
22/03/10
A corrupção [e a investigação] em Portugal subiu de nível: passou-se das caixas de robalos para os centros de mesa em cristal

21/03/10
Is it better to live as a monster, or die a good man? que Scorsese não faz a coisa por menos

Shutter Island é novamente sobre esse tema recorrente em Scorsese, as relações do Bem e do Mal mais o que fica no meio.
Perturbador, com um começo absolutamente extraordinário, uma fotografia magnífica e um Leonardo DiCaprio a comprovar que há homens que melhoram imenso com a idade, Shutter Island, na sua ambiguidade, recorda-nos que perante o Mal (essa realidade que há imensa gente a pensar que não existe) se calhar só nos resta sermos ratos ou resistir às cegas, quem sabe em direcção ao sacrifício. Porque das duas uma: ou a ética é fodida ou somos todos psicóticos.
Um filme para cinéfilos adultos.
19/03/10
E por falar em folhetim [vide post anterior] quando uma boa prosa é um boa prosa é uma boa prosa

18/03/10
Acabem lá com o folhetim, dissolvam o país, façam qualquer coisa

Entretanto, o número de desempregados subiu em relação a Fevereiro do ano passado 19,6% e veio a público que a PJ anda a vasculhar a PJ (prova insofismável de que nunca devemos ser membros de um clube que nos aceite como membro...), para saber o que é que uma carta em segredo de justiça fazia em casa de Vara; Vara, o homem que até hoje a única coisa que ganhou com a sua dedicação a Portugal e ao Partido foi uma caixa de robalos oferecida pelo Manuel Godinho, alegado Bibi do Face Oculta, sucateiro que também oferece sardinhas e pescada a quem seja amigo dele.
Enquanto decorriam estes acontecimentos, no PSD impusera-se a Lei da Rolha.
O PS vociferou Ai Jesus, seus estalinistas! mas, inesperadamente, Narciso Miranda veio dizer que os socialistas também mandariam muita gente para a Sibéria se pudessem, e que, aliás, só ainda não o expulsaram porque têm medo do que ele possa contar, o que foi de imediato desmentido pelo Presidente da Distrital do Porto, Renato Sampaio (que julgo não ser nada ao Sampaio mas nunca se sabe...), que garante que Narciso ainda só não foi para a rua porque anda sempre a mudar de morada, e por isso não lhe conseguem entregar a carta, carta essa, recorde-se, que não tem nada que ver com a que foi encontrada em casa do Armando, a qual ―casa ―parece que tem instalados uns painéis solares bestiais que abastecem sem problemas o forno onde ele costumava assar os robalos que lhe dava o Manuel e já não dá porque é o único que foi dentro.
Confusos? Também eu. Agora imaginem a Cândida.
Não é que o tema me empolgue ― o do casamento em geral, quero dizer ― mas tive mesmo que me rir com o Jorge Miranda
17/03/10
Parábola budista a propósito de Sócrates ter tomates [até, ao que parece, quando lhe trocam o nome]

Um monge que vivia retirado do mundo conseguira, após uma vida inteiramente dedicada à Meditação, caminhar sobre as águas. Um dia, passeando-se pela floresta à beira rio, encontrou Buda.
― Mestre! Mestre! ― gritou o monge para o Iluminado ― Ao fim de tanto tempo seguindo os teus ensinamentos, jejuando, castigando o corpo, negando as paixões, pois vê do que sou capaz.
E atravessou o rio para a outra margem sem sequer molhar os sapatos. No regresso, Buda perguntou-lhe:
― Quanto tempo demoraste a conseguir caminhar assim sobre as águas?
― Uma vida inteira. Cerca de quarenta anos.
― E porque gastaste tu quarenta anos numa coisa que, de barco, te demoraria nem cinco minutos?
Lembro-me sempre desta história quando me falam indiscriminadamente de coragem. E a muitos tenho ouvido falar da "coragem" de Sócrates perante "tantos ataques" [agora, até lhe trocaram o nome]. Pois bem. Eu cá, na minha opinião pessoal, acho que quem tem coragem devia ir para bombeiro. Isso sim, é admirável.
16/03/10
Ó Vitalino apanha as canas ou só vale a pena ler sobre política quando a política é tratada assim que o resto é maçada como diria o Pessoa

DAQUI, naturalmente.
15/03/10
Prémio Leya 2009 atribuído ao historiador moçambicano João Paulo Borges Coelho ― há muito que a literatura é outra coisa

À boleia dos versos de Natália ― “ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer”― arriscaria que entre as artes literária e culinária existem certas afinidades electivas. A culinária parte, todavia, em vantagem: os seus ingredientes base podem ser mais ou menos nobres ou mais ou menos variados; a literatura está confinada ao verbo ― alquimia de fracos recursos, vive do mistério que transforma a palavra vulgar em romanesca ou poética.
Nele entrados, terá de obrigatoriamente acontecer aquilo que o nobel J-M G Le Clézio resumiu assim: “Les mots ne veulent pas dire les sentiments, les passions ou les obsessions. Cela ne les intéresse pas. Ils vibrent et tremblent comme des oiseaux avant de crier" (in L'Inconnu sur la Terre). Acrescente-se ao manuseio do verbo o pesado lastro da história da literatura e perceber-se-á que contar (mais) uma história não basta.
João Paulo Borges Coelho tinha uma para contar. Melhor, várias. Escreveu O Olho de Hertzog e venceu o prémio Leya 2009.
O tempo da acção recua ao fim da Grande Guerra, o cenário fica na África Austral (entre Moçambique e a África do Sul), o protagonista é Hans Mahrenholz, um misterioso militar alemão que deambula por Lourenço Marques ― onde se cruza com uma plêiade de personagens, recriadas, umas (como a do jornalista mulato João Albasini de quem o livro reproduz alguns editoriais), ou imaginadas de raiz, outras ―, o cocktail doseado em partes exactas de História e thriller.
Quem é Hans Mahrenholz, chegado num zepelim de onde se atira de pára-quedas em socorro de um exército que já havia perdido a guerra? O que procura ele em Lourenço Marques, disfarçado de inglês sob o nome de Henry Miller? Quem é Rapsides, o homem da cicatriz? E Glück, essa figura sombria à luz da qual se vai desenhando Mahrenholz?
Estas perguntas delimitam o enredo; das respostas, infelizmente, não resulta um grande livro.
Borges Coelho ensaia estratégias conhecidas.
Alternância temática de capítulos (a fuga ao exército português no mato versus peripécias urbanas); alternância da primeira e terceira voz do narrador; tentativa de cruzamento dos tempos da acção dentro de um mesmo plano, vide mesmo parágrafo (de todo não conseguida, sobretudo atendendo a essa obra-prima de Saul Bellow intitulada A Autêntica); recurso hiper-realista a listas de publicidade de época (já ensaiado jocosamente, entre outros, por Camilo, mas que aqui pouco mais é do que um acrescento ornamental), analepses, encontros e desfechos forçados (inverosímeis no registo realista adoptado), inconsistência das personagens (mesmo João Albasini parece uma caricatura)…
Se a isto juntarmos a cacofonia das aliterações, as soluções frásicas duvidosas (“soluços molhados do tempo”, logo na primeira página), uma linguagem que não levanta voo e um esqueleto organizacional à vista, sobra o rigor histórico, o ineditismo do material ficcionado, uma ou outra imagem conseguida ("... caminhando pelos capinzais como se anda nas ruas da cidade, olhando as árvores como se olhasse as montras"), o jogo de identidades (ninguém é quem parece ser num tempo e espaço históricos que se encontram, eles mesmos, pejados de indefinições), e, sobretudo, esse achado delicioso do contabilista A.O. Salazar.
Encerrando o balanço estritamente literário (prémios e negócios à parte), diria que não basta ser historiador para escrever um romance histórico (leia-se Guerra e Paz) e que, em O Olho de Hertzog, Glück perde demasiado para Kurtz, sendo impossível ― além de inadmissível― entrados no século XXI, vir falar de arte literária e ignorar Conrad e Tolstói. Logo os dois. E que dois!
O Olho de Hertzog, João Paulo Borges Coelho, Leya, 2009
14/03/10
“Só morre quem quer” – José Gabriel Viegas (1942-2010)

Pouco a pouco, foi ficando desiludido com muita coisa. Triste. Depois ficou doente. Quando se anda desiludido e triste as doenças são mais difíceis de combater. Disseram-me ontem que desistiu.
“Só morre quem quer”. Li esta frase uma vez no Virgílio Ferreira e levei muitos anos a entendê-la.
12/03/10
Das pessoas sensíveis que leram Cormac, adoram Cormac mas não matam galinhas ou se a sociedade é o que é porque havia a escola de ser diferente?
Um miúdo atirou-se ao rio. Passados poucos dias um homem fez o mesmo. Não se conheciam. Entre eles, apenas uma coisa em comum: a escola. Um era aluno, o outro professor.
A morte do miúdo e a morte do homem fizeram manchete nos jornais e desencadearam imensos comunicados. De indignação, de consternação, de interpretação. Os dois teriam sido vítimas de violência. Psicológica, ou física ou ambas.
Ministério, Direcções-Gerais (o homem apresentava “fragilidades psicológicas”), pedagogos, psicólogos, associações de pais e associações de professores, a polícia (o miúdo “queria apenas chamar a atenção") e até os Partidos opinaram sobre o sucedido.
Os comentários foram de largo espectro, incluindo os que clamam por castigos exemplares e os que clamam por acompanhamentos exemplares. Comum a todos, a necessidade de repensar a escola.
A escola, claro, que tem as costas largas. Mas o que é a escola se não o reflexo, mais ou menos exacto, da vida fora da escola? Os estabelecimentos escolares tornaram-se mais violentos? E o que é a vida lá fora? Um mar de rosas?
Infelizmente Rousseau não tinha razão. Muito mais perto da verdade estará Cormac McCarthy.
Como no poema de Sofia, porém, “as pessoas sensíveis” que lêem Cormac e adoram Cormac “não são capazes de matar galinhas/ porém são capazes de comer galinhas”.
Modernas e progressistas ― adoram os Cohen! ―, mostram-se na verdade incapazes de perceber o velho xerife Bell. Aquele que escreve:
“Há uns tempos li nos jornais que um grupo de professores encontrou por acaso um inquérito que foi enviado nos anos trinta a um certo número de escolas de todo o país. Incluía um questionário sobre quais os problemas mais graves que aconteciam nas escolas. E encontraram também os formulários de respostas, que tinham sido preenchidos e devolvidos dos quatro cantos do país. E os problemas mais graves que os professores apontavam eram coisas como conversar nas aulas e correr pelos corredores. Mascar pastilha elástica. Copiar os trabalhos de casa. Coisas desse género. Então eles policopiaram uma data de exemplares e enviaram-nos para as mesmas escolas. Passados quarenta anos. Bom, algum tempo depois receberam as respostas. Violações, fogo posto, homicídio. Drogas. Suicídios. E eu ponho-me a pensar nisto. Porque muitas das vezes que eu digo que o mundo está a ir direitinho para o Inferno ou alguma coisa do género, as pessoas limitam-se a fazer-me um sorriso e dizem-me que eu estou a ficar velho. Que este é um dos sintomas. Mas cá no meu entender, se alguém não vê a diferença entre violar e assassinar pessoas e mascar pastilha elástica é porque tem um problema muito mais grave do que o meu. Quarenta anos também não é assim tanto tempo. Talvez os próximos quarenta anos façam acordar algumas pessoas da anestesia em que caíram. Se não for demasiado tarde.” (in Este País não É para Velhos)
A morte do miúdo e a morte do homem fizeram manchete nos jornais e desencadearam imensos comunicados. De indignação, de consternação, de interpretação. Os dois teriam sido vítimas de violência. Psicológica, ou física ou ambas.
Ministério, Direcções-Gerais (o homem apresentava “fragilidades psicológicas”), pedagogos, psicólogos, associações de pais e associações de professores, a polícia (o miúdo “queria apenas chamar a atenção") e até os Partidos opinaram sobre o sucedido.
Os comentários foram de largo espectro, incluindo os que clamam por castigos exemplares e os que clamam por acompanhamentos exemplares. Comum a todos, a necessidade de repensar a escola.
A escola, claro, que tem as costas largas. Mas o que é a escola se não o reflexo, mais ou menos exacto, da vida fora da escola? Os estabelecimentos escolares tornaram-se mais violentos? E o que é a vida lá fora? Um mar de rosas?
Infelizmente Rousseau não tinha razão. Muito mais perto da verdade estará Cormac McCarthy.
Como no poema de Sofia, porém, “as pessoas sensíveis” que lêem Cormac e adoram Cormac “não são capazes de matar galinhas/ porém são capazes de comer galinhas”.
Modernas e progressistas ― adoram os Cohen! ―, mostram-se na verdade incapazes de perceber o velho xerife Bell. Aquele que escreve:
“Há uns tempos li nos jornais que um grupo de professores encontrou por acaso um inquérito que foi enviado nos anos trinta a um certo número de escolas de todo o país. Incluía um questionário sobre quais os problemas mais graves que aconteciam nas escolas. E encontraram também os formulários de respostas, que tinham sido preenchidos e devolvidos dos quatro cantos do país. E os problemas mais graves que os professores apontavam eram coisas como conversar nas aulas e correr pelos corredores. Mascar pastilha elástica. Copiar os trabalhos de casa. Coisas desse género. Então eles policopiaram uma data de exemplares e enviaram-nos para as mesmas escolas. Passados quarenta anos. Bom, algum tempo depois receberam as respostas. Violações, fogo posto, homicídio. Drogas. Suicídios. E eu ponho-me a pensar nisto. Porque muitas das vezes que eu digo que o mundo está a ir direitinho para o Inferno ou alguma coisa do género, as pessoas limitam-se a fazer-me um sorriso e dizem-me que eu estou a ficar velho. Que este é um dos sintomas. Mas cá no meu entender, se alguém não vê a diferença entre violar e assassinar pessoas e mascar pastilha elástica é porque tem um problema muito mais grave do que o meu. Quarenta anos também não é assim tanto tempo. Talvez os próximos quarenta anos façam acordar algumas pessoas da anestesia em que caíram. Se não for demasiado tarde.” (in Este País não É para Velhos)
11/03/10
Do PREC ao PEC ou é o capitalismo, estúpido

É verdade que os ricos não pagaram crise coisíssima nenhuma – nem os que cá ficaram nem os que partiram em demanda extemporânea das terras de Vera Cruz – mas eu, reconheço, diverti-me.
A crise no fundo não me dizia nada, e os únicos ricos que conhecia haviam falido há muito, o que à luz da minha experiência lhes acrescenta imensa patine.
Abreviando, eu era jovem, e os jovens de então, quando lhes passava a queda para o suicídio, divertiam-se com qualquer coisa. Seria do l’air du temps.
Estou naturalmente mais velha, e apesar de insistir em contrariar o spleen confesso que acho este PEC muito menos empolgante do que o PREC.
Concluo também, à luz das medidas anunciadas, que isto de ser socialista é bem mais fácil quando há money.
Ou como dizia a jovem americana do One, Two, Three (filme hilariante do meu guru Billy Wilder), dirigindo-se ao marido comunista a propósito do filho de ambos: “When he's 18 he can make his mind up whether he wants to be a capitalist or a rich communist".
10/03/10
Uma Aventura em Beja, por Isabel Alçada

A nossa Enid Blyton, agora promovida a ministra da educação, confrontada com o facto de chover dentro de um pavilhão gimnodesportivo acabadinho de construir pela empresa Parque Escolar (o Tiago Mota Saraiva explica-vos melhor do que eu do que se trata) avançou uma explicação extraordinária.
Disse ela: Foi-me dito que o miniclima de Beja está relativamente diferente, graças ao Alqueva, que refrescou a cidade, e que tornou um pouco mais húmida esta zona.
Não faço ideia de quem lhe terá dito tal coisa. Não faço ideia do que seja um "miniclima". Mas concedo. Talvez esse facto conste das profecias Maias. Talvez seja até uma miniverdade científica. O que é que isso poderá ter que ver com um pavilhão meter água, ora aí está um mistério que nem lendo por masoquismo a série inteira uma aventura se conseguirá esclarecer.
Não faço ideia de quem lhe terá dito tal coisa. Não faço ideia do que seja um "miniclima". Mas concedo. Talvez esse facto conste das profecias Maias. Talvez seja até uma miniverdade científica. O que é que isso poderá ter que ver com um pavilhão meter água, ora aí está um mistério que nem lendo por masoquismo a série inteira uma aventura se conseguirá esclarecer.
09/03/10
Independentemente das alterações climáticas serem ou não resultado da acção humana, a verdade é que já não se aguenta esta chuva

Retiro o excerto do prefácio de Rick Moody: "Vistam roupa escura depois das seis da tarde. Comam peixe fresco ao pequeno-almoço sempre que possível. Evitem ajoelhar em igrejas de pedra sem aquecimento. [...] Mantenham-se sempre aprumados. Apreciem o mundo.»
08/03/10
E como eu gosto deste homem, minhas senhoras!


[E já agora, confesso, assistir à abada do Avatar...]
07/03/10
É nestas alturas que uma mulher pensa que ser cidadã do mundo it's ok but
06/03/10
Jornalismo e corrupção made in Portugal

Há um número significativo de pessoas às quais, no decorrer da minha vida, ofereci não só robalos como também pescada, chicharros e até sardinhas, tal como ofereço bonecas às minhas netas.
05/03/10
Eu cá não seria capaz de guilhotinar nem O Segredo mas reconheço que pertencerei a uma espécie em vias de extinção

Enquanto isso, o grupo comandado por Miguel Paes do Amaral, empresário cultural e, ao que me dizem, conde nas horas vagas que não faço ideia quantas obras leu na vida, vai-se desfazendo de uns livritos que lhe enchem o armazém (de Alegre, que está triste, segundo o próprio nada foi guilhotinado).
A este propósito, reproduzo na íntegra uma crónica assinada por Manuel António Pina, um homem de quem eu gosto.
«Em 1933, a Alemanha hitleriana promoveu, em dezenas de cidades, a queima pública de livros "não alemães" e de "intelectuais judaicos". A "Bücherverbrennung" (queima de livros) obedeceu ao projecto de "sincronização cultural" de Goebbels visando a "limpeza" da cultura alemã.
Foram assim atirados ao fogo, no meio de multidões ululantes e de braço estendido, obras de, entre outros, Thomas Mann, Walter Benjamin, Brecht, Musil, Heine, Freud, Einstein... Hoje já não se acendem fogueiras, usam-se guilhotinas. Mas o objectivo continua a ser a "limpeza", desta vez comercial, e a "sincronização cultural", agora com os padrões do lucro a qualquer preço, mesmo que seja ao preço da própria cultura. Se não vejam-se os "intelectuais" sacrificados na "Bücherguillotinierung" (guilhotinagem de livros) recentemente organizada pelo Grupo Leya de Miguel Pais do Amaral: Garrett, Fernão Lopes, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Ramos Rosa, Goethe, Holderlin... Ao menos os nazis queimavam livros em nome de uma ideia de cultura, o que sempre é um pouco mais respeitável que fazê-lo por mera ganância.»
04/03/10
03/03/10
01/03/10
Para quem já leu Don DeLillo esta rapaziada não espanta de onde não se deve inferir que a vontade de a encher de estalos seja menor

Lavar pratos é força de expressão. Quem os lavava era uma máquina diabólica que encravava sempre comigo. Na cantina não gostavam muito de mim. Fora contratada através da Associação de Estudantes, o que me conferia o estatuto de penetra, vista pelas residentes como uma petulante que andava por ali a brincar aos jantarinhos. No Verão punham-me ao fogão, no Inverno mandavam-se descascar cebolas. Mas a grande vingança – transversal a qualquer estação do ano – era a máquina da loiça.
Passo a explicar como a coisa funcionava. Não difere muito da demonstração feito por Chaplin no início de “Tempos Modernos”.
Uma pessoa encarregue dos tabuleiros devolvidos pelos comensais retirava os restos de comida e ia amontoando pratos e tigelas junto do lava-louças. Varreram-se-me da memória copos e talheres, mas das tigelas da sopa em alumínio lembro-me bem porque a operação de as descolar uma a uma era per si um castigo.
Descoladas, havia que as passar por água, e o mesmo para os pratos, após o que se encaixava o vasilhame nos tabuleiros da máquina. O ritmo era infernal sobretudo por causa das tigelas.
Por tradição, havia duas pessoas nomeadas para a tarefa. Uma que passava a louça por água e a dispunha nos tabuleiros; outra que a retirava dos tabuleiros, os quais, entretanto, após entrarem no aparelho de lavagem, deslizavam por um balcão que desaguava numa parede.
Por tradição, havia duas pessoas nomeadas para a tarefa. Uma que passava a louça por água e a dispunha nos tabuleiros; outra que a retirava dos tabuleiros, os quais, entretanto, após entrarem no aparelho de lavagem, deslizavam por um balcão que desaguava numa parede.
Como eu não era bem-vinda, a mim nunca ninguém me ajudava. O desfecho era um engarrafamento de bandejas, fatalmente assinalado pelo apito estridente da máquina quando a procissão entupia.
Fui-me habituando. Passados largos meses de iniciação ao culto, acabei eleita delegada sindical mas, desiludida com a implacabilidade demonstrada pelas minhas camaradas de ofício, arruinada, pois, a minha visão romântica do proletariado e similares, para o que muito havia contribuído a leitura de “Os Subterrâneos da Liberdade” de Jorge Amado, demiti-me de 3ª ajudante e pedi no Comité Central que me enviassem para o campo.
Resultado, talvez, da minha condição de algarvia, o campo para mim é verde. Sonhava com o Minho, condescendia com Trás-os-Montes, no fundo ambicionava o Gerês. Mandaram-me para o Alentejo.
Era Agosto e não havia água. Fiquei a morar em casa de um casal de médicos, na cidade, e a única camponesa que conheci foi uma ceifeira de olhos claros que se tomara de amores por um camarada regente agrícola e cujo marido, a dada altura, comprou uma caçadeira para matar os dois.
Algo desiludida com a experiência agrária, vim um fim-de-semana a Lisboa: havia uma reunião importante. Desejosa de rever gente, tomar banho de imersão e dar um salto ao cinema, fui confrontada com uma recepção singular. Na reunião, uma assembleia-geral de qualquer coisa, os meus camaradas de sempre dirigiam-me a palavra a medo. Só no final percebi porquê. Amigo de longa data cujo nome não vou revelar veio falar-me visivelmente incomodado e com um papel na mão. O papel continha uma lista – francamente exagerada – de nomes masculinos com os quais eu teria tido “relações ilícitas”. Eram os tempos da moral proletária e havia uma revolucionarização em curso. Pediam-me confirmações.
Com alguma presença de espírito, respondi que aquele era um assunto privado, que ninguém tinha nada com isso, e apanhei o comboio para casa. A presença de espírito foi de curta duração e reconheço que me fartei de chorar, acabando por acalmar as lágrimas no ombro de um compagnon de route que vivia para os meus lados, o que me levou a concluir que – definitivamente – a moral proletária não era feita para mim. Voltei ao Alentejo, fiz as malas, despedi-me da ceifeira desejando-lhe boa sorte e fui à minha vida.
Tudo isto – porque as memórias são como as cerejas – para dizer que os engenheiros – dantes – eram do Técnico. Agora não.
A engenharia tornou-se financeira, povoada de rapazolas do marketing que vestem Hugo Boss, Armani e fatos à medida (não tenho a certeza, mas julgo que a Hermès ainda assim os intimida) e viagens só de jacto. Sem dinheiro (substancial) de família, quase sempre com origem na província, encostam-se à bananeira do Estado, vivem em casas minimalistas e imaculadas nas quais um ou outro móvel antigo comprado em antiquários tenta compor um passado inexistente, deslocam-se em jaguares ou parecido, não prescindem de personal trainer embora nada percebem de golfe e sejam nulos no ténis, habitualmente anafados o futebol puxa-lhes sempre para o chinelo e aos fins-de-semana, pelo menos até há pouco, eram vistos na Kapital no engate de menores.
Afinal, nada que – com as devidas diferenças – Don DeLillo já não nos tivesse descrito. A Portugal só chegaram no século XXI o que, pelo menos a mim confesso, me apanhou de surpresa.
Fui-me habituando. Passados largos meses de iniciação ao culto, acabei eleita delegada sindical mas, desiludida com a implacabilidade demonstrada pelas minhas camaradas de ofício, arruinada, pois, a minha visão romântica do proletariado e similares, para o que muito havia contribuído a leitura de “Os Subterrâneos da Liberdade” de Jorge Amado, demiti-me de 3ª ajudante e pedi no Comité Central que me enviassem para o campo.
Resultado, talvez, da minha condição de algarvia, o campo para mim é verde. Sonhava com o Minho, condescendia com Trás-os-Montes, no fundo ambicionava o Gerês. Mandaram-me para o Alentejo.
Era Agosto e não havia água. Fiquei a morar em casa de um casal de médicos, na cidade, e a única camponesa que conheci foi uma ceifeira de olhos claros que se tomara de amores por um camarada regente agrícola e cujo marido, a dada altura, comprou uma caçadeira para matar os dois.
Algo desiludida com a experiência agrária, vim um fim-de-semana a Lisboa: havia uma reunião importante. Desejosa de rever gente, tomar banho de imersão e dar um salto ao cinema, fui confrontada com uma recepção singular. Na reunião, uma assembleia-geral de qualquer coisa, os meus camaradas de sempre dirigiam-me a palavra a medo. Só no final percebi porquê. Amigo de longa data cujo nome não vou revelar veio falar-me visivelmente incomodado e com um papel na mão. O papel continha uma lista – francamente exagerada – de nomes masculinos com os quais eu teria tido “relações ilícitas”. Eram os tempos da moral proletária e havia uma revolucionarização em curso. Pediam-me confirmações.
Com alguma presença de espírito, respondi que aquele era um assunto privado, que ninguém tinha nada com isso, e apanhei o comboio para casa. A presença de espírito foi de curta duração e reconheço que me fartei de chorar, acabando por acalmar as lágrimas no ombro de um compagnon de route que vivia para os meus lados, o que me levou a concluir que – definitivamente – a moral proletária não era feita para mim. Voltei ao Alentejo, fiz as malas, despedi-me da ceifeira desejando-lhe boa sorte e fui à minha vida.
Tudo isto – porque as memórias são como as cerejas – para dizer que os engenheiros – dantes – eram do Técnico. Agora não.
A engenharia tornou-se financeira, povoada de rapazolas do marketing que vestem Hugo Boss, Armani e fatos à medida (não tenho a certeza, mas julgo que a Hermès ainda assim os intimida) e viagens só de jacto. Sem dinheiro (substancial) de família, quase sempre com origem na província, encostam-se à bananeira do Estado, vivem em casas minimalistas e imaculadas nas quais um ou outro móvel antigo comprado em antiquários tenta compor um passado inexistente, deslocam-se em jaguares ou parecido, não prescindem de personal trainer embora nada percebem de golfe e sejam nulos no ténis, habitualmente anafados o futebol puxa-lhes sempre para o chinelo e aos fins-de-semana, pelo menos até há pouco, eram vistos na Kapital no engate de menores.
Afinal, nada que – com as devidas diferenças – Don DeLillo já não nos tivesse descrito. A Portugal só chegaram no século XXI o que, pelo menos a mim confesso, me apanhou de surpresa.
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