01/03/10

Para quem já leu Don DeLillo esta rapaziada não espanta de onde não se deve inferir que a vontade de a encher de estalos seja menor

Os engenheiros – dantes – eram do Técnico. Sei do que falo. Menina e moça saída de casa de minha mãe, frequentei diariamente o Técnico durante cerca de dois anos em turnos semanais intercalados, ora das 8 às 17h, ora das 12 às 21h. Era 3ª ajudante de cozinha e lavava pratos.
Lavar pratos é força de expressão. Quem os lavava era uma máquina diabólica que encravava sempre comigo. Na cantina não gostavam muito de mim. Fora contratada através da Associação de Estudantes, o que me conferia o estatuto de penetra, vista pelas residentes como uma petulante que andava por ali a brincar aos jantarinhos. No Verão punham-me ao fogão, no Inverno mandavam-se descascar cebolas. Mas a grande vingança – transversal a qualquer estação do ano – era a máquina da loiça.
Passo a explicar como a coisa funcionava. Não difere muito da demonstração feito por Chaplin no início de “Tempos Modernos”.
Uma pessoa encarregue dos tabuleiros devolvidos pelos comensais retirava os restos de comida e ia amontoando pratos e tigelas junto do lava-louças. Varreram-se-me da memória copos e talheres, mas das tigelas da sopa em alumínio lembro-me bem porque a operação de as descolar uma a uma era per si um castigo.
Descoladas, havia que as passar por água, e o mesmo para os pratos, após o que se encaixava o vasilhame nos tabuleiros da máquina. O ritmo era infernal sobretudo por causa das tigelas.
Por tradição, havia duas pessoas nomeadas para a tarefa. Uma que passava a louça por água e a dispunha nos tabuleiros; outra que a retirava dos tabuleiros, os quais, entretanto, após entrarem no aparelho de lavagem, deslizavam por um balcão que desaguava numa parede.
Como eu não era bem-vinda, a mim nunca ninguém me ajudava. O desfecho era um engarrafamento de bandejas, fatalmente assinalado pelo apito estridente da máquina quando a procissão entupia.
Fui-me habituando. Passados largos meses de iniciação ao culto, acabei eleita delegada sindical mas, desiludida com a implacabilidade demonstrada pelas minhas camaradas de ofício, arruinada, pois, a minha visão romântica do proletariado e similares, para o que muito havia contribuído a leitura de “Os Subterrâneos da Liberdade” de Jorge Amado, demiti-me de 3ª ajudante e pedi no Comité Central que me enviassem para o campo.
Resultado, talvez, da minha condição de algarvia, o campo para mim é verde. Sonhava com o Minho, condescendia com Trás-os-Montes, no fundo ambicionava o Gerês. Mandaram-me para o Alentejo.
Era Agosto e não havia água. Fiquei a morar em casa de um casal de médicos, na cidade, e a única camponesa que conheci foi uma ceifeira de olhos claros que se tomara de amores por um camarada regente agrícola e cujo marido, a dada altura, comprou uma caçadeira para matar os dois.
Algo desiludida com a experiência agrária, vim um fim-de-semana a Lisboa: havia uma reunião importante. Desejosa de rever gente, tomar banho de imersão e dar um salto ao cinema, fui confrontada com uma recepção singular. Na reunião, uma assembleia-geral de qualquer coisa, os meus camaradas de sempre dirigiam-me a palavra a medo. Só no final percebi porquê. Amigo de longa data cujo nome não vou revelar veio falar-me visivelmente incomodado e com um papel na mão. O papel continha uma lista – francamente exagerada – de nomes masculinos com os quais eu teria tido “relações ilícitas”. Eram os tempos da moral proletária e havia uma revolucionarização em curso. Pediam-me confirmações.
Com alguma presença de espírito, respondi que aquele era um assunto privado, que ninguém tinha nada com isso, e apanhei o comboio para casa. A presença de espírito foi de curta duração e reconheço que me fartei de chorar, acabando por acalmar as lágrimas no ombro de um compagnon de route que vivia para os meus lados, o que me levou a concluir que – definitivamente – a moral proletária não era feita para mim. Voltei ao Alentejo, fiz as malas, despedi-me da ceifeira desejando-lhe boa sorte e fui à minha vida.
Tudo isto – porque as memórias são como as cerejas – para dizer que os engenheiros – dantes – eram do Técnico. Agora não.
A engenharia tornou-se financeira, povoada de rapazolas do marketing que vestem Hugo Boss, Armani e fatos à medida (não tenho a certeza, mas julgo que a Hermès ainda assim os intimida) e viagens só de jacto. Sem dinheiro (substancial) de família, quase sempre com origem na província, encostam-se à bananeira do Estado, vivem em casas minimalistas e imaculadas nas quais um ou outro móvel antigo comprado em antiquários tenta compor um passado inexistente, deslocam-se em jaguares ou parecido, não prescindem de personal trainer embora nada percebem de golfe e sejam nulos no ténis, habitualmente anafados o futebol puxa-lhes sempre para o chinelo e aos fins-de-semana, pelo menos até há pouco, eram vistos na Kapital no engate de menores.
Afinal, nada que – com as devidas diferenças – Don DeLillo já não nos tivesse descrito. A Portugal só chegaram no século XXI o que, pelo menos a mim confesso, me apanhou de surpresa.

7 comentários:

João Lisboa disse...

Dáles!... :)

Já te respondi lá no outro lado.

Carlos Azevedo disse...

Enchê-los de estalos, não resolvendo o problema, saberia muito bem!

sem-se-ver disse...

vou-lhe confessar uma coisa:

considero que tenho muito sentido de humor (rio-me imenso de mim própria, por exemplo, também tenho basto material para isso) mas raras vezes rio ou dou gargalhadas com um texto encontrado na blogosfera.

pronto, era só isto. obrigada por me ter feito rir.

Anónimo disse...

Afínfales! ;)

Ana Cristina Leonardo disse...

Ainda bem que se riram; eu também. apanhar de ter sido apanahada de surpresa

lili disse...

O meu marido é do Técnico, entrou em 74, lol.
Não tem Jaguar, nem veste Armani.

Segundo me diz a cantina do Técnico era a pior de Lisboa e arredores, um dia, ele e uma namorada, a única que teve até me ter a mim, ficaram presos dentro da cantina, onde viram passar ratazanas e coisas afins; tempos revolucionários.

Ana Cristina Leonardo disse...

Lili,
O meu marido é do Técnico, entrou em 74, lol.
Não tem Jaguar, nem veste Armani.

Precisamente. É do Técnico.

Segundo me diz a cantina do Técnico era a pior de Lisboa e arredores,

A de Ciências tb. era muito habitada. Uma tradição que já vinha de antes do 25 de Abril.