de choque. Pedi o livro de visitas (que a custo consigo obter porque a funcionária hesita em passar-me para a mão o caderno de capa dura a que chama pomposamente Livro de Honra) e deixei escrito o que pensava.
Mais ou menos: pátria "cabra" e "badalhoca"que trata assim a memória. "Esgoto atlântico" que mereceu o Salazar, merece Sócrates, merece Passos e o mais que venha a seguir.
Que uma vaga a arrase ou, pelo menos, que alguém chegue ali a Peniche e escaqueire a porra das conchas, a cama do arquitecto mais o rendilhado dos bilros.
Basicamente disse-lhes isto: vão-se foder e pardon my french. Acrescentei: dejecto por dejecto, mais valia construírem a Pousada e depois assinei com o meu nome em nome do meu pai e de outros tantos, incluindo, apesar de tudo, o Cunhal e o guarda José Alves.

24 comentários:

nd disse...

Filhos da puta. Desculpe. Somos um país cheio de filhos da puta, que enchem os lugares onde nunca estariam com o seu fedor a merda.

fallorca disse...

As (últimas) vezes que fui a Peniche, foi para me bater com caldeirada ou cantaril grelhado. Os regressos a qualquer passado, próximo ou distante, são inúteis.

Ana Cristina Leonardo disse...

nd, esteja à-vontade.
fallorca, não me lixes!

efe disse...

Quer dizer, um gajo vai visitar o forte e fica com pena dos pobres guardas, as condições miseráveis em que trabalhavam... e do pobre país... que era mesmo pobre... tudo muito pobrezinho... mas honrado!

Ó menina, é essa sujidade e cheiro a merda que limpa a memória e desculpabiliza a história dos seres enfezados que povoam esta praia atlântica. Somos exímios nesses artifícios.

;)

fallorca disse...

«fallorca, não me lixes!», desculpa pá e dá cá uma beijoca, mas a ideia nunca seria essa :)

Joana Lopes disse...

Passei por essa experiência de ida ao Forte, há um ano, com duas turmas de um 12º ano. Toda a gente veio horrorizada.

jaa disse...

Pfffffff... assustar-se com um escafandro.

(Só fui ao Forte de Peniche uma vez e, já não sei porquê, nem visitei o museu - o que parece ter sido afinal uma boa decisão.)

Tovi disse...

Eu não tenho vergonha de ter nascido em Portugal, mas gostei muito de ler este seu texto. Parabéns!

jose albergaria disse...

Porque não interpela o Presidente da edilidade, António José Correia eleito nas listas da CDU e militante do PCP?
Que saibamos, foi este partdio, o comunista, que mais militantes seus viu encarcerados no Forte de Peniche ao tempo do fascismo.
E, como diz o povo, com razão, perguntar não ofende,
Cumprimentos,
J. Albergaria

Ana Cristina Leonardo disse...

José Albergaria, não é nada em que já não tenha pensado

io disse...

Li, há cerca de um ano, o relato no Caminhos da Memória e, salvo erro, no Brumas da JL e fiquei horrorizada e sem pontinha de coragem para, numa das minhas incursões ao Oeste, ir lá espreitar o despautério.

A minha sublinhada solidariedade nesta sua indignação, Ana Cristina: "dejecto por dejecto, mais valia construírem a Pousada ..."

jkimilas disse...

não é que os donos da fortaleza de Peniche não mereçam a voracidade aqui articulada;
não é que os penichenses não mereçam que os forasteiros lhes mostrem a merda que têm entre muralhas.
mas, ó querida, um bocadinho de respeito pela pobreza (mesmo a de espírito) não lhe ficava nada mal, tá a ver ?
olhe que aqueles por quem diz ter assinado davam-se ao respeito.

Tiago Coen disse...

Já há alguns anos que ando a tentar arranjar um motivo de orgulho em ser português. Um só! E há muitos anos, já!
Até hoje, nada.
(...)
E o problema não se prende com Portugal, mas sim com os portugueses, eles próprios, e só eles. Nós, claro!...
Como alguém já avançou, o problema de Portugal é só os portugueses!
Nada a fazer ao país, enquanto andarmos todos por cá!

Ana Cristina Leonardo disse...

Jkimilas, lamento desapontá-lo meu querido, mas a pobreza de espírito não me merece mesmo respeito nenhum

Tiago, as pessoas decentes deviam emigrar

Tiago Coen disse...

"As pessoas decentes deviam emigrar".
É o que tem vindo a acontecer no nosso país, desde há algum tempo, já. Com a particular diferença em relação aos tradicionais emigrantes de outrora de que não pensam voltar jamais.

lili disse...

Depois de na António Maria Cardoso fazerem um condomínio de luxo temos agora uma pousada em no Forte de Peniche já de si tão fraco em memória, eno entanto como dizia o Kundera,“A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”. Puta que pariu isto tudo.

Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

(Jorge Sousa Braga)

Guidinha Pinto disse...

Li tudo. Lamento pelo senhor seu Pai.
Nunca senti vontade de visitar o Forte de Peniche. Só o olho ao longe e dali não arredo pé.
Nunca seria capaz de visitar Auschwitz. Demasiada para a minha pessoa a história de crueldade que encerram.
Não sei escrever mais nada sobre o tema.
Bom fim de semana.

vieira do mar disse...

Concordo inteiramente com a descrição que faz do Forte. Pessoalmente, sou a favor da pousada (http://www.jornaldepeniche.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=1207&Itemid=12). E a Ana?

Armando Cerqueira disse...

Não é a única pessoa que tem vergonha de aqui ter nascido, isto é de pertencer a este povo.

Não se esqueça que, por exemplo, nestes dias um conhecido empresário foi absolvido da condenação anterior de corrupção activa apesar de a mesma ser neste acórdão confirmada.

A. Cerqueira

Anónimo disse...

Mas a ANA CRISTINA está em condições de garantir a tutela, adminitração e gestão do Forte de Peniche pertence à Camara Municipal de Peniche.

É que se não está, era bom que o dissesse por, extrapolando do seu post» , já há blogues a afiarem à faca contra a essa gestão municipal.

Ana Cristina Leonardo disse...

Anónimo, especialmente para si
http://www.cm-peniche.pt/custompages/ShowPage.aspx?pageid=781207e4-af7d-464d-ab5a-b0aff3d9c828

pennac disse...

Parece que ontem o Zé assinou um protocolo qq de reabilitação da zona...ou pelo menos tal me pareceu no visionamento do TV Jornal. Até lhe deram uma prancha de surf e tudo...se ele ao menos nela montasse e além Atlântico se lançasse...

Nuno Santos disse...

Eu não posso bem dizer que é mentira...
eu vivo em Peniche e praticamente toda a gente é "calona", não se esforçam minimamente para melhorar o aspecto da cidade. Está cidade está morta...só vejo pessoas velhas e o que me aflige mais é que nem sequer temos cinema.
O forte precisa de uma remodelação, ainda tem aquela tinta amarela já degradada da humidade, aquela cor é um horror e tenho vergonha daquilo, só temos visitas praticamente no verão, isso é por causa do surf e mesmo assim podia ser melhor.
Precisamos de ajuda, nesta cidade só existe a ignorância e para a crise passados 10 anos em que todos desistiram e esperam pela morte.
Desgraça.

Anónimo disse...

Nao falo nem bem, nem mal. Nao me compete falar, mas uma coisa digo, tenho 43 anos, e desses sou emigrante a 30 anos. Tentei viver em Peniche, e nao consegui acabar um ano. Fiz a decisao de ter e criar os meus filhos fora de Peniche, e ate de Portugal. Gosto muito de passar ferias em Peniche, e por isso 'os visitantes de verao', mas nao penso em alguma vez voltar para vicer - so se for OBRIGADA.