27/12/09

Viva Cortázar!

O início é esclarecedor: "Devo ao meu homónimo o título deste livro, e a Lester Young a liberdade de tê-lo alterado sem ofender a saga planetária de Phileas Fogg." O jazz (na pessoa do saxofonista norte-americano Lester Young) e Julio Verne (na personagem do protagonista de "A Volta ao Mundo em Oitenta Dias" Phileas Fogg) acasalam aqui em completa liberdade, dinamitando todas as fronteiras formais além das outras.
Brilhante e estimulante: eis dois adjectivos que assentam como uma "luva (in love)" ao heterodoxo "A Volta ao Dia em 80 Mundos", assinado em 1967 pelo argentino Julio Cortázar, escritor admirador de Borges e, como este, admirador também da nobre arte do pugilismo (no seu caso com conhecimento de causa).
É o segundo grande texto de Cortázar que a Cavalo de Ferro nos disponibiliza em ano e meio. "O Jogo do Mundo (Rayuela)" saiu em Maio de 2008 (com um prefácio inaceitável de José Luís Peixoto), e a palavra "jogo" inserida no título ("rayuela" significa literalmente "jogo da macaca") volta a soar aqui. A mesma apetência lúdica - que, sendo lúdica, não deixa de ser um caso sério - anima "A Volta ao Dia em 80 Mundos". O autor insiste em pegar o caos de caras, baralhando-o, reinventando-o, enfrentando-lhe os traços camaleónicos com a mais versátil das ironias. Leia-se: "Que sorte excepcional ser sul-americano, e ainda por cima argentino, e não sentir-se obrigado a escrever a sério, a ser sério, a sentar-me diante da máquina com os sapatos engraxados e uma noção sepulcral da gravidade do instante", in "Mais sobre gatos e filósofos".
Conjunto de reflexões, citações, contos, poemas, afinidades electivas e imagens, o livro denuncia a vontade antiquissíma de aprisionar o real através da literatura, descontada, porém (o que faz toda a diferença!), a ortodoxia que vê na palavra escrita um veículo de sentido único. Em Cortázar a obra apresenta-se fragmentária, cubista, libertária e libertadora, à imagem da realidade que é, também ela, mistura multíplice de caos e necessidade.
Quinta-essência do moderno, o argentino bebe do surrealismo e do fantástico, acrescenta-lhe a desconstrução estílista do jazz, a revolução relativista vinda da ciência e um desconforto essencial que é coisa sua: "(...) desde pequeno, a minha relação com as palavras, com a escrita, não se distingue da minha relação com o mundo em geral. Pareço ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas". Depois, claro, há um enorme talento, logo visível na elegância superlativa dos textos (e se a palavra "elegância" incomodar vanguardistas extemporâneos, que se pense, por exemplo, na delicadeza quase etérea dos "ready made" de Duchamp). Leia-se: " (...) nesta altura do jogo entendo que a indiferença pelo estilo por parte de autores e leitores leva a suspeitar que a 'mensagem' tão disposta a prescindir alegremente de um estilo também não há-de ser grande coisa.", in "Grande fadiga nesta altura da investigação".
Residirá, então, nesse talento único, mais do que em tudo o resto (se tal dicotomia fosse possível...), a "explicação" para que, passados 42 anos, estes textos nos deliciem ainda pela sua inteligência, beleza e irreverência. O que poderia não passar de um mero exercício datado e descarnado continua a interpelar-nos, projecto "solto e despenteado, cheio de interpolações, e saltos, e grandes golpes de asa e mergulhos, um livro como os poetas e os cronópios gostam.", in "Casa do Camaleão". Cortázar falava aqui de outro livro. Eu falo deste. Brilhante, estimulante e, para mais, com ordem de leitura arbitrária.

9 comentários:

Giuliano Quase disse...

bueno aqui, hein.

um sitio bem gordinho de leituras.

abraços

sem-se-ver disse...

agradeço. fiquei com muita curiosidade.

jaa disse...

#1: Yay, a pastelaria está aberta!

#2: Vou sentir-me tão envergonhado quando chegar a casa e olhar para a lombada do ainda-por-ler "Rayuela"...

rui g disse...

Um grande, grande livro. E uma edição onde, felizmente, o José Luís Peixoto não meteu a unha. :)

fallorca disse...

Hum...

Táxi Pluvioso disse...

... e apesar de tudo... Peixoto é um bom escritor, fora do agrado das faces cultas do país, é verdade.

UM BOM ANO

manuel disse...

Bom ano, que a paz do Dean Martin esteja contigo!

Anabela Magalhães disse...

Excelente ano de 2010, Ana Cristina! Extensivo aos que te são próximos.
Beijos

Rui Herbon disse...

O meu primeiro post foi sobre o Cortázar. Aqui, apesar da ameaça de encerramento (talvez tenha sido para balanço, como era costume nas pastelarias e outros estabelecimentos) talvez seja de recomeço. Parece-me um bom augúrio.

Bom ano.