01/03/10

Para quem já leu Don DeLillo esta rapaziada não espanta de onde não se deve inferir que a vontade de a encher de estalos seja menor

Os engenheiros – dantes – eram do Técnico. Sei do que falo. Menina e moça saída de casa de minha mãe, frequentei diariamente o Técnico durante cerca de dois anos em turnos semanais intercalados, ora das 8 às 17h, ora das 12 às 21h. Era 3ª ajudante de cozinha e lavava pratos.
Lavar pratos é força de expressão. Quem os lavava era uma máquina diabólica que encravava sempre comigo. Na cantina não gostavam muito de mim. Fora contratada através da Associação de Estudantes, o que me conferia o estatuto de penetra, vista pelas residentes como uma petulante que andava por ali a brincar aos jantarinhos. No Verão punham-me ao fogão, no Inverno mandavam-se descascar cebolas. Mas a grande vingança – transversal a qualquer estação do ano – era a máquina da loiça.
Passo a explicar como a coisa funcionava. Não difere muito da demonstração feito por Chaplin no início de “Tempos Modernos”.
Uma pessoa encarregue dos tabuleiros devolvidos pelos comensais retirava os restos de comida e ia amontoando pratos e tigelas junto do lava-louças. Varreram-se-me da memória copos e talheres, mas das tigelas da sopa em alumínio lembro-me bem porque a operação de as descolar uma a uma era per si um castigo.
Descoladas, havia que as passar por água, e o mesmo para os pratos, após o que se encaixava o vasilhame nos tabuleiros da máquina. O ritmo era infernal sobretudo por causa das tigelas.
Por tradição, havia duas pessoas nomeadas para a tarefa. Uma que passava a louça por água e a dispunha nos tabuleiros; outra que a retirava dos tabuleiros, os quais, entretanto, após entrarem no aparelho de lavagem, deslizavam por um balcão que desaguava numa parede.
Como eu não era bem-vinda, a mim nunca ninguém me ajudava. O desfecho era um engarrafamento de bandejas, fatalmente assinalado pelo apito estridente da máquina quando a procissão entupia.
Fui-me habituando. Passados largos meses de iniciação ao culto, acabei eleita delegada sindical mas, desiludida com a implacabilidade demonstrada pelas minhas camaradas de ofício, arruinada, pois, a minha visão romântica do proletariado e similares, para o que muito havia contribuído a leitura de “Os Subterrâneos da Liberdade” de Jorge Amado, demiti-me de 3ª ajudante e pedi no Comité Central que me enviassem para o campo.
Resultado, talvez, da minha condição de algarvia, o campo para mim é verde. Sonhava com o Minho, condescendia com Trás-os-Montes, no fundo ambicionava o Gerês. Mandaram-me para o Alentejo.
Era Agosto e não havia água. Fiquei a morar em casa de um casal de médicos, na cidade, e a única camponesa que conheci foi uma ceifeira de olhos claros que se tomara de amores por um camarada regente agrícola e cujo marido, a dada altura, comprou uma caçadeira para matar os dois.
Algo desiludida com a experiência agrária, vim um fim-de-semana a Lisboa: havia uma reunião importante. Desejosa de rever gente, tomar banho de imersão e dar um salto ao cinema, fui confrontada com uma recepção singular. Na reunião, uma assembleia-geral de qualquer coisa, os meus camaradas de sempre dirigiam-me a palavra a medo. Só no final percebi porquê. Amigo de longa data cujo nome não vou revelar veio falar-me visivelmente incomodado e com um papel na mão. O papel continha uma lista – francamente exagerada – de nomes masculinos com os quais eu teria tido “relações ilícitas”. Eram os tempos da moral proletária e havia uma revolucionarização em curso. Pediam-me confirmações.
Com alguma presença de espírito, respondi que aquele era um assunto privado, que ninguém tinha nada com isso, e apanhei o comboio para casa. A presença de espírito foi de curta duração e reconheço que me fartei de chorar, acabando por acalmar as lágrimas no ombro de um compagnon de route que vivia para os meus lados, o que me levou a concluir que – definitivamente – a moral proletária não era feita para mim. Voltei ao Alentejo, fiz as malas, despedi-me da ceifeira desejando-lhe boa sorte e fui à minha vida.
Tudo isto – porque as memórias são como as cerejas – para dizer que os engenheiros – dantes – eram do Técnico. Agora não.
A engenharia tornou-se financeira, povoada de rapazolas do marketing que vestem Hugo Boss, Armani e fatos à medida (não tenho a certeza, mas julgo que a Hermès ainda assim os intimida) e viagens só de jacto. Sem dinheiro (substancial) de família, quase sempre com origem na província, encostam-se à bananeira do Estado, vivem em casas minimalistas e imaculadas nas quais um ou outro móvel antigo comprado em antiquários tenta compor um passado inexistente, deslocam-se em jaguares ou parecido, não prescindem de personal trainer embora nada percebem de golfe e sejam nulos no ténis, habitualmente anafados o futebol puxa-lhes sempre para o chinelo e aos fins-de-semana, pelo menos até há pouco, eram vistos na Kapital no engate de menores.
Afinal, nada que – com as devidas diferenças – Don DeLillo já não nos tivesse descrito. A Portugal só chegaram no século XXI o que, pelo menos a mim confesso, me apanhou de surpresa.

28/02/10

Pois é, isto anda por aí muita gente deprimida

Apesar da auto-estima de Amado que garante que lá fora é só elogios, nunca vi tanta gente deprimida por metro quadrado. Tenho para mim que tudo começou quando os portugueses assistiram pela tv às lágrimas de Carlos Cruz (claro que também podíamos recuar aos tempos de Afonso Henriques para concluir que uma nação que começa com um filho a tentar matar a mãe não augura grande futuro...).
Sem ir tão longe, diria que a partir do choro em directo tudo se precipitou. A crise ajudou à festa, Sócrates ajudou à festa, o PS ajudou à festa, o PSD ajudou à festa, o CDS ajudou à festa, o BE entrou em força na festa e o PC só gosta de festejar sozinho. De Cavaco não vale a pena falar.
Num país sem independentes a sério e onde poucos são aqueles que não têm telhados de vidro, com elites de merda, gente malcriada*, mergulhado num novo-riquismo ignorante que permite a uma empresa parceira do Estado afirmar que vende painéis solares que funcionam maravilhosamente com céu nublado, chuva e durante a noite e ninguém no governo se pergunta com que raio de energia funcionam afinal, estupidamente hipnotizado pelas “novas tecnologias” à prova de choque, seduzido por uma modernidade bolorenta que obrigou Portugal a mudar-se para a West Coast e o Algarve a dois LL, tudo antes do acordo ortográfico, onde a elementar decência é vista como burrice e a vigarice prova de inteligência, onde a autoridade se confunde com autoritarismo e à costumeira inveja se alia o encolher de ombros… Pois bem, consola-me que no meio disto tudo, assim como assim, haja tantos deprimidos: “Não é de admirar que a depressão seja hoje um mal tão comum. É quase reconfortante. É sinal que no íntimo das pessoas ainda resta o desejo de serem mais humanas.” (Disse-me um Adivinho, Tiziano Terzani, Tinta-da-China)
O problema, claro, está no quase. E nos que nunca deprimem.
*Cabe na cabeça de alguém, um primeiro-ministro, canastrão ou não canastrão quero lá saber, ser convidado de uma das poucas fábricas que funcionam em Portugal e pôr-se a fazer publicidade à concorrência directa? (ouvir aqui)

26/02/10

Nunca ganhará o nobel da literatura mas, sem querer armar-me na Cristina da Suécia que a mim também ninguém me trata por chefe, ganhou o meu apreço

... sem negar que tudo aquilo é muito confrangedor (tirando talvez a voz fantástica do senhor sentado ao lado do José António Saraiva que não sei como se chama) e quanto às perguntas do PS nem falo.
Ou só isto (parafraseando as palavras de Francisco Assis acerca da possibilidade da Assembleia da República avançar mesmo para uma comissão de inquérito parlamentar): "O PS não está interessado em esclarecer seja o for e concentrou-se num único objectivo: pôr em causa o carácter dos convidados incómodos."
imagem de José António Saraiva roubada daqui

Este PS é um nojo e à Inês de Medeiros alguém lhe devia explicar que o parlamento assim como assim não é um kindergarten

Não tenho canal Parlamento mas ouvi hoje nos seus arquivos online a audição de Felícia Cabrita numa coisa chamada Comissão de Ética, Sociedade e Cultura. Era só isso.

25/02/10

A Hitler o que é de Hitler, a Goebbels o que é de Goebbels, a Sócrates o que é de Sócrates e quanto à propaganda nada de novo no reino da Dinamarca

Aqui umas postas abaixo referi-me à atitude do Primeiro-Ministro sempre que confrontado com os vários escândalos que vêm rodeando a sua vida política. Exemplificando, remeti para artigo do jornal Expresso cujo título era “Sócrates diz-se alvo de mais um ataque pessoal”.
A recorrente estratégia de vitimização de José Sócrates conduziu-me a uma das regras básicas de propaganda: repetir muitas vezes a mesma coisa e, já agora, de preferência uma coisa simples. A prova da eficácia desta regra é que ainda hoje me lembro do OMO lava mais branco.
Vai daí citei Goebbels, um incontestável mestre na matéria.
Um parênteses: o autor da frase transcrita (em inglês) não é, contudo, Goebbels mas sim o próprio Hitler.
E dado que um comentador do referido post, A. Teixeira, me fez notar, com razão, que naquela altura os políticos ainda não falavam todos em inglês (técnico ou não técnico) aqui deixo a citação no original, retirada do “Mein Kampf” (Primeira Parte, Capítulo VI):
Aber alle Genialität der Aufmachung der Propaganda wird zu keinem Erfolge führen, wenn nicht ein fundamentaler Grundsatz immer gleich scharf berücksichtigt wird. Sie hat sich auf wenig zu beschränken und dieses ewig zu wiederholen. Die Beharrlichkeit ist hier wie bei so vielem auf der Welt die erste und wichtigste Voraussetzung zum Erfolg.
Confusão esclarecida, adiante.
Tomás Vasques resolveu linkar simpaticamente o meu post. Agradeço-lhe desde já o aumento significativo de visitas a este modesto tasco, mas houve uma confusão.
Diz Tomás:
A Ana Cristina Leonardo compara José Sócrates a Goebbels, a propósito de uma recente declaração do primeiro-ministro. É uma comparação de efeito fácil. Tão fácil que me permite repetir: nada de novo no reino da propaganda. Portanto.
Ora eu não comparei Sócrates a Goebbels (dado o meu engano teria mesmo comparado Sócrates a Hitler).
O que eu comparei foram estratégias propagandísticas. Naturalmente, não é a mesma coisa.
E não os comparei, por duas razões.
Primeiro e acima mesmo de tudo por evidente respeito pelas vítimas do nazismo.
Segundo, porque como uma vez escreveu António Barreto também eu não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí.
Dito isto, um comentário final e dirigido pessoalmente ao Tomás.
Ali no canto direito do blogue tenho uma frase que não é minha mas que se quiser citar, essa sim, resume mesmo ― mas mesmo mesmo ― o que eu penso de Sócrates (e de muitos outros). É do humorista judeu norte-americano Lewis Black e não me canso de repeti-la. Diz assim:
In my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants.

23/02/10

Por contraste com gente estúpida, cite-se um ser inteligente

Sir Stanford Raffles, em 1819, teve toda a razão em escolher Singapura como base da Companhia das Índias. Quem quisesse navegar para Sudeste evitando as monções tinha de passar por ali. A situação geogáfica de Singapura era a sua riqueza. Ainda hoje assim é, por isso Singapura é uma das grandes encruzilhadas marítimas do mundo. Um encruzilhada muito vulnerável, porém.
Bastaria abrir um canal no ponto mais estreito da península malaia, o istmo de Kra, para permitir poupar centenas de milhas marítimas a todos os navios que se dirigem da Europa para a Tailândia, Indochina, Filipinas, China, Japão e vice-versa. Com esse canal, de que se ouve falar de vez em quando, Singapura seria posta de parte e depressa se tornaria uma cidade morta, como as que cresceram e finaram no âmbito da corrida ao ouro, na América.
Lee Kuan Yew e os seus homens sabem disso e estão já a reciclar Singapura, a prepará-la para o seu novo papel, o de capital informática da Ásia, na realidade a primeira «cidade inteligente» integrada do mundo.
Singapura já hoje é a cidade com mais rôbots per capita do mundo, um dos locais mais informatizados da região e com o mais elevado conhecimento informático da população. Por toda a parte há computadores e em todo o lado se fazem cursos para aprender a usá-los. Desta forma, nesta ilha onde o materialismo grassa e onde o dinheiro já é o único critério de sucesso e moralidade, surge mais um factor de mesquinhez: a lógica binária dessas máquinas que estão a mudar não só o modo como as pessoas trabalham, mas também como pensam.
«Isto é o futuro», ouvia repetir em Singapura e deprimia-me terrivelmente a ideia de que pudesse ser não só o futuro de Singapura mas também o de milhões de outros asiáticos. E se calhar também o nosso.
Antigamente nas escolas - nas de Singapura também - ensinava-se a pensar. Agora ensina-se sobretudo a programar. Mas o que é que acontece a uma sociedade que cresce assim, sem o distinguo, apenas com a lógica do «sim» e do «não» dos computadores? O que é que acontece na cabeça das crianças que crescem com a impressão de que há solução para todos os problemas e que tudo é, quanto muito, uma questão de software?
Singapura metia-me medo porque em grande parte já funciona assim. O Estado é o computador e a sociedade é regulada, tal como a temperatura, por uma espécie de termóstato electrónico. Observa-se que os filhos dos intelectuais têm um quociente de inteligência mais elevado do que os outros? Então encorajam-se a procriar sobretudo os docentes universitários. Observa-se que os jovens não se casam em número suficiente? O Estado cria uma unidade especial de expansão social que organiza cruzeiros e bailes para facilitar as uniões.
Um dia descobre-se que esta cidade rica e moderna é enfadonha, sem cultura e sem arte? Vai-se buscar um general ao exército e faz-se dele ministro. Ele se encarregará de dar ordens para que a cultura e as artes floresçam.
(...)
in Disse-me um Adivinho, Tiziano Terzani, Tinta-da-China, 2009
Fotografia de Tiziano Terzani retirada daqui.

22/02/10

Políticos de todo o mundo, uni-vos!

Há qualquer coisa de bizarro nas últimas levas de políticos que nos devia inquietar. E não falo exclusivamente de Portugal onde um primeiro-ministro resiste há anos a várias campanhas negras e ainda hoje um administrador da PT confessou sentir-se perseguido por fantasmas.
Dando uma volta, só na vizinhança.
Em Itália, Berlusconi é o que se sabe. Em França, Sarkozy excede-se em amor filial. Em Espanha, Zapatero, o menino de ouro do PSOE, perdão, o maquiavélico de Léon, clama por uma moção de censura da oposição, plasmando a atitude do PS português e dando a estas palavras de Ricardo Araújo Pereira na última Visão uma dimensão ibérica:
"(...) o que se passa é isto: neste momento, Portugal [leia-se Espanha] tem um Governo que não se demite mas acha que a oposição devia demiti-lo, e uma oposição que não o demite mas acha que ele devia demitir-se."
E quando na Europa mais de 80% dos cidadãos consideravam, em 2009, os políticos corruptos, as recentes e patéticas palavras de Gordon Brown só servirão para compor o ramalhete.
Acusado de passar das marcas e intimidar fisicamente os seus colaboradores, o primeiro-ministro britânico jurou a pés juntos: "I have never, never hit anybody in my life."
Que raio de gente é esta? Pergunto. Terá nascido das ervas? Ou será o resultado de alguma macumba marada?

20/02/10

A literatura portuguesa na alcova

Há dias o Ipsilon editava um trabalho sobre o erotismo na literatura nacional. O erotismo, o sexo, sei lá. Parece que a coisa está mal, por estas bandas. O erotismo, ou mesmo a literatura. O Autor do artigo confessava algumas limitações. Desde o MEC que se pode escrever fodido. Não se pode foder, mas pode-se escrever fodido. Ora o Autor confessa que, quinze anos depois, não se permite utilizar palavras começadas por c. Vão ser precisos mais MECs, mais quinze anos, até os escritores portugueses chegarem ao c.
Este Autor entrevistou Escritores e a todos perguntou se tinham jeito. Os entrevistados, incontornáveis, declararam que as cenas de camas são más - quando escritas por outros -, que os escritores portugueses - os outros -, não são mestres no género. O cronista em quem João Bénard da Costa encarnou também foi ouvido. Afinou pelo mesmo diapasão. Os escritores portugueses são muito bons a dizer que a literatura erótica portuguesa é fraca.
Post roubado com a devida vénia daqui e ilustrado por José Vilhena.

18/02/10

Conversas em família: vira o disco e toca o mesmo

Sócrates diz-se [hoje] alvo de mais um ataque pessoal; há uns anos Goebbels disse: "The most brilliant propagandist technique will yield no success unless one fundamental principle is borne in mind constantly ― it must confine itself to a few points and repeat them over and over”.
Nada de novo no reino da propaganda. Portanto.

Vómito: depois do socialismo na gaveta, o socialismo na latrina

[se clicar na imagem lê melhor]

Jobs for the boys: lições para o futuro

A notícia é boa. O rapaz demitiu-se. Claro que uma andorinha não faz a Primavera e ainda por cima é Inverno, isto para não citar Vítor Direito que um dia escreveu no República antes do 25 de Abril: "Manhã de nevoeiro transforma a cidade (…) Não se vê um palmo à frente do nariz (…) Andam por aí certos senhores, feitos meteorologistas de trazer por casa, a prever 'boas abertas'. Mas o nevoeiro persiste."
Persiste. No entretanto, deixo-vos com a melhor conclusão lida acerca do caso.
Acabou a aventura de Rui Pedro Soares na Administração da PT. Agora, por favor, não vão recrutar mais administradores ao telemarketing. Aqui.

A book a day keeps the doctor away

Novela belíssima onde se entrevê o que virá a ser esse romance portentoso chamado “Guerra e Paz”, Tolstói levou cerca de uma década para escrever/reescrever esta aventura passada no Cáucaso, recorrendo para isso à sua própria experiência na região, enquanto jovem militar do exército russo.
“Cossacos”, que só seria publicado em 1863, servindo então para pagar uma dívida de jogo do conde russo, é o último livro do seu primeiro período, imediatamente anterior às duas obras-primas que são “Guerra e Paz” e “Anna Karénina”.
Narra as aventuras de Olénin, um jovem sub-oficial que um dia decide trocar a vida citadina de Moscovo por um porvir cheio de promessas homéricas em terras distantes e primitivas: “Todos os sonhos sobre o futuro se juntavam com imagens do Amalat-Bek, das circassianas, dos montes, despenhadeiros, rios de rapidíssima e terrível corrente e dos perigos.”
A novela põe em jogo os dilemas morais recorrentes na obra de Tolstói, traduzidos aqui no antagonismo entre uma vida assente na “lei natural” – a que Olénin vai encontrar no Cáucaso – e o artificialismo das regras sociais que ele conhecia da cidade civilizada. Pelo meio há uma história de amor, personagens fortíssimas, como a do velho Erochka, para o qual não existe pecado, e, sobretudo, há essa capacidade extraordinária de Tolstói para nos dar a ver, de um modo rigoroso e ainda assim compassivo, o fluir complexo da existência humana.
Lev Tolstói, Cossacos – Novela do Cáucasso, Relógio D'Água, 2010

17/02/10

Quando por razões ideológicas se é incapaz de rir de uma piada não há orientação sexual que nos salve

A piada está aqui. A indignação na caixa de comentários deste post.
Como em tudo, porém, o melhor é citar os clássicos. E é por isso que cito Lillian Hellman que, quando lhe perguntaram porque nunca tinha apoiado abertamente a causa gay, respondeu: "The forms of fucking do not require my endorsement".

16/02/10

Não levem a mal a pergunta, mas será que os escolhem todos a dedo?

Na imagem, Rui Paulo Figueiredo, o assessor de José Sócrates que é notícia aqui.
Ler, por favor, este post à luz deste.

De como a minha aversão juvenil aos abaixos-assinados me livrou de cair nas malhas do PC e agora é isto

Em tempos que já lá vão, ainda havia primeira e segunda classes na linha de Cascais, fui parar a um encontro clandestino nas traseiras da estação de comboios de S. João do Estoril. Apesar da clandestinidade da coisa, a reunião decorreu sem sobressaltos em campo aberto, ou seja, num pequeno jardim que creio ter sido entretanto transformado em parque de estacionamento. Devíamos ser umas dezenas. Duas no máximo, claro. Todos estudantes do secundário. Os do liceu local (na altura, chamado liceu de Cascais) e os de fora, um pouco mais velhos. Os primeiros teriam 13, 15 anos, os outros 16, 17. Os de fora dirigiam a reunião.
Enfrentavam-se duas linhas. Uma mais radical, que propunha greves e manifestações; outra, menos radical, que propunha abaixo-assinados. Talvez se tenha chegado a votos, não me lembro. Sei que um dos alienígenas era o Miguel Portas, valha a verdade o único UEC civilizado que conheci durante os meus tempos de estudante revoltada. Eu que na altura não gaguejava em público fartei-me de dizer coisas e de fazer perguntas e, como seria de prever dada a tradição familiar, decidi-me pelas greves e manifestações. O Miguel Portas, suponho que vendo em mim um recrutamento em potência, no final pediu para me falar à parte. Respondi-lhe do alto dos meus 12, 13 anos: “Falar, podes à-vontade, mas olha que não me convences!” O futuro deputado europeu não perderia muito tempo comigo: em menos de cinco minutos ter-me-á diagnosticado com propriedade a doença infantil do comunismo.
E ocorreu-me isto a propósito da quantidade de abaixo-assinados que andam a correr pela NET, alguns subscritos por mim. A democracia amolece-nos, é o que é. O Portas acabou em Bruxelas, eu numa Pastelaria.

13/02/10

A coisa está a subir ainda mais de nível: Granadeiro diz-se "encornado"

Cá para mim, as desconfianças de Granadeiro, o encornado confesso, devem ter começado naquele dia em que ouviu o primeiro-ministro garantir na Assembleia que o governo se ia opor a um negócio que já sabia não existir, conforme ele próprio, Granadeiro, informara no dia anterior José Sócrates em casa de Manuel de Pinho.
Na altura declarou:"Não percebo isso. Fiquei um bocado surpreendido". Pois devia ter percebido.

12/02/10

Ainda não está tudo parvo lá para as bandas do PS (II) ou há quem chame os bois pelos nomes

Eu não sei quem é esse tal Rui Pedro Soares, o boy sem cv que aos 32 anos foi alçado a administrador-executivo da PT pelo Estado, a ganhar escandalosamente mais num ano do que o meu marido ganhou em toda a vida, ao longo de 40 anos como servidor do Estado nos mais altos escalões.
Socialista encartado, dizem. Será, nunca dei por ele, que eu saiba nunca sequer me cruzei com ele.
Fraquinho no descernimento é, de certeza. Porque se não quis encalacrar os socialistas, foi exactamente isso que logrou ao accionar uma providência cautelar para impedir a saída do jornal SOL com mais escutas das suas ruminações telefónicas, justamente numa semana em que os socialistas procuraram desmentir quem clamava contra a falta de liberdade da imprensa.
E se investiu para abafar o jornal, a criatura tambem não percebeu que, ao contrário, projectava ainda mais longe a radiação solar.
Com bóis destes, para que servem ao PS os boys?
Ana Gomes, AQUI

Resumo das notícias do Sol. E volto a pedir uma aspirina.

Ainda não está tudo parvo lá para as bandas do PS embora ao Cravinho também o tivessem chutado para canto

As escutas divulgadas no âmbito do processo «Face Oculta» são uma questão de Estado que assim devem ser tratadas, considera João Cravinho. O socialista defende que o Governo deve «provar e convencer os portugueses de que as suspeitas que estão a transformar o país num pântano não têm razão de ser».
«Isto é uma grande questão de Estado e as grandes questões de Estado tratam-se no plano político, frontalmente, com argumentos convictos e com força. Não podem ser chutadas para canto nem podem ser cobertas por floreados formais», disse, esta quarta-feira, no seu espaço de opinião na Renascença.
«É do interesse do Governo, é, fundamentalmente, do interesse do país, da defesa das instituições democráticas, é prova fundamental de sentido de Estado reconhecer que se trata de um problema grave e atacar este problema com a força, a verdade e a convicção que é preciso nestas coisas dando os esclarecimentos que forem necessários e até onde forem necessários», sublinhou.
DAQUI
E, já que estamos com a mão na massa, relembre-se ISTO dos idos de 2007.

Isto não será muito científico mas cada vez mais me convenço que quem vê caras vê corações

Rui Pedro Soares, 36 anos, uma carreira consolidada na PT.
Boneco roubado daqui

11/02/10

Há uma coisa chamada providência cautelar e outra chamada desobediência civil. Entre um tal Rui Pedro Soares e o Thoreau alguém tem dúvidas?

Um tal Rui Pedro Soares conseguiu em tribunal uma providência cautelar que visa impedir o semanário Sol de publicar esta sexta-feira mais escutas relacionadas com o negócio PT/TVI.
Felizmente, ao que parece, as edições do jornal destinadas a Angola, Moçambique e Cabo Verde já haviam seguido caminho. Não sei se ficaram, ou se ficarão, retidas no aeroporto. Em qualquer caso, assino por baixo o que diz Joaquim Vieira:
"Há suspeitas graves que envolvem pessoas do aparelho de Estado. Não havendo ninguém interessado em desvendar o assunto, cabe aos jornalistas fazê-lo no âmbito do direito à informação, princípio consagrado na Constituição”, continua.
“Que processem os jornalistas. Em última instância, o assunto vai até ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e, aí, certamente que serão absolvidos”.

E assino por baixo também daquilo que escreveu Henry David Thoreau, nos idos de 1849, ainda nenhum destes chicos-espertos era nascido. Chama-se "Desobediência Civil" e começa assim:
«Aceito com entusiasmo o lema "O melhor governo é o que menos governa"; e gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente. Levado às últimas consequências, este lema significa o seguinte, no que também creio: "O melhor governo é o que não governa de modo algum"; e, quando os homens estiverem preparados, será esse o tipo de governo que terão. O governo, no melhor dos casos, nada mais é do que um artifício conveniente; mas a maioria dos governos é por vezes uma inconveniência, e todo o governo algum dia acaba por ser inconveniente.(...)»
Não sei se o Louçã o terá lido em moço.