23/02/10

Por contraste com gente estúpida, cite-se um ser inteligente

Sir Stanford Raffles, em 1819, teve toda a razão em escolher Singapura como base da Companhia das Índias. Quem quisesse navegar para Sudeste evitando as monções tinha de passar por ali. A situação geogáfica de Singapura era a sua riqueza. Ainda hoje assim é, por isso Singapura é uma das grandes encruzilhadas marítimas do mundo. Um encruzilhada muito vulnerável, porém.
Bastaria abrir um canal no ponto mais estreito da península malaia, o istmo de Kra, para permitir poupar centenas de milhas marítimas a todos os navios que se dirigem da Europa para a Tailândia, Indochina, Filipinas, China, Japão e vice-versa. Com esse canal, de que se ouve falar de vez em quando, Singapura seria posta de parte e depressa se tornaria uma cidade morta, como as que cresceram e finaram no âmbito da corrida ao ouro, na América.
Lee Kuan Yew e os seus homens sabem disso e estão já a reciclar Singapura, a prepará-la para o seu novo papel, o de capital informática da Ásia, na realidade a primeira «cidade inteligente» integrada do mundo.
Singapura já hoje é a cidade com mais rôbots per capita do mundo, um dos locais mais informatizados da região e com o mais elevado conhecimento informático da população. Por toda a parte há computadores e em todo o lado se fazem cursos para aprender a usá-los. Desta forma, nesta ilha onde o materialismo grassa e onde o dinheiro já é o único critério de sucesso e moralidade, surge mais um factor de mesquinhez: a lógica binária dessas máquinas que estão a mudar não só o modo como as pessoas trabalham, mas também como pensam.
«Isto é o futuro», ouvia repetir em Singapura e deprimia-me terrivelmente a ideia de que pudesse ser não só o futuro de Singapura mas também o de milhões de outros asiáticos. E se calhar também o nosso.
Antigamente nas escolas - nas de Singapura também - ensinava-se a pensar. Agora ensina-se sobretudo a programar. Mas o que é que acontece a uma sociedade que cresce assim, sem o distinguo, apenas com a lógica do «sim» e do «não» dos computadores? O que é que acontece na cabeça das crianças que crescem com a impressão de que há solução para todos os problemas e que tudo é, quanto muito, uma questão de software?
Singapura metia-me medo porque em grande parte já funciona assim. O Estado é o computador e a sociedade é regulada, tal como a temperatura, por uma espécie de termóstato electrónico. Observa-se que os filhos dos intelectuais têm um quociente de inteligência mais elevado do que os outros? Então encorajam-se a procriar sobretudo os docentes universitários. Observa-se que os jovens não se casam em número suficiente? O Estado cria uma unidade especial de expansão social que organiza cruzeiros e bailes para facilitar as uniões.
Um dia descobre-se que esta cidade rica e moderna é enfadonha, sem cultura e sem arte? Vai-se buscar um general ao exército e faz-se dele ministro. Ele se encarregará de dar ordens para que a cultura e as artes floresçam.
(...)
in Disse-me um Adivinho, Tiziano Terzani, Tinta-da-China, 2009
Fotografia de Tiziano Terzani retirada daqui.

1 comentário:

Carlos Azevedo disse...

Eh eh eh... Mais do que um mero contraste, trata-se de um verdadeiro eclipse.